- Acho que vou dormir. Estou cansada de todo o trabalho de hoje – Marlene falou, bocejando e se espreguiçando.

- Que trabalho? Levantar a varinha e pronunciar o feitiço? – Sirius riu.

- Engraçadinho – ela sorriu ironicamente – Boa noite.

- Eu vou também.

Os dois foram para o quarto, e Marlene vestiu seu pijama no banheiro. Quando voltou, com um pequeno short e uma camiseta colada velhos, Sirius já estava deitado na cama – apenas de cueca samba-canção.

- Você tem mesmo de dormir de cueca? – ela perguntou, se enfiando incomodada debaixo das cobertas.

- Desculpe, tenho essa mania há muito tempo. Mas digamos que você também não está propriamente decente – ele falou, encarando o bom pedaço da perna de Marlene que estava à mostra.

- Acho que Andrew e Amber tinham razão em sentir ciúmes.

- Relaxe, eu não vou te agarrar no meio da noite. Não somos mais adolescentes cheios de hormônios.

- Você fala como se fosse um velho – ela riu.

- Digamos que às vezes me sinto como um...

- Boa noite.

- Boa...

Marlene ficou pensando no que exatamente eles teriam que fazer para aquela missão. Será que durante todos aqueles dias teriam apenas que fingir que eram um casal e pronto? E enquanto estivessem a sós e não precisassem enganar ninguém, o que fariam?

- Sirius... O que exatamente temos que fazer nesta missão? – ela perguntou. Como resposta obteve apenas um longo suspiro, sinalizando que ele já havia dormido há muito tempo. Ela virou de lado e tentou adormecer.


- Acorda!

Sirius abriu lentamente um olho. Viu uma Marlene irritada à sua frente e fechou-o de novo.

- Sirius! Nós temos uma missão! Vai dormir até quando?

- Só mais cinco minutos...

- Sei... Então você não se importa se eu tirar os cobertores, não é? Afinal são só mais cinco minutos! – Marlene falou, puxando os cobertores com força.

Sirius se encolheu, tremendo.

- Devolva já esses cobertores! Marlene, está frio, caso não tenha percebido – ele reclamou.

-Percebi, sim. Afinal, estamos no inverno. Agora levante-se, temos pessoas a convencer como casal!

- Eu não vou agora, já disse.

- Ah, é?

Dez minutos depois os dois caminhavam em direção ao povoado, Sirius com uma expressão muito emburrada no rosto.

- Não podia ter me deixado dormir mais cinco minutos, não é? – ele sibilou.

- Não. Não quero falhar na minha primeira missão antes mesmo de começar, e para isso temos de fazer tudo à moda antiga – Marlene, que levava uma torta quentinha, falou.

Os dois pararam à porta da casa que parecia mais simpática e entrelaçaram as mãos, batendo na porta.

- Bom dia! Desculpe incomodar, mas somos novos no povoado. Nos mudamos ontem, e queríamos conhecer nossos vizinhos mais próximos! – Marlene falou simpaticamente quando uma senhora muito baixinha e gorda, de expressão bondosa, abriu a porta.

- Ora, querida, mas que prazer! – a senhora falou, apanhando a torta estendida – Entrem, entrem, fiquem à vontade – foi até a cozinha e voltou com uma fatia da torta para cada um.

- Meu nome é Elizabeth, e este é Edward – Marlene falou. No dia anterior haviam concordado em usar nomes falsos, pois alguém poderia reconhecê-los pelos nomes reais.

- E eu sou Mary Wheeler, mais conhecida como Sra. Wheeler – a mulher sorriu – E vocês, tão jovens, o que fazem em uma cidade tão pequena e pacata como esta?

- Ah, sempre quisemos morar no campo – Sirius falou, quando Marlene o cutucou.

- E então quando meu primo faleceu e deixou a casa para mim, vimos a oportunidade perfeita!

- Sinto muito – a Sra. Wheeler baixou a cabeça – Mas ele não morava por aqui, morava? Todos aqui se conhecem, e não lembro deste sobrenome.

- Não, não morava. E tampouco tinha condições de pagar alguém para cuidar da casa, por isso ela estava em más condições – Marlene respondeu.

- Mas agora demos um jeito nela, e está bem agradável – ele continuou.

- Claro, claro... – a senhora falou vagamente, e um silêncio desconfortável se instalou sobre o aposento.

- A senhora poderia nos falar um pouco sobre o povoado?

- Oh, todos aqui são muito unidos. Por morarmos em um lugar tão pequeno, acabamos por conhecer todos e conseqüentemente tudo sobre eles. É também um lugar bem calmo, às vezes até calmo demais, exceto pelas fofocas que correm constantemente. Mas posso saber de onde os dois jovens são?

- Viemos de Londres.

- Oh, vai demorar um bom tempo para se adaptarem, então. A vida aqui é exatamente oposta à de cidade grande, e algumas pessoas acabam ficando entediadas e vão embora – a sra. Wheeler suspirou.

- Mas é tudo assim tão calmo por aqui? Não há pessoas suspeitas, roubos, nada disso? Edward e eu desejamos ter um filho algum dia, e queremos um lugar quieto para ele crescer – Sirius engasgou com o chá que estava bebendo ao ouvir isso.

- Não, nada de suspeito... Por aqui é seguro dormir até com as portas abertas, se desejarem. Apesar de não ser recomendável fazer isso nesta época do ano... – ela comentou, pensativa – Edward, querido, você está bem? – ela se dirigiu a Sirius com preocupação, já que este ainda tossia muito e tinha o rosto vermelho.

Sirius estava desesperado, mas ergueu um dedo, sinalizando que conseguiria se resolver sozinho. Ele não estava propriamente certo disso, mas, afinal, os homens não são assim?

Marlene observou enquanto ele se desesperava, tentando respirar, e revirou os olhos. Cansada de assisti-lo mudar de cor, do vermelho para o roxo, depois para o azul, ela esticou o braço e bateu fortemente em suas costas em um lugar específico.

Imediatamente, ele engoliu uma enorme lufada de ar e respirou ruidosamente, segurando o próprio pescoço com alívio.

- Lizzie, obrigado, mas eu realmente não precisava de ajuda.

- Ah, sei – ela e a sra Wheeler trocaram um olhar.

- Mas seja como for... Muito obrigado por nos receber, senhora. Ainda temos algumas coisas para terminar com a mudança, portanto vamos indo – ele sorriu, e agarrou Marlene pela mão, indo em direção à saída.

- Oh, foi um prazer! Voltem em breve, queridos! – a Sra. Wheeler sorriu e acompanhou-os até a porta, de onde ficou acenando para eles até que se perdessem de vista.

- Porque você saiu daquele jeito? – Marlene perguntou irritada.

- Ora, aquela senhora não estava ajudando em nada! Não parava de dizer que o povoado é super tranqüilo e entediante – ele resmungou.

- Ainda assim, se forçássemos mais talvez ela se lembrasse de alguma coisa que poderia nos ajudar!

- Marlene, relaxe. Nós só fomos a uma casa, ainda temos mais algumas para visitar. Geralmente as pessoas têm opiniões diferentes, e alguém pode saber mais do que a sra. Wheeler – Sirius falou impaciente.

- Se você diz... – ela retrucou, com raiva.


Algumas horas depois, os dois estavam voltando para casa, entupidos de comida que os anfitriões ofereceram, porém extremamente frustrados.

Não haviam conseguido nem sequer uma informação útil daqueles pacatos moradores daquela pacata cidadezinha. Aquilo tudo era tão pacato que já estavam ficando cheios, e aquele era apenas o primeiro dia.

Marlene e Sirius andavam lado a lado, calados e carrancudos, tentando esquentar-se em seus casacos. Caminhavam próximos a uma bela floresta de pinheiros enormes. Eles eram tão juntos e de copas tão grandes que não se podia ver nada mais para dentro da floresta. Marlene admirou as belas árvores e imaginou-as cobertas de neve branquinha, mas em seguida um arrepio percorreu sua espinha ao pensar que tipo de criaturas se escondiam ali. Isso imediatamente apagou o pensamento sobre o inverno de sua cabeça.

Ela olhou para o lado, para falar algo, mas Sirius não estava mais lá. Ligeiramente apavorada, olhou para todos os lados e à frente, onde viu uma pequena figura de negro chegando à casa. Cerrou os punhos, com raiva. Percebeu que os próximos dias seriam muito difíceis. Sirius era teimoso, arrogante, orgulhoso e independente demais. Marlene não era exatamente o oposto disso, na verdade também era bastante teimosa e independente, mas incomodava-a o fato de serem tão parecidos.

Ela reparou que já estava escurecendo; olhou para a floresta, mais um arrepio percorrendo-a, e então virou-se e saiu correndo o mais rápido possível para a casa.

- Por que, por que você tem de ser tão cabeça dura? – ela falou alto ao entrar na casa.

- Você é tão ou mais cabeça dura do que eu, e tem bem menos experiência.

- Bem, talvez se você me deixasse fazer algo eu pudesse adquirir alguma experiência!

- Besteira, só perderíamos tempo – ele falou, sentando-se a um pufe macio à frente da lareira apagada.

Marlene bufou.

- Você é inacreditável! – e subiu as escadas batendo os pés com força.

Marlene tomou um rápido banho e deitou-se à cama, mas apesar de todos os esforços, não conseguia dormir. Já passava de meia-noite, e ela se perguntou se Sirius havia saído ou apenas resolvido dormir no sofá, lá embaixo. Ela levantou-se e desceu as escadas silenciosamente. Não havia ninguém no andar inferior. Perguntando-se onde o parceiro poderia estar, ela acendeu uma vela e foi até a cozinha apanhar algo para comer. Na raiva do momento, ela sentiu o estômago roncar. Achou estranho, já que ela comera tortas e biscoitos e bebera chá a tarde inteira, mas geralmente ela sentia fome nos momentos mais estranhos.

A moça terminou de comer e resolveu subir para tentar dormir novamente. Mas ao pousar o pé no primeiro degrau da escada, um barulho de algo caindo veio da direita. Com um sobressalto, ela olhou na direção do barulho e só viu uma sólida parede de madeira. Sacudindo a cabeça, concluiu que ela deveria ter imaginado o barulho. Continuou subindo até o meio da escada, mas então a curiosidade a dominou e ela foi até lá.

Passou um tempo encarando a parede, como se de repente dela fosse sair alguma coisa esclarecedora. Depois, pousou a vela no chão e tateou a parede minuciosamente. Seus dedos finos e delicados acariciavam inutilmente a parede, mas nada acontecia. Mas ela não desistiu; continuou, até tocar em uma pequena e quase imperceptível saliência, que parecia apenas um nó na madeira. Marlene apertou esta parte, que cedeu como um botão, e então a parede estremeceu ligeiramente.

Por alguns segundos, ela achou que só aquilo e nada mais aconteceria, mas então as tábuas de madeira começaram a se afastar e mudar de lugar, até formarem uma espécie de portal em arco, a escuridão adiante. Apanhando a vela, Marlene respirou fundo e passou pelo arco, que se fechou imediatamente atrás dela. Os olhos azuis da moça só tiveram tempo de vislumbrar um enorme corredor cheio de portas fechadas, antes que uma lufada de ar frio apagasse sua vela.

Agora à frente só havia escuridão, e ela não trazia sua varinha consigo. Amaldiçoou-se por ser tão curiosa, e se perguntou como sairia dali. Novamente, pôs-se a tatear a parede, e assim foi avançando. Chegou à primeira porta e girou o trinco, mas esta estava trancada. Assim também estava a porta exatamente oposta a ela no corredor, e tantas outras. Marlene foi tentando de porta em porta, até chegar a uma que cedeu. Com o coração palpitando forte e receio do que encontraria ali, ela empurrou a porta com muito cuidado para esta não ranger.

Do interior vinha uma luz muito fraca, e ela continuou empurrando a porta para ver melhor. Porém, esta soltou um rangido alto quando já estava quase totalmente aberta, e ela prendeu a respiração, esperando algo de terrível acontecer. Mas a única coisa que ouviu foi uma voz:

- Quem está aí? – parecia ser Sirius.

- Sirius, é você?

- Marlene? O que está fazendo aqui? Como descobriu este lugar? – Sirius agora se aproximava dela com um lampião na mão.

- Pergunto o mesmo para você. Ouvi um barulho vindo dessa direção, e então quis investigar.

- Deve ter sido quando acidentalmente derrubei alguns livros... Eu descobri isto quando estávamos reformando a casa, e fiquei fascinado por esta biblioteca – ele levantou o lampião e iluminou a sala.

O lugar era repleto de livros do chão ao teto, organizados em prateleiras. Era uma biblioteca particular muito rica, e Marlene perguntou-se porque as pessoas que moraram anteriormente na casa a escondiam. Com os olhos brilhantes, apanhou um outro lampião que estava sobre uma mesa abarrotada de livros e se aproximou da estante, analisando os títulos que lá haviam.

- Não sabia que gostava tanto assim de ler – ela falou, virando-se para Sirius.

- Não gostava, até pouco tempo atrás. Após a morte de James, quis pesquisar sobre tudo: feitiços que não havíamos estudado na escola, poções, tudo o que me ajudasse a ser um melhor auror e vingar a morte de meus amigos. Passei a ler muito, e aos poucos comecei a gostar também de literatura... – ele falou, sem olhar para ela.

- Esta biblioteca é ótima e não falta quase nenhuma obra que qualquer biblioteca que se preze deveria ter... Fico imaginando o que estes outros quartos trancados guardam – Marlene sentou-se a uma poltrona a um canto com um livro na mão.

- Já tentei abri-los com a varinha, não funciona. Não sei porque iriam querer esconder um lugar assim, mas gostaria muito de descobrir o que essas portas ocultam... Bem, já estou ficando com sono, e imagino que queira ficar sozinha para aproveitar este paraíso. Boa noite – ele falou, saindo e fechando a porta atrás de si.


Marlene abriu os olhos, mas duvidou que o tivesse feito, já que não conseguia enxergar nada, além de escuridão. Tentou entender o que acontecera. A cortina do quarto em que dormia tapava bem a luz do sol, mas não completamente, e mesmo à noite havia a luz do luar. Levantou-se, e algo caiu a seus pés. Seu corpo também estava completamente dolorido, e então tudo o que acontecera durante a madrugada voltou à sua memória. Provavelmente ela ficara lendo até tão tarde (ou cedo, dependia do referencial), que adormecera sobre os livros.

Perguntou-se que horas seriam. Não havia como saber, já que ali dentro não entrava nenhuma luz. Percebendo que já estava cansada disto, ela tateou até a porta e andou o mais rapidamente possível até o fim do corredor. Chegou até a parede por onde entrara, e imaginou como faria para sair dali. Ela procurou na parede por alguma saliência como na entrada, e pressionou esta assim que a encontrou, fechando os olhos quando uma claridade que quase a cegou a atingiu.

Demorou um bom tempo até que seus olhos se acostumassem à luz, mas quando o fizeram, Marlene trocou de roupa, lavou o rosto e escovou os dentes antes de ir à cozinha. A casa novamente estava vazia, e desta vez ela sabia que Sirius havia saído sem ela. Comeu rapidamente após descobrir que eram quase três da tarde.

Ela concluiu que seria inútil tentar encontrá-lo, e tampouco estava com vontade de sair sozinha. Foi para a varanda e sentou-se na cadeira-balanço que lá havia. Marlene observou uma enorme e velha árvore que havia ao lado da casa, com apenas algumas folhas restantes. Acompanhou a queda de uma folha amarelada, que se juntou às outras no chão, e perguntou-se se não nevaria. Ela adorava neve, e geralmente acalmava as pessoas, o que seria de bom uso para ela e Sirius.

Marlene não sabia porque ele a incomodava. Não sabia porque incomodara Andrew. Também não tinha idéia de porque a namorada de Sirius ficara tão incomodada com i ela /i .

Lembrou-se da briga que eles tiveram no dia anterior, e imaginou Sirius descobrindo o esconderijo dos comensais, ou qualquer coisa importante para a missão, e isso a irritou profundamente. Levantou-se, apanhou a varinha, e saiu determinada em direção ao vilarejo. Mantendo uma distância que ela consideraria segura da floresta de pinheiros, Marlene caminhava rápido. Mas um barulho estranho veio dos pinheiros, e ela parou.

Com o coração palpitando muito rápido, Marlene parou e virou-se para os pinheiros, apurando os ouvidos. Nada. Imaginando ter sido sua imaginação, ela acelerou o passo. Ela olhou para o céu, o sol que brilhava com força no céu acalmando-a. Mas não tinha andado muito mais quando o barulho – como que de um feitiço poderoso - se repetiu. A moça respirou fundo e, antes que pudesse pensar muito sobre o que faria, apanhou a varinha e embrenhou-se entre as árvores.

Passou por várias árvores, indo sempre na direção em que ouvira o som. Os pinheiros gradualmente iam ficando mais juntos, dificultando a passagem de luz. Mas inesperadamente as árvores foram se afastando novamente, até chegar a uma clareira. Lá não havia absolutamente nenhum tipo de planta – viva, pois os poucos e ralos arbustos que haviam ali estavam chamuscados.

- O que exatamente houve aqui? Tenho certeza de que o ruído veio desta direção... – ela murmurou.

A morena olhou em volta tentando ver se havia mais alguma coisa de incomum afora os arbustos estranhamente queimados. Não parecia haver nada de estranho, então ela fez menção de tomar o caminho de volta. Marlene ouviu um uivo que a deixou com um arrepio na espinha. Ela olhou para o céu e viu que o sol já estava começando a se pôr. Olhou em volta, mas todas as trilhas que saíam da clareira pareciam idênticas, e ela não possuía um ponto de referência. Amaldiçoando-se por ter sido tão burra, ela colocou a varinha na palma da mão, pronta para executar a única coisa que poderia salvá-la agora: o feitiço dos quatro pontos.

Antes, porém, que ela pudesse dizer algo, um vulto saltou do meio das árvores e, apontando a varinha para ela, murmurou um feitiço. Marlene não teve tempo de falar ou fazer nada, e a última coisa que sentiu foi uma tontura muito forte, e depois escuridão.


N/A: Segundo capítulo xD Eu sei que só a Ayame (te adoro muito!) leu essa fic, maas.

Litxa