CAPÍTULO 7- ESCLARECIMENTOS

Sam's POV

Rebecca se levantou e andou até a outra garota, rebolando. O balanço do vestido mostrou um tecido preto e eu tombei a cabeça no sofá para ver melhor. Dean riu perto de mim.

– Seu pilantra - murmurou. – Todos pensam que você é um santo, mas olha como você prova que não é!

Eu ouvi um murmúrio e pedi silêncio a Dean.

Você e seu namorado são estranhos – murmurou a voz baixinha de Olívia.

Dean deu uma risadinha.

– Viu? Eu sempre falei isso...

– Shhh.

Por quê? – respondeu a voz da Rebecca, como se tivesse sido ofendida.

Se eu tivesse um namorado daquele, eu iria dar um beijo nele de tchau, de oi, de volto logo...

Ele é tímido – falou Rebecca. Os murmúrios acabaram.

– Você é tímido, Sammy? – zombou Dean.

Revirei meus olhos.

– Cala a boca, Dean.

– Dá uns pegas nela e depois fala que foi somente um álibi – sugeriu.

– Não, obrigado.

– Idiota.

– Otário.

Nós rimos.

– Por que será que Olívia chamou Rebecca para o quarto? – perguntou ele. – Será que Olívia é lésbica?

Franzi meu cenho.

– Er.

– Ah, acho que não, porque Olívia falou que você é um tesão – continuou brincando.

– Não falou não – contrariei.

– Falou sim: "Se eu tivesse um namorado daquele..." Se você não dar uns catos na Rebecca na frente de Olívia, ela não vai acreditar que vocês são namorados...

Suspirei. Rebecca era tentadora, a ideia de beijá-la só por um álibi também era tentadora. Balancei a cabeça tirando isso de minha mente.


Rebecca's POV

Ao passar dos cômodos, eu percebi que a casa era mesmo enorme, principalmente por dentro. A gente andava, andava e nada de quarto. Passamos por uma segunda sala de estar, um corredor, uma sala vazia – a não ser com um altar coberto por velas e outras coisas estranhas.

– Um altar – falei, maravilhada. Minha vida foi sempre desprovida de crenças.

– Sim, eu comecei a rezar no mês passado.

Ela deu um sorrisinho de lado e eu pensei ter perdido alguma piadinha particular dela.

E, ao lado da sala vazia, tinha o seu quarto – Finalmente!

O quarto de Olívia era todo tabaco com branco. As cortinas caíam delicadamente e a TV de mais ou menos 50 polegadas ocupava quase que uma parede inteira. A cama King Size ocupada metade do quarto e a outra metade tinha uma jacuzzi.

– Uau – murmurei. – É lindo e gigante e sofisticado.

Do outro lado do quarto, um aparelho de som enorme estava iluminado por uma luminária imensa. Tinha até um frigobar lá e uma mesa com taças e velas.

Eu não tinha percebido por um momento antes, mas...

A cama estava repleta de pétalas de rosas vermelhas e cada canto do quarto estava coberto com velas. Eu até passei a reparar melhor na Olívia e percebi que a roupa dela estava sofisticada demais, quase como a minha.

– Uau – repeti. – Para quem é isso tudo?

– Meu namorado... – sussurrou, rindo. Eu conhecia o jeito de uma garota e sabia muito bem que ela estava louca para contar a alguém sobre isso. Então foi bem fácil, era só me oferecer para ouvi-la.

– Como ele é? – perguntei, com um sorriso no rosto.

Ela soltou uma risadinha nervosa.

– É o Felipe... – confessou.

Tentei disfarçar o meu espanto. Ela começou a namorar o namorado da falecida amiga dela e não tinha se passado nem duas semanas.

– Ah!

– Ele sempre gostou de mim, mesmo quando estava com ela... E eu sempre esperei até ele perceber isso.

Então era por esse motivo que ela não gostava da Karine! Por causa do garoto. Arregalei meus olhos.

– Vocês estão namorando desde quando?

O seu sorriso sumiu. Evidentemente, não era uma pergunta que ela pensou que eu faria.

Ainda não estamos, ainda. Mas ele ligou, falando que vai passar aqui em casa hoje. Eu estarei esperando.

– Boa sorte – murmurei. – Então eu acho melhor nós irmos embora antes que Felipe chegue, para que você e ele tenham privacidade. Mas, antes, é verdade que você foi assaltada e levou uma mordida?

Eu inventei na hora. Lobisomens precisavam ser mordidos para se transformarem.

– Não! Eu nunca fui assaltada, nem mordida.

Eu suspirei. Não era ela.

– Me fala uma coisinha rapidinha... Quais as desculpas que Felipe dava à Karine quando saía à noite?

Ela sorriu.

– Ele dizia que não tinha saído de casa, mas Karine ligava para Angelina e ela confirmava que ele de fato não estava.

– Ah, tá...

Voltamos até o cômodo em que Sam e Dean estavam. Eles examinaram meu rosto e fizeram cara de: (?)

– Gente, vamos? – perguntei.

– Já? – falou Dean.

– Já.

Eu dei um abraço em Olívia.

– Foi muito bom eu vir aqui – murmurei. – Adorei a casa, adorei tudo!

Ela sorriu, pegando nas minhas duas mãos.

– Que a sorte esteja comigo essa noite.

– Eu cruzarei os dedos para que dê certo – confessei. Eu a abracei de novo e depois peguei na mão de Sam. – Desculpe se a gente atrapalhou.

– Não! – quase gritou. – Foi muito bom tê-los aqui. Eu precisava conversar com alguém mesmo.

Ela nos levou até o portão. Sam foi no lugar do motorista, logicamente, por causa do disfarce.

– O que ela conversou com você lá em cima? – perguntou Dean, curioso, como sempre.

– Aquela garota está mesmo precisando de uma amiga de verdade... – murmurei. – Sabem por que ela estava vestida daquele jeito?

Eles fizeram a mesma careta a balançaram a cabeça.

– Por que ela ia sair com o namorado dela.

– O que isso tem a ver? – questionou Dean.

– Sabem quem é o namorado dela?

Sam olhou profundamente nos meus olhos, procurando a resposta. Pelo menos esse irmão Winchester não estava questionando minha sanidade. Eu dei um sorrisinho.

– É o Felipe – disse. – Não é?

Eu assenti e Dean xingou.

– Eu percebi, desde o inicio da conversa, que ela estava falando mal demais da amiga. Isso só se dá por um motivo: Interesse. Aposto que Olívia aturava Karine só por causa do namorado – expliquei. – No quarto, ela disse que Felipe nunca amou Karine de verdade, mas eu discordo disso. Se ele não a amasse, por que aturaria ser chifrado? Vocês são a prova... Homens aceitam serem cornos?

Dean fez outra careta.

– Eu, pelo menos, não.

– Nem eu. Eu nem sei o que eu faria se descobrisse... – Sam levantou as sobrancelhas.

– Bem, voltando ao assunto, o que eu acho é que, como Felipe amava Karine, ele não iria querer irritá-la, mesmo ela fazendo dele um corno. Eu sinceramente acho que ele não tinha opções quando saía à noite. E vocês não sabem o melhor! – Eu sorri, empolgada, enquanto Dean estacionava o carro. – Sabe o que Felipe dizia a Karine como desculpa quando saía à noite?

Pela cara deles, eu sabia que não.

– Ele dizia que não saía, mas Karine ligava para Angelina e a nossa amiga recepcionista não mentia. Ele não estava mesmo em casa. No livro de vocês eu vi um relato sobre lobisomens... E lá está escrito que eles não têm consciência quando assume a forma... Talvez ele se tornou a fera, saiu, matou Karine e voltou pela manhã.


Dean's POV

Puta que pariu, puta que pariu, puta que pariu, puta que pariu, eu pensava enquanto Rebecca explicava coisas que eu não queria nem saber. Pelo que ela falava, estava muito claro que o lobisomem da história era Felipe. Se ele fosse um cara sem irmãs gatas, tudo bem. Mas ele era irmão de Angelina e eu não queria matá-lo. Não matar a ele, justo a ele!

Meu rosto se transformou em uma carranca quando Rebecca terminou. Ela parecia tão convicta, tão perceptiva, tão esperta – até demais. Afinal, ela era uma novata! Era para ela estar aprendendo, e não nos ensinando – era para Sammy e eu estarmos explicando para ela porque suspeitávamos de alguém e não ela nos justificando o porquê de tanta certeza que ela tinha.

Os papéis estavam errados. A casa caiu.

Agora eu sabia como era ter que matar alguém tão próximo. Imagine, imagine, se eu tivesse encontrado o amor de minha vida? Tá, as chances são bem pequenas – sinônimo de 'Dean Winchester' é 'Pegando todas'. Era provado geneticamente, cientificamente – religiosamente também, se quiser – que eu não era homem de mulher só. Pensar em mim é me imaginar sentado abraçando duas mulheres, uma em cada braço. Mas... Angelina... Essa despertou algo mais. Afinal, um dia eu teria que sossegar com uma só, não teria?

Eu estava errado. O mal nunca acabaria. Essas criaturas nunca evaporariam do nada. E eu estarei aqui, matando uma a uma.

Eu não sei por que me doía pensar em matar Felipe. Se ele era mais uma criatura do mal que matava pessoas por aí. Mentira. A verdade é que eu não queria saber. Eu não queria matá-lo porque eu o via como da família. Meu cunhadinho!

Eu bufei, ganhando dois olhares de curiosidade.

– O que foi? – perguntou Sam.

– Nada. Não posso bufar?

– Normalmente as pessoas bufam do nada quando tem algo em mente. Nos diga o que tem nessa sua cabecinha – brincou Rebecca, batendo na minha têmpora.

Esperei até que a gente estivesse seguro entre as paredes do quarto.

– Mas e se... E se não for Felipe? E se for essa tal Olívia? Ela parecia ter mais motivos para matar Karine – contra-ataquei.

Rebecca sorriu.

– Olívia não foi mordida. Eu perguntei se ela já foi assaltada e agredida ou mordida, só por perguntar, e ela respondeu que não. Não vejo motivos para ela mentir.

– Mas ela pode estar mentindo mesmo assim – retruquei.

Sam revirou os olhos.

– Eu acho mais provável que seja Felipe, porque ele brigava o tempo todo e pode ter ganhado uma bela mordida – completou ela.

Rebecca estava me dando nos nervos. Por que tinha que ser tão completa? Tão... complexa? É só meter bala na Olívia e pronto.

Matar uma inocente para defender um cara que eu nunca vi... Ótimo. Que ponto meus pensamentos chegaram!

– Dean, qual é? Você ficou sentimental agora? Não quer ferir os sentimentos da sua Angelina? – perguntou Sam.

Eu revirei meus olhos para ele e me tranquei no banheiro, jogando água fria na cara.

– Eu só vou meter bala em alguém quando eu tiver certeza – avisei.

Sam fez uma careta.

– Você está mais parecendo eu do que o Dean normal – criticou ele.

– Idiota – xinguei.

– Otário.

– Ok, né. – Rebecca revirou os olhos. – Vocês parecem duas crianças.

Eu não falei nada a ela porque tinha muita consideração pelo pouco tempo em que estávamos convivendo juntos.

– Eu também não quero sair matando todo mundo, então é claro que a gente vai ter que esperar até a semana que vem, que bate com o ciclo lunar do lobisomem. Aí a gente fica de tocaia no Felipe e até na Olívia se isso te acalmar, Dean. A gente vai descobrir quem é e então acabaremos com isso. – Rebecca parecia calma, talvez porque sabia que isso iria acalmar a mim e ao Sam.

Mas, fala sério, era para ela estar gritando "OH MEU DEUS, E AGORA? FICAREI DE FRENTE COM UM LOBISOMEM!" ou pelo menos estar com uma careta de medo. Mas ela estava relaxada, e o brilho em seus olhos denunciava que ela estava... com expectativas.

E estava na cara que o sangue dela a preparou para isso. Um sangue demoníaco, que a deixava com poderes. O sangue que a preparava para a guerra que vinha, o sangue que a tornou uma caçadora. Minha boca formou uma linha rígida. O destino dela sempre esteve traçado, não importa se o demônio tivesse ou não infectado o sangue dela, cedo ou tarde ela descobriria o sobrenatural. E viraria uma caçadora.

Fim.

Rebecca nasceu para isso. Tudo bem, se ela gosta de desafios... Vou tornar tudo mais complicado para ela, então.

– Primeiro, vamos compartilhar informações – falou Sammy.

– Eu tenho uma teoria – avisou Rebecca.

Após ela contar a sua geniosa teoria de vingança do Felipe, que consistia em Karine morta pelo Felipe-lobisomem porque terminou com ele, Rebecca colocou o gravador de Sam para tocar. Fiquei impressionado – de um jeito bom e de um jeito ruim – com a capacidade dela de enganar o policial e de fazer as perguntas tão bem elaboradas de improviso.

Sam contou sobre os detalhes da casa de Karine e ninguém se empolgou com nada. Lógico que Sam estava realmente fascinado com os dons de Rebecca – e com a facilidade dela de lidar com o sobrenatural, e com a desenvoltura dela naquela noite com Olívia, e com a rapidez com que Rebecca pensava nos detalhes e criava teorias – e eu estava me irritando. Eu fui o único a perceber que eu estava excluído da conversa? Os dois estavam de frente para o outro, Sam com um ângulo perfeito para o decote dela, conversando na maior excitação.

– Eu estou só meio bolada com uma coisa – disse ela, olhando para os olhos dele como se só estivessem os dois ali. Eu contei mentalmente; Fazia oito minutos que eles não se dirigiam a mim. – O ciclo lunar corresponde a o quê? Uma semana, né? Então. Normalmente, teria que haver mais de uma morte. Que sentido há em se transformar em lobisomem por uma semana e só matar uma pessoa em sete transformações?

– Talvez não houveram sete transformações. Ele é do estilo rebelde, então pode muito bem tomar drogas para permanecer acordado. Talvez ele tenha dormido um dia só – respondeu Sam.

– Eu ainda não sei. Um lobisomem... de repente? É lógico que é a teoria mais certa, porém me instiga a procurar mais – exclamou.

Eu revirei meus olhos.

– Tudo bem. Oi, gente, eu estou aqui.

Eu levantei meus braços e acenei para eles. Rebecca e Sam viraram somente a cabeça para me olhar – ainda estavam de frente um para o outro. A diferença é que a cara de Sam era: "O que foi?" e a de Rebecca era: "Vai se fuder" misturado com a vergonha que fez a cara dela ficar vermelha.

– Sabe o que eu acho? Que vocês estão fascinados demais com isso. Eu vou falar com Angelina, aposto que ela percebe a minha presença mais do que vocês – reclamei.

Eu saí do quarto, deixando os dois com cara de bobos, e desci as escadas. Mas, quando cheguei na recepção, as portas da frente estavam fechadas. Olhei para todo canto, e não vi Angelina lá.

Certo, ela é a única funcionária. Eu esperava o quê? Que ela trabalhasse 24 horas por dia?, perguntei mentalmente.

Subi as escadas aborrecido. Sim, era exatamente isso que eu esperava.

Para minha surpresa, minha bronca pareceu dar conta do recado. Sam estava deitado na cama de solteiro mexendo em seu notebook e Rebecca estava de pijama enrolada no lençol lendo o diário do papai. Eu suspirei.

– Quem vai dormir em qual cama? – perguntei, carrancudo.

Os dois desviaram os olhares de seus afazeres para me encararem.

– Está meio... cedo para dormirmos, não é? – comentou Rebecca.

– Só vamos deixar tudo pronto. Vou trocar de roupa e tentar me desligar de vocês dois – resmunguei.

Rebecca me olhou meio magoada.

– Dois ou um? – sugeriu ela. – O primeiro que sair fica na cama de solteiro.

Eu ri.

– Você tem sempre um joguinho de mãos para decidir coisas assim, né? – provoquei.

Ela também riu.

– É minha função...

Ela rolou para mais perto da cama em que Sam estava e acenou para que eu me aproximasse. Eu fiz o que ela mandou.

– Dois ou... um! – gritou no momento exato em que nossas mãos se abriram.

Eu coloquei um, porque soava mais macho. Dois é estranho, porque parece com tesoura. E isso me lembra duas opções sexuais, coisa que eu não tenho. Mas, é claro, que Sam colocou essa, considerando que ele é uma bichona mesmo. E a grande expectativa... Se Rebecca colocasse um, eu estaria feito; Dormir ao lado dela. Se Rebecca colocasse dois, Sam estaria feito.

Novamente, como era esperado, o indicador dela era o único dedo que estava à mostra.

Sam riu.

– Ótimo. Hoje a cama de solteiro é minha! – exclamou.

– Isso é injusto – reclamou ela. – Eu não tinha opções? Qualquer dedo que eu colocasse, eu iria dormir na cama de casal!

– Foi você que sugeriu a brincadeira – lembrei.

– Nunca mais sugiro – respondeu, voltando a se enrolar no lençol e se exilando para o canto mais longe de mim da cama de solteiro. – Me dá azar.

Eu ri.

– Você deu uma oportunidade a Sam essa noite passada, agora seja boazinha e dê a minha. Eu não vou desperdiçar como ele fez...

Ela me meteu um murro no braço e me deu as costas.

– Ai – gemi. – Doeu.

Ela bufou, me ignorando, e eu me calei – no propósito de continuar com o meu saco intacto, porque eu sabia que seria o próximo lugar que ela agrediria se eu continuasse a irritá-la. Mulheres eram previsíveis.

Eu me levantei e tirei minha blusa.

– Sammy, me empresta o notebook? Eu pensei que Rebecca era mais quente, mas como ela está brava eu preciso de outra distração.

Pude ouvi outra fungada de Rebecca.

– Nem vem. Nada de pornografia no meu computador – reclamou ele.

– Argh. Só você pode? – perguntei.

– Eu nem uso o computador por esses motivos.

– Mas você entra em sites pornôs que eu sei – insisti.

– D...

– Ok! – gritou Rebecca, virando para me olhar. – Dean, deixa o seu irmão pesquisar em paz. E se não tiver nada para fazer, trate de arrumar. Vai folhear um livro, preparar armas, programar o próximo dia. Eu estou tentando ler e aprender com isso.

Arregalei meus olhos.

– TPM? – perguntei. Seus olhos arderam e eu pensei que ela me tacaria o travesseiro. Ou o diário de meu pai. Mas ela apenas revirou meus olhos.

– Não. Mas espere três semanas, e aí você verá o que é TPM – avisou.

Engoli em seco. Se ela era assim sem TPM, imagina com. Sam deu uma rápida olhadela para mim e eu pude ver o pânico em seus olhos espelhando o meu. Fechei os olhos e pedi para que Deus não fizesse essas três semanas passarem rápidas e que a TPM dela acabasse rápido também.

Não fiquei acordado a tempo de imaginar a provável resposta.


Rebecca's POV

– Não é um lobisomem! – insisti para Dean.

Ele revirou os olhos.

– Quais provas você tem que não é um lobisomem? – perguntou, subestimando-me. – Tudo indica que sim.

– Não tenho provas. Mas não é um...

– Rebecca, você é amadora nisso!

– Mas, Dean, NÃO É UM LOBISOMEM!

No mesmo instante, duas sombras se movimentaram na minha visão periférica e atacaram Dean, deixando-o sem escapatória que não fosse a morte.

Arfei e me sentei na cama. Com o movimento repentino, a minha visão escureceu e eu perdi o senso de espaço. Balancei a cabeça para tentar me livrar da tontura.

– Que horas são? – perguntei para uma silhueta. Eu não tinha conseguido distinguir formas ainda.

– Oito da manhã. Você não dormiu tanto assim. – Ele riu, pensando que eu acordei agitada por medo de ter dormido demais.

Abri meus olhos e percebi que era Sam.

– Você foi dormir tarde, né? – disse, com o cenho franzido.

– Sim. Você e Dean já tinham empacotado. Eu sou a única com dever de casa, né? – Eu ri. – Fiquei lendo o diário do pai de vocês até tarde.

– O diário não é assim tão grande – retrucou.

– Não. Mas tem muitas informações, então eu li três vezes para guardar tudo.

– Sabe, Rebecca, você não precisa fazer tudo isso de uma vez! Eu e Dean demoramos anos e anos para chegarmos ao nosso nível de conhecimento atual. E, basicamente, é com caçadas que a gente aprende mais.

Suspirei.

– Eu imagino, Sam, mas quero ser do mesmo nível de vocês. Eu quero ajudar e não servir de peso!

Eu vi que ele ia continuar com o sermão, então mudei de assunto.

– Por que você está tão bem vestido?

Ele não estava com roupas diferentes das habituais, mas eu sabia que isso seria uma boa distração.

Sam olhou para as roupas que estava usando e riu, descrente.

– Estou normal! – Ele fez uma pausa para parar de rir. – Dean e eu vamos até o mercado para reabastecer nosso... estoque.

Estoque?, pensei.

– Hmm, quer que eu vá? – falei.

– Não, não, não. Não precisa. Pode ficar!

Tentei pensar se a relutância na voz de Sam indicava outra coisa. Talvez eles não fossem ao mercado, por isso não queria que eu fosse. Será que eles iam investigar algo relacionado ao caso? Era por isso que ele não queria que eu fosse... Por que era perigoso? Ou será que os Winchesters perceberam que eu era inútil e resolveram me deixar? Ou eles iriam a uma boate de strip-tease? Era por isso? Segurei o riso.

– Bem, quer alguma coisa de lá, aproveitando a "viagem"? – interrompeu meus pensamentos.

– Hmm, uma escova de dente. É sempre bom ter uma reserva. Espera, que eu já te dou o dinheiro... – falei, me levantando.

– Não! – negou. – É só uma escova de dente. Eu pago.

Dei de ombros.

– Onde está seu irmão, falando nisso?

Sam riu.

– Onde você imagina que ele está? Eu só vim buscar minha carteira.

Lógico que eu tinha noção de onde Dean estava. Com Angelina! A resposta era óbvia. Os dois estavam como chiclete.

– Então eu já vou – disse Sam. – A gente volta logo.

Eu levei minha nécessaire para o banheiro.

– Tudo bem. Vou ficar aqui, pesquisando mais.

– A chave reserva está em cima da cômoda – avisou, fechando a porta.

– Tá – murmurei para o vácuo.

Escovei meus dentes e penteei a juba acima de minha cabeça. Foi aí que eu percebi o calor intenso e resolvi tomar um banho logo.

Quando saí dele, os meninos ainda não tinham chegado. E isso era bom, porque eu pude vagar pelo quarto somente enrolada em uma toalha. Eu liguei meu I-pod no meu I-dog e coloquei minhas melhores músicas para tocar.

Eu me vesti vagarosamente com um short preto e uma bata azul. Coloquei uma sandália prateada para não sujar meu pé.

Estava tocando 'Put that a$$ to work'.

– Sexy girls, of all around the world... – eu cantava até que eu tive que desligar para me concentrar no diário do pai deles. Apesar de ser estranho (era muito estranho) aquilo tudo realmente me interessava. Fiquei fascinada com as coisas que existiam. E isso me ajudou a concentrar em tudo.

Enruguei o cenho para a folha de papel e soltei uma risadinha. Sal simbolizava pureza... Mas eu nunca fui muito a fim desse tipo de condimento. Lembrei-me de quando minha amiga Natale falava que eu era uma demônia, safada... Eu ri novamente, tentando guardar as lembranças para outra hora.


Sam's POV

– Vamos, mano! – falei, arrastando Dean de Angelina. Eu dava dois dias, no máximo, para eles começarem a se pegar.

Dean deu uma piscadela para ela e entrou no carro, girando a chave na ignição e se achando 'o galã'.

– Ela me ama, cara – murmurou ele.

Revirei meus olhos.

– Rebecca acordou quando eu fui buscar a carteira – comentei.

– Ainda bem! Pensei que alguém já tinha tomado aquela raiz africana dos sonhos e a prendido em um pesadelo.

– Ela me contou que dormiu super tarde porque estava tentando memorizar tudo que está no diário do papai. Isso está errado... Ela está se esforçando demais.

– Deixa a garota se divertir! Se ela está gostando de aprender a matar esses monstros então deixe.

– Tem outra coisa – lembrei. – Ela acordou com a respiração acelerada.

Dean me encarou com uma careta.

– E daí? – perguntou. – É um país livre... As pessoas respiram como quiser.

Ignorei a última parte.

– E daí que isso indica pesadelos. Você se esqueceu que Rebecca também tem 22 anos? E se o poder dela evoluiu ou algo do tipo?

Ele revirou os olhos e estacionou.

– Depois você pergunta para ela. Mas se fosse algo muito real, ela teria te contado.

Tentei assentir.

O mercado parecia ser o maior da cidade. Tinha uns homens na entrada, bebendo, e umas mulheres conversando lá dentro.

O ponto de encontro da cidade.

Que ótimo.

Dean ficou mais relaxado assim que entramos e nos deparamos com umas gatinhas.

– Oi – cantarolou uma loira para mim.

– Hmm, oi – falei, depois de um pigarro.

– Se não acharem alguma coisa aqui, me chamem. Eu trabalho nesse mercado e ficaria honrada de ajudar.

– Ah, sim, obrigado – agradeceu Dean, visivelmente mal-humorado por eu fazer o tipo das gostosonas e não ele.

Não precisei acrescentar para a moça que era impossível não achar alguma coisa ali, naquele lugar minúsculo com nome de mercado.

– Elas me amam – provoquei, cochichando para Dean.

Ele revirou os olhos.

– Eu estou precisando de um desodorante e de um shampoo novo – falou, pegando os produtos de sua marca favorita.

– Pega um desodorante a mais para mim que eu vou procurar uma escova de dentes reserva para Rebecca.

Eu fui para outra sessão.

Achei um kit '2 por 1', com uma escova roxa e outra verde. Não sabia muito sobre Rebecca, mas bem... Toda garota curtia roxo...

Dean já tinha escapulido para a sessão de 'comes e bebes', colocando no braço um pacote de balas e uma cerveja.

– Você definitivamente não tem jeito – murmurei, o alcançando.

– Cala a boca e ajuda aí.

Ele me passou o desodorante e outra cerveja.

– Viu como não sou egoísta? Peguei uma cerveja para você. Mas, se não a quiser, pode dar para mim – começou.

– Vamos passar isso no caixa logo.

A loira gostosona que deu em cima de mim explicitamente estava lá.

– São novos na cidade? – questionou, olhando para mim.

– Não. Só turistas que vamos ficar por algum tempo – respondi.

– Hmm, uma morena alta de olhos castanhos veio aqui ontem e era turista também. Ela usava uma blusa cintilante roxa. Ela está com vocês?

– Sim – concordou Dean.

– Ela é sua namorada? – perguntou a loira me encarando. Seu tom de voz fez Dean soltar uma risadinha.

Eu quase não resisti à vontade de falar 'Sim, estamos juntos há três anos e nos amamos perdidamente', só para que a loira não tivesse mais esperanças. Mas era mais certo falar que Rebecca era nossa prima, caso a loira viesse a falar com Angelina.

– Não, é nossa prima. – Eu dei algumas notas para ela e ela me devolveu o troco. Dean já havia empacotado as compras e eu não via a hora de sair de perto daquela louca.

– Meu nome é Liv, voltem sempre. – Seu sorriso era exultante. Se ela não fosse tão ciumenta, eu pegava.

– Fazendo sucesso, hein, irmão? – provocou Dean, dado partida no carro.

– Permaneça calado que sua cara fica intacta – ameacei.

Dean riu.

– Como se você fosse capaz de danificar meu rosto... Como se você fosse corajoso a ponto de começar uma briga comigo... Como se você fosse fortão para sobreviver caso brigue comigo.

– Pelo menos a Liv era gata e me quis – contra-ataquei.

Ele se calou na hora.

– Angelina quis a mim – retrucou.

– Ainda bem, porque ela é baixa demais para mim – falei.

O sorriso presunçoso de Dean voltou.

– Não para mim.

Nós rimos em coro.

De longe, pude ver Angelina quase quicando no mesmo lugar de tão ansiosa para que nós chegássemos longe. Assim que ela avistou o Impala de Dean, abriu um sorriso imenso.

– Quero ver quando você tiver que explicar Angelina que vocês não vão se casar e que você vai embora em breve – comecei.

Dean fez uma careta.

– Deixa isso comigo.

– Lógico que vou deixar! Eu só quero ver a reação dela.

Eu ri. Talvez a recepcionista até desmaiasse... Ou talvez ela grudasse na perna de Dean e não soltasse mais. Ambas as reações seriam engraçadas.

Isso incomodou Dean e ele não me ajudou a carregar as compras. Não era muita coisa, mas...

– Oi – disse Angelina. – Vocês nem demoraram.

– É – murmurou Dean, incapaz de ser rude com uma garota humana e indefesa.

– Bem, vocês vão tomar o café-da-manhã a que horas? – perguntou ela, se dirigindo ao meu irmão.

Rolei meus olhos.

– Café-da-manhã? – contradisse ele. – E quanto é?

Ela riu e eu me senti excluído. Eles podiam se lembrar de mim, né?

– Faz parte da diária. Está tudo incluído... Todas as refeições.

Isso me fez refletir se a fala de Angelina era uma indireta com duplo sentido, se ela queria dizer que ela também estava incluída no pacote.

– Ótimo! Vamos chamar R... Nicole e vamos voltar – falou, batendo palmas.

Às vezes Dean empolgava demais...

– Ok – concordei.

Angelina fez uma careta.

– Ah, é. A prima de vocês.

Franzi o cenho para Dean. Será que ela e Rebecca já se esbofetearam em segredo? E se não fosse isso, o que era?

Por que mulheres se odiavam?

Fiz outra careta enquanto seguia Dean escada acima.

Sexo feminino: Um mistério, uma confusão... Um sexo demoníaco; cheio de relações obscuras e uma bipolaridade complicada. O sentimento que as mulheres têm por elas mesmas me confunde.

Uma hora elas são 'melhores amigas': Se protegem e guardam os segredos mais secretos; Se amam e abrem os corações.

Em outro caso, elas se odeiam: Mal se conhecem e já não se dão bem; Vêem umas as outras como inimigas mortais, fazem de tudo para causarem a queda das outras.

Mulheres simplesmente me dão medo.

– Oi, Rebecca – falei, entrando no quarto depois de Dean.

Ela se levantou subitamente da cama, deixando à vista o diário do papai. Levantei uma sobrancelha; o diário de novo?