Ela abriu a porta, mas se arrependeu logo depois. Ele parecia dizer a mesma coisa com aquele olhar espantado, mas ninguém tentou provar o contrário. Ela apenas abriu passagem e ele entrou, sem palavras, sem movimentos, apenas em sua posição de defesa.

"Sua casa parece boa." Disse olhando ao redor, ela respondeu com um riso irônico.

"Você está se perguntando como eu me sentiria se você entrasse com o carro na minha nova sala?"

"Estou pensando que você deseja o melhor para as suas filhas." Disse olhando ao redor para ver se encontrava fotos. "Onde está Rachel?" Perguntou de forma retórica enquanto seus olhos fitavam a foto no criado mudo.

"Rachel está na cozinha e mesmo que não tenha perguntado, Sofia está no quarto."

Seu tom era tão ríspido quanto o seu olhar. Ele a observou e sem ser convidado se sentou no sofá esticando os pés a mesinha de centro.

"Gostaria que adiantasse as coisas..."

"Sem preliminares? Moooooooooooooooooooooom..." Ele fez uma careta de lamento e esperava mais do que uma expressão indiferente.

"Presumo que tenha vindo para mais uma aventura em seus enigmas."

"Ver a minha filha é algum enigma?" Perguntou com sarcasmo. "Ela não se parece muito com um quebra cabeças."

"Você não sabe com o que a sua filha se parece, nunca se deu ao trabalho de vê-la."

"Isso quer dizer que ela pode ser montada e desmontada?"

Cuddy revirou os olhos e se ajeitou desconfortável no sofá.

"Me sinto só." Disse com as mãos encostadas no queixo, enquanto encarava o carpete.

"Contrate uma prostituta."

"Você sabe, elas não conversam, são bem mais práticas, se é que me entende." Terminou com um sorriso travesso.

"Procure pessoas, vá a um bar, faça amigos, entre em redes sociais..."

"Chato, chato, chato e chato."

"O que faz disso aqui diferente?"

"Possibilidades." Voltou a expressão séria. "Apenas."

"Você acha realmente que pode reconstruir sua vida em cima de escombros?" Ela mantinha uma voz suave que mantinha um contraste exato com as suas duras palavras.

"Eu acho que você é a única coisa que eu tenho." Assumiu com pesar.

"Você não me tem, House, você me perdeu."

Ele se levantou, impactado demais com as suas palavras e foi até a janela.

"Você me deixou."

"Você significava perigo!"

"Eu estava com ciúmes!" Gritou sem conseguir controlar a crescente raiva.

De repente um grito foi ouvido, choro e passos correndo.

"Mamãe, a Sofia..." Rachel entrou correndo na sala, porém parou um pouco assustada. "Ele é..."

"Sim, querida. Rachel, me acompanhe..."

"Mamãe, o House!"

"Deixe-a." House disse imediatamente. "Não irei matá-la." Disse de forma grossa.

House viu Cuddy hesitar, mas ela deixou a sala ao encontro dos gritos agudos e irritantes. Rachel o olhou com um olhar como se o examinasse, mas com uma imparcialidade incomum.

"Você se lembra de mim?" Rachel balançou a cabeça. "Você era bem menor, desse tamanho." Gesticulou mostrando um pequeno espaço entre o indicador e o polegar. Rachel sorriu, mas não se aproximou. "Sentiu minha falta?" Outra vez ela assentiu. "Eu também. Vem aqui." Ele abriu os braços e Rachel demonstrando timidez se aproximou lentamente. Ela o abraçou por um curto momento e voltou para o sofá onde havia um gibi, passando as folhas como se soubesse ler, talvez para impressionar. House riu.

Após alguns segundos o choro se acalmou e House sentiu-se tentado a se aproximar do quarto. Andando lentamente, passou por alguns cômodos, em um deles olhou para dentro, era o quarto de Cuddy, notou a organização impecável e rolou os olhos. Um pouco a frente havia outro cômodo, a porta estava entreaberta e ele não pensou muito antes de empurrá-la. Ele poderia ver Cuddy de costas, sentada numa cadeira de balanço, enquanto sua voz entoava uma canção de ninar. Cuddy se levantou, balançando Sofia suavemente.

"Não gostaria de continuar a conversa agora." Ele assentiu se aproximando. A curiosidade o consumia e não conseguiu evitar de se estabelecer ao lado de Cuddy.

Ao olhar para os braços de Cuddy seu coração deu um salto.

"Ela não se parece muito comigo." Cuddy sorriu. "Você não acha?" Ela o encarou e deu um meio sorriso.

Lentamente aproximou a mão em seus cabelos, finos e incrivelmente loiros. Com o toque Sofia abriu os olhos, tão grandes! Mas a cor era profunda como a dos seus, sua pele era muito branca, chegava a ser rosada, pensou que jamais Cuddy a deixaria brincar muito no sol e com toda certeza a entupiria de protetor solar, será uma briga constante porque Sofia não aceitará passar vergonha na frente de seus amiguinhos. Ele estará ali para ver tudo isso?

"Sofia..." Pronunciou suavemente vendo a menina chupar um dedo enquanto Cuddy ainda a embalava suavemente, preguiçosamente a menina fechou os olhos como se fosse confortada no pequeno afago dos seus dedos.

De repente Cuddy viu a mão dele ser retirada como se tocasse em um espinho e seu rosto se tornou nebuloso. House passou a mão na testa em nervosismo e olhou para baixo andando um pouco antes de se voltar para Cuddy.

"House..."

"Voltarei amanhã."

Cuddy o observou sair, parecendo no mínimo assustado, confusa beijou sua filha e a colocou em seu berço. Tinha uma vida para cuidar, não poderia estacionar apenas porque House apareceu, o mundo não gira em torno de Gregory House, talvez um dia ela aprendesse. Ela disse que ele já não a tinha, mas de certa forma ele tinha uma parte dela, a parte que se encaixava exatamente na parte dele.

Tudo se resumia a Sofia.

House parou em sua área, respirando o ar fresco da primavera. Enquanto andava entre o jardim casualmente olhou para a casa vizinha. Seus olhos se comprimiram e um sorriso perspicaz invadiu seu rosto.

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