- Está pronta? – a voz confiante de Edward não era o suficiente para me acalmar.

Fora uma verdadeira batalha convencer Charlie a me deixar voltar pra escola, eu não estava curada, mas não queria perder o ano.

Edward tinha a mão firme no meu cotovelo ao passarmos pelo estacionamento da Forks High School, me guiando pela multidão curiosa, no entanto chegar ao estacionamento da única escola da cidade com alguém absolutamente lindo nada ajudava com o meu plano de parecer invisível.

Respirei fundo e dei uma boa olhada no perímetro, não reconhecia todos os rostos, mas sabia que eles me conheceriam. Os olhares recaiam para minha cabeça e comentários do tipo "ela voltou" eram frequentemente utilizados, os professores me olhavam com encorajamento e eu acabei puxando o capuz do casaco, escondendo o máximo que podia do curativo, algumas mexas do meu cabelo caíam favoravelmente no meu rosto cobrindo minha face cada vez mais vermelha.

- Claro – o nervosismo era visível em minha voz.

- Se quiser pode terminar o semestre em casa, eu ajudo você com o dever. – a proposta era tentadora, bem melhor do que ser encarada por trezentos rostos curiosos.

- Estou pronta para o meu suicídio social.

- Bella, eles conhecem você.

- Eles me conhecem com você?

- Se surpreenderia muito se dissesse que sim?

- Eu ficaria perplexa. Afinal, sou tão comum quanto todos aí e ainda assim você está aqui.

- Ah Bella, eles estão até sendo bem legais, pensei que chegaríamos aqui e veria um cartaz de boas vindas ou uma parada em sua homenagem.

- Não seja ridículo, eu sou uma anônima, só mais uma na chamada.

- Bella, você se subestima tanto. Você é a filha do xerife, que foi criada em outro estado,você é muito interessante para eles e lembre-se eu sei do que estou falando, posso ler o que estão pensando bem agora.

Ele me levou até a secretaria, entreguei a declaração de que estava apta a voltar para a escola, e ele me acompanhou até a primeira sala, infelizmente, nossas aulas não eram todas iguais e metade do dia eu tive que enfrentar sozinha.

No almoço, eu fiquei a vontade sentada com Angela Weber, Mike tentava a todo instante me oferecer alguma coisa, perguntava se estava com fome, sede ou com frio. Eu tinha impressão que somente Jessica não estava se esforçando tanto para me agradar, eu agradeceria a ela mais tarde. A mesa dos Cullen estava vazia, e eu só sabia que era a mesa deles porque ninguém se atrevia a sentar nela, a maioria sempre desviava.

- Você viu Alice hoje? – perguntei a Angela que estava distraída.

- Alice ou o Edward? - Jessica se precipitou – Parece que foram almoçar fora Bella.

- Eles devem voltar quando o sinal tocar – Angela disse suavemente, sorri para ela.

- Então Bella... Como está sendo o seu primeiro dia de novo na Forks High School? – Mike esticou-se o máximo na minha direção, ansioso pela minha resposta.

- Muita matemática. – respondi segurando a lata de refrigerante

- É uma chatice... Mas amanhã vai ser melhor, educação física!

- Eu acho que vou ficar só na arquibancada...

- Bom você pode torcer por nós, a temporada vai começar logo.

- Claro. – sorri, bebendo um gole da soda.

No final do dia segui obediente até o volvo, esperando a minha carona, comecei a cogitar a ideia de ir de ônibus até que pudesse dirigir outra vez, não parecia certo usar Edward como motorista particular todos os dias.

- Bella! – senti os braços frios e pequenos de Alice me abraçando por trás, tirei os fones do ouvido. – Seja bem vinda! – ela cantarolou.

- Não te vi hoje cedo Alice...

- Eu e Jasper nos atrasamos um pouco... Mas me diga, se divertiu?

-Tudo deu certo – respondi bem rápido e acenei para Jasper que observava a três passos de nós. – Ah... cadê o Edward?

- Foi mais cedo para casa.

- Por quê? Aconteceu alguma coisa?

- Shh.. Bella, meu irmão só quer fazer algo por você hoje.

- Alice... – Jasper falou pela primeira vez

- Eu não estraguei a surpresa Jazz, estou me comportando muito bem até.

- Alice, o que? Por que ele tá se preocupando tanto assim...

- Bella, você pode parar com isso e entre no carro, estamos indo para casa agora.

- Casa? Como assim? A sua casa?

- É Bella, lá mesmo. - Na casa dele? Eu? Tentei argumentar com Alice, não tinha necessidade ou motivo para eu incomodá-los lá... Afinal era o refúgio deles, como Edward me dissera, eu me sentia uma invasora.

Abandonamos a estrada principal de Forks indo para uma rua menor, no meio das árvores, eu ficava me perguntando se conseguiria soltar o cinto, abrir a porta de maneira rápida e saltar...

- Bobinha, a casa já é sua Bella, todos nós a adoramos! – ela disse, franzindo o nariz de fada.

Eu não estava preparada para encarar aquilo, eu mal entendia porque eles gostavam tanto de mim, como poderiam me querer assim tão perto... Então a casa surgiu, nada parecido com o que já havia visto, era ampla e clara, as paredes de vidro, uma decoração e arrumação impecáveis.

- Não é real. – foi o que consegui dizer. – Quer dizer é tão bonita...

Alice segurou minha mão e me levou para dentro, retirou meu casaco e disse para que eu ficasse a vontade, depois sumiu com Jasper para o andar de cima. Sentei-me no sofá e olhei ainda deslumbrada para os detalhes, para as peças sofisticadas que enfeitavam a sala, algumas modernas como a televisão e outras muito antigas, como uma caixa minúscula de mogno talhada a mão.

- Oi... – minha cabeça virou-se automaticamente e sorri timidamente para Edward.

- Oi...

- Você parece meio tensa...

Ajeite-me melhor no sofá, estava rígida na mesma posição em que permanecera no carro, a coluna torta, as mãos apertando a mochila no colo.

- Er... meio diferente aqui...

- Os calabouços ficam nos fundos. Chama menos atenção. - ele sorriu

- Foi o que pensei – e ri

- Mas, falando sério, se sentir algum medo de ficar aqui, no meio de uma família de vampiros, me diga que te levo de volta.

- Eu não tenho medo de vocês – falei como se ele me tivesse ofendido – Só acho que eu não mereça tanta confiança...

- Você não se convence não é... Talvez se eu fosse mais específico...

- Ser sua amiga é a melhor coisa que já me aconteceu...

- Amiga? – ele me deu aquele sorriso torto incrível – Tudo bem... Alice não lhe disse por que lhe convidei para vir até minha casa hoje, disse?

- Ela se comportou muito bem Edward, não deu um pio.

- Às vezes a baixinha me surpreende... Vem comigo. – ele estendeu uma mão para mim e me levantei largando a mochila no sofá.

Edward me levou até a cozinha, havia um espetacular jantar me esperando.

- Eu queria agradar a minha amiga hoje...

- Não precisava Edward, o que eu posso fazer por você... eu não tenho nada para lhe dar...

- Você não precisa me dar nada. – ele fez uma pausa meio longa - Bella, eu não consigo não me culpar pelo que aconteceu a você.

Ele me deu um beijo onde o curativo estava fixo.

- Edward, não... que idiotice, acidentes acontecem...

- Mas você só saiu da casa do cachor... digo do Black por minha causa... ele me disse no hospital... Eu sinto tanto Bella.

- Eu sinto mais... nunca mais diga isso Edward, eu odeio ver você sofrer principalmente quando o motivo sou eu.

Edward fez uma cara como que dizendo que eu estava sendo patética, então eu parei de falar, eu era a convidada e estava me comportando como uma mal agradecida. Respirei fundo, me recompondo.

- Tô feliz pelo convite Edward. Significa muito.

- Não quero estragar seu jantar... Por favor, coma. Eu fiz pra você.

Ele me serviu e me observou comer, depois subimos até seu quarto. Ele me mostrou os cds preferidos, e deixou tocar um que reconheci por causa da minha mãe.

- Senhorita Swan, você quer dançar?

- Se eu disser que tenho dois pés esquerdos...

- Daremos um jeito. – ele apoiou uma mão na minha cintura e me conduziu, e eu errei todos os passos, mas ele foi paciente e sem desistir me segurou até que a música acabasse.

- Você estava maravilhosa.

- Até parece...

- Gostou de passar à tarde comigo Bella?

- Tem como não gostar...

- Então vem, antes de te levar para o Charlie, quero que veja algo...

Fomos até uma sala com um piano magnífico, eu não conseguia parar de me surpreender com Edward.

Ele começou a tocar uma melodia, então percebi que já a conhecia, havia a escutado dezenas de vezes, estava no disco que eu nunca tirava do meu CD player.

- Essa é a sua canção de ninar. Eu fiz pra você, um pouco depois que te conheci.

- É a música mais bonita que eu ouvi na vida, obrigada.– e as lágrimas inundaram-me os olhos, deixando a vista borrada.

- De nada. – ele beijou meus cabelos com carinho, eu não queria ir embora...

Outra vez ele me levava para casa no seu carro, as luzes na cidade já haviam sido acesas, a chuva recomeçara, mas Charlie ainda não havia voltado, parecia estar fazendo um turno extra.

Edward me deixou na varanda, por impulso, me estiquei até seu rosto e beijei-o na bochecha, ele pareceu satisfeito e um lindo sorriso se pendurou nos seus lábios enquanto sentia o rubor me pegar de novo.

- Tenha sonhos bonitos, Bella.

- Tome cuidado na estrada, parece que o tempo vai piorar.

Ele riu.

- Não vai. Na verdade amanhã o tempo vai estar até bom.

- Tchau... – acenei e ele foi descendo a escada da entrada.

Atrapalhei-me com a chave que caiu duas vezes antes de encontrar a fechadura. Bati a porta, e um sorriso não conseguia deixar o meu rosto... eu estava me sentindo tão bem e feliz.

A casa estava escura e quase sombria sem Charlie andando de um lado para o outro, deixei metade de uma lasanha semicongelada no forno para ele e fui fazer o dever, demorei meia hora para fazer uma composição descente sobre a guerra civil e outra meia hora para resolver alguns cálculos quilométricos. Por fim decidi que não esperaria Charlie e fui para a cama.

Eu deixara a janela aberta e agora sentia o vento chicotear no meu rosto, joguei o cobertor por cima da cabeça para diminuir o frio, eu não vou me levantar, resmunguei pra mim mesma. Repassei o meu dia mentalmente, a escola, todo o pessoal, a casa dos Cullen, e Edward, sorri como se o estivesse vendo descer as escadas da linda casa de paredes de vidro outra vez, indo diretamente para mim.

Então ouvi algo no lado mais escuro do meu quarto, e senti como se alguém estivesse me vigiando, tentei adaptar meus olhos na escuridão, foi quando o ar gelado trouxe pra mim uma fragrância doce que me hipnotizava, eu já deveria estar sonhando para sentir o aroma inconfundível de Edward tão próximo.

- Volte a dormir Bella. – a voz gentil sussurrou na escuridão.

- Se você está aqui eu já estou dormindo... –concluí, embora sua risada parecesse bem real. - Amanhã, na escola vou contar ao outro Edward que você andou me espionando. – eu disse sonolenta demais e fazendo uma força excessiva para manter os olhos abertos.

- Bella, amanhã eu não vou à escola.

- Por que? – de repente fiquei mais alerta.

- Lembra, lhe falei que o dia vai estar bom amanhã, seria um desastre se as pessoas nos vissem na luz do sol.

- Então vai me deixar sozinha?

- Não estarei tão longe assim. Só há alguns quilômetros de distância.

Sentei-me na cama, já estava totalmente acordada e como ele não falou mais, imaginei que tivesse mesmo sonhado, o que seria bom, pois o veria na manhã seguinte, o dia todo.

- Que foi? – a voz aveludada me surpreendeu, estava mais clara agora.

- Por que está escondido aí?

- Ah, então agora você sabe que está acordada? Eu não queria atrapalhar seu sono.

Eu bufei. E ele veio para perto de mim, meu coração se acelerou de repente, parecia uma bomba prestes a explodir, ele estava mesmo no meu quarto.

- Charlie sabe que tem uma cópia da chave de casa?

Ele soltou um riso baixo.

- Não Bella, eu entrei pela janela.

- Eu esqueci que você faz essas coisas...

- Eu não quis te deixar apavorada, me desculpa, se quiser vou embora.

- Não. Eu não estou com medo. Só não esperava te ver aqui a essa hora.

- Eu realmente gosto de te ver dormir. É como se o tempo parasse. Eu poderia fazer isso por dias seguidos e não me cansaria.

- Então, fique.

Fiz sinal pra ele deitar-se ao meu lado, ele foi cauteloso, por cima do cobertor para que seu corpo de gelo não me congelasse.

- Como é não dormir?

- Há muito tempo livre, eu acho. Eu leio muito. Mas para os humanos dormir é importante, então...

- Okay. – deitei a cabeça no travesseiro, queria poder vencer a batalha contra meus olhos, mas era quase provável que eu perderia.

Então, ele cantarolou ao vivo a melodia que estava no meu cd e dessa vez eu tive certeza que adormecera.