Os fins de semana eram sempre irritantes para House, o tédio simplesmente invadia o seu espaço privado e suas atividades se resumiam a dedilhar seu violão, tocar seu piano, ver maratonas de séries na tv, pornôs e sempre que estava necessitado, sexo com prostitutas. O trabalho no laboratório médico da Clark Atlanta University era muito interessante e cansativo, resumindo-se apenas de segunda a sexta e havia a felicidade de não ter que receitar analgésicos em uma clínica de merda. Durante a semana, a pequena cerca de madeira que apenas dividia um quintal do outor permitia observar a rotina de Cuddy. Nessa semana em especial, quando por um surto de insônia sentou-se na varanda de sua casa e descobriu algumas coisas. Às 05:05, curiosamente, a luz do quarto se acendia, em torno de 05:20 um homem alto e moreno se aproximava da casa e se aquecia, uma mechida no celular e em seguida Cuddy saia com uma roupa de ginástica e com o cabelo jogado em um rabo de cavalo. Por volta das 06:00 ela voltava, se despedia com um breve abraço e um beijo no rosto e entrava para casa correndo, como se estivesse atrasada. Todos os dias da semana, quando Cuddy entrava para casa, House saia para fora para ver até onde o homem corria, passados uns 200 metros ele entrava numa casa, que parecia ser a mais luxuosa da rua.

Cuddy, como sempre, fora um enigma para ele. Ela perturbava sempre seus pensamentos e acima de tudo despertava uma profunda curiosidade. A babá chegava alguns minutos antes de sua saída e ele observava com curiosidade algumas mudanças. Cuddy continuava elegante, mas não mais com aqueles trajes de administradora, eram roupas mais informais, um desses dias ela vestia calça jeans e uma bata branca rendada, ela parecia ter dado um up nas roupas, aderindo mais a moda que a formalidade, não parecia exatamente as roupas que uma diretora de hospital usaria. Até então ele não sabia onde ela trabalhava, então decidiu subornar o visinho da frente, um velho que só tinha como atividade cuidar de seu jardim. Descobriu que ela trabalha no Childrens Healthcare of Atlanta Pediatric Hospital, como chefe do Departamento de Endocrinologia e que voltou a exercer a medicina. Uma certa pontada de orgulho o fez sorrir.

O que importava no momento era que na noite anterior Cuddy saiu com o Guy-X, o nome que ele atribuiu ao cara que corria com Cuddy todas as manhãs, ele ficou de espreita até o retorno, onde se despediram com um beijo, que fez House sentir vontade de quebrar a vidraça da sala, mas qulquer movimento poderia ser notado, o que jogaria tudo pelo ralo. Observou que o homem se despediu e virou as costas para sair, contudo um puxão pelo braço e alguns sussurros deram a entender que ela o convidava para entrar.

Agora, enquanto dedilhava o violão em frente a vidraça, à luz solar do outro dia, pensava no que faria. Era óbvio que ele não a queria com qualquer cara que não fosse ele. O estranho foi que ele assumiu o risco ao se tornar seu vizinho e não poderia exigir muito, desde que nesses dois meses que havia se mudado, já havia perdido as contas de quantas mulheres haviam sido passadas diante do olhar de sua ilustre vizinha. Ela não havia retrucado até então.

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Cuddy deu um salto quando uma batida forte foi ouvida em sua sala. Ela suspirou, pois apenas uma pessoa não teria modos para bater como quem quer chamar e sim como quem quer derrubar a porta. Confirmou suas suspeitas através do olho mágico. Segurando Sofia, destrancou a porta.

"Oi." Ele disse de forma sutil sem encarar seus olhos.

"Entre, House."

House entrou, olhando para os lados para ver se via alguém.

"Ele já foi, mais cedo." Disse revirando os olhos.

"Ele quem?" Perguntou com sarcasmo. Cuddy apenas o ignorou.

House foi até ela e estendeu as mãos para pegar Sofia, Cuddy o olhou com a testa franzida em um óbvio sinal incrédulo. Ele revirou os olhos.

"Não é como se eu fosse mordê-la, ou algo parecido." Relutante, entregou-a. Ainda desajeitado, apenas a segurou, mantendo uma grande distância de si, como se para observá-la. "Você não tem medo de expor suas filhas para um estranho?" Disse segurando-a junto ao corpo.

A menina sequer protestou, apenas o encarou com seus grandes olhos azuis, parecendo muito curiosa.

"Ele não é um estranho, House. O conheço desde que me mudei, somos amigos."

"Amizade colorida?" Sua voz era esnobe.

"A minha vida particular não diz respeito a você."

House se sentou e sentou Sofia em sua perna boa. A menina insistia em se levantar fazendo pequenos sons com a boca.

"Oh, Cuddy... somos vizinhos! Vizinhos conversam coisas!"

"Ai, House. Corta essa merda de conversa, eu te conheço bem."

"Então você assume que há um 'algo a mais'?"

"Sexo. Fizemos há alguns meses, fizemos ontem e provavelmente faremos outro dia."

House percebeu que não havia muito com o que se preocupar. No entanto, a proximidade com a garota o incomodava um pouco. Ela se mexia freneticamente, mas não parecia querer tirar os olhos dele, se esforçava para olhar para ele, mesmo com o corpo com pouca coordenação.

"Sofia precisa dormir." Disse se aproximando.

"Eu posso fazer isso. Você não tem nada para fazer? Eu posso colocá-la para dormir."

"Você não..."

"Já assisti na tv, não deve ser tão difícil." Disse dando de ombros.

"Na verdade, eu preciso acordar Rachel, preparar um café da manhã e arrumá-la para ir para a casa do George."

"George..."

"A filha dele é amiguinha da Rach."

House assentiu, meio a contragosto. Cuddy seguiu para o quarto de Rachel, para cuidar de suas pendências. Ainda desajeitado, House colocou Sofia com a cabeça em seu ombro, ela parecia bem frenética e não conseguia se acomodar, bufando a segurou de lado e a menina demorou um pouco para se acostumar, tal vez devido a falta de jeito dele. Ela tinha os olhos muito bem abertos, as vezes os fechando por um longo tempo, mas logo ela os abria novamente. Ele sorriu meio de canto, pensando que talvez ela estivesse lutando contra o sono para continuar a encará-lo, ou talvez fosse apenas uma coisa de sua cabeça, afinal, ela é um bebê. Ele percebeu que ela cresceu bastante, talvez estivesse em seu sexto ou sétimo mês, não sabia ao certo, mas algo que ele tinha plena certeza eram suas semelhanças. Ela se parecia muito com ele, na cor dos olhos, no tipo de cabelo, cada vez mais dourados e sem dúvidas ele sabia que era o bebê mais lindo que já tinha visto em toda a sua vida. Ela fazia seu coração dar pequenos pulos e isso assustava muito, sentia um carinho enorme e adorava observar seu rosto angelical, isso proporcionava-lhe prazer. Se sentia um completo idiota, um ser que tinha como principal atividade chorar conseguia prender sua atenção. No entanto, no fundo, a ideia que mais era intrigante era a de que naquele ser havia uma mistura do seu DNA com o DNA da Cuddy, que era algo que os dois tinham feito e que ligava-os involuntariamente.

Ele andava pela casa observando cada detalhe, enquanto a balançava suavemente, acariciando seus cabelos. A essa altura ela já dormia tranquilamente em seus braços, como se estivesse acostumada a ele. Era muito estranho, bebês estranham, choram, se irritam com estranhos, mas ela parecia reconhecê-lo. Ele já se irritava com esses blefes que sua mente faziam, pois é um pensamento completamente irracional. Ele foi para o quarto de Sofia e com cuidado a colocou em seu berço de cor púrpura. Aquele quarto era incrível! Ao invés de animais e borboletas, o quarto parecia uma tela abstrata, com traços desconexos e um jogo de cores femininas que era simplesmente admirável! Cuddy deveria ter gastado uma nota preta.

Havia murais com fotos, algo que no outro dia ele não havia percebido. Fotografias de Cuddy no parto, com o rosto manchado de lágrimas e uma expressão muito cansada. Lembrou-se do velório de Wilson, onde no jardim a viu com a bolsa estourada e com as primeiras contrações. Um frio em sua barriga sinalizava um estado de alerta para o afloramento de seu lado sentimental. O que mais era estranho para ele era olhar aquela casa, todas aquelas fotos, uma menina linda no berço, outra que tinha um carinho muito grande por ele e a mulher mais estonteante que ele já conheceu e saber que tudo isso poderia lhe pertencer, que poderia fazer parte da sua vida. Isso o assustava profundamente, o medo de ser machucado outra vez, medo de ser abandonado, de perder o chão debaixo dos seus pés. Wilson com certeza diria para ele ter mais fé em si mesmo e se dar outra chance, mas não é tão fácil como se pensa, ele é o cara mais ferrado do mundo, com o maior potencial de destruição. Mais do que ele estar vulnerável aos seus medos, havia o risco de expor essas pessoas a si mesmo, sem dúvidas ele é um risco notável. Cuddy chegou de fininho e se aproximou dele com cuidado, ainda incerta em como mostrar reação.

"São fotos significativas." House disse em observação. "Belas fotografias."

"Obrigada." Cuddy respondeu suavemente com uma quebra na voz.

"Aquela foto..." House apontou, hesitou e balançou a cabela parecendo não acreditar.

"O que você acha? Diria para a minha filha que o pai dela morreu?" Cuddy suspirou. "Você iria fazer parte da vida dela, House. Mesmo que apenas em minhas histórias e fotografias..."

"Por quê?" Ele gritou em um sussurro. "Por que você insiste em me meter nessa história?"

"Porque você faz parte dela e não há como mudar!" Cuddy suavizou o olhar, tentando esconder toda a sua vulnerabilidade.

House apontou o dedo para ela sorrindo, como ele fazia sempre que conseguia encontrar respostas para seus casos.

"Você deseja que eu faça parte da sua vida, da vida de vocês."

"House..."

"Oh, cala a boca! Você me quer!"

"Eu não te quero da forma como você me quer, House. É esse o nosso problema!"

Ela tinha os olhos úmidos e ele se aproximou lentamente levanto a mão direito ao seu rosto.

"Eu te quero... de todas as formas."

Cuddy perdeu o raciocínio assim que seus lábios foram surpreendidos por um toque sutil, quase inexistente, como uma sensação de uma brisa suave tocando seu rosto. Ela sentia como se seus pés tivessem sido retirados do chão, deixando-a incrivelmente leve. Suas mãos encontraram o rosto dele, pressionando-o mais de encontro ao seus lábios, numa forma desesperadora de manter um contato mais intenso. Sem qualquer resistência, aos poucos ela se entregava cada vez mais, mostrando toda saudade em um simples beijo. House se afastou com um selinho e enxugou uma lágrima que descia pelo olho esquerdo.

"Eu não consigo acreditar em uma só palavra que você diz." Ela argumentou enquanto mais lágrimas rolavam por seu rosto. Ele estava muito confuso e assustado.

"Eu não te culpo. No seu lugar, não confiaria." Disse com sinceridade, fazendo uma pausa para retirar os olhos dela. "Nem deixaria duas crianças perto de mim."

"Você está dizendo para eu desistir?" Havia incredualidade em sua voz.

"Não. Estou dizendo o que é sensato a se dizer." Olhou para ela e viu um olhar confuso. "Mas como não somos sensatos e essa coisa de sensatez não funciona conosco, ignore."

Ela tentou segurar um riso, mas não conseguiu. Ele então a encarou com seriedade.

"Então... você não confia em mim." Ela assentiu. "Eu também não confio em mim. "

"House, eu acho melhor você ir."

Ele assentiu e ela foi na frente, acompanhando-o até a porta do quarto. Quando eles pararam ela o encarou por uma fração de segundo, momento suficiente para que ele agarrasse seu braço e a virasse de frente para ele.

"Você quer que eu prove que estou dizendo a verdade. Assuma isso." Ela abriu a boca para dizer o contrário, mas não conseguiu. "Eu vou provar!"

Pela segunda vez ela foi puxada ao encontro dele, como se perdesse suas forças. Ele segurava seus braços, impedindo-a de espancá-lo. Aos poucos ela se acalmava e se rendia mais e mais, inebriada pelo seu cheiro e aluscinada pela força de seus braços. House sentia uma urgência enorme, uma sede de seus lábios, de sugar seu néctar. Uma necessidade tão intensa que o fazia estremecer com o contato de suas línguas. Ele a queria, queria transar com ela, mostrando toda a saudade que ele tinha do seu corpo, do seu instinto de fêmea, da sua pele arrepiada, mas acima de tudo ele tinha algo a provar: a veracidade de suas palavras. Aos poucos ele foi tornando o ritmo entre eles mais calmo e de forma lenta e prazerosa desfrutavam de toda paixão e amor que compartilhavam. Todo aquele emaranhado de sentimentos que ia muito além da luxúria e da satisfação sexual. Aos poucos ela o puxava para o quarto, guiando-o e deixando explícitas as suas intenções. Ela precisava dele, ele precisava dela, de uma forma como nunca haviam sentido antes, de uma forma tão confusa que o "sentir" tornava-se mais coerente que o "compreender".

Ela parou para encará-lo, puxando seu rosto de uma forma que chegou a ser rígida. Ele achou que ela hesitaria, mas ela levou o polegar aos seus lábios e os tocou suavemente, golpe sujo para ele... que no instinto fechou os olhos, desfrutando do carinho. Com tamanha exposição ele retirou sua mão e prendeu na dele, anexando seus dedos de forma simples, enquanto a puxava para mais próximo da cama. Ela o seguia olhando para baixo, mas seus batimentos corriam ao encontro dele.

Assim que eles pararam, House se apressou em levantar a blusa que ela usava, como um flashback da primeira vez que ele fez isso, no dia do acidente em Trenton. Ele sentia o mesmo nervosismo e aquela ansiedade de novas descobertas, no caso nem tão nova assim, mas cada vez que faziam isso era como se fosse a primeira. Cuddy não percebeu muito as investidas dele, porque enquanto tirava suas roupas, ele mantinha um contato visual muito intenso. Quando percebeu que estava apenas de roupas íntimas, se apressou a deixá-lo igual, ainda incerta de suas ações. Suavemente ele a pegou no colo e a deitou sobre a cama para em seguida acariciar sua bochecha e implantar um beijo em sua testa. Ela demonstrava nervosismo e tensão e muito medo no olhar, enquanto ele buscava transmitir calma, mesmo com um turbilhão de emoções o invadindo.

House tentou demonstrar carinho em seus toques e pouco a pouco suspiros baixos saiam da boca de Cuddy, que havia permitido que as emoções fluíssem naturalmente. As preliminares a atormentava, pois seu corpo todo queimava a cada investida e sua umidade aumentava cada vez mais. Os olhares intensos eram tão frequentes que nenhuma palavra parecia fazer falta. Tudo era tão perfeito que nem parecia real!

A união de seus corpos ocorreu de forma lenta, que para ela já significava uma tortura.

"Eu sei que você é apressada, mas deixa eu te amar, Lisa."

Os olhos dela se enxeram de lágrimas com o pedido dele. Em resposta ela o puxou contra ela, demonstrando com um beijo toda a emoção que dela transbordava. Ele estava dentro dela esperando que ela demonstrasse o quanto o queria. Não demorou a acontecer, pois segurando os quadris dele, o puxou contra ela, até que ela sentisse toda a sua extensão invadindo-a. Era uma sensação dolorosa e ao mesmo tempo prazerosa, numa confusão muito tentadora. Ela abriu a boca e jogou a cabeça para trás quando ele se movimentou de forma mais rápida, expondo assim e oferecendo seu pescoço, que logo foi pressionado por beijos quentes e chupões leves. Ele gemeu junto a ela quando atingiram juntos um ponto que apenas um com o outro conseguiam. Era algo tão recíproco e imediato que a sensação era que pertenciam a um mesmo corpo. Os corpos suados se encontravam por minutos em uma dança atraente e louca, os movimentos era rápidos, mas suas bocas compartilhavam do mesmo amor e prazer de estarem juntos. Quando ele a virou de lado, de costas para ele, algo dentro dela parecia ter sido estourado, suas mãos agarraram forte o lençol da cama enquanto ela se contorcia beirando ao orgasmo. Ciente de toda sua urgência, House intensificou ainda mais os movimentos, deixando-a enlouquecida. Ele sentia uma dor aguda no quadril direito, pois as unhas dela entravam com força, rasgando-o enquanto o puxava mais contra ela, provavelmente sangraria, mas ele não se importava no momento.

As vistas de Cuddy se escureceram, deixando-a tonta. Mas enquanto o sexo dela pulsava e sua pélvis se movimentava de forma frenética ao seu encontro, ele percebeu que não poderia aguentar mais. Cedendo ao prazer, ele caiu num intenso orgasmo, deixando suas forças serem tomadas de seu corpo enquanto ela parecia sugar com prazer cada uma delas. Ele puxou o corpo dela contra ele, a prendendo num abraço enquanto tentava se recuperar. Ela tinha os olhos fechados, tentando recobrar o suave ritmo de sua respiração, enquanto ele passava a barba em sua nuca e depositava beijos em seu ombro. As mãos dos dois estavam entrelaçadas e suas mentes voavam para longe de qualquer racionalidade. As mãos simbolizavam uma promessa subliminar de recomeço, evidenciada nas irônicas palavras, agora provenientes dos lábios dela.

"E agora?!"