Bella's POV

Havia muita pouca luz quando abri os olhos naquela manhã, eu deduzi que era muito cedo e nem mesmo Charlie estaria acordado. Caminhei na ponta dos pés até o minúsculo banheiro, escovei os dentes e tomei um banho demorado.

Enquanto me vestia, passei a mão na cabeça e senti a bandagem que cobria os pontos costurados ali, tirei o curativo velho e toquei a área onde meu cabelo estava curtinho agora. Doeu um pouco como eu esperava, mas isso passaria um dia, viraria uma cicatriz logo, meus olhos pousaram então numa outra, não era recente, mas muito curiosa, estava no meu braço e tinha a forma de uma meia lua em relevo, quando a toquei era fria e quase transparente em relação ao tom da minha pele.

Esqueci a pomada que segurava e fitei o desenho estranho. De onde essa viera? Lampejos de lembranças passaram na minha cabeça; espelhos, a voz de Renée assustada, a família de Edward, fogo e dor, olhos vermelhos que queriam aplacar a sede por meu sangue.

Caí sentada no tapete do banheiro. Aquilo fora demais para mim. Coloquei a cabeça entre os joelhos e esperei que os objetos ficassem no seu lugar novamente.

- Se acalme Bella. Você sabe que é só uma lembrança idiota. Talvez nem isso, pode ter sido um sonho, um pesadelo do passado, devem ter me contado histórias como essa e eu criei as imagens para visualizar melhor, não pode ter sido real.

Eu procurava uma boa razão para não gritar de medo.

Recompus-me enquanto me convencia que ninguém quisera meu sangue um dia. Era patético e finalmente me levantei, coloquei a gaze nova no lugar e desci.

Estava frio como sempre, mas não chovia. Fiz o café para Charlie e preparei um cereal pra mim.

Comi rapidamente e procurei algo para fazer. A casa em geral precisava de uma boa faxina, desde que eu voltara, há duas semanas, Charlie se esforçava para cuidar da casa e de sua filha, mas ele não tinha muita aptidão para tarefas domésticas.

Enquanto organizava a sala ouvi um pigarro atrás de mim.

- O que tá fazendo Bella? – perguntou-me um Charlie sonolento.

- Arrumando um pouco.

- Bella, Carlisle disse que podia se esforçar? – seu tom de voz era ao mesmo tempo de preocupação e autoridade.

- Tô fazendo tudo devagarzinho pai, não vou me machucar jogando essa pilha de jornais lá fora.

- OK. Mas pare quando se cansar.

- Claro. – tranquilizei-o.

Meia hora depois ele saiu para o trabalho.

Minha cabeça começara a pesar então como prometi parei de limpar, deitei no sofá com as pernas cruzadas para cima e deixei minha mente vagar.

Eu não estava pensando naquilo, mas de repente estava lá.

A imagem do desconhecido voltara a tomar meus pensamentos. Ele era realmente bonito, como Edward, mas era óbvio que não tinham mais nada em comum. O que mais marcava nele eram seus olhos penetrantes de um vermelho vivo e um sorriso que arrepiava a espinha. De repente minhas mãos estavam tremulas e tentei me livrar daquele rosto agourento na minha cabeça. Quem era ele?

Ficar tanto tempo em casa estava me fazendo pensar demais, talvez fosse hora de dar uma volta. Mas eu sabia que não tinha permissão para fazer isso sozinha.

A campainha tocou, eu não esperava visita, pode ser o carteiro, pensei.

Andei até a porta e Edward estava lá, abriu um sorriso torto capaz de derreter meu coração.

- Oi. Bom dia, você dormiu bem?- disse ele com sua voz aveludada

- Muito bem.

- Que ótimo.

- Ah... Você não deveria estar na escola? - me perguntei o que ele faria na porta de casa as sete e meia da manhã.

- Eu estava sentindo sua falta. Não é a mesma coisa sem você por lá.

- O jeito como fala me faz pensar que sou muito interessante.

- Você é para mim. – seus olhos que se assemelhavam há ouro líquido transmitiram uma sinceridade que me abalava de certa forma. – E para as outras pessoas. Pelo menos quando você chegou á Forks era. Seu nome estava em quase todas as mentes da escola. Era perturbador saber sobre você sem ainda te conhecer Bella.

Fez-se uma pausa. Depois ele continuou com o mesmo sorriso nos lábios perfeitos.

- A maioria deles tinha a impressão errada.

- Como pode saber o que eles pensavam? Além de vampiro você lê pensamentos? – bufei

- Ah... – meio sem jeito ele passou a mão no cabelo desgrenhado me fazendo pensar, concluí que tinha adivinhado sem querer.

- Não é verdade.

- Devo admitir que sim.

- O que estou pensando então? – fechei os olhos e sorri com o que viera a minha mente.

- Eu daria um milhão de dólares para saber.

- Como assim? – abri os olhos, curiosa.

- Acontece que sou capaz de ler todas as mentes do mundo com exceção de uma, a sua Bella.

- O que? O que há de errado comigo?

- Não há nada de errado com você. Você só é muito especial.

Edward era um bom... amigo, eu não tinha dúvidas, estava sempre tentando ser gentil comigo, tanto que me deixava constrangida.

- Bella, como eu não vou à escola hoje... Quer dar uma volta por aí?

- Tem certeza que seu dom não funciona comigo? Era exatamente o que eu queria fazer hoje.

- Não, eu realmente não posso saber o que você pensa. Hã... é que alguns de nós, digo da minha espécie tem certas habilidades ou como você colocou um dom. Alice também tem um. Ela pode ver o futuro, não funciona muito bem a não ser que a pessoa tome uma decisão, e ela viu você saindo da casa de Charlie pra dar um passeio.

Será que ela tinha visto que eu não queria ir sozinha? Por isso ele estava aqui?

- Eu só quero ser sua companhia. – ele parecia meio nervoso ao me pedir, mas é claro que o convite era irrecusável.

- Eu aceito.

Então ele relaxou.

- Aonde quer ir?

Eu não sabia direito e pensei por alguns segundos antes de responder.

- Queria que me mostrasse seu lugar preferido em Forks. Pode ser?

- Eu não sei se você pode ir tão longe. Mas podemos tentar.

Eu entrei para apanhar um casaco, caminhei pela entrada de carros tomando cuidado para não escorregar no gelo fino que se acumulara no chão. Só depois de passar meu obstáculo que percebi boquiaberta nosso meio de transporte.

- Isso é um volvo. – apontei incrédula

- Foi o que me disseram na concessionária.

- Nós vamos andar num volvo?

- Eu sou bom motorista, não se preocupe. – disse abrindo a porta do carona, ele foi muito rápido ao dar a volta, pois assim que bati a porta, ele já sentara ao meu lado e as mãos estavam firmes no volante.

Ouvimos música clássica enquanto ele dirigia. Seguimos até o fim do asfalto parando quando a trilha estreita não nos permitia avançar.

Parecia que estávamos no meio do nada, mas deveria ter um bom motivo para estarmos ali e eu estava ansiosa para ver o que ele ia me mostrar.

- Bella, como se sente?

- Bem.

- Nós vamos andar um pouco. E isso pode te cansar.

- Não tudo bem. Vamos em frente.

- Me avise se quiser parar.

Assenti com a cabeça. E começamos uma caminhada. Eu era muito lenta e o estava atrasando.

- Tenho certeza que se eu não estivesse aqui você já teria chegado. – falei enquanto ele me levantava por ter tropeçado numa raiz.

- Blasfêmia. Mas se você acha isso, posso te carregar.

- Não, não, eu posso andar.

Assim que dei dois passos tropecei novamente.

- Não posso devolver você para Charlie toda cheia de arranhões e coberta de lama. – sua voz de seda me convenceu e ele abriu os braços esperando que eu subisse.

Sem ter certeza se deveria, empoleirei-me no seu pescoço e prendi as pernas na sua cintura.

- Você realmente quer fazer isso? – perguntei hesitante

- Não se preocupe Bella, vamos chegar num instante e você não vai precisar se esforçar.

- Só não quero ser um fardo.

- Não é um fardo Bella. Não mesmo.

Ele andou pela floresta fechada tão precisamente, ele conhecia muito bem o caminho. Eu estava tão próxima, sentia sua pele fria a poucos centímetros de mim, ele exalava aquele perfume único que me deixava numa espécie de frenesi.

Vampiros são rápidos, eu pensava, e fortes com certeza. Enquanto estávamos no carro ele me falara mais das habilidades que alguns como ele, Alice e Jasper possuíam, teoricamente Edward e Carlisle acreditavam que era como talentos aprimorados que possuíam quando humanos.

- No que está pensando? – ele falou de repente.

- No seu dom. No de Alice.

- É um pouco bizarro, quer dizer é o bizarro no bizarro. – ele riu

- Não penso assim. Deve ser muito útil pra vocês.

- Já salvou minha família muitas vezes.

- Tipo do que?

- Bella, eu não quero assustar você. E além do mais chegamos.

Atravessamos mais um monte de samambaias para entrar numa pequena campina. Era um lugar de tirar o fôlego. Edward me pôs no chão, sem querer perder nada, observei os detalhes que a natureza tinha composto ali.

O chão estava forrado de flores silvestres, parecia um tapete colorido. Quis simplesmente me deitar ali e olhar para o céu.

- O que achou?

- É maravilhoso Edward.

- É uma pena que o tempo esteja nublado, quando o sol toca essa campina fica tudo muito diferente.

- Você tem razão de escolher esse como seu lugar preferido.

- Eu tenho boas recordações daqui. Ótimas na verdade.

Não resisti e sentei-me na relva úmida. Ele fez o mesmo.

- Você parece um anjo. – não pude deixar de dizer.

- Anjo? Não Bella, está enganada. O que vê, é só um chamativo. Anjo, só se for você.

Revirei os olhos fazendo pouco caso do seu comentário.

- Você é uma garota boa Bella. Tem um coração tão bonito, puro.

- Opa, pode parar. Eu não sou tudo isso.

- É muito melhor do que eu, não tenha dúvida, eu só faço o possível para não ser um monstro.

- Você não é um monstro, não repita isso.

- Viu o que eu disse sobre você, só uma pessoa com uma alma tão bonita como a sua diria isso.

- Digo a verdade, o que eu vejo.

- Não se prenda a aparências Bella, elas não dizem o que realmente somos.

- Você é bom Edward, é sim.

- Não faça julgamentos precipitados.

Deixei o assunto morrer porque vi que não chegaria a lugar algum com ele.

- Sabe o que eu estava pensando agora pouco? – perguntei sem olhar para ele

- Não. Me diga, por favor.

- Eu pensava em Phoenix, nas praias, em como as palmeiras ficavam quando o sol tocava em suas folhas. Mas isso aqui não tem comparação. Eu ficaria aqui por horas.

- Eu não trocaria esse momento por nada. - ele disse passando uma pedra agilmente por entre os dedos. Eu não conseguia parar de olhar para ele.

Edward era a perfeição, como um deus do olímpico ou algo assim. Sua pele de mármore estaria cintilando como diamantes se o sol estivesse brilhando agora. Tão bonito que por segundos eu esquecia que deveria respirar.

Aquele lugar era perfeito, estar com Edward era como um sonho ou como presenciar uma mágica. Sim era um momento mágico e eu me permitia acreditar em magia, porque esse mundo que eu descobrira era todo feito dela.

No caminho de volta eu fiquei olhando a chuva cair devagar pela janela do volvo prata, pensando em como eu deveria ter sorte de estar voltando pra casa de carona com um vampiro. Com ele.