CAPÍTULO 9 – RESOLVENDO O CASO

Rebecca's POV

Os dias se passaram. Logo já era final de semana (e, de quebra, lua cheia).

Eu sabia que era o dia decisivo. Hoje, eu descobriria se eu tinha aptidão para caçar ou não. Era para eu estar entusiasmada.

Mas eu não estava.

Os Winchesters iriam de tocaia atrás de Olivia, porque para eles "ela se encaixava mais no quadro". Eu? Eu estava com uma intuição forte, me dizendo que não era um lobisomem. Eu não sabia por que isso – e com certeza não ia reclamar mais com os irmãos. Eles eram mil vezes mais experientes e, eu, uma novata.

Quando eu disse o que eu estava pensando, há uns dois dias atrás, foi essa a reação:

– Tá, então é o quê? – Dean revirou os olhos. – Vamos ser cuidadosos. Vamos esperar a garota se transformar. Se ela não se transformar, vamos atrás de Felipe, mas não acho que vá ser preciso.

– Acho que Rebecca está assustada – Sam disse ao irmão bem na minha frente. Que lindo. – Talvez seria melhor ela ficar aqui no apartamento no primeiro dia da transformação.

– Não! Eu não quero perder a caça! – me defendi.

– Prometemos só ficar de tocaia. Vamos caçar só no segundo dia quando você estiver junto de nós dois. – Sam me olhou bem nos olhos ao dizer isso, então eu confiei. Mas eu sabia que, se fosse necessário, eles teriam que acertar o lobisomem. E eu estaria fora da brincadeira.

Bem, eu e minha boca grande.

Aí vem a grande questão: Por que hoje era o dia decisivo se eu não ia com eles?

Eu não costumava ser tão precavida, mas eu tinha um plano. Eu ia esperar os dois saírem e iria pesquisar no notebook de Sam. Simples, prático, moleza. E decisivo. Eu estava com um pressentimento que eu ia conseguir (mas vai saber...).

– Tudo prontinho – Dean avisou Sam, pegando a mochila.

– Rebecca, você já sabe...

– Sim, Sam, é para eu manter a minha faca de prata perto e também a minha faca de ferro puro só para não abusar da sorte. – Meu mau-humor estava contagiante.

– Isso. Fique bem. – Bem, meu mau-humor estava contagiante, mas não dava para continuar mal-humorada com Sam se preocupando daquele jeito comigo. Era fofo demais.

– Vou ficar. E vocês tomem cuidado. – Eu estava com um aperto no coração. Caraca, eu estava com medo por eles... muito medo.

– Nós vamos. – Ele sorriu para mim uma ultima vez e saiu pela porta.


Sam's POV

– Estou com um pressentimento estranho e você? – perguntei a meu irmão quando entramos no carro.

– Lá vai começar com a boiolice toda. Você e Rebecca com essas intuições, ninguém merece. – Ele deu a partida, saindo do meio fio. – Vamos ficar só de tocaia. Nada pode acontecer.

Então por que eu não me sentia tranqüilo?

Mas decidi deixar para lá a "boiolice toda".

– Será que é Olivia mesmo?

– Deve ser. – Dean deu de ombros. – Vamos confirmar hoje.

– É, você tem razão.

Ficamos alguns minutos na frente da casa, mas estava um tédio.

– Ela pode ter saído pelos fundos. Que tal dar uma verificada? – Dean sugeriu, provavelmente tão entediado quanto eu.

– Opa.

Descemos do carro e entramos sorrateiramente na casa. Estava tudo muito silencioso, o que indicava a ausência da moradora.

– Ora, ora, ora, quem se encontra aqui.

Ou que indicava a vaga presença da moradora.

– Olivia! – Dean e eu gritamos ao mesmo tempo de susto, escondendo nossas armas. Quero ver eu justificar para ela porque estávamos ali. Queria Rebecca para entender a mente feminina novamente.

– Olivia, pensamos que você estava em perigo e viemos imediatamente! – Dean inventou na hora. Bem, essa foi boa.

A garota revirou os olhos.

– Até parece. Eu sei que vocês estão aqui para achar o assassino de Karine. Ou a assassina, eu, no caso. – Ela tampou a boca e fingiu um olhar assustado. – Opa, escapou.

– Você mesma matou sua melhor amiga? – Tenho certeza que pareci assustado. Era nojento. Criaturas sobrenaturais? Tudo bem. Mas uma humana?

– Não, tive umas ajudinhas. As mesmas ajudinhas que vão acabar com vocês. – Dito isso, as sombras se moveram até Dean e eu, nos prendendo na parede.

DAEVAS! Eu me lembrava de quando a louca da Meg invocou uns desses para acabar comigo, com Dean e com o papai.

– Você invocou criaturas do mal só para acabar com sua melhor amiga? – Dean disse, horrorizado.

– Ela nunca foi minha melhor amiga. Bem, eu acabei com a concorrência. E meus amiguinhos vão se divertir para caramba acabando com vocês dois também.

Naquele momento, eu senti que ia morrer. Não tínhamos chances contra as sombras. Estávamos presos. O altar estava intacto e Rebecca nem fazia idéia do que estava acontecendo.

– Ah, por falar n/isso, e a amiguinha de vocês? – Olivia perguntou.

– Não está presente no momento. Quer deixar um recado? – ironizou Dean.

– Há, que engraçadinho. – Ela fez um gesto com as mãos e as sombras fizeram cortes nos braços de Dean e nos meus. Eu já havia sentido aquela dor antes, mas a sensação era mil vezes pior que a lembrança. – Eu e meus seres do mal iremos dar uma passadinha em um determinado quarto de hotel depois que acabarmos com vocês.

Imaginei Rebecca sozinha em seu quarto, esperando Dean e eu chegarmos com boas notícias, e sendo surpreendida pelas sombras, que começariam a cortá-la e cortá-la e ela começaria a gritar e gritar e...

– NÃO! DEIXE-A FORA DISSO! – gritei, implorando para Olivia.

Ela começou a rir.

– Então o rapazinho gosta mesmo da garota? Pensei que era só teatrinho... Bem, isso é realmente novo para mim. Vou dizer a ela que você a defendeu tão veemente e acabou ganhando uns cortezinhos na barriga. – Ela acenou de novo e os Daevas nos cortaram, a mim e a meu irmão.

Gritamos novamente de dor.

– Vai ficar nos torturando? – perguntou Dean, ofegando.

Ela fingiu pensar.

– Sim, é legal.

Minha mente começou a voar e imaginei que, se Rebecca fosse mais experiente, poderia nos salvar. Eu a imaginei derrubando o altar e cuidando dos meus cortes. Percebi que ela era a única pessoa que podia nos salvar.


Rebecca's POV

Como eu disse: Simples, prático, moleza. Já peguei o notebook e comecei a digitar evidências do caso. Nada.

– Ai, vamos. Eu tenho que ser rápida – falei para mim mesmo, apesar de não saber o motivo da minha ansiedade.

E, como se meu corpo estivesse respondendo com uma voz masculina, a palavra ecoou na minha cabeça: Daevas.

O pulo que eu dei foi inimaginável e eu tive que morder o meu braço para não gritar feito uma louca. Era a voz novamente! A voz do homem (ou demônio do olho amarelo) que me mandava matar pessoas! Quem era Daeva? Eu nunca iria matar ninguém! Ele não ia me corromper, prometi a mim mesma.

A minha intuição apitou novamente, uma coisa que eu odiava internamente. Ela nunca errava. E lá estava ela me mandando dar uma pesquisadinha sobre Daevas...

Isso não vai te matar, Rebecca... É só pesquisar no Google... Digite Daevas e pronto, sem sofrimento... Não parecia uma coisa certa a se fazer, seguir as dicas da voz na minha cabeça.

Mas, naturalmente, foi o que eu fiz.

Fiquei surpresa ao achar um resultado sobre isso. Era um site de fantasmas e etc. Cara, que bizarro...

Tchans. Lá estava...

Daevas

Demônios sombras zoroastrianos. São selvagens e animalescos, tipos de pitt bulls demoníacos. Os Daevas precisam ser invocados para atacar através de um ritual antigo e extremamente macabro, e isso é um trabalho muito arriscado, pois tendem a matar seu invocador. Ninguém conhece suas aparências físicas, pois não são vistos há milênios. Eles são invisíveis e só podem ser vistos por suas sombras.

Como exterminá-los?

Não há como exterminá-los. Para o invocador perder o controle sobre eles, basta destruir o altar do ritual e os Daevas se voltarão contra ele. Como são demônios sombras, outra maneira de rebelá-los é acendendo uma luz muito forte no local em que se encontram, mas não se engane, assim que a luz acabar, eles logo voltarão.

Fonte: supernaturalemportugal . blogspot 2007 / 06 / daevas . html

E lá estava a minha intuição novamente, tão forte que eu dei outro pulo, me colocando em pé. Peguei o diário do Pai Winchester rapidamente, folheando as páginas.

Por isso eu tinha certeza que já sabia o que era, por isso! Tinha lá, lindamente um tópico sobre Daevas! E eu tinha visto o altar na casa de Olivia, foi de onde surgiu a relação no meu subconsciente. Ela tinha invocado aquelas coisas do mal e tinha um altarzinho maravilhoso em sua lindíssima casinha. Não era um lobisomem, eram Daevas! Demônios sombras que eram animalescos, podendo se comparar com lobisomens! E, infelizmente, atacaram durante a lua cheia, o que causou confusão em todos nós. Principalmente Sam e Dean, que estavam atrás de Olivia, pensando que ela era um lobisomem. E ela não era e eu sabia disso.

Mas os garotos não.

Eles estavam em perigo, eu podia sentir.

E, mais: Só eu podia salvá-los.

Naturalmente, o que eu fiz? Sim, eu saí correndo daquele hotel feito uma louca, nem trancando quarto, nem pegando facas, nem nada. Tudo o que eu sabia era que eu precisava chegar logo à casa de Olivia e salvar os dois caras que dependiam de mim. Eu precisava salvar os dois caras que eu mais amava no momento, que haviam me salvado quando eu precisei, que haviam me acolhido. Eu precisava correr os dois quilômetros em dois segundos, mas não tinha esse poder... E demoraria muito seduzir um cara para me dar uma carona ou roubar alguma bicicleta... Então, o que eu faria?

Bem, acho que eu deveria correr mais rápido.

Era uma sensação inexplicável, correr tão rápido que dava para ver as casas passando rapidamente por mim, mas sentir as pernas lentas como se fossem gelatinas. Eu me sentia como se não estivesse me movimentando rápido o bastante, mas minhas pernas reclamavam como se eu estivesse me movimentando rápido demais. E eu não parei, apesar da sede, cansaço, dor... Continuei correndo rápido e rápido, até chegar à casa, depois da jornada de alguns minutos.

Estava tudo tão quieto, como se estivesse em paz. Mas eu sabia que era uma impressão errada.

Não avistei os garotos, então eu só pude ter certeza que eles estavam mesmo em perigo. Eu sabia onde estava o altar, tudo o que eu tinha que fazer era derrubá-lo.

Olhei para a mansão, tentando imaginar como eu chegaria lá em cima. Como, Céus?

Foi quando eu reparei na linda árvore perto da janela do primeiro andar. Tá, eu nunca fui a melhor alpinista de árvores, mas eu estava pouco me lixando. Eu só queria subir e salvar os garotos. Não me importei de estar de short curto e estar frio lá fora. Não me importei de ralar minhas mãos, esfolar meus joelhos e fazer uns belos ferimentos no meu corpo (galhos infelizes). Só sei que eu subi, tão silenciosamente quanto eu pude para continuar rápida.

E, graças aos Céus, cheguei perto da janela.

Eu vi Olivia, conversando casualmente e tranquilamente com Sam e Dean, como se tudo estivesse normal. Eu poderia acreditar nisso se eu não visse o tanto que os garotos estavam machucados, tão machucados que meus cortes e esfolões pareciam brincadeiras de criança. E também havia as sombras, disformes e estranhas, fora do lugar, prendendo os dois na parede. Elas estavam machucando ainda mais os Winchesters sob as ordens de Olivia, que andava como se examinasse a mobília.

Sam e Dean tinham cortes na barriga e nos braços, ridiculamente iguais. E fiquei puta da vida. Quem era Olivia para machucar os dois? Quem? Tive vontade de abrir aquela janela e pular pra cima dela, mas eu precisava pensar racionalmente.

Eu precisava pensar como uma caçadora.

Então, abri a janela bem silenciosamente, tão silenciosamente que nem os garotos ouviram (apesar de estarem em frente para mim, o que significava que – ainda bem – Olivia estava de costas para onde eu iria entrar e derrubar o altar). Consegui, com muito esforço, me colocar para dentro. A adrenalina pulsava em meus ouvidos, porque era uma hora mais do que crítica. Eu estava no mesmo cômodo que a "Louca e suas marionetes". Um movimento em falso e ela me descobriria – o que significava que eu e os meninos estaríamos mortos.

Não fui tão sutil quanto eu esperava. Sam olhou diretamente para mim, com aquela cara que eu já conhecia. Cara de "Saia daqui, é perigoso". Mas eu não era mais uma aluna. Eu estava ali para ajudá-los pra valer. Então eu retribuí o olhar, querendo que ele enxergasse bem no fundo dos meus olhos "Sam, eu estou aqui e vou conseguir ajudá-los, mas, por favor, a distraia".

Como se tivesse entendido exatamente as palavras que eu havia pensado, ele desviou o olhar do meu, me ignorando, como se eu nem estivesse ali – uma atitude que eu estava realmente esperando que ele tomasse.

– Você não deveria mexer com essas forças, Olivia – conseguiu dizer para chamar a atenção dela.

Deu certo.

– E você não deveria ficar falando, porque está correndo sérios riscos, sabe? – Ela deu uma risadinha de escárnio e eu quis matá-la novamente.

Agora era só eu passar para o outro cômodo, subir as escadas e derrubar o altar – bem rápida e silenciosamente.

Seria impossível. Eu tinha certeza. Ou eu era rápida e saía correndo e fazia logo o serviço, ou eu ia devagar, não era notada, e causava a morte dos irmãos.

Bem, acho que eu ia sair um pouco machucada.

Quando alcancei a porta, a abri com tudo sem olhar para trás. Me joguei à corrida escada a cima, tentando não pensar nas sombras que podiam me matar e tudo mais (e tudo mais era uma psicopata do mal).

Mesmo assim, não pude deixar de ouvir o grito dela.

DAEVAS, ATRÁS DELA!

Sério, se eu já tinha sentido medo, não se comparava aquilo que eu estava sentindo naquele momento. E, o mais estranho, era que tudo isso me excitava. Sim, eu estava preste a morrer, mas estava alegre – como se fosse uma competição.

Felizmente, meu cérebro funcionava junto com as minhas pernas, e eu fui acendendo todas as luzes que eu encontrei para formar uma luz forte.

Infelizmente, não foi forte o suficiente e aquelas coisas me pegaram assim que eu alcancei o topo da escada.

A dor foi lancinante, inimaginavelmente horrível. Senti minha pele se rompendo nas minhas costas e quase pude ouvir o sangue gotejando sem parar. O grito que eu soltei foi irreal, tão assustado e dolorido que era como se pudesse ser o último grito da minha vida. Mas os monstros me subestimaram e eu não estava derrotada ainda. Eu não parei com o golpe inicial, nem com as tentativas de golpes seguintes. Continuei correndo em direção àquele maldito altar que estava bem na minha frente e me joguei contra ele com toda a minha força, fazendo o móvel cair no chão com todos os seus símbolos, sangue, oferendas, etc (e eu caí também com a força do impacto, o que não foi muito agradável).

Pude sentir as sombras mudando em direção. Dei uma olhadinha para a porta daquele cômodo e vi Olivia. Ela tinha corrido atrás das sombras para verificar que eu fosse pega e agora estava ali, naquele lindo cômodo, frente a frente com a sua desgraça.

Eu não podia estar mais feliz.

– Sam tinha razão, Olívia. Você não deveria mexer com essas forças – eu falei, claramente, o que me surpreendeu. Eu estava tão fodida que podia ser enterrada naquele momento mesmo.

Como se minhas palavras fossem as últimas palavras da garota, as sombras se jogaram para cima dela. Eu ficaria muito feliz de saber da morte dela se eu não tivesse presenciado. Era nojento o jeito com que eles acabaram com ela, arrancando pedaços de seu corpo. Eram terríveis os gritos que ela dava, tão altos para mim, tão baixos para o resto da cidade. Quando aquelas coisas acabaram, desapareceram, o que fiquei muito grata. Não ia ser legal um monte de coisas querendo me matar também.

Eu quis vomitar por estar no mesmo lugar que os restos de um corpo humano, mas não encontrei forças suficientes para isso. Cara, eu estava muito fodida. Minhas costas estavam cortadas como se o Wolverine tivesse passado as lâminas das mãos dele lá – isso sem contar os machucados do meu recente alpinismo. Eu estava com as pernas doendo pra cacete. Minha barriga estava doendo porque eu me joguei pra cima do altar bem de frente, ou seja, ficaria tudo roxo.

E minha cabeça doía também, lógico. Eu queria levantar e ir ver os meninos, mas não conseguia ainda. Eles também estavam machucados, eu tinha que me lembrar disso...

– Rebecca? – Ouvi a voz de Sam me chamar nas escadas.

– Oi? – Tentei me sentar, mas doía muito. Doíam as costas e a barriga e as pernas e a cabeça.

– Tudo bem? – Imaginei que o "tudo bem" dele significava "estar viva", então não respondi ironicamente como estava morrendo de vontade.

– Tudo. Calma ai, já estou indo. Vocês estão todos machucados. – Ignorando a dor do capeta, consegui me levantar, e alcancei Sam lá na escada.

– Rebecca, ai, meu Deus, você está toda machucada...

– Sam, pelo amor... Você está mil vezes mais. Vem. – Eu passei um braço na cintura dele, tentando fazer com que ele se apoiasse em mim (mesmo isso doendo pra caramba). – Vamos sentar ali no sofá. Cadê Dean?

– Aqui. – Dean acenou da cozinha, de onde trazia sua mochila com kits de primeiros socorros. Ainda bem.

– Dean, você também está todo fodido. Vem, vou cuidar de vocês. – Consegui largar Sam delicadamente em um dos sofás e Dean se sentou ao lado dele.

– Olha quem fala. Você foi atacada nas costas.

– E vocês foram atacados na barriga e nos braços, duplamente pior. – Peguei umas gazes e passei em volta dos braços de Dean.

– Mas você está toda ralada também. – Sam estava enrolando sua barriga com as outras gazes.

– Tente escalar uma árvore em meio minuto, subir escadas correndo em mais meio minuto e se jogar contra um altar. Vou te falar uma coisa: Deixa qualquer garota ralada. – Cortei a gaze de Dean e enfaixei a barriga dele. – Pronto, vamos sair daqui. Daqui a pouco aparece polícia e temos que estar lá quietinhos no hotel.

– Você não vai se cuidar? – Sam perguntou, se levantando.

– Já deve ter parado de sangrar. – Dei de ombros, fingindo indiferença. – Vamos.

Entrar no Impala foi a coisa mais maravilhosa que já aconteceu. Me senti segura e em paz pela primeira vez em dias.

– Como você soube exatamente o que aquelas coisas eram e o que você deveria fazer? – Dean começou, parecendo em choque.

Bem, eu sabia que essa parte viria logo. Era melhor acabar com ela logo também.

– Sabe a voz na minha cabeça? A do demônio ou sei lá o quê? Ela me disse a palavra chave. Ela me disse "Daevas". – Olhei para baixo. – Então pesquisei no notebook de Sam e vi que eu tinha visto no diário do pai de vocês, por isso eu tinha certeza que eu já sabia o que era, mas não me lembrava... Se eu tivesse prestado mais atenção...

– Você está louca? Você foi sensacional! – Dean me olhou pelo retrovisor. – Como chegou até a gente?

– Correndo. Literalmente. Não foi fácil.

Ele riu. Sam ainda estava me encarando, com os olhos fascinados.

– Você é demais, Becca.

Quase chorei, sério mesmo. Depois de uma noite com muita dor e desespero e vários motivos para se chorar (incluindo um corte enorme nas costas que deixaria a porra de uma cicatriz enorme, ah, saco), eu quase chorei por ele ter me dado um apelido. Porque eu me senti incluída. Eu me senti como parte da família.

– Você me deu um apelido, Sammy – falei.

– Eu sei. – Ele sorriu, só para mim.

– Boa, mano. Ela tem muita cara de Becca. – Dean também sorriu para mim e senti como se minha noite tivesse se iluminado.

Conseguimos entrar no hotel sem chamar atenção de ninguém (o que quer dizer que não tinha ninguém lá, porque estávamos todos fodidos com roupas cheias de sangue) e então nos trancamos no quarto. Enquanto Dean cuidava de seus ferimentos, eu cuidava dos ferimentos de Sam.

– Você saiu desarmada? Isso é que é pedir para morrer – Dean comentou.

– Eu já sabia que faca nenhuma adiantaria com os Daevas, então para que levar? Além disso, eu estava ocupada demais em ficar preocupada e louca da vida para salvar vocês dois – respondi, limpando os ferimentos de Sam. Ele estremeceu de dor. – Desculpe.

Ele só balançou a cabeça.

Sim, se o momento não fosse tão crítico, eu estaria flutuando por estar no quarto com os dois sem camisa (e por eu ter livre permissão para tocar a barriga e os braços deles, oh, Céus).

– E os seus machucados? – Sam me perguntou quando acabei de enfaixá-lo bonitinho. Eu daria uma boa enfermeira.

– Ah, bem, estão nas minhas costas... – O que quer dizer que não sou capaz de limpá-los.

– Eu ajudo você. – Sam sorriu para mim.

Fiquei sentada de costas para ele. Delicadamente, ele levantou um pedaço da minha blusa, o bastante para tratar e deixar tudo lindo.

– Ai. Isso vai doer – avisou.

– Ok. – Ele passou um algodão. – Ai. Doe mesmo.

Dean, super fofo, pegou outro algodão e começou a limpar meus cortes dos braços e joelhos (feitos pela árvore, há).

– Obrigada. Vocês dois.

– Você nos salvou, Becca. Nós é que temos que agradecer.

– Mas vocês me salvaram primeiro. Empatado. – Dei um sorrisinho para Dean, que estava na minha frente.

– Tudo bem. Mas você se machucou mais nos salvando do que nós nos machucamos salvando você – lembrou Sam.

– Bem, isso não faz parte do contrato – brinquei, abaixando a blusa quando Sam terminou. – Talvez em outra cidade possamos ir a um hospital e nos tratar direitinho.

– É, pode ser. Agora vamos dormir, por favor. – Dean caiu na cama de casal rapidinho.

Sam me olhou.

– Pode ficar na cama de solteiro hoje. Você merece.

– Obrigada, Sammy.

Demorou para eu achar uma posição que não doesse muito, mas quando achei, simplesmente apaguei.

– Becca, vamos? – Era Sam que estava me acordando levemente.

Entreabri os olhos.

– O quê?

– Vamos embora. Você vai ver, hoje estará doendo menos que ontem – prometeu.

Eu me levantei e era verdade. Era como se nem estivesse aberto o corte.

– Uau – falei.

– É. – Sam deu de ombros. – Temos certa experiência com os Daevas. Tome um banho para irmos tomar café e ir embora.

Assenti com a cabeça. Tudo o que eu mais queria era ir embora dali.

Coloquei um jeans e uma camisa simples, com um colete de manga comprida, que não mostrava nenhuma de minhas novas aquisições roxas e vermelhas. Sam já tinha levado minha mala para o carro quando saí do banheiro e Dean desceu as escadas comigo.

– Preciso falar com a Angelina. E agora? – Ele me encarou.

– Seja verdadeiro. Fale que nunca mais vai voltar, só isso. – Dei um sorrisinho. – Você consegue.

– Claro.

Sam se juntou a nós quando nos sentamos à mesa. O hotel estava mais cheio, então Angelina não pôde se sentar conosco (não que eu esteja reclamando).

Quando acabamos, nos dirigimos para a recepção, e ela estava lá. Sam e eu entramos no carro, mas abrimos bem os vidros para ouvir o fora de Dean.

– Angelina, estamos indo – disse ele, olhando-a nos olhos. – Não achamos um culpado. Outros policiais disfarçados vão nos substituir. Não conte para ninguém sobre nós, ok?

– Ok. Quando você volta para me ver? – Ela mordeu o lábio inferior, como se estivesse esperançosa. Não é possível, ela devia saber que ele ia dar o fora nela.

– Não acho que eu vá voltar, Angelina. – Dean foi bem direto, pelo menos. Então deu um selinho nela (eca) e veio se juntar a nós.

Ninguém falou até sairmos da cidade.

– Hmm, você foi verdadeiro. Gostei disso – elogiei Dean.

– Eu sou verdadeiro na maioria das vezes. – Lá vinha ele com aquele sorriso sarcástico.

Revirei os olhos, pronta para ignorá-lo.

– Sabe o que estive pensando? Se o demônio de olhos amarelos falou para Becca que eram Daevas, então ele queria que ela tivesse sucesso na missão – Sam falou de repente, muito típico dele.

Pensei um pouco sobre isso também.

– É verdade – concordei.

– Com certeza – completou Dean.

– E por que ele poderia querer isso? – Sam perguntou retoricamente, pois nenhum de nós sabia a resposta. – Quais são os planos dele?

Infelizmente, só depois de muito e muito tempo descobriríamos isso.