CAPÍTULO 2- OS IRMÃOS WINCHESTER
Olhei concentrada para os dois homens que tinham entrado no quarto. E um deles era igual ao Peter.
Não consegui me mexer – e eu não conseguiria mesmo, pois estava amarrada. Mas, mesmo assim, só fiquei imóvel pelo choque. O que eu sentia era a pior coisa que eu já imaginaria. Era uma raiva misturada com um ódio, com nojo e com alívio. Alívio de aqueles homens ter chegado bem na hora que eu mais precisava.
Os dois homens estavam armados e eu sabia que o mais alto era o que tinha atirado em Peter – o meu ex-namorado pegajoso.
Mas, como eles sabiam que Peter iria me matar? Eles eram policiais? Eles sabiam que Peter havia matado todas aquelas garotas e era o estuprador? Como eles entraram na minha casa?
O que era igual ao Peter levantou a sobrancelha e deu um sorrisinho. O outro olhou para ele com censura, e correu para o meu lado, tirando uma faca de um dos bolsos de sua calça.
Arregalei meus olhos e até cheguei a pensar em chegar para trás – lógico que eu não fiz isso, porque Peter se encontrava ali.
- Calma – sussurrou o alto, adivinhando meus pensamentos. –, eu vou tirá-la disso.
Ele apontou para a corda que me prendia e eu assenti, dando-lhe passagem para se aproximar. Ele sorriu, vindo para o meu lado calmamente, e me livrando das amarras, enquanto o outro revirava os olhos e passava a mão no cabelo. Quando o alto me soltou, eu dei um pulo em cima dele, enroscando os meus braços em seu pescoço.
Ele encolheu-se um pouco, mas quando viu que minha intenção não era atacá-lo ou algo do tipo, ele passou a mão levemente em minhas costas.
- Está tudo bem – repetia.
Eu sabia mesmo que estava tudo bem, mas era difícil acreditar em quantas coisas ruins que poderiam acontecer em um mesmo ano. Morte dos pais, pressão do melhor-amigo-maníaco e ser quase morta por ele.
Respirei fundo e soltei aos poucos meu braço do alto. Examinei-o, e vi o tanto que era bonito. Olhei para o outro também, e tive a mesma reação de surpresa. Os dois eram incrivelmente bonitos e por um momento eu tive que tentar me concentrar novamente; era muita beleza para um cômodo só.
- Me desculpe – pedi para o mais alto. Afinal, eu havia praticamente me enroscado nele. Não que isso fosse ruim para mim.
- Hey, Sam – falou o que estava na porta. –, da próxima vez eu desamarro a garota.
Ele deu uma risada e eu consegui identificar a malícia em seu comentário. Fechei a cara para ele. O moreno/alto me olhou envergonhado.
Só depois disso que eu pude pensar em suas exatas palavras: "da próxima vez." Do jeito que eu tinha sorte com essas coisas péssimas, haveria uma próxima vez.
- Oi – começou, antes que eu pudesse me recuperar. –, meu nome é Sam. Sam Winchester. E esse é o meu irmão, Dean.
O tal Dean acenou.
Sam: http: // images. fanpop. com/ images/ image_uploads/ Dean- Winchester- supernatural- 35711_784_1024. jpg (junte os espaços)
Dean: http: // images. fanpop. com/ images/ image_uploads/ Dean- Winchester- -dean- winchester- 69977_600_900. jpg (junte os espaços)
Eu finalmente consegui falar alguma coisa.
- Vocês vão me explicar tudo? O porquê de estarem aqui, de terem matado... Peter, de ele ser idêntico ao Dean?
Sam assentiu com a cabeça, pesadamente.
- Nós caçamos coisas sobrenaturais. É tipo, uma coisa de família. Viemos aqui para... a cidade e soubemos dos casos das garotas estupradas. Com algumas evidências, soubemos logo que era um transformador.
- Transformador? É isso o que Peter é... melhor, era?
- Sim – respondeu Dean.
- Mas, como souberam que ele estaria aqui hoje?
- Olha, pesquisamos com algumas pessoas da cidade e elas falaram que vocês namoravam até duas semanas atrás. Falaram que você terminou com ele e que ele não gostou disso. Alguns amigos dele disseram-nos até que ele pretendia fazer algo – disse Sam.
- Quando vocês chegaram a conclusão de que o transformador era o Peter?
Dean sussurrou algo como "Ela sabe analisar os fatos" e depois sorriu.
- As testemunhas dos estupros disseram que eram jovens diferentes que cometiam cada crime, e como não havia nenhuma organização de garotos aqui chegamos a conclusão de que era um transformador. O transformador se transformava em um jovem bonito para atrair as presas e pegamos seu [i]timing[/i] para chegar a alguns resultados. E eles foram: o filho do dono do banco, um carinha da rua debaixo e Peter. Mas o único que não estava com ninguém nas horas dos delitos era Peter.
- Mas ele poderia estar comigo – falei. – Vocês não me entrevistaram para saber se isso era verdadeiro ou falso.
Dean levantou uma sobrancelha, incrédulo.
- O dono do hotel onde você estava até pouco tempo atrás falou que Peter não esteve lá nesses dias – Sam despejou.
- Aí sim – concordei. – Para saberem examinar tudo, vocês devem ser realmente bons.
Dean riu e veio para o meu lado. Eu recuei um pequeno passo inconscientemente.
- Ei. Não precisa ficar assim – disse. – Eu não sou igual a esse Peter.
Eu dei uma olhadinha para o cadáver do meu ex.
- Parecem iguais. Até idênticos, posso afirmar – ironizei.
Sam riu.
- Ela sim sabe ser divertida, Dean.
Eu sorri também; esse Sam parecia ser demais.
- Olha – começou Sam – Nós não viemos aqui por coincidência, ou outra coisa. Viemos ver você.
- Eu?
Fiquei pasma. Eu nunca fui importante em nada.
E foi somente aí que eu comecei a pensar: e se eles fossem psicopatas?
- É. Você tem um poder, não tem?
Enruguei o cenho.
- Não.
Sam olhou para Dean, que fez uma cara de frustração.
- Você não tem sonhos estranhos, mexe coisas com a mente, ou algo do tipo?
- Não – respondi, pela segunda vez.
Ele entortou a boca.
- Nada, tipo... não tem nada estranho com você?
A minha boca formou uma linha rígida e pensei sobre isso. Desde aquele dia no carro de Peter a voz daquele homem me perturbava.
- Tem alguma coisa, não é? – falou Dean, pela primeira vez em cinco minutos.
- Quando meus pais morreram, há seis meses, uma voz começou a ecoar em minha cabeça; uma voz masculina. Eu sempre achei que fosse um estresse pós-traumático.
Sam sorriu.
- Então você é como eu. Eu também tenho uma "habilidade", se é que pode se chamar disso. Eu tenho sonhos que mostram algumas coisas que vão acontecer.
- Você viu Peter me matar? – perguntei.
Dean riu.
- Ela é rápida – falou Sam.
- E boa – completou Dean.
Abaixei minha cabeça envergonhada e Sam deu um tapa na cabeça do irmão, que fechou a cara.
Sam avaliou o lençol e o travesseiro ensangüentados e depois avaliou meu quarto.
- Por que você mora aqui, sozinha? – disse.
- Meus pais morreram – falei como se fosse óbvio. Eu já havia mencionado isso.
- E você não tem família? Irmãos, tios, avôs... nada? – pressionou pegando o corpo, colocando em um saco que Dean pegou e jogando a roupa de cama suja de sangue lá dentro também.
- Não. Eu só tinha aos meus pais. Vendi a casa em que morreram, o carro deles, as jóias de minha mãe e juntei um dinheiro.
Dean, que havia saído do quarto para fazer algo que eu desconhecia, voltou.
- Só tem isso no seu armário e geladeira? – perguntou, mostrando um pacotinho de salgadinho e uma coca.
- É.
- Dean, fique aqui com ela que eu vou queimar o corpo. Temos sorte que está de madrugada.
Sam saiu.
- Por que ele vai queimar o corpo?
- A polícia procuraria o assassino do Dean Winchester, que na verdade é Peter com o meu corpo. E isso não pode. 1- Um transformador já morreu com o meu corpo, então sou considerado morto. 2- Se não queimar, só enterrar, o espírito pode ficar furioso e matar outras pessoas. 3- Não podemos ser perseguidos agora, que estamos atrás de um demônio.
- É – murmurei. – Nem todo mundo conhece o mundo sobrenatural.
Dean assentiu de boca cheia – havia aberto o salgadinho.
Eu ri.
- Agora meu salgadinho é útil, né? – ironizei.
- Nunca falei que não era.
Ele tomou um gole de coca.
- Quantos anos você tem, Rebecca?
- Como sabe meu nome? – gritei.
- Oras, se eu pesquisei tudo sobre Peter, sei também o nome da ex dele.
Sorri.
- Esqueci mesmo que vocês tem 'cartas nas mangas'.
Ele continuou a me olhar, sugestivamente.
- Ah, é mesmo, minha idade... Tenho 22. E você?
- 26.
Ele se aproximou e apertou minha mão.
- Isso sim é uma apresentação decente.
Sam chegou no quarto, meio suado.
- Pronto – disse. – Abri um buraco, taquei o saco lá dentro, queimei tudo e depois cobri com terra.
- Parabéns, senhor Faz-tudo – brincou Dean.
Eu ri. Sam fez uma careta.
- Fiquei pensando... – começou Sam, mas ele não lembrava o meu nome e isso foi engraçado.
- Rebecca – completou Dean. – E ela tem 22 anos, Sammy.
Dean fez uma cara tarada e eu ignorei isso, voltando a olhar para o Sam.
- Então, Rebecca. Estive pensando, enquanto dava um jeito no seu querido transformador – Eu corei. –, como seus pais morreram?
- Vocês não conseguiram descobrir isso? – ironizei. – Que feio. Conseguiram até meu endereço e não souberam como eles morreram. Acho que vocês têm segundas intenções, hein?
Dean deu um sorriso de lado e piscou. Sam abaixou a cabeça.
- Eu estou brincando... – Foi a minha vez de abaixar a cabeça. – Sabe Peter, o transformador? Ele era meu melhor amigo na época. Ele foi à minha casa para irmos ao bosque...
- "Vamos passear no bosque enquanto o Seu Lobo não vem..." – cantarolou Dean. Ele deu um lindo sorriso e depois voltou ao normal. – Desculpe.
- Tudo bem. Quando voltamos, minha casa estava em chamas. Os bombeiros tiveram certeza que foi causado por um curto-circuito, mas eu nunca acreditei nisso.
- Espera! – gritou Sam. – Um incêndio? Há 6 meses, certo?
- Aham – concordei.
- Como, Dean? Ela está totalmente fora dos padrões.
- Ãhn... Padrões? – indaguei.
- É. Existem outros como você e o Sam. Outros que tem poderes. Normalmente, a mãe morre quando o filho é bebê, mas têm casos em que a mãe não morre. Mas o seu caso... É a primeira vez – explicou Dean.
- As mães morrem em incêndios? A mãe de vocês morreu em um incêndio?
Dean assentiu e eu soube que era um 'sim' para ambas as perguntas.
- Sinto muito – falei.
- Sentimos muito por você também – Sam murmurou.
- Como acontece isso? Mas meus pais morreram juntos, não somente minha mãe.
- É um demônio. Ele tem planos para gente como nós e ele pensa que as nossas mães irão estragar o nosso futuro. Talvez o seu pai tenha visto sua mãe grudada no teto com chamas em volta e tentou ajudá-la, mas acabou morrendo também.
Senti uma dor no peito e também uma raiva inacabável. Aquele demônio desgraçado.
- Então é assim que morrem as mães? Grudada no teto... Por um demônio. Eu quero matá-lo. Tem jeito?
- Somente um jeito. – Dean mostrou uma arma que estava com ele.
- Ah.
- Essa voz na sua cabeça; o que ela diz? – perguntou Dean.
- Ela me manda matar pessoas.
Os irmãos se entreolharam.
- E você já fez o que ela pede? – Dean disse.
- Não! – respondi, rindo. – Eu tenho cara de assassina?
- Hmm, um pouco. – Dean sorriu e eu lhe dei dois tapas.
- Greve de salgadinhos com refrigerante.
- Ah, não! – Dean fingiu pavor.
E nós dois rimos.
- O que a voz disse pela última vez? – Sam indagou, mantendo o foco na conversa original.
- Matar DW, Hotel Sparcus. É aqui na cidade, eu consultei.
- É, eu sei – concordou Dean. – Era o hotel onde estávamos, Sam.
- DW, DW, DW... D, W, D, W, D, W... – Sam pensou alto.
- Dean – comecei. – Winchester.
Arregalei os olhos.
- Oh. Ela tem mesmo jeito para coisa. A voz queria que ela me matasse.
- Que arrependimento – ironizei. – Eu deveria ter feito o que ela mandou.
- Há, há – respondeu Dean.
- Vocês acham que essa voz é do demônio? – perguntei.
- Bem provável – disse Dean.
- O chamamos de 'demônio de olho amarelo' porque...
- Ele tem olhos amarelos...? – completei a fala de Sam.
Os irmãos riram.
- Exatamente.
- Vocês... irão, hmm, embora agora? – falei. Gostei demais deles para ficar incomodada com esse fato.
- Temos que continuar a jornada – explicou Dean.
Eu abaixei a cabeça.
- E você deve vir com a gente! – Sam gritou. Dean olhou com uma cara: (?) para ele. – O demônio a marcou, Dean. Ela atrai coisas sobrenaturais como um ímã.
Dean pensou um pouco.
- Não sei; seria muito arriscado para ela.
- Olha – intrometi. – Eu sou adulta; tenho dinheiro, roupas e malas sobrando; sei manusear armas; ouço a voz de um demônio que matou os meus pais; não tenho família; namorei um transformador psicopata; esse demônio tem planos para mim e eu sei cozinhar. Tem justificativas melhores? Seria arriscado ficar aqui, sozinha, sem saber o que fazer já que sei que coisas sobrenaturais existem; sem proteção e esperando que a próxima coisa venha me matar.
- Ela tem toda a razão – concordou Sam.
- O único risco que teria, é que convivendo comigo, Dean, você aprenderia a ser mais engraçadinho. E isso é um perigo mundial! – ironizei.
- Há, há – murmurou Dean, de cara fechada.
E eu sabia que isso foi um: Junte-se a nós!
Eu já havia feito as minhas três malas, pego comida - salgadinhos e coca - para nós três, dinheiro e utensílios necessários para viver – como celular, Ipod. Só faltava colocar as malas no carro.
- É – começou Dean assim que sentamos no banco do carro. – Vou ter que aturar duas criaturas com ligação com o demônio agora.
- Fica relaxado, Dean. Aturar você é bem pior – falei.
Sam riu e fez um toquinho comigo.
- Afiada, né? – disse Dean.
- Assim como uma lâmina de prata.
E então ele começou a dirigir. Eu não quis olhar para trás quando deixamos a cidade, porque era tudo passado: O que passou; passou. E, além disso, eu não queria me lembrar dessa fase horrível da minha vida.
A lua cintilava no céu; ela já não estava mais no seu topo. Isso quer dizer que era muito mais madrugada do que eu imaginava. Umas 4:30? Provável.
Eu não queria admitir para mim mesmo, mas eu queria ser uma caçadora.
