Quando a Tempestade Acabar


.: III – Sobre cabelos vermelhos :.

Como esperado Malfoy não retornou ao quarto tão cedo e Harry foi obrigado a lidar com a escuridão e o silêncio. Era enervante não poder sabe que horas eram, quanto tempo havia se passado ou como estava o clima. Será que estava chovendo, nevando, fazendo sol? Coisas deste tipo, coisas que ele nunca dera atenção antes, agora o incomodavam.

Foi por isso que ao ouvir um ruído sentiu-se inflar de expectativa, como uma criança esperando pela própria festa de aniversário.

A pessoa andava de forma pesada, os passos muito rápidos e sem nenhuma delicadeza. Se pudesse teria franzido o cenho, por algum motivo pitoresco ele havia se acostumado ao andar de Malfoy e Snape, os movimentos sempre tão suaves que ele mal podia ouvir, os dois bruxos pareciam felinos a espreita e era difícil admitir, mas era divertido ficar prestando atenção para tentar decifrar o que estava acontecendo.

Mas com seu novo visitante não havia esse problema, porque tudo era relativamente escancarado, agora ele já conseguia ouvir alguns fungados, o som de uma cadeira sendo arrastada (não simplesmente erguida para ser reposicionada) e o tilintar de alguma coisa. É, definitivamente diferente.

Ele aguardou alguns momentos, impaciente, esperando alguma coisa, qualquer coisa, e nada, apenas aquele ruído esquisito, como se a pessoa estivesse chorando, e o farfalhar de tecido. Se pudesse teria revirado os olhos, aquela escuridão o deixava extremamente irrequieto.

"Ei, Harry," ele ouviu baixinho e se pudesse teria dado um grito de felicidade, a espera chegara ao fim e ele não precisava se concentrar para saber quem estava ali, era meio óbvio, era Ginny.

Mas sua satisfação começou novamente a dar espaço para uma ansiedade descomunal, porque a ruiva tornara a ficar em silêncio.

Meu deus, até o Malfoy é mais falante do que isso, pensou indignado e em seguida sentiu-se mal por ser tão cruel. Não era natural que ele tratasse as pessoas daquela forma, tudo bem que se sentia solitário e frustrado naquele escuro infernal, mas Ginny não tinha culpa disso, ela era sua amiga e não sabia o que estava acontecendo.

E alguns longos minutos se passaram, minutos nos quais o silêncio era interrompido apenas pelos fungados de Ginny. Harry tentou ser compreensivo, de verdade, mas estava sendo difícil suportar aquela situação, sua vontade era de vociferar um fale alguma coisa logo, mas para variar seu estado comatoso não queria colaborar. E ele sabia que mais tarde agradeceria por isso, porque teria sido uma atitude extremamente rude.

Mas a ruiva de repente pareceu despertar e ele conseguiu ouvi-la se movendo e esbarrando em alguma coisa metálica, teve vontade de rir por alguns instantes, porque de verdade, comparada a Malfoy ela poderia ser facilmente classificada como desengonçada. Aliás, qualquer pessoa comparada a Malfoy, com a exceção de Snape, seria desengonçada, o loiro era praticamente uma cobra e cobras não fazem barulho, certo?

"Harry, eu sei que provavelmente você não consegue me ouvir, mas eles disseram que pessoas em coma talvez-", outro fungado e um suspiro, pela altura da voz ele sabia que ela estava muito próxima de seus ouvidos, "mas eu gostaria de pedir desculpas. Ron estava certo, sabe? Embora eu não goste de admitir, claro," ela deixou escapar uma risada silenciosa e sem graça, "eu deveria ter sido mais cuidadosa, eu deveria ter prestado mais atenção durante as missões."

E agora ela estava chorando abertamente e o coração de Harry se apertou. Ninguém poderia ter previsto que aquilo iria acontecer, que ele seria envenenado, e lá no fundo, apesar de não querer ser cruel, ele sabia que as chances de Ginny ter sido capaz de evitar alguma coisa daquele tipo eram mínimas. A ruiva apesar de ser hábil com feitiços e bastante atlética, não possuía o instinto de perigo que fazia alguns bruxos serem aurores excepcionais. Como por exemplo o 'Olho-Tonto' Moody, era praticamente impossível pegar o infeliz desprevenido e Tonks então, a bruxa tinha um instinto e uma agilidade tão precisa que a única pessoa capaz de competir com sua rapidez era Remus, e isso por conta de sua licantropia.

Mas Ginny, pobre Ginny, ela se esforçava, mas não parecia ser o suficiente e Ron não deixava por menos, porque enquanto toda a família apoiava e se orgulhava da decisão da caçula em ser tornar uma auror, ele fora o único contra, e Harry no início achara que fora por pura crueldade, mas agora, para sua surpresa, ele compreendia o motivo e tinha que admitir, meio contrariado, que aquele fora um dos raros momentos de sabedoria do amigo.

Porém, como é que alguém teria coragem de ser tão cruel e falar a verdade para a ruiva? E foi com um desgosto que ele ouviu aquela vozinha sem escrúpulos no fundo de sua mente (muito parecida com a de Malfoy, diga-se de passagem) dizendo que talvez ele não estivesse nesta situação se não tivesse agido como um covarde e desde o início tivesse dito a verdade para Ginny, que ela não nascera para ser auror, que ela deveria procurar outra coisa para fazer.

Os sons de choro diminuíram e a caçula Weasley voltou a fungar, dessa vez com certa ferocidade. Se pudesse ele teria suspirado de pesar.

"Eu sinto tanto a sua falta, Harry. O quartel-general não é mais o mesmo sem você, todos no esquadrão estão chateados e meio deslocados." E ao dizer isso ela fez uma pausa e ele praticamente grunhiu de curiosidade, querendo que ela continuasse falando, que lhe contasse como estavam as coisas entre seu grupo, querendo saber se estavam todos bem.

Demorou um pouco, mas ela tornou a falar. "Sei que se você pudesse me ouvir iria estar maluco para saber quem está no comando do pessoal na sua ausência," e ao dizer isso ela riu um pouco, e Harry sentiu-se um tanto desconcertado ao notar o quanto era previsível com relação a estas coisas. "Bem, o Ministério nomeou a Tonks como a sua substituta, mas tudo provisório, claro, o que foi bastante legal, sabe? Ela não tenta ser melhor que você, teria sido muito difícil para todo mundo se o novo comandante fosse algum metido tentando te superar."

A notícia fez com que ele respirasse mais aliviado, Tonks faria um bom trabalho em sua ausência, ela respeitava as limitações e diferenças de todo mundo, fora o bônus, ela também era um membro da Ordem.

"Ah, Harry, você não sabe o que eu daria para ver você abrindo os olhos mais uma vez," Ginny acrescentou subitamente, sua voz agora assumindo um tom sonhador. De imediato ele se sentiu um pouco desconfortável. "Eu estava criando coragem, entende, para te dizer como eu me sinto."

E aqui ela fez uma pausa um pouco longa e Harry começou a ficar um tanto quanto desesperado. Ele não era tolo, ele sabia muito bem o que a ruiva queria dizer, mas desde o natal passado estivera fugindo dela para não ser obrigado a lidar com a situação. Mas o destino ironicamente o deixara em coma e pelo jeito ele seria obrigado a ouvir, a única vantagem é que não precisaria responder.

"Eu-eu," suspiro, "Desde a primeira vez que nos conhecemos eu-"

"Weasley," e os deuses haviam ouvido suas preces, porque ele sabia que na entrada do quarto estava Malfoy, como sempre silencioso demais ao andar, pegando-os de surpresa, não que Harry pudesse reclamar.

Ginny ficou em silêncio por um tempo, provavelmente chocada por ser interrompida, ou talvez apenas perplexa com a presença do loiro, mas não demorou muito para que ela se recompusesse.

"Malfoy," sua voz estava carregada de desprezo e agora mais distante, como se ela tivesse se afastado, "o que é que você está fazendo aqui?"

Harry ouviu apenas um bufo impaciente vindo de outra direção, o loiro estava se movendo, se aproximando.

"Eu poderia perguntar a mesma coisa, não poderia?" O sonserino devolveu e Harry não precisava ser nenhum adivinho para saber que o rapaz estava se divertindo com aquela situação, o que de certa forma era intrigante, o que poderia ser tão hilário?

"Não comece com seus joguinhos, Malfoy, sou amiga de Harry, tenho todo o direito de visita-lo, mas você não é-"

"E eu sou a única pessoa capaz de salvar o seu namoradinho aqui," o loiro a interrompeu, e pela altura de sua voz Harry já podia supor que o bruxo estava agora no exato local onde montara seu mini laboratório algum tempo atrás.

"Quanta arrogância da sua parte," Ginny sibilou e Harry revirou os olhos, porque tinha que concordar, Malfoy era bastante convencido.

"Arrogância? Engraçado você mencionar isso, não seria muita arrogância da sua parte se agarrar a Potter e se aproveitar do fato dele estar em coma?"

Ao ouvir isso Harry se surpreendeu. Agarrar? Como assim agarrar? E se pudesse teria corado com as imagens de Ginny jogada sobre seu corpo imóvel enquanto ele não podia fazer nada para se defender.

"Eu não estava me agarrando a ele!" a ruiva protestou, parecendo horrorizada.

Mas Malfoy, regozijando-se com o desconforto da bruxa, apenas fez um ruído que indicava claramente que ele discordava.

"Oh, claro que não, Weasley."

"Malfoy, você pode não estar familiarizado com o conceito, mas eu e Harry somos amigos, ótimos amigos," Ginny argumentou, parecendo ganhar confiança com isso.

"Ah, mas você gostaria de ser muito mais do que uma simples amiga, não é mesmo?" o loiro provocou com ironia.

Aquilo fez a ruiva guinchar, parecendo ter sido ferida fisicamente.

"Eu não sou obrigada a ficar me explicando para você, Malfoy, logo você de todas as pessoas, um comensal, um-um adorador da arte das trevas."

A explosão da bruxa pareceu não afetar nenhum pouco o sonserino, que apenas suspirou resignado.

"Vocês Weasleys nunca mudam os insultos, quanta falta de criatividade. Mas faça isso mesmo, vá embora, tenho coisas demais para fazer, ou você acha que o Santo Potter aqui irá acordar sozinho? E ter você atracada ao Cicatriz só iria atrapalhar o meu trabalho."

Harry sentiu-se revoltado ao ouvir isso, porque parecia tão errado, era como se alguém estivesse ferindo sua intimidade. Ginny não seria capaz de tomar este tipo de liberdade, seria? Malfoy provavelmente estava brincando com os sentimentos da garota, certo?

O discurso do sonserino pareceu ter um grande efeito sobre a ruiva, que com passos pesados começou a se afastar da cama e aparentemente se aproximar do loiro, Harry podia ouvir a força que ela impunha sobre os próprios passos, como se quisesse esmagar o chão.

"Escute aqui, Malfoy, se algo acontecer ao Harry por sua causa eu juro que eu vou-"

Mas Draco pareceu já ter escutado o suficiente, porque imediatamente a interrompeu, irritado.

"Vai o quê, Weasley? Me prender? Me matar?" E ao dizer isso soltou uma lufada de ar carregada de ironia. "Você é uma desculpa patética como auror. Você acha que eu não li os relatórios sobre a noite em que o Potter foi envenenado? Você acha que eu não sei de quem é a culpa dele ter ficado separado do grupo principal sem nenhum suporte?"

Um silêncio pesado recaiu sobre o quarto e Harry aguardou a resposta de Ginny com uma tremenda expectativa. Ele não sabia como julgar a situação. Malfoy era cruel com as palavras e era capaz de mentir para tirar vantagem de algumas coisas, mas o que ele dissera fora pesado, ele acusara Ginny de ter contribuído para que ele fosse envenenado. E agora ele percebia com espanto que a ruiva permanecia calada, sem se defender. Porque ela não retrucava, não dizia que era mentira?

Mas como sempre ele ficou sem as respostas, porque Ginny não respondeu a acusação, pelo contrário, começou a se afastar, seu ritmo descompassado, sua respiração pesada ficando cada vez mais distante até que Harry não pudesse mais ouvi-la.

Malfoy também permaneceu parado, ou pelo menos ele achava que o loiro estava parado, com a capacidade dele de se mover sem fazer muito barulho era difícil dizer com toda certeza, até que o bruxo finalmente pareceu murmurar alguma coisa.

"Sabe, Potter, você deveria me agradecer por isso."

E Harry teria arqueado as sobrancelhas se pudesse, afinal, porque ele deveria agradecer? Por ter importunado Ginny e feito ela praticamente correr para fora de seu quarto?"

"O que me espanta é como todo mundo trata essa inútil como se ela fosse capaz de fazer alguma coisa," Malfoy continuou, "sua incompetência como auror chega beira do absurdo."

Aquilo não agradou o grifinório, Ginny era sua amiga, por mais que ela tivesse os seus defeitos, a garota era gentil e atenciosa, ela não merecia ser tratada daquela forma, muito menos por alguém como Draco.

Mas o loiro, alheio a suas opiniões, continuou conversando sozinho.

"Tão fraca, patética. Não teria sobrevivido um dia sequer na Sonserina."

E Harry tinha que concordar, para sobreviver em um ninho de cobras era preciso ser uma cobra e ele sabia muito bem que a ruiva não era.

"Olha, Potter," Malfoy continuou falando enquanto parecia se concentrar em outra coisa, pelos ruídos Harry supunha que o loiro estivesse cortando algo, "eu sei que a fama tem seus lados negativos, que existem todos os tipos de fãs neste mundo, dos mais ordinários aos mais malucos, mas você, Cicatriz, tirou a sorte grande, foi logo chamar atenção da Weasley." Malfoy exalou de forma irônica. "Ah, se você pudesse ouvir os comentários sobre ela em Hogwarts."

O grifinório engoliu em seco, um pouco confuso com o que estava acontecendo. Malfoy estava falando como se eles estivessem conversando na mesa do Caldeirão Furado e apesar do loiro manter seu tom mordaz, o objetivo principal não era humilhá-lo, pelo contrário, talvez, em uma outra dimensão, se eles tivessem chegado a ser amigos, Harry tinha certeza de que seria exatamente assim que eles iriam conversar.

Só que o assunto não era nenhum pouco agradável. Fofocas sobre Ginny? Aquilo só podia ser coisa de sonserinos, porque quem iria fazer algo tão cruel contra a ruiva? Principalmente em Hogwarts onde ela fora relativamente popular?

Mas isso não minava sua curiosidade, pelo contrário. Malfoy achava que ele não estava acordado, que não conseguia escutá-lo, isso era motivo o suficiente para que ele acreditasse que o bruxo não mentiria, afinal, não havia motivo nenhum para isso, o que só transformava toda a situação em algo muito bizarro. Se Malfoy não tinha motivos para fabricar falácias sobre a ruiva, quer dizer que Ginny era tudo aquilo que ele estava dizendo?

"Pansy costumava se divertir à custa dela, tudo muito discreto, claro. Você e aqueles dois idiotas viviam em um mundinho só de vocês que nem sequer percebiam. Era muito engraçado. Você sabia que a Weasley gostava de te seguir?" E parecendo classificar a própria pergunta como imbecil, Malfoy bufou para logo acrescentar, "Oh, mas é claro que não, você nunca prestou atenção em nada além do seu próprio umbigo."

A acusação fez a consciência de Harry ferver. Não, obviamente ele não percebera que Ginny o seguia ou que desejara fazer parte do trio, mas ainda assim, nada disso fora porque ele era egoísta, pelo contrário, seus anos em Hogwarts foram sempre tão tumultuados que ele acabava se desligando das coisas ao seu redor. O que havia de errado nisso?

"Às vezes sinto pena dela. O que dura menos de um segundo, óbvio," ao ouvir isso Harry revirou os olhos, "mas ainda assim se você for analisar, todas as escolhas que a Weasley fez foram baseadas exclusivamente em você, ou será que sou a única pessoa inteligente que notou que a idiota só decidiu se tornar uma auror por sua causa?"

E ao ouvir isso Harry notou pela primeira vez que Malfoy, assim como Ron, tinham teorias muito semelhantes sobre o comportamento da ruiva, o que se ele fosse pensar era hilário, imagine a cara que os dois bruxos fariam se soubessem disso.

Ele aguardou que Malfoy continuasse com seu monólogo, não querendo ter que refletir sobre todas as coisas que estavam sendo ditas, mas o loiro, parecendo contraria-lo, parou de falar por alguns instantes para começar a mexer em diversos frascos. Da cama Harry conseguia escutar o tilintar dos vidros e o raspar de alguma coisa contra a madeira.

Como previsto, a pausa do sonserino só contribuiu para aumentar o choque que começava a se espalhar por usa consciência. Talvez Ginny nunca tivesse a oportunidade de ser feliz, de ser algo excepcional por culpa dele, por culpa daquela paixonite de infância que ele nunca se esforçara em recusar. Isso só fez com que Harry percebesse seu erro em fugir da situação, precisava libertar a ruiva daquela obsessão.

O som de frascos desapareceu e agora ele escutava ruídos de algum líquido sendo despejado sobre outro, o que foi seguido por um chiado baixo. E parecendo ter despertado do que estava fazendo, Malfoy acrescentou em um tom baixo, "Merlin, quem inventou esse veneno é brilhante, diabolicamente brilhante." Seu tom era quase que de extrema admiração.

O loiro continuou trabalhando e Harry tentou não pensar sobre Ginny, ficando surpreso ao perceber como isso era fácil de se fazer se ele tomasse o cuidado de prestar atenção em Malfoy. Ele percebeu também que à medida que o loiro se concentrava mais profundamente no que estava fazendo, menor era a frequência de suas exclamações, como se ele fosse se perdendo em um mundo próprio.

Alguns momentos se passaram daquela forma e Harry rapidamente se resignou a ideia de que o quarto permaneceria em silêncio enquanto Malfoy trabalha, exceto claro, pelos palavrões e murmúrios desconexos do bruxo sobre os ingredientes.

Por algum motivo estranho aquela situação tinha um efeito reconfortante. Não havia nada para distraí-lo, nenhuma conversa ou briga, nada, mas só a ideia de estar ali, acompanhado, de saber que havia alguém próximo de si, permitia que ele relaxasse e deixasse seus pensamentos fluírem no que seria uma imitação sórdida de um descanso.

Até claro um estrondo alto quase mata-lo de susto.

"Maldição!", foi à única coisa que conseguiu discernir em meio ao barulho de uma cadeira caindo, vidros se quebrando e algo sendo claramente arremessado contra a parede. Harry não precisava ser nenhum adivinho para saber que Draco estava furioso por conta de alguma coisa.

Alguns segundos depois a quebradeira finalmente parou e ele só conseguiu ouvir a respiração pesada de Malfoy. Mais alguns minutos e o loiro finalmente começou a caminhar de um lado para o outro, seus passos agora mais pesados e pouco delicados, alguns grunhidos escapando de sua boca e o som claro de cacos de vidro sendo esmagados.

"Hemeróbios, merda de hemeróbios. Tem que haver alguma forma, sim alguma forma. Essa estabilidade do inferno!" E logo em seguida o loiro soltava um quase uivo de irritação.

Ficaram nesta situação por um tempo até que Malfoy pareceu finalmente se acalmar e ao ouvir dois rápidos Scourgify e Reparo, Harry soube que o bruxo estava limpando e arrumando todo o estrago que fizera.

"Talvez se eu usar calor, porque não calor, sim?" Malfoy murmurou naquele tom de voz compenetrado e levemente enlouquecido que Harry estava começando a achar engraçado.

Depois disso o silêncio retornou com toda força, só que dessa vez sem trazer nenhum conforto para Harry. Apesar dele não conseguir ver, sentir ou se mover, era impossível ignorar a aura de impaciência e frustração que emanava de Malfoy, era como se o bruxo estivesse em chamas, fazendo com que tudo ao seu redor se aquecesse, inclusive ele.

Era difícil também admitir que estava começando a admirar o ex-comensal. Apesar de não poder observá-lo trabalhando, só de escutar o bruxo praguejando, rabiscando alguma coisa e andando de um lado para o outro, ele conseguia identificar a sua determinação. Determinação que atualmente estava focada em salvá-lo, o que tornava tudo ainda mais bizarro.

Por isso ele se mantinha atento, escutando cada ruído e cada murmúrio com certa fascinação. Ele nunca fora daquele jeito. Obviamente era um ótimo auror, mas aquela capacidade de concentração e de estudo eram qualidades que presenciara apenas em Hermione e ele nunca pensara que Malfoy seria capaz de competir lado a lado com a faceta nerd da amiga. Quantas vezes ele não vira Mione andar de um lado para o outro, frustrada? Se enfiar em seu quarto de estudos e só sair de lá uma semana depois? Várias! E Malfoy não era diferente, nenhum pouco, conseguia ser até mesmo mais agressivo se ele fosse levar em consideração a explosão de mais cedo.


Um bom tempo se passou, mas Harry não sabia dizer quantas horas ou dias, tudo era muito obscuro quando não se podia enxergar. Malfoy ainda continuava no quarto, imerso em um universo paralelo cheio de formas e experimentos e ele já estava até se cansando das inúmeras teorias inventadas pelo loiro, assim como seus acessos de raiva ao ver que nada dava certo.

Neste meio tempo várias enfermeiras tinham vindo checa-lo para ver se estava tudo bem. Em um primeiro instante sentira-se ansioso, aguardando qualquer coisa, qualquer alteração em seu estado comatoso, mas à medida que as respostas continuavam sendo sempre as mesmas, nenhuma mudança, suas esperanças iam dando lugar para a descrença e a amargura.

Ninguém mais de seus amigos aparecera para visita-lo e ele desconfiava que Malfoy fosse o motivo. Mas isso não queria dizer que pessoas não davam uma passadinha em seu quarto. Alguns medi-bruxos, atraídos pelo trabalho de Malfoy, o qual ele não entendia nada, apareciam para discutir teorias ou dar ideias sem serem realmente requisitados. O sonserino, sempre delicado como um hipógrifo, enxotava a maioria, algumas vezes por meio de seu desinteresse e outras vezes gritando e esbravejando como um bárbaro.

Nessas horas Harry se divertia e sentia falta de poder rir, porque Malfoy era hilário em sua incapacidade de ser gentil. Mas quando as interrupções desapareciam, na mesma rapidez que chegavam, o loiro mergulhava novamente no objetivo de fabricar um antídoto e Harry era obrigado a lidar com o silêncio do quarto e de sua mente.

Em alguns momentos, mas não muitos, ele ouvia Malfoy se levantar e sair do quarto, tudo isso feito no maior silêncio, como se o loiro fosse um felino indo caçar, mas antes que pudesse começar a sentir falta da companhia, o bruxo voltava e os sons de frascos e algo borbulhando tornavam a preencher o quarto.

Se fosse para Harry ser sincero consigo mesmo, ele teria que admitir que já começara a perder as esperanças de que algo iria finalmente mudar e pelo o que ele ouvia de Malfoy enquanto este trabalhava, o sonserino também estava indo pelo mesmo caminho. Os palavrões estavam começando a ficar mais frequentes, o som de algo se quebrando também. O loiro estava ficando impaciente. Mas de repente, em um momento particular, tudo pareceu mudar.

O grifinório notou que algo diferente acontecera porque Malfoy se ergueu muito rápido da cadeira, fazendo-a raspar contra o chão. Em seguida ele ouviu um expirar curto de ar, seguido por um som um pouco grave. Só isso já serviu para instigar sua curiosidade.

Ainda preso aos ruídos inéditos, notou o barulho da ponta de uma pena contra um pergaminho, Malfoy estava escrevendo e pelo jeito com uma pressa monstruosa. E depois de tudo isso, silêncio, um silêncio pesado que começava a esmaga-lo de expectativa, até que para sua surpresa Draco exclamou.

"Expecto Patronum!"

E de tudo que ele poderia escutar, de tudo o que ele esperara escutar, Harry nunca poderia ter imaginado que seria isso. Estava mentalmente boquiaberto. Malfoy, produzindo um patrono? Era algo tão surreal, mas era verdade, estava acontecendo ali diante de seus ouvidos e apesar de não poder verificar com nenhum outro sentido se o feitiço fora um sucesso, ele não precisava, tinha certeza de que uma figura esfumaçada surgira da ponta da varinha do sonserino.

Mas isso não deixava de ser extraordinário e sua admiração por Malfoy começou a aumentar perigosamente, era muito raro que Comensais fossem capazes de utilizar este feitiço, até aquele dia ele pensara que apenas Snape era a exceção à regra, pelo jeito estivera errado.

"Procure Snape," Malfoy explicou para seu patrono com uma voz recheada de cansaço, mas também de determinação, "fale que finalmente descobri uma forma de remover os hemeróbios, fale que está relacionado à temperatura."

E ao ouvir isso Harry ficou por alguns momentos paralisado, porque quando já estava pensando em desistir, jogar tudo para o alto, aquela esperança surgia do nada – não que ele tivesse duvidado da capacidade de Malfoy em conseguir achar alguma, não, mas ele duvidara de sua própria sorte, sorte essa que parecia adorar brincar com seu destino.

Mas pelo jeito Draco Malfoy não era um bruxo qualquer e Harry começava a se sentir tentado em admitir que o loiro poderia ser um candidato à altura para combater o seu famoso azar.


N/A: Aô, minha gente. Se você chegou até esta nota, saiba que você é um herói. Sim! Hahahaha. Este foi, provavelmente, o capítulo mais difícil de escrever (e de se ler) de toda fanfic, não apenas por ele ser uma transição e transições, cá entre nós, são sempre terríveis, mas também porque tem a Ginny.

E já deixando bem claro, eu, como a maioria das pessoas que curtem Drarry (ou a maioria das pessoas sãs, hahahahha), odeio a ruiva. Mas assim, é um ódio que beira o irracional, e apesar disso, eu precisava descrevê-la sem deixar que este sentimento fosse repassado para a história. Como vocês puderam ver, falhei miseravelmente hahahahaha. Perdoem-me por isso. Mas como ficou bastante claro, sempre teremos Draco Malfoy para defender a honra do nosso virgem de olhos verdes de um estupro iminente.

Agradeço imensamente os comentários, principalmente por essa não ser uma história fácil de ser transcrita. Na minha cabeça tudo soa tão fantástico, mas na hora de passar pro pc, minha nossa senhora, as vezes é um parto. Por isso agradeço de verdade todo o apoio, isso me mantém na linha.

E agora vai uma pergunta de início de ano, qual é a forma do Patrono do Draco? Hahahahaha.

Respondendo(comentando) algumas coisas:

Blackverdammt: Nojinho do Ron? Estou numa fase Potteriana na qual eu sempre me pergunto, quem é que não tem um certo nojinho dele? Hahahaha. É bem difícil encontrar corajosos por aí capazes de dizer que gostam deste personagem, agora o porquê disso, bem, aí complica, são tantos motivos que a lista seria infinita. (Credo, coitado dele... sqn!) E quanto ao Dumbledore, para mim ele é lobo em pele de cordeiro, com direito a pelinho branco na cara. Não acredito realmente que ele tenha mudado muito desde Grindelwald, pelo contrário, fez foi é piorar, afinal não é meio que consenso que esse povo que anda sobre a divisa entre o bem e o mal são os piores tipos de pessoas? Pois bem, Dumbledore pode dar aula disso. Quanto aos Macnair, só posso dizer que nesse ovo tem pelo, muito pel, diga-se de passagem.

Flavia FV: Intimidade, hum, talvez, muito provavelmente, quem sabe. Droga, não posso falar hauahuaha.

Amitra: Logo, logo estarei explicando a parte da Nagini, na verdade é algo até bem simples e muitos já devem ter previsto. E 2014 não me trouxe muita inspiração, infelizmente, mas se bem que combater bloqueio provocado pela Ginny Weasley é complicado.

PandoraMaria: Fico muito feliz em dizer que alguém ainda vai fazer uma piadinha com a cara do Harry comparando ele com alguma princesa da Disney hahahahaa, não vou resistir a tentação. E Harry é meio lento para algumas coisas, uma delas é essa de 'homem de Dumbledore'. Até mesmo nos livros, depois de tantas mortes e picuinhas, ele ainda era sonso demais, não enxergava nem metade do que aconteceu, mas nada que uma boa dose de paciência e realidade Draconiana não possa resolver.

Anne Marie Le Clair: Fico feliz por ter gostado e a parte da risada foi de propósito. Nos livros nos acostumamos tanto com a típica voz arrastada de Malfoy e Snape que esquecemos muitas vezes que ambos podem ser criaturas muito sedutoras, aliás, se formos pensar na época de 'ouro' do tio Voldy, Lucius Malfoy deve ter sido um problemão hahahahaha. Quanto às dúvidas, serão esclarecidas. A parte do Departamento do Ministério existe apenas para provar algumas coisinhas que ainda não posso dizer hahaha. Droga.

Lazinha: Sim! Harry não reconhece a voz de Draco hahahaha, sabe por quê? Ele esteve sempre tão acostumado em ser ofendido pelo loiro que nunca chegou a ver o bendito em seu elemento, que é enganando os outros e sendo milagrosamente educado. Uma pena não acha? E apesar de ser tentador colocar um Draco se aproveitando de um Harry em coma, não posso fazer isso, argh, ainda, hahaha. E sim, safadezas irão acontece e você não faz ideia nem da frequência e nem de quem estará envolvido. E para esclarecer, Malfoy teve uma obsessão doentia por Harry no passado, nada que pudesse ser chamado de paixão, agora, o perigo é quando ele acaba sendo obrigado a misturar duas de suas obsessões mais recorrentes, Potter e Poções, só pode dar merda, não é mesmo?

Agora pra finalizar, próximo capítulo sairá mais rápido do que esse, sem a Ginny Weasley para me atrapalhar as coisas andam muito mais suaves, portanto aguentem firme!

Um mega final de semana para todos vocês.

Abç ;)