A First Beach ficava em La Push, Jacob e eu íamos fazer uma visita à reserva, seu lar, eu estava realmente empolgada de quebrar aquela rotina de escola-casa que estava levando. Era sábado, um desses sábados em que Edward e os irmãos iam viajar. Já estava acostumada com essas viagens curtas de Edward, geralmente quando o dia estava bom, ele e os irmãos não iam para a escola, eu sabia o real motivo; leões da montanha e tal e eu não precisava saber dos detalhes, mas nunca os julgava, considerava sua família muito civilizada em relação aos outros de sua espécie, digamos assim.

Por um milagre do clima não era um desses dias que apesar da ausência da chuva constante o ar permanecia úmido, havia uma brisa morna, o céu estava limpo, podia se ver o azul e o sol não tão forte como em Phoenix, mas nos convidava a sair para esse tipo de passeio. Jacob viera num carro recém-restaurado.

- Que modelo é?

- Um Volkswagen Rabbit, Bells. Essa belezinha está nova em folha, eu mesmo o repaginei.

- Você é um ótimo mecânico Jake.

- O melhor da região. – ele disse orgulhoso, mas sem se envaidecer realmente.

Fomos conversando sobre nossa semana, ele insistia em saber como estava indo na Forks High School, mesmo eu garantindo que não acontecia nada demais numa escola de trezentos alunos somente, tinha certeza que a vida dele em La Push era mais interessante.

- É, nós quileutes sabemos viver intensamente. – e acelerou um pouco o motor só para dar ênfase.

- Viva La Vida – brinquei, naquela velocidade chegamos mais rápido e aos poucos fui distinguindo as casinhas que apareciam na paisagem. Eram parecidas na maioria, paramos em uma delas, era pequena e pintada de vermelho, na verdade um vermelho desbotado.

O interior da casinha era ainda menor, era engraçado ver Jake se espremendo para passar por baixo dos batentes. Ele era mesmo grande, Jacob pegou refrigerantes e uma porção de comida, parecia que íamos acampar. Insisti em levar um pouco do peso, mas ele disse que eu só o atrasaria, uma vez que iria tropeçar varias vezes e derrubar tudo também. Dei um soco leve no seu braço e meus dedos sentiram o impacto.

- Droga. – resmunguei fechando a mão.

- Ah Bella, não quebrou nada aí, não é? - disse preocupado mas ao mesmo tempo se divertindo.

Fiz uma careta para ele, depois flexionei os dedos só por garantia, seguimos por um caminho de pedras muito coloridas.

Era ridículo o jeito como Jake se movia, era tão natural. Como seus pés tocavam a terra com precisão e ele se guiava apenas por um sentido que eu simplesmente desconhecia.

Eu parei. Olhei meu amigo de quase dois metros de altura que continuava a se esquivar de galhos e outros obstáculos, com facilidade e destreza, não tão elegante quanto Edward, mas ainda assim impecavelmente.

Eu olhei para o chão, para as pegadas que eu vinha traçando. Fundas e grosseiras, retirei uma folha que se enroscara no meu cabelo imaginando que se eu fosse rápida para desviar do galho em que ela se prendia provavelmente ela continuaria lá. Eu fiquei imaginado por uma fração de segundo, milhares de coisas que poderia fazer se fosse um deles. Tenho certeza que seria muito mais fácil ser eu assim.

- Bella? – senti os dedos quentes de Jacob na minha bochecha.

- Que foi?

- Eu que pergunto, por que você parou aí?

- Eu estava observando você... Andar. – eu terminei a frase e Jake ficou me olhando com um brilho nos olhos que eu ainda não tinha visto. – Eu acho que seria bom pra alguém como eu ter as habilidades que vocês possuem.

- Bella, você não pode ser tipo um lobisomem – percebi certo ar de deboche ou ironia na maneira que ele disse isso - é algo com o que você já nasce, faz parte de você. E ao contrário do que você pensa, é sim, uma maldição., uma maldita herança.

- Não, Jake. Eu estava pensando de outra forma.

- Como de outra forma?

- A família de Edward, eles se tornaram o que são porque foram transformados.

- Eles são bebedores de sangue, já mataram seres humanos. – o tom de voz rouco de Jake passou para um quase rosnado.

- Eu já lhe falei Jake, o que penso sobre isso. Eu só estou imaginando hipoteticamente uma situação incomum ou bizarra eu me tornando...

- Não... Não termine.

- Uma vampira. – pronunciar a palavra em voz alta me fez ter uma perspectiva diferente do que ela significara até aquele momento. Eu podia muito bem me acostumar com o fato de ser imortal. Mas e o resto? O que isso implicaria?

Eu vi como dizer aquilo magoava Jacob, uma nova expressão surgiu em seu rosto sempre alegre, era como se ele substituísse o sorriso e os olhos calorosos por uma máscara de amargura, era uma carranca que eu não gostava, o deixava diferente, distante. Ele respirou fundo mantendo o que pensei ser um conflito interno sobre controle, podia ver pequenos tremores percorrendo seu corpo. Mas nada aconteceu, andamos mais alguns metros, ele bem a minha frente, quando parou para me esperar, seu rosto havia suavizado, mas era fácil ver em seus olhos o quanto havia sido desgastante não se transformar tão perto de mim, ele parecia esgotado.

Jacob me levou até um tronco esbranquiçado e imediatamente me senti num lugar familiar. Sentamos nas raízes proeminentes, por uns minutos ficamos em silêncio, arrumando nossas mochilas, desfrutando o som das gaivotas ao longe e o barulho das ondas quebrando.

- Esse lugar é muito agradável Jake.

- É Bella, passei uns bons momentos nessa praia. – e seu olhar vagou como se estivesse lembrando alguma coisa.

- Hum, você está pensando nas garotinhas que seduziu nesse tronco aqui Jake?

- Por aí. Uma vez uma garota mais velha me paquerou aqui, me senti muito lisonjeado. - riu

- Verdade?

- Sim, ela meio que era turista, quis saber umas histórias locais.

- Por que não me conta alguma?

- Ah mas você já conhece essas histórias de terror... Claro na época que eu contei para essa garota elas não passavam de lendas pra mim, só para assustar criancinhas.

- A história do seu povo não é?

- Sim, sim. – Jake abriu um refrigerante e passou pra mim.

- Hmmm... Quente...

- Ah foi mal... Nossa caminhada acabou fazendo o pouquinho do gelo derreter aí.

- Não, está ótimo. – ele sorriu. Novamente começamos a tagarelar sobre a escola.

- Como estão seus amigos humanos normais?

- Sinceramente, de todos acho que prefiro a Angela Weber, gosto da companhia dela.

- E o loiro...

- o Mike? Ah ele é legal, sempre me ajuda quando me perco nos corredores.

- Bom. Ele parece muito simpático.

- Ele é. Mas nada comparado á você.

- Não... Aposto que não. – Jake olhou para baixo e riu, sentindo-se muito bem consigo mesmo imagino. Mas eu não estava exagerando, ficar com ele era muito fácil, eu realmente gostava. Olhei para o mar outra vez, e depois para a costa, foi aí que vi um grupo estranho de garotos musculosos que pareciam gêmeos, pelo tom de pele e corte de cabelo idêntico. Usavam apenas shorts e pareciam à vontade assim.

- Oi Jacob. – um deles cumprimentou.

- E aí Embry! Bella, esses são os caras ou o bando com quem ando.

- Auu, somos os lobos baby. – um baixinho musculoso disse e piscou para mim.

- Não ligue para o Quil. Mas o que vocês tão fazendo aqui... Hoje não tem patrulha.

- Sam quer falar com a gente.

- Não me diga! E tem que ser agora?

- Sabe como é. – disse Quil, depois falou olhando pra mim – O dever chama.

- Vão na frente, eu vou levar a Bella pra casa primeiro.

Os garotos trocaram alguns olhares e risinhos e saíram.

- Esses idiotas... Não acredito que vou ter que deixar você sozinha.

- Tudo bem Jake, não quero atrapalhar.

- Até parece... – ele levantou e estendeu a mão para mim.

Logo estávamos na casinha de novo. Enquanto esperava na sala, vi algumas fotos, uma era bem antiga, toda a família de Jacob estava nela, suas irmãs, a mãe e Billy que não usava a cadeira ainda. Observei as gêmeas, era compreensível que as irmãs mais velhas dele não ficassem muito tempo em casa, perder a mãe quando se é tão jovem deve ser doloroso e elas tinham muito mais o que recordar do que Jacob, eu não conseguia me imaginar sem a desmiolada da Renée, e isso despertou uma imagem no meu cérebro de uma garota num estúdio de balé, escondida porque não queria dançar, um homem louro com olhos ameaçadores, vermelhos, um vampiro com quem eu havia estado cara a cara, James, eu fiquei apavorada apesar de no fundo saber que ele não podia me fazer mais mal algum. Sentei-me no sofá, cabeça baixa, os dedos contornando a cicatriz do meu braço, agora tinha certeza de onde ela viera. Não percebi Jake se aproximar.

- Nossa, que susto Jacob! – pulei e me pus em pé quando o vi ali parado na minha frente.

- Foi mal Bella. Você vai ficar bem por meia hora?

- Sim, sem problemas.

- Beleza, desculpa de novo. – revirei os olhos.

- Não precisa se desculpar Jake...

- Já volto! – e desapareceu porta a fora. Liguei a TV, mas nada me prendeu a atenção na programação, decidi dar uma volta. Andei sem destino até umas árvores e decidi passar por elas, explorar um pouco, estava quase achando que tinha me perdido quando a avistei, a garagem de Jacob, sorri instantaneamente e fui até lá, não estava trancada, então entrei, era um espaço organizado, cheio de ferramentas e peças avulsas de carros e motos, então eu vi, cobertas por uma lona verde, duas motos. eram incríveis, eu sabia que já tinha dirigido uma daquelas, me lembro até de estar voando na estrada, a adrenalina do momento me deixou em êxtase, quis experimentar a sensação outra vez, fiz um esforço pra empurrar a moto para fora e arrastá-la para onde queria. Procurei um espaço amplo, sem obstáculos, eu não me machucaria num lugar plano.

- Bom, e agora? – disse subindo naquela belezinha, câmbio... Embreagem... Acelerador... Freio. Opa, onde imaginei que estava o freio, atrás do meu pé direito, era um fiozinho pendurado, desconectado, olhei para o guidom, tinha outro em algum lugar, uma alavanca perto do acelerador, achei finalmente.

Liguei-a, senti o motor pulsar, estava para soltar a embreagem quando uma voz gritou a certa distância, olhei em volta, a voz rouca de Jacob me alcançara.

- Bella, tá louca? – disse ele irritado

- Não, só ia dar uma volta. – eu já estava pronta pra acelerar de novo.

- Bella, não. – ele colocou as mãos sobre as minhas. – Não vê que é perigoso? Você nem está usando uma proteção ou sei lá o que!

- Ah nem vem com isso! O que aconteceu com aquele cara que vivia a vida intensamente?

- Bella, não fui eu que quase arrebentei minha cabeça...

- Ah entendo... Eu não quero causar problemas pra você.

- Bells, você não está realmente chateada comigo não é, é uma baita imprudência, é quase suicídio.

- Tá parecendo um dos meus médicos de 80 anos, Dr. Gerandy, que vive dentro daqueles escritórios, sem emoção, é essa sua idade Jacob? – ele deu uma gargalhada.

- Qual a piada? – eu disse irritada

- É que costumávamos brigar por causa desse negócio de idade antes... Você tinha um complexo com envelhecer absurdo.

- Acho que ainda tenho isso. Mas sério você estava falando como o Charlie.

- E você fez uma cara de criança de sete anos contrariada, com bico e tudo...

Acabamos rindo juntos. Depois Jacob foi empurrando a moto para seu lugar na garagem.

- Jake, desculpe por isso, eu agi como uma idiota.

- Eu teria perdido a razão se voltasse e visse que havia se ferido por uma estupidez dessas, simplesmente porque te deixei cinco minutos. Eu me preocupo com você.

- Foram vinte e cinco minutos na verdade. E obrigada... Por se preocupar.

Jacob guardou a moto e voltamos para a casa, ele parecia perturbado, não sei se por causa da história da moto ou pela reunião, entrando, sentimos cheiro de peixe frito, Billy voltara da pescaria, aparentemente bem sucedida.

- Hora do lanche! – trovejou Billy animado – Oi Bella.

- Oi. – acenei. – O cheiro está ótimo.

- Modéstia a parte, mas acho que estão mesmo!

Jacob se serviu de grandes pedaços, comemos juntos na mesinha da cozinha, mas ele estava muito quieto, pensativo. Seu pai estava ansioso para perguntar, mas se manteve igualmente calado, acho que minha presença estava sendo meio inconveniente. Inventei que precisava ir ao banheiro, para eles conversarem. Tentei demorar o máximo que pude mas acabei pegando o fim da conversa.

- É violação do tratado. – reconheci a voz de Jake, cheia de raiva.

- Sam é o líder. Não passe por cima de suas ordens filho. Convocarei os anciões esta noite.

- Se Ephraim estivesse aqui não estaria fazendo rodinhas pra bater um papinho pai, estaríamos matando aqueles sanguessugas bem agora.

- Os Cullen honram o tratado Jacob, sabem que começaríamos uma guerra com mortes nos dois lados.

Senti uma dor horrível, matar os vampiros? Edward? Eu não aguentei, tive que intervir.

- O que quer dizer com guerra e matar a família de Edward? – minha voz falhou.

- Bella não se mete.

- Claro que me meto Jacob, está falando em assassinar o... – não pude continuar.

- O seu clã de demônios acaba de matar um animal na reserva. Mais especificamente um lobo, é uma provocação para os quileutes. Você sabe que os lobos são sagrados para meu povo.

- Como pode ter certeza? Animais morrem o tempo todo, inclusive lobos, de doença de acidentes. – eu estava gritando.

- Como sempre... defendendo os parasitas. – a máscara de amargura voltara para o rosto de Jacob, era doloroso, mas não podia deixar que ele falasse assim da família do Edward, eu os adorava muito e perdê-los parecia fora de cogitação, pior perdê-los numa batalha contra lobisomens, incluindo Jacob parecia insanidade, doía. – Havia uma marca de mordida na jugular da presa. Satisfeita?

- Ainda não pode provar.

- Mas era só o que faltava! Quer que eu faça uma investigação oficial? Com tantos sanguessugas na cidade! É evidente.

- Por que eles fariam isso?

- Acalme-se Jacob, sabe que a Bella está passando por um momento de recuperação, essa gritaria não leva ninguém a uma solução. – a voz de Billy era autoritária, confiante – Bella, também queremos saber o motivo, nós não matamos por matar, por isso convocarei a reunião com os antigos da reserva. Decidiremos juntos como uma família como fazemos desde o início.

Jacob ficou ainda mais perplexo, estava claro que, estava disposto ele mesmo a matar alguns vampiros com as próprias mãos, só lhe faltava à oportunidade até aquele incidente.

- Acho que é hora de você voltar para Forks. – Jake cuspiu.

- Se acha melhor. – respondi magoada.

- Não pode voltar sozinha e mais tarde tenho que estar presente com o resto da minha família...

- Faça o que achar melhor. – peguei minha mochila, despedi-me de Billy, meu olhar era suplicante, mas sei que não podia fazer muita coisa.

Jacob bateu a porta do carro quando entrou. Eu sabia que seria uma viagem longa de volta.