Pela primeira vez, Marlene acordou antes de Sirius. Ela virou-se na cama e ficou observando-o enquanto dormia, a respiração calma, o peito subindo e descendo lentamente. Imaginou o que ele estaria sonhando, pois seu rosto estava muito sereno e ele parecia alegre. Mas ela se assustou quando ele se revirou na cama e resmungou alguma coisa, e então a morena saiu rapidamente do quarto. Ela não havia percebido, mas Sirius estava acordado; ele abriu os olhos e mordeu os lábios, preocupado.


- Sirius... – Marlene começou, enquanto eles andavam lado a lado em direção à vila.

- Sim? – ele ficou apreensivo.

- Eu fiz ou disse algo de anormal ontem à noite? Quero dizer, sei que estava bêbada, mas não lembro de nada do que aconteceu entre a hora do almoço e o meu banho frio – ela falou, confusa.

- Não, nada de anormal. Apenas coisas que bêbados fazem – ele esboçou um sorriso, disfarçando.

- Ah... É que eu ando pensando em umas coisas esquisitas, e... Fiquei com medo que tivesse te falado algo sobre isso – ela olhou para o céu, que estava cinzento.

- Nada, só conversa de gente que está alegre demais, se você me entende – ele arriscou uma risadinha.

- Até tive um sonho com isso esta noite – ela comentou.

- Sobre o que?

- Acho que é muito pessoal... – ela mordeu o lábio – Ah, estou ficando cansada dessa missão. Nada acontece!

- Acontecem sim. Nós descobrimos aquela clareira, de onde vinham barulhos estranhos, e... Eu mudei um pouco, acho – ele de algum modo parecia envergonhado.

- Como assim?

- Alguns sentimentos que eu tinha, em relação a muitas coisas – sem perceber, os dois haviam parado, e estavam conversando um de frente para o outro.

- Pra mim também mudou muita coisa...

- E em tão pouco tempo!

- É... – agora eles estavam a centímetros um do outro.

Sirius e Marlene fecharam os olhos e se aproximaram lentamente, mas de repente o som estranho que Marlene ouvira no outro dia se repetiu, na floresta, à direita deles. Mas, desta vez, outro barulho também foi ouvido: um grito. Um grito alto e agudo, um grito de pânico.

- Vamos! – Sirius nem pensou duas vezes, puxou-a pela mão, com firmeza, para o meio dos pinheiros que agora estavam se tornando conhecidos até demais.

Eles correram o mais rápido possível que as árvores lhes permitiam, e estas arranhavam os rostos de ambos e lhes rasgavam as roupas, mas não se importavam com isso. Finalmente chegaram à clareira, e o que viram ao mesmo tempo causou certo alívio, mas também terror. Lá havia um filhote de dragão verde-galês, que já estava bem desenvolvido.

- Os nossos comensais eram um dragão? – Marlene não podia crer.

- Tem uma criança ali! – Sirius apontou para uma garotinha de aproximadamente nove anos, encolhida contra o tronco de um pinheiro e tremendo muito.

- Temos que ajudá-la! – Marlene quis sair de trás das árvores, quando viu que o dragão pretendia avançar contra a menininha.

- Espere, não faça movimentos bruscos – Sirius impediu-a.

- Não vou ficar parada assistindo aquele dragão fazer mal à menininha! – ela exclamou, indignada.

- Não estou sugerindo que façamos isso – Sirius ergueu a varinha – Estupefaça! – falou, apontando para o dragão.

Em um dragão adulto, este feitiço não faria nem cócegas, porém o que estava à frente deles era um filhote ainda. Ele cambaleou, completamente tonto e sem ação, e Sirius aproveitou o momento.

Ele correu até a garotinha, pegou-a no colo e saiu de lá rapidamente, puxando também Marlene. Eles andaram muito rápido, as árvores os arranhando ainda mais, e finalmente saíram da floresta. Sem parar para sequer olhar o que havia acontecido, eles correram desembestados na direção do vilarejo, Sirius segurando a chorosa menina no colo. Quando eles já estavam bem longe, perto do pequeno armazém da vila, pararam. Ele colocou-a no chão, arfando.

- Mamãe! – ela choramingou, quando uma mulher se aproximou. Ela correu e abraçou a filha, ao ver que ela chorava e estava muito assustada.

- O que houve? – a senhora perguntou a eles, muito preocupada.

- Há um dragão na floresta, sua filha estava quase sendo atacada por ele quando chegamos... A senhora tem uma lareira que eu possa usar para avisar o Departamento para Controle e Regulamentação das Criaturas Mágicas, no Ministério da Magia? – Sirius falou rapidamente, esquecendo a cautela, por alguns instantes.

- Claro, claro... – ela disse, assustada e confusa, indicando a porta de sua casa.

Sirius e Marlene caminharam a passos largos até lá. Ele localizou a lareira rapidamente e foi até lá, pegando um punhado do pó de flu que havia ao lado desta e jogando no fogo aceso. Quando este se tornou verde, ele enfiou a cabeça entre as chamas.

- Ministério da Magia, Nível Quatro! – ele falou, alta e claramente – Lance, escuta, temos uma emergência – Marlene ouviu-o falando com alguém do outro lado – Um filhote de dragão verde-galês solto na floresta quase atacou uma criança, e... – ele começou a dar as informações, e então ela se distraiu com algumas fotos sobre o console da lareira.


- Estou com frio – Marlene encolheu-se, quando estavam voltando para casa.

- Pudera, suas roupas estão completamente rasgadas. Você gostava muito delas? – Sirius observou os inúmeros rasgos nas roupas de Marlene, que deixavam à mostra vários pedaços de sua pele. Então ele tirou seu casaco, que era mais grosso e estava menos rasgado, e colocou-o sobre os ombros da morena.

- Não... Eu não traria minhas melhores roupas para o campo. Obrigada - ela corou ligeiramente.

Marlene não pôde deixar de observar, novamente, que ele era bem musculoso. Tanto, que ela podia ver seus músculos através da blusa cinzenta que ele usava. Ele virou-se para olhá-la, e ela rapidamente desviou o olhar.

- Acha que já capturaram o dragão? – a morena estava olhando para a floresta de pinheiros.

- Com certeza. Eles são muito eficientes, principalmente em casos como este. Enquanto falava com Lance, chefe do departamento, o andar estava bastante movimentado, e antes que me despedisse dele, representantes já haviam aparatado aqui.

- E o que acontece agora? Quero dizer, nossa missão era descobrir se havia comensais aqui, e, se sim, ver o que estavam tramando – ela comentou.

- Provavelmente voltaremos para casa amanhã ou depois, para não levantar muitas suspeitas nos moradores. E então nos darão outra missão...

- Ah... – ela abaixou a cabeça. Marlene recriminava-se por isso, mas queria ficar mais tempo perto de Sirius. Desejou que, ao menos, a próxima missão fosse com ele, mas duvidava muito disso.

- Mas esqueça isso...

- Provavelmente foi melhor que aqui não houvesse comensais, não é? Essa vila é tão calma, parece ser até em outro mundo. Seria triste se começassem a fazer maldade num lugar assim – Marlene olhou para o céu – Acho que vai nevar.

- Como você sabe? – ele olhou espantado para ela.

- Eu sinto que vai. Sei lá, desde pequena, adoro neve. Aprendi a praticamente prever quando ela vai cair do céu.

- Acho melhor você tomar um bom banho e cuidar desses arranhões – ele aconselhou, quando entraram em casa.


Marlene estava mergulhada em completa escuridão. Ela não conseguia ver absolutamente nada, e sentia que poderia até mesmo cortar aquele denso breu. Como um lampejo de esperança, uma luz pálida piscou ao longe, ao leste. Ela levantou-se e viu a luz piscar mais uma vez. Marlene começou a andar em direção a ela, temendo que tivesse morrido, ou algo do gênero. Mas, agora, uma força estranha a impulsionava sempre para a frente, obrigando-a a avançar na direção da misteriosa luz.

Agora ela se aproximava rapidamente, como se deslizasse sobre rodas. A luz aumentava cada vez mais, e ela pôde ver uma espécie de passarela. Quando chegou lá, viu Sirius parado no outro extremo, vestindo um terno preto, com uma rosa na lapela do paletó. Ela tentou chamá-lo, mas sua voz não saiu. Então Marlene pôs-se a andar na direção dele, mas a cada passo que avançava ele parecia se afastar mais. Ela começou a correr, os passos ecoando na escuridão ao seu redor. Mas Sirius continuava a se afastar dela.

- Sirius! – seu desespero agora era tão grande que ela conseguiu soltar um grito fraco.

Ela corria, e Sirius ia embora.

- Sirius! – ela chamou de novo, mais alto.

Ele não a ouviu.

- Sirius! – ela quase berrou.

Black agora era apenas um pontinho na imensa escuridão.

- SIRIUS! – ela berrou com todas as suas forças, caindo no chão.

Risadas começaram a ecoar naquele estranho lugar, e ela olhou em volta. Uma loira apareceu, aproximando-se dela.

- Oh, querida! Você realmente achava que conseguiria tirá-lo de mim? – Marlene reparou que a mulher era muito bonita, e estava com um vestido de noiva, segurando um buquê, e com um véu na cabeça.

- O q-que?

- Ele vai se casar comigo, e não com você. Acostume-se com isso – ela riu alto – Serei a senhora Amber Black daqui a alguns minutos, e você está presa aqui!

- Mas... – Marlene começou, mas Amber havia desaparecido.

Ela pôs as mãos na cabeça, desesperada. Precisava sair dali! Precisava dizer a Sirius que o amava!

- Então é isso? – ela murmurou pra si mesma – Eu amo Sirius Black?

- Marlene – uma voz masculina foi ouvida.

Ela virou-se, esperançosa, mas era Andrew que estava ali.

- Está tudo acabado entre nós. Não acho que fomos feitos um para o outro, não devemos nos casar. Por favor, devolva o anel de noivado – ele estendeu a mão.

Marlene olhou para a sua mão e percebeu que o anel não estava lá.

- Andrew, eu... – ela levantou a cabeça.

- Apenas me devolva depois. Adeus, Marlene McKinnon – e então ele se foi.

Ela sentia-se enjoada. Aquele lugar a estava sufocando e tudo o que estava acontecendo era muito estranho. Levantou-se e começou a andar em uma direção qualquer. A uma certa altura, ela bateu em algo sólido. Imaginando ser a parede, ela tateou desesperadamente no escuro, até sentir uma maçaneta fria entre seus dedos.

Ela respirou fundo e girou a maçaneta.

Marlene acordou suando frio e arfando. O que fora aquilo? Que tipo de sonho assustador e estranho fora aquele? Ela levantou-se da cama e foi se olhar no espelho, estava com os cabelos empapados de suor e o rosto branco como papel.

"Será mesmo que vou perder Andrew para sempre?" /i , ela pensou. i "Pior ainda, será que perderei Sirius para sempre? Eu o amo... Contra a minha vontade, mas amo" /i , a morena ligou o chuveiro e começou a lavar os cabelos castanhos. i "Por que não escolhemos por quem nos apaixonar?", ela apertou o sabonete com raiva, e este pulou de sua mão para o chão.

- Preciso dizer a ele o que sinto... – ela murmurou baixinho.


Marlene acordara cedo de novo naquela manhã, e sentiu o cheiro inconfundível de neve. Após tomar o café da manhã, ela se agasalhou bem e saiu para a linda paisagem branca.

Ela respirou fundo e pisou no gelo branquíssimo. Pelo jeito, havia nevado muito e durante a noite inteira, pois a camada de neve sobre o solo estava bem grossa. A morena sorriu. A única coisa que a poderia deixar realmente feliz e fazê-la esquecer momentaneamente da agonia por que estava passando era aquilo.

Abriu os braços e girou, como fazia quando era criança, apenas aproveitando o momento.

- Você estava certa – ela olhou para a porta, e Sirius estava lá.

Marlene engoliu em seco. E logo em seguida se recriminou. Ela nunca fora assim, porque o estava sendo agora?

- Sempre estou certa sobre neve.

Os dois ficaram lado a lado, no meio da pálida paisagem, apenas observando o horizonte.

- Marlene... – Sirius virou-se de repente.

Ela olhou para ele, esperançosa.

- Nada... – ele perdeu a coragem, e ela murchou.

Eles continuaram olhando para o horizonte, como se esperassem ver o pote de ouro no fim de um arco-íris que nem ao menos estava lá.

- Sirius... – Marlene tomou fôlego.

Ele virou-se rapidamente para ela.

- Esquece... – ela mudou de idéia, e o moreno se decepcionou.

Os dois estavam se sentindo em um livro de romance "água-com-açúcar". Como adolescentes que não conseguem falar o que sentem. Marlene achou isso muito engraçado, e começou a rir. Sirius olhou para ela, e começou a rir também.

Eles começaram uma crise de risos que não podiam parar. Eles gargalhavam alto, mais e mais. Marlene se dobrava de tanto rir, e a certa altura chegou a cair no chão, sobre o tapete branco de neve. Ela segurava a barriga, que doía. Ao ver isso, Sirius riu mais ainda, também com as mãos na barriga. Ele não se lembrava exatamente da última vez que rira assim, mas tinha certeza de que fora nos tempos de escola. Ele tinha os olhos cheios de lágrimas, mas não de tristeza, e quase não conseguia respirar.

Agora mais do que nunca eles pareciam dois adolescentes, e isso só serviu para diverti-los ainda mais. Após bons minutos rindo tanto que chegaram a ficar vermelhos, conseguiram parar.

Marlene levantou-se e limpou as roupas, ajeitou o cabelo e secou os olhos. Sirius também se recompôs. Eles ficaram se encarando por alguns segundos, sorrisos nos cantos dos lábios. De repente, flocos de neve muito brancos começaram a cair do céu, sobre suas cabeças. Ela olhou para cima, e depois para Sirius, e tomou aquilo como uma espécie de sinal.

Se ela não fizesse o que tinha que fazer naquele momento, se arrependeria pelo resto de sua vida, então, sem desviar o olhar do dele, aproximou-se. Seus rostos estavam agora a centímetros um do outro, mas Marlene não fez nada. Não fez, pois Sirius a puxou com firmeza, agarrando-a pela cintura e colando seus lábios. Ela definitivamente não esperava por aquilo, e por alguns segundos ficou sem reação.

Mas logo em seguida ela voltou a si, e, envolvendo seu pescoço com os braços, colou seus corpos ainda mais, aprofundando o beijo. Algo neste dizia a ela que Sirius queria a mesma coisa que ela, pois os dois pareciam quase desesperados por isso. Ela sentia arrepios quando sentia o toque de suas mãos em sua cintura.

- Nunca pensei que faria isso – ela falou, entre beijos.

- Nunca pensei que você faria isso – ele disse.

- A neve estava me mandando sinais, e além do mais, ando querendo fazer isso há um tempo...

- Eu também. E quanto a Andrew?

- Não quero pensar no Andrew agora, quando voltar eu resolvo isso. E Amber?

- Terminei com ela...

- Quê? Quando?

- No dia em que te ataquei sem querer, na floresta...

- Por que? – Marlene precisava saber, simplesmente precisava.

- Oras, por que - ele revirou os olhos – Por sua causa, não é óbvio? Além do mais, eu não queria continuar numa relação vazia.

Ela ficou pensativa por alguns instantes, e abraçou-o mais forte.

- Vem – Marlene puxou-o pela mão, indo em direção à casa.

- Você é rapidinha, hein?

Ela o olhou de lado.

Eles andaram pela sala, subiram as escadas, e entraram no quarto. Sirius sentou-se na cama, e Marlene se dirigiu à sua mala.

- Ei, eu estou aqui – ele falou.

- Fica quieto – ela sorriu, apanhando o que queria: a carta de Andrew.

Seus olhos azuis varreram a carta rapidamente, e um enorme sorriso se abriu em seu rosto.

- Nunca pensei que ficaria tão feliz com meu noivo terminando tudo comigo por carta, e ainda pedindo o anel de noivado de volta! – ela quase pulou na cama, tão feliz que estava.

Sirius pegou a carta da mão dela e leu.

- Que cara mais sem coração... Terminar tudo por carta! E pedir o anel de volta é o cúmulo.

Marlene olhou para sua mão, lembrando-se do estranho sonho ao não encontrar o anel ali.

- Não estou com o anel de noivado... Onde coloquei?

- Sei lá, depois você procura – Sirius a abraçou e beijou novamente.

Os dois envolveram-se mais uma vez em um intenso beijo, e, enquanto a neve caía lá fora, parecia só existir os dois no mundo. Eles esqueceram-se de tudo por alguns momentos: Amber, Andrew, Lily, James, a Ordem da Fênix, o mal que reinava, esqueceram todos os problemas que pudessem existir.

Aquele momento era apenas dos dois. Sirius e Marlene, juntos, como se só isso importasse.


N/A: E... Acabou! É, como a fic era pra um challenge eu fiz uma oneshot bem curtinha xD Ayame, obrigada mais uma vez por ter paciência pra ler a fic, vou responder sua review daqui a pouco... Te adoro!

Litxa