OBS: Por algum motivo totalmente desconhecido escrevi todo este capítulo com a Do What U Want da Lady Gaga ecoando na minha cabeça.
E não estranhem o ritmo da história, com o Harry conseguindo apenas escutar, seria bizarro demais que eu perdesse tempo com inúmeras descrições, mas eu ainda tento, força do hábito.
Agradecimentos as maravilhosas reviews. Lazinha, Divina, Rose, Flavia FV. E tentando responder o que a Lazinha perguntou, não, não haverá nada de platônico, apenas horas de solidão que irão obrigar Harry a ver Malfoy por um novo ângulo. Ha, apenas hahahahahaha. (Sou insana, não repara)
Quando a Tempestade Acabar
.: II – Draco Malfoy :.
A atenção de Harry foi rapidamente instigada quando ele ouviu ruídos de conversa vindo em direção ao seu quarto e entediado como ele estava, seria capaz de ficar contente em escutar até mesmo uma das típicas brigas entre Ron e Hermione.
Em poucos segundos as vozes começaram a ficar mais nítidas e ele identificou com facilidade um dos medi-bruxos responsável por seu caso.
"Professor Snape não poupou elogios com relação ao seu trabalho." O bruxo comentava com certa respeito. "Fui cético no início quando ele sugeriu que buscássemos sua ajuda, afinal, você é relativamente jovem, mas quando li sua dissertação sobre as propriedades da beladona devo confessar que bem, eu estava errado em julgar."
O comentário fez com que Harry se perguntasse se o homem não estaria conversando com o tal apotecário que Snape mencionara mais cedo e essa sua dúvida só fez com ele prestasse atenção com mais ferocidade.
"Não se preocupe, Sr. Smethwyck. Não me senti ofendido em nenhum momento, sei que no ramo de poções poucos são os bruxos que realmente conseguem ser excepcionais. Nada mais natural a sua desconfiança." Harry se esforçou para identificar a outra voz, mas a pessoa mantinha um tom muito baixo.
"Oh, sim, claro, claro. Mas agora com a sua ajuda, espero que a gente consiga alguma pista sobre o caso."
"Obviamente. Devo dizer que Madame Strout foi muito gentil ao me enviar os resultados dos exames para que eu pudesse me atualizar durante a viagem." A resposta do desconhecido tinha um tom de deboche que o medi-bruxo pareceu não captar.
"Sim, Madame Strout é sempre muito prestativa. Mas diga, você conseguiu perceber algo fora do comum?"
É, ele não percebeu, Harry pensou achando graça da situação.
"Não, infelizmente não. Com aquela quantidade de hemeróbios receio que terei que manipular as amostras de sangue para tentar identificar os outros ingredientes." E como sempre a conversa se voltava para os ingredientes de seu veneno, assunto do qual ele não entendia nada.
"Professor Snape mencionou algo do tipo, disse que havia um procedimento que seria capaz de filtra-los."
"Acredito que sim. Se conseguirmos teremos uma ideia melhor de qual veneno foi utilizado." O se fez com que ele se contorcesse, se é que era possível se contorcer estando paralisado dos pés a cabeça.
"Devo confessar que estou um pouco impressionado." E agora as vozes estavam muito mais próximas, praticamente dentro do quarto. "Não vejo um caso complicado como este desde o envenenamento de Arthur Weasley quando ele foi atacado por aquela... víbora, no Departamento de Mistérios." A menção deste incidente em específico fez com que Harry se lembrasse que ele nunca ouvira detalhes sobre o tratamento do Sr. Weasley.
Ficou alguns segundos se perguntando como haviam conseguido confeccionar um antídoto. Chateado por lembrar que na época não tivera a curiosidade de perguntar sobre o tratamento do pai de seu melhor amigo, ele demorou a perceber o silêncio pesado que havia recaído sobre o local. Confuso, evitou pensar sobre qualquer coisa, prestando atenção até nos ruídos mais baixos.
"Oh, me desculpe, Sr. Malfoy," o medi-bruxo tornou a falar e ele, ao ouvir aquele nome, grunhiu em sua consciência, "é uma indelicadeza da minha parte mencionar este incidente tendo em vista que-"
"Não se preocupe, Sr. Smethwyck," Draco interrompeu o bruxo com a delicadeza de um hipopótamo e Harry tentou se concentrar na conversa e não nos inúmeros palavrões que começavam a inundar sua mente, "é algo que está no passado. Mas compreendo sua comparação, a toxina produzida por Nagini era única."
"Sim, Nagini, tem dias que eu me esqueço deste nome." Smethwyck acrescentou um pouco pensativo, como se aquele nome lhe desse arrepios, mas sem avisar, bateu palmas e continuou conversando de forma animada, como se nada tivesse acontecido. "Bem, mas isso não importa. Acredito que o senhor trouxe tudo que precisa, sim? Maravilhoso."
Sim, maravilhoso, Harry pensou nenhum pouco animado com a perspectiva de ter seu corpo a mercê dos caprichos de Draco Malfoy. Mas o medi-bruxo, alheio a suas preocupações e estranhamente confiante nas boas intenções do jovem Draco, continuou falando.
"Fique a vontade para instalar seu material de poções, mas temo que não poderei ajuda-lo. Tivemos recentemente um surto de varíola de dragão e estamos um pouco atarefados no momento."
"Não se preocupe, Sr. Smethwyck, sou mais do que capaz de me virar sozinho."
E Harry tinha certeza que ele era capaz de se virar sozinho. Qual seria a dificuldade em terminar o trabalho que algum Comensal desconhecido começara? Bastava algumas gotas de um dos ingredientes que eles não paravam de mencionar e voilá, ele estaria morto. Malfoy não precisaria nem se preocupar em se livrar do corpo!
"Pois bem, qualquer problema basta chamar uma das nossas enfermeiras."
Ele teria gritado para que o outro homem ficasse ali e garantisse que Malfoy se comportasse, mas de verdade, quem estava se importando com o que ele achava daquela história? Ninguém! Bem que Snape dissera que ele não iria gostar do apotecário que pretendia chamar para ajuda-lo. Será que Remus sabia daquilo?
Com certa angústia, ele ouviu os passos do medi-bruxo ecoando bem distantes, levando-o para longe do quarto. Apreensivo, ficou atento para tentar entender o que estava acontecendo ao seu redor agora que Malfoy estava presente e sem ninguém para vigiar o que ele iria fazer.
Qual foi sua surpresa quando o loiro começou a murmurar entredentes com uma voz de escárnio que contrastava bastante com o seu tom educado de minutos atrás.
"Hippocrates Smethwyck, a piada do século. Só mesmo Snape para me fazer passar por isso." E se Harry pudesse teria erguido uma de suas sobrancelhas, completamente espantado com o comentário. Aquilo só servia para constatar como Malfoy era um bom ator.
Passos ao redor de sua cama, o som de uma maleta sendo depositada sobre uma mesa e ele pensou que o sonserino iria permanecer calado, até ouvir o tom arrastado do loiro praticamente sobre si.
"Potter, vejo que é impossível evitar você. Sempre querendo pagar de mártir."
A indignação ao ouvir isso foi tão forte que por alguns instantes ele achou que seria o suficiente para fazê-lo se erguer e socar o nariz fino e esnobe de Malfoy. O que aquela doninha pensava que era? Será que o idiota acreditava de verdade que ele fazia aquele tipo de coisa de propósito? Quem diabos iria se deixar envenenar por diversão?
Estava tão irritado que teve dificuldades em continuar ouvindo o que o outro bruxo estava fazendo no quarto, o que era um erro, afinal ele poderia estar se preparando para mata-lo, certo?
"Frascos... e onde está a maldita adaga? Sempre desaparecendo..." E o tom agora era de impaciência, sendo acompanhado por diversos ruídos estranhos, como se o loiro estivesse vasculhando alguma coisa.
Harry tentou se acalmar e raciocinar. Tudo bem que ele odiava o Malfoy, afinal, quem em sã consciência não odiaria o homem? Ele era prepotente, irritante, orgulhoso e acima de tudo um idiota, mas de verdade, será que ele realmente acreditava que o sonserino seria capaz de mata-lo? Mesmo depois de tudo? De todos os sacrifícios, de ter espionado para a Ordem?
Não, a resposta era simples, não. Draco Malfoy não colocaria tudo a perder logo agora que conseguira ser absolvido pelos crimes cometidos por sua família, muito menos também quando era reconhecidamente um ex-espião e traidor.
Agora que ele estava mais calmo e pensando melhor sobre o assunto, soava até um absurdo ter considerado a possibilidade de que Malfoy pretendia assassiná-lo, mas que isso não o ajudava a aceitar aquela situação, ah, mas não ajudava mesmo.
"Oh, me desculpe, Sr. Malfoy, uma indelicadeza da minha parte, sim uma indelicadeza." Ele escutou de repente, sendo pego de surpresa pela voz fina e anasalada. Tentando se concentrar, ficou surpreso ao perceber que fora o sonserino que murmurara a frase de forma sarcástica, claramente tirando sarro do que Smethwyck dissera. "Como se você não soubesse o que está falando, velho gagá. Juro pelos deuses que se eu tiver que continuar tratando todo mundo como se fossem meus melhores amigos, eu acabarei matando alguém e não será o Potter."
E quem diria que o outro bruxo era capaz de ser engraçado? Mas apesar da vontade de rir, o comentário feito por Malfoy instigou sua curiosidade. Que o outro não respeitava ninguém isso não era nenhuma novidade, mas porque o loiro parecia estar tão irritado com o medi-bruxo por conta do incidente no Departamento de Mistérios?
Continuou com suas reflexões quando sem aviso uma voz arrastada soou vinda da porta, assustando-o um pouco, já que não ouvira sons de passos.
"Draco, vejo que você está atrasado." Snape, sim ele tinha certeza, não ter nada para fazer além de escutar conversas fazia com que você decorasse com facilidade o tom de voz das pessoas.
"Professor Snape, antes tarde do que nunca, hen? Não é o que os trouxas adoram falar?" Se Malfoy fora surpreendido pela súbita aparição do outro bruxo ele não deixou demonstrar em sua voz.
"Sim, mas felizmente estive ocupado demais para reparar na sua incapacidade de chegar na hora marcada. Essa história de envenenamento deixou a Ordem bastante atarefada."
"Ah, sim claro, incapacidade de chegar na hora marcada," o loiro repetiu, mas pelo seu tom de voz não ficara nada feliz com o que ouvira. "Talvez eu pudesse ter sido pontual se não tivessem me obrigado a passar por uma maldita inquisição para entrar no St. Mungus."
Harry imaginou mesmo que deveria ter sido difícil entrar no prédio, ele era praticamente uma das celebridades do Ministério, por mais que odiasse a ideia. Tanto os Aurores quanto o Ministro deveriam estar soltando os cabelos, nervosos com o seu envenenamento.
Ao ouvir a reclamação Snape provavelmente assumiu uma expressão que para Malfoy não deveria ser nada agradável, porque no instante seguinte o loiro estava sibilando com tanta intensidade que Harry começava a se perguntar se a qualquer momento ele não sairia rastejando pelo quarto na perfeita imitação de uma cobra.
"Oh, não me olhe como se não soubesse, aquele Kinnigan, Minnigan-
"Finnigan." Snape ofereceu.
"Sim, não importa, este insuportável – um grifinório com toda certeza – apesar de eu não me lembrar de ninguém tão espetacularmente imbecil no meu ano, com exceção do Longbottom, claro. Mas este projeto de miniatura do Kingsley estava convencido de que eu, por algum motivo desconhecido, estava aqui no St. Mungus para envenenar o querido menino-que-sobreviveu. Como se o cicatriz aqui precisasse de ajuda para se matar!"
Se o discurso não fosse à coisa mais engraçada que ele já escutara em alguns anos, ele teria ficado indignado com a última parte, mas não, o loiro não terminara de reclamar, pelo contrário, parecia estar só começando.
"Não, mas a humilhação de ser escoltado por aurores não foi o suficiente, ainda tive que ficar sentado horas respondendo perguntas idiotas como, 'o que você carrega neste caldeirão, Sr. Malfoy', porque caldeirões agora são malas e eu os uso para carregar explosivos. Quem não iria pensar nisso-"
"Draco, você está descontrolado," Snape observou.
Você acha?, Harry perguntou mais para si mesmo. Aquela era uma das raras vezes em que tinha a possibilidade de presenciar Malfoy sem as amarras sociais e sem a imagem que o loiro se orgulhava tanto em vestir para o mundo todo ver. E ele precisava confessar, estava assustado
"Eu? Descontrolado? Quem imaginaria? Talvez tenha alguma coisa haver com o fato de que serei obrigado a conviver com ninguém menos do que Smethwyck. SMETHWYCK, Severus! Sua memória é curta, por um acaso? Será que você levou tantos cruciatus no passado que agora está desenvolvendo Alzheimer?"
Harry se perdeu por um momento no vômito de palavras no exato instante em que o loiro disse Alzheimer. Alzheimer, como diabos Malfoy tem conhecimento sobre uma doença trouxa?
"Eu não imaginei que você ainda guardasse rancor pelo que aconteceu." Snape respondeu em sua melhor voz de desinteresse.
Agora as coisas estavam ficando mais interessantes para Harry, se antes ele achava que havia algo muito estranho entre Malfoy e o medi-bruxo Smethwyck, agora ele tinha certeza.
"Não imaginou? Eu sou um Malfoy, Malfoys não esquecem! Mas isso não é o pior, não, nenhum pouco, qual o meu espanto quando eu recebo uma coruja daquela bruxa da Strout e para minha surpresa, você quer que eu ajude ninguém menos do que o Santo Potter!
Ei! Eu estou bem aqui seu filho da puta!, Harry pensou indignado com a falta de consideração.
"Você disse que estava entediado, Draco, que fazia meses que não recebia um caso complicado."
"Não tão entediado a ponto de sair correndo pelo campo feito uma gazela para salvar a vida do bruxo que eu mais odeio no mundo. Quando você disse que seria um desafio eu não pensei que você estava se referindo a isso."
"Draco, o que eu deveria dizer? Que Harry Potter havia sido envenenado e estava internado no St. Mungus com todo o Ministério focado em defender sua virgindade?"
"Você poderia ter pelo menos me dado à oportunidade de recusar."
Snape deixou escapar um bufo irônico.
"Como se você fosse recusar."
Draco teve a dignidade de não responder a provocação. E um silêncio, dessa vez confortável, rapidamente tomou conta da sala, como se os dois homens fossem capazes de conversar um com o outro apenas através do olhar. O que irritou imensamente Harry, diga-se de passagem, afinal ele não tinha nada para fazer e aquela conversa estava sendo um passatempo agradável.
Parecendo ficarem satisfeitos com seja lá o quê, tanto Snape quanto Malfoy começaram a se mover e em poucos segundos o quarto foi preenchido pelos sons de passos, algo chacoalhando e cadeiras sendo arrastadas. Quando o barulho atingiu um nível mais baixo, Malfoy finalmente tornou a falar.
"E lá vamos nós salvar o menino-que-sobreviveu, de novo, como se já não tivéssemos feito isso o suficiente."
O comentário não agradou Harry nenhum pouco, ele não conseguia entender como o outro bruxo conseguia ser tão irritante, o sonserino podia não saber, mas ele era capaz de dar nos nervos até mesmo de uma pessoa em coma, ele era a prova viva disso.
Mas para a surpresa de Harry, Snape pareceu também não gostar do que ouvira, respondendo rapidamente o comentário em um tom de aviso.
"Draco, isso é sério."
"Merlin," Malfoy retrucou nitidamente impaciente e por algum motivo Harry podia imaginar que o loiro revirara os olhos. Estava tão acostumado com seus trejeitos que não era nem preciso enxergar para saber o que ele iria fazer, "você fala como se eu fosse terminar de envenená-lo." E quando um silêncio desconfortável foi sua única resposta ele continuou. "Okay, tudo bem, admito que a ideia tenha passado algumas vezes pela minha cabeça."
Snape, apesar de tudo, se permitiu deixar escapar um som que sinalizava que ele havia considerado a resposta no mínimo engraçada.
Foi à vez de Harry revirar os olhos, mentalmente claro.
"Mas indo ao que interessa, já que o Sr. Finnigan se encarregou de nos atrasar, você disse que checou os relatórios dos medi-bruxos, correto?" A voz de Snape assumiu rapidamente um tom sério.
"Sim e para nossa surpresa eles estão totalmente perdidos. Você sabe quão inúteis eles são quando se trata de envenenamentos. Smethwyck é prova suficiente disso."
E para o espanto de Harry, Malfoy também assumira uma postura de profissionalismo que ele nunca vira antes, mesmo insistindo em continuar zombando do tal Hippocrates. Não é que a vida era uma caixinha de surpresas?
"E na avaliação do sangue? Alguma pista?"
"Nada, conseguiram identificar apenas o hemeróbio e traços de hortênsia, mas você sabe que se eles tivessem perguntado antes teríamos sido capazes de informar a mesma coisa sem precisar perder tempo com milhares de testes."
Harry teria debochado da presunção do sonserino se seu corpo paralisado permitisse, mas infelizmente teve que se contentar apenas com um bocejo mental.
"E a dosagem do estabilizador?"
"Eu verifiquei os números, apenas vestígios de pó de bicórnio."
"Isso não pode estar certo, o cheiro do pó que senti em Potter duas noites atrás estava muito forte." Snape comentou com um ar pensativo.
E quanto mais eles falavam, mais ele percebia o quão ignorante ele era com relação a poções.
"Sim, não duvido, mas com o hemeróbio na composição do veneno, nada dos resultados pode ser levado a sério, você sabe disso."
"E o excipiente, já tem alguma ideia?"
"Bem, de acordo com os seus relatos e o exame preliminar, algo extremamente volátil e explosivo, essas queimaduras não foram provocadas por fogo, elas são químicas."
Sim! Harry queria confirmar. Houvera uma explosão e ele fora envolvido por uma densa fumaça esverdeada, mas não por muito tempo. E ao relembrar o que acontecera, pela primeira vez ele se perguntou como não ouvira ninguém se aproximar, porque para ter sido atingido daquela forma a pessoa deveria ter no mínimo arremessado o frasco com o veneno próximo aos seus pés.
Alheios as suas turbulências mentais os outros dois bruxos continuaram discutindo os ingredientes.
"Você acha que é possível remover o hemeróbio?"*
"Sem correr o risco de mata-lo? Não. Não sei o que o hemeróbio está camuflando e querendo ou não ele ajuda o bicórnio a estabilizar os ingredientes. Vou precisar tentar removê-lo primeiro nas amostras e ver o que acontece." Harry se surpreendeu com o tom de Draco, o bruxo parecera verdadeiramente preocupado em não correr riscos. Dias atrás se alguém tivesse perguntado para ele algo sobre Malfoy, ele teria jurado que o bruxo era capaz de aproveitar qualquer oportunidade para vê-lo em uma cova, mas agora, após ouvir o que o loiro dissera, ele já não tinha tanta certeza disso.
Mas Snape não teve muito tempo para comentar a resposta, porque no instante seguinte o barulho de algo sendo derrubado reverberou pelo recinto.
"Ronald!" Foi o único aviso que Harry ouviu, mas foi o suficiente para ele saber que Hermione e Ron provavelmente estavam na porta do quarto.
"O que ele está fazendo aqui?", a voz do ruivo assumiu um tom extremamente grave.
"O Sr. Malfoy está aqui para me ajudar na análise do veneno." Snape respondeu com certa prontidão, como se estivesse preparado para aquele tipo de situação.
"Oh, não, já basta você Snape, não," Ron grunhiu irritado, "eu não vou permitir que ele fique perto do Harry."
"Ele se encontra bem aqui, Weasley." Malfoy alfinetou em um tom gélido.
Hermione, tentando pacificar as coisas, adicionou baixinho, "Ron, eles estão aqui para ajudar."
Mas o ruivo discordava ferozmente da opinião da namorada.
"Você só pode estar de brincadeira, Mione!" rugiu de forma desequilibrada.
"Ah, Sr. Weasley, como sempre muito civilizado na sua maneira de conversar." Snape comentou de forma sarcástica, conseguindo arrancar um uivo do ruivo.
"Não, Snape, eu já tolerei por muito tempo a sua presença perto do Harry, é mais do que qualquer pessoa sã poderia aceitar. Eu me recuso a piorar a situação deixando-o nas mãos de–de dois sonserinos."
"Oh, vamos Weasley, você pode falar," Malfoy instigou com certa rispidez. "Dois comensais. Não precisa ser covarde."
E lá vamos nós, foi à única coisa que Harry conseguiu pensar, porque estava para existir uma ofensa maior do que chamar um grifinório de covarde.
"Covarde?"
"É, Weasley, covarde, será que você está ficando surdo? Fico imaginando, você deve estar extremamente aliviado, não é mesmo? Porque não? Viver na sombra de um herói não deve ser fácil. Com o Potter aqui incapacitado, agora você tem todas as chances no mundo de finalmente conseguir a fama que você tanto deseja. " Harry tinha que admitir, Malfoy tinha o dom de instigar o pior nas pessoas, por isso não foi com nenhuma surpresa que ele ouviu Ron praticamente gritar.
"O meu melhor amigo está praticamente morto em uma cama e vo–você ousa dizer que eu estou aliviado? Você acha que eu não quero ver ele acordar? Lógico que sim, mas eu ainda não esqueci o passado e muito menos enlouquecei. Só por cima do meu cadáver que vou deixar que vocês dois se aproveitem dele neste estado."
A última frase de Ron fez com que uma sobrancelha imaginária de Harry se erguesse.
Se aproveitem de mim?, e com muito desgosto admitiu que talvez Snape não estivesse tão errado quando falara mais cedo que todos o estavam tratando como uma donzela que precisava ter sua virgindade protegida.
"Vocês grifinórios e essa lealdade idiota. Tão ocupados e preocupados com a própria honra que se esquecessem de que existem coisas mais importantes no mundo." Malfoy respondeu, parecendo subitamente desinteressado em continuar aquela discussão.
Hermione aproveitou a deixa para contornar a situação.
"Ron, é a coisa lógica a se fazer. Snape é um dos melhores mestres de poções da atualidade e Malfoy além de ter sido seu aluno, também se especializou em venenos. Se existe alguma pessoa neste mundo mais capacidade para ajudar o Harry, essa pessoa é ele."
Mas o discurso pareceu não surtir nenhum efeito no ruivo.
"Mione," a voz de Ronald agora era apenas um fio. "Você já sabia disso, não sabia? Você soube desde o início quem era a pessoa que Snape pretendia chamar para ajudar." Mas a bruxa sabiamente preferiu não responder e isso foi o suficiente para que o ruivo começasse a andar de um lado para o outro, ganindo como um cachorro ferido.
"Como você pôde?" Ron continuou falando depressa. "Harry confia em você e você vai e o entrega assim, de mãos beijadas para estes dois comensais?"
A última pergunta finalmente pareceu atingir um dos muitos limites de Hermione, que imediatamente respondeu com um toque de brutalidade. "Ex-comensais," o corrigiu, "e sim, eu estou confiando neles. Se de alguma forma ainda somos capazes de salvar Harry, acredito que esta é a melhor opção."
Ron continuou caminhando de um lado para o outro, desconsolado. Hermione suspirou. Harry podia imaginar como aquilo estava sendo difícil para os dois.
"E o que é que você vai fazer quando o Malfoy aqui tentar mata-lo, hein?" O ruivo tornou a perguntar.
Mas Malfoy, sem perder tempo, respondeu a pergunta que nem sequer fora dirigida a sua pessoa.
"Oh, Weasley, como você é brilhante, descobriu o meu plano! Quem iria imaginar que eu sairia na calada da noite, no meio de uma batalha contra Comensais loucos para cortar a minha cabeça, só para envenenar Potter, mas veja bem, só um pouco, apenas o suficiente para ele ir parar no St. Mungus porque aí sim, ai eu teria acesso ao corpo dele e terminaria o serviço, envenando-o de novo! Você é tão inteligente que às vezes eu me pergunto como ninguém ainda não te deu nenhum prêmio por isso."
A resposta pareceu pegar Ronald de surpresa, que finalmente parou de andar as cegas pelo quarto e retrucou em um tom fraco, "Bem, você pode tentar mata-lo de outras formas."
Isso só fez Malfoy bufar com ironia.
"Claro, agora que você mencionou, talvez eu tente alguma coisa mais tarde com a minha adaga para cortar raízes."
Ao ouvir isso Harry foi obrigado a revirar os olhos, porque sério, era uma ideia tão ridícula que era impossível não achar graça. Mas aparentemente Ron não compreendera a piada, porque no instante seguinte se virou para a namorada e lamentou, "Você está vendo, Mione? Ele não é confiável."
A bruxa praticamente rosnou e Harry podia imagina-la jogando as mãos para cima em um claro sinal de derrota.
"Por Merlin, Ron, adagas de poção são enfeitiçadas para serem repelidas ao entrar em contato com a pele, é um de seus mecanismos de segurança para impedir que os bruxos cortem os dedos quando estiverem fatiando ingredientes."
E Snape não deixou a gafe do ruivo passar em branco. "E porque eu não estou surpreso em ver que você não sabe disso, Sr. Weasley? Não me surpreendo mais com o fato do seu resultado dos seus N.I.E.M em Poções terem sido tão assustadores."
Harry tinha certeza que Ron devia estar corando até os fios de cabelo, conhecia demais o amigo e por alguns momentos desejou com todas as forças poder ver a cara envergonhada do bruxo.
"Venha, vamos comer alguma coisa, deixe eles trabalharem." Hermione tentou tirar o namorado dali, se esforçando para ser o mais delicada possível mesmo depois de ter sido claramente ofendida pelas diversas acusações, mas o ruivo estava irredutível.
"Não, eu não sou igual a você, eu não posso, eu não vou deixar o Harry aqui sozinho com eles."
E ao ouvir isso Hermione finalmente explodiu. E Harry agradeceu aos céus, porque se isso não tivesse acontecido eles teriam ficado ali até o outro dia, trocando insultos e provocações sem sentido.
"Ronald Weasley, já chega, pare de ser infantil! Harry precisa disso e você sabe que nós dois somos inúteis. Não sabemos nada sobre venenos e não podemos fazer nada. Você tem alguma ideia melhor do que essa?" O bruxo permaneceu em silêncio diante da pergunta. "Foi o que eu imaginei. Eles estão aqui para ajudar, você querendo ou não, e se você atrapalhar, então que os deuses me ajudem, Ronald, porque eu irei te azarar sem pensar duas vezes."
Depois do discurso acalorado da amiga Harry só conseguiu distinguir um ruído estrangulado, sons de passo, farfalhar de panos e um sussurro nervoso mais ao fundo que ele não conseguiu captar. Sem saber o que pensar, supôs que a ameaça de Hermione fora o suficiente para obrigar o namorado a sair do quarto.
"E quem disse que as nossas vidas não são recheadas de emoção?" Malfoy comentou depois do que pareceram minutos, o quarto agora envolto por uma quietude suave.
"Se elas não são tenho certeza que podemos contar com Sr. Weasley para darmos uma boa gargalhada." Snape ofereceu, não parecendo nenhum pouco tentado a gargalhar com o que acabara de acontecer.
"Merlin, e ele caiu na história da adaga."
"Por favor, Draco, já tenho pesadelos o suficiente para uma vida com as burradas que sou obrigado a presenciar na minha sala de aula, não preciso adicionar o dia de hoje ao repertório."
E inesperadamente Malfoy começou a rir e Harry congelou. O som era um pouco rouco, contido, como se o loiro não estivesse acostumado a produzi-lo, mas ainda assim profundo e de certa forma melodioso. A risada fora baixa e rápida, mas o suficiente para que ele desejasse que o sonserino risse mais, o gesto lhe caia bem.
Um silêncio confortável pareceu se instalar no quarto depois disso e até mesmo Harry não se importou por não ouvir mais nada. Até que a voz arrastada de Snape destruísse o clima de tranquilidade.
"Alguma ideia se alguém do antigo grupo teria condições para financiar algo desse tipo?"
Draco bufou com deboche.
"Nossa, Severus, você tem o dom para iniciar conversas com assuntos agradáveis." Mas o ex-professor não mordeu a isca e Malfoy decidiu responder. "Nott, talvez os Carrow."
"E os Zabini?"
Malfoy pausou o que fazia.
"Não, Blaise não tem nada haver com isso." O loiro respondeu claramente ofendido. Harry se perguntou se Malfoy continuava sendo amigo do bruxo, porque seu tom indicava que havia ali uma profunda camaradagem.
"Blaise não é o único Zabini no mundo." Snape pressionou.
"Não, isso não tem nada haver com os Zabini," ele retrucou entredentes, irritado.
Novamente foram envoltos pelo silêncio, só que dessa vez carregado de tensão.
"E a resistência no norte, continua em risco?"
"Draco, você está tentando mudar de assunto." Snape provocou, nenhum pouco impressionado pela falta de delicadeza do afilhado.
"Oh, por favor, alegre o meu dia, sim?"
Com um suspiro pesado, Snape respondeu, "Sim, aparentemente os Comensais estão recebendo um novo apoio financeiro. Estamos com dificuldades para combater as novas ondas de ataque. Eles conseguiram queimar toda uma cidade."
"Sobreviventes?"
"Nenhum."
"Tome cuidado." E pela primeira vez Harry ouviu um toque de preocupação na voz do loiro, que foi rapidamente disfarçado com um grunhido de desagrado.
Snape, parecendo não ter sido afetado pelo momento, apenas respondeu com descaso. "Draco, sobrevivi tanto ao Lord das Trevas quanto a uma guerra que durou mais de quinze longos anos, seria ironia demais morrer nas mãos destes impostores."
E percebendo a deixa, Malfoy mudou de assunto, parecendo estar ocupado com alguns frascos.
"Você se lembra de mais alguma coisa daquela noite? Talvez com a proximidade do local onde ele foi atacado você tenha sentido o cheiro de algum outro ingrediente."
"Não, como eu disse em minha carta, apenas hortênsia, pó de bicórnio e losna. Mas era um campo de batalha, a losna deveria ter vindo dos resquícios de alguma poção para imobilização."
O loiro respondeu apenas com um murmúrio e Harry ouviu o som típico de um caldeirão sendo montado. Ele tinha certeza que a cena toda deveria ser bizarra. Ele em coma com Malfoy e Snape conversando amigavelmente em volta de seu corpo enquanto montavam um mini laboratório de poções.
Os ruídos de objetos, passos e farfalhar de roupas continuaram por alguns instantes. Vez ou outra ele ouvia Malfoy pedindo para que Snape pegasse algo e em outros momentos ambos os bruxos se limitavam a trabalhar em silêncio, até que o ex-professor soltou um breve pigarro indicando que queria falar alguma coisa.
"Você ainda tem contato com os Macnair?"
E tudo se calou. Mesmo sem poder ver Harry sabia que Malfoy havia parado tudo o que fazia e provavelmente estava congelado no lugar. Ele não precisava ser nenhum adivinho para saber que aquele era um assunto delicado entre os dois homens.
Demorou um pouco, mas o loiro finalmente respondeu, não sem deixar escapar um som de desgosto. "Não, você sabe que ninguém do antigo círculo faz questão de manter contato comigo."
Harry esperou que Snape não pressionasse, tendo em vista que o outro rapaz não parecia estar nenhum pouco confortável com o rumo da conversa, mas pelo contrário, o bruxo parecia decidido a conseguir alguma resposta específica.
"Mas você conseguiria marcar um encontro com um deles, sim?"
Isso pareceu ser a gota d'água porque no instante seguinte Harry ouviu o barulho de um frasco sendo pousado com brutalidade sobre alguma coisa, seguido por um sibilo áspero e um Draco Malfoy claramente furioso. "Oh, claro, porque não? Tenho certeza que Augustus Macnair ficaria imensamente feliz em me encontrar para tomar um chá, principalmente depois de saber que eu sou um dos responsáveis por seu pai estar em Azkaban."
"Walden Macnair é um criminoso e um assassino, Draco e pelo o que eu me lembre eles devem alguns favores a família Black." Snape ofereceu como se a constatação servisse de algum consolo.
"Engraçado, pena que eu sou um Malfoy." O loiro responde com sarcasmo.
"Você também carrega o sangue de Narcissa."
"O que te faz pensar que eu iria cobrar favores dos Macnair para ajudar Potter?" Malfoy explodiu.
"Talvez porque você também deve alguns favores para ele. Harry Potter testemunhou a seu favor na Suprema Corte dos Bruxos."
"Nada mais do que a obrigação dele levando em conta que eu era um espião da Ordem da Fênix." E o tom do bruxo era de indignação.
"Você sabe que as coisas não são assim tão simples, Draco," Snape murmurou parecendo subitamente muito cansado.
"Não, não são. Erro meu pensar que com você elas seriam. Foi para isso que você me trouxe aqui?" Malfoy perguntou tentando claramente disfarçar que estava magoado com o que o padrinho acabara de fazer.
"O que você quer dizer?"
"Eu não sou o único descente dos Black que ainda continua vivo. O que você me diz da filha da Andrômeda Black? Aquela Tonks? Porque não pedir isso para ela?"
"Você mesmo sabe como essa ideia é absurda. Tonks é uma auror, eles não falariam nada para ela e ela não saberia se comportar como deveria diante de uma família tradicionalista igual os Macnair."
"E eu suponho que você acredite que eu sei, que eu estou apto para isso?"
"Draco, você foi criado em uma família com os mesmos costumes, seria extremamente fácil para você."
"Sabe, por um momento eu realmente pensei que você havia me chamado aqui para confeccionar um antídoto, por um momento eu achei que você havia reconhecido minhas habilidades como apotecário. Mas eu fui muito inocente, eu deveria ter previsto que como todo bom sonserino você iria procurar o caminho mais fácil."
"Você está errado, eu não usaria meu próprio afilhado assim."
"Não? Não mesmo? Às vezes eu me pergunto, padrinho, quando é que você começou a ficar tão parecido com Albus Dumbledore."
"Draco..."
"Qual será o próximo passo, hun? Me vender para os Comensais em troca do antídoto?"
"Não seja absurdo."
"Absurdo? É uma pena, Snape, uma pena que à medida que você fica cada dia mais parecido com Dumbledore, eu me pareço cada vez menos com você. Se fosse o contrário, talvez, talvez você tivesse alguma chance de me manipular como ele te manipulava." Malfoy praticamente cuspiu.
Silêncio. E para a surpresa de Harry, que estava sem palavras para o diálogo que acabara de presenciar, o loiro pareceu se levantar e caminhar para fora do quarto enquanto Snape continuava parado, apenas esperando.
"Não se preocupe, vou continuar tentando salvar o Potter, mas também será a última coisa que eu farei por você."
Algumas horas mais tarde, Harry não saberia dizer, Snape finalmente se levantou, deixando escapar um suspiro. Antes de ir embora, ele o ouviu murmurar, baixinho.
"Espero que você valha o sacrifício, Potter."
N/A: Draco na intimidade, ai você descobre que todo sonserino tem uma vocação nata para o humor e dramaticidade. Nunca pensei que eu iria me divertir tanto escrevendo alguns diálogos. Estou com dó do Harry, até o final desta história ele estará com overdose de sonserinos há!
E devo confessar que tenho uma pitadinha de raiva do Dumbledore, como vocês puderam perceber e acredito que qualquer pessoa normal teria se soubesse como esse velhinho é mala. Hahahaha. J.K. Rowling suavizou demais pro lado dele, só dizendo, porque eu não vou não.
