Quando a Tempestade Acabar


.: V – Zabini :.

Primeiro houve um zumbido baixo acompanhado por uma insistente sensação de tontura, era como se sua orelha estivesse entupida. Lentamente, para o seu alívio, a sensação de pressão sobre o seu tímpano foi diminuindo e ele começou a recuperar a consciência da forma mais vagarosa possível, se precisasse comparar aquela sensação com algo diria que era como se estivesse emergindo de uma piscina.

Durante os últimos acontecimentos Harry pensara com sinceridade que nunca mais iria acordar, por isso era com certa surpresa que percebia como começava a se situar, sua mente, ainda cansada, coletando e organizando seus pensamentos a passos de formiga, fazendo com que o cobertor pesado que cobria sua memória e raciocínio começasse finalmente a ser removido.

Ainda não tinha certeza de nada, não sabia qual era o seu real estado de saúde ou quanto tempo se passara, a única coisa que podia afirmar com convicção é que continuava impossibilitado de se mexer. Os sons ainda estimulavam o seu cérebro e era possível registrar ruídos aqui e ali, mas apesar de tudo estava cansado demais para prestar atenção por muito tempo.

"... resistiu... muito fraco... não sei por quanto tempo..."

"Está estável... não... coma... mais profundo..."

"... Malfoy... culpa... não deveriam confiar nele..."

"... o que... ex-Comensal..."

"Absurdo!"

Tudo vinha de uma forma bastante desconexa. Não soube reconhecer as vozes, muito menos classificar os tons. O conteúdo da mensagem também não lhe parecia agradável e não o deixara animado com o prognóstico de seu caso. Porém não pode refletir muito sobre sua situação nem avaliar o que realmente mudara, não demorou muito para que o cansaço voltasse a tomar conta de seu corpo e que o costumeiro cobertor abafasse seus pensamentos.

Rapidamente adormeceu.


A segunda vez que ele acordou demorou menos para se situar e se acostumar com o ambiente ao seu redor. Ainda não conseguia enxergar e não conseguia mover nem um fio do cabelo, mas havia algo diferente, fora o extenuante cansaço, claro. Era impossível dizer de fato o que era, mas estava ali. Por alguns instantes teve esperança que isso fosse um bom sinal, mas logo em seguida tentou se manter com os pés no chão, afinal podia ser nada, podia ser apenas sua estúpida mente lhe pregando peças.

A princípio precisou de alguns segundos para sintonizar suas ideias e pôr seus ouvidos para trabalhar de forma coerente, e quando finalmente conseguiu tudo isso, quase se arrependeu ao ouvir uma voz ríspida e aguda. Pelo jeito seus tímpanos estavam mais sensíveis do que antes, por um lado isso era bom e por outro era péssimo, como agora, quando obviamente algumas pessoas achavam ser uma maravilhosa ideia ficarem discutindo perto de sua cama.

"Inconsequentes, todos vocês! Harry poderia estar morto agora." Não reconheceu a dona da voz, mas quem quer que fosse vociferava bastante ofegante. Se pudesse ver ele sabia que iria se deparar com alguém com a face bem vermelha devido a o esforço e a raiva.

"Mãe, não adianta, eu e o Ron falávamos várias vezes à mesma coisa." Ah, agora tudo ficava um pouco mais claro, era Ginny e Molly. Não que não apreciasse a companhia das duas, mas uma Weasley com uma crise maternal já era difícil de lidar, duas então, nem se fala.

"Remus, como você pôde autorizar isso? Sem nenhuma garantia!" Harry estava com pena do licantropo, de verdade.

"Molly, não tínhamos muita alternativa, a cada dia que passa o estado de saúde dele piora." Lupin respondeu da forma mais pacífica que conseguiu, o que obviamente não contribuiu em nada para aplacar a raiva da senhora.

"Tem que haver outras opções, Professor Lupin," Ginny insistiu mantendo seu hábito de se referir ao bruxo como se ele ainda fosse seu professor, entretanto Harry não conseguiu continuar prestando atenção ao resto da conversa, porque Molly, aproximou-se mais de sua cama e agora conversava com ele bastante abalada.

"Oh, meu menino, o que fizeram com você?" Começou há fungar um pouco e ele temeu que ela começasse a chorar, mas aparentemente Molly se manteve firme e inspirando com depressa tornou a falar. "Não desista Harry, você precisa voltar, estamos todos te esperando." E sua voz estava carregada de determinação e uma energia que ele só podia invejar.

Molly continuou por um bom tempo balbuciando diversas palavras de encorajamento nas quais ele não conseguia se concentrar por muito tempo, era como se sua voz fosse uma rádio mal sintonizada. Não demorou muito para que ele se perdesse em pensamentos.

Imaginava como todos os seus amigos deveriam estar cansados, ele também estava. Esperar era a pior coisa que podia acontecer. Claro que morrer ou perder alguém querido não era uma experiência fácil, mas pelo menos havia um fim, você podia entrar de luto, chorar e recomeçar a vida. Mas comas não funcionavam assim. Havia aquela angústia misturada com esperança, uma esperança que ia se consumindo aos poucos até quase sumir, mas que de verdade nunca desaparecia. Ninguém conseguia seguir em frente quando alguém muito próximo entrava em coma, ninguém, e Harry preferia morrer a ser motivo de tanto dor para as pessoas que amava.

Remus e Ginny ainda conversavam quando a Sra. Weasley pareceu se afastar de Harry e se erguer com uma nova ferocidade. A rádio em seu cérebro pareceu voltar a se sintonizar com os sons do quarto.

"Não vou admitir que vocês permitam que Malfoy tenha um livre reinado sobre o tratamento de Harry. Nunca confie nele, desde aquele incidente com o diário e minha pobre Ginny, não será agora que eu irei começar a confiar." Ela exclamou em um tom definitivo que indicava que ninguém seria capaz de contrariá-la.

"Molly, não seja absurda. Severus está acompanhando o caso, ele melhor do que ninguém sabe qual é a forma de agir." Remus tentou racionalizar, sua voz tranquila contrastando com a alterada da senhora ruiva.

Ginny, por sua vez, prevendo que o temperamento da mãe iria ser posto a prova, preferiu ficar calada, mesmo porque concordava com o que ela estava dizendo e achava que alguém deveria injetar um pouco de bom-senso em Lupin.

"Remus, não gosto de dizer como as pessoas devem agir, mas desta vez terei que interferir," ela começou com um tom de voz tipicamente matriarcal, "Malfoy quase matou Harry com seus experimentos levianos, não vou deixar que isso aconteça novamente."

"Molly-"

"Não, Remus, isso não está aberto para discussão. Você pelo menos olhou para o Harry? Realmente o olhou? Ele quase morreu!" Ela disse isso tudo com um meio grito estrangulado.

E apesar de Harry compreender a dor de Molly e considera-la como uma mãe que nunca tivera a chance de ter, ele sentiu raiva, uma raiva tão fervente que parecia um monte de labaredas consumindo sua consciência. Quem ela pensava que era para julgar Malfoy assim? Ela estivera ali? Assistira como ele se dedicara com bastante afinco em procurar um antídoto para o veneno que percorria suas veias? Não! Nenhum deles se dera ao trabalho. Tudo o que faziam era julgar e apontar dedos.

Se pudesse teria erguido furioso da cama, porque ele podia não ser amigo de Draco e ambos poderiam muito bem ser considerados inimigos, mas ele não era injusto e muito menos hipócrita. Malfoy tinha todos os defeitos do mundo, mas o loiro tinha orgulho do que fazia e respeitava bastante o próprio trabalho para simplesmente sair tomando decisões idiotas.

E por Merlin, não fora um experimento leviano! Demorou dias para que Snape e Draco considerassem com seriedade a ideia de aumentar a temperatura de seu corpo. Ele podia estar incapacitado, mas escutara horas a fio Draco trabalhando sobre uma bancada, agitando o caldeirão, escrevendo vários metros de pergaminho e passando noites em claro. Era um absurdo que uma pessoa de fora, alguém que não estivera ali durante vinte quatro horas, tirasse conclusões precipitadas e acusasse o sonserino.

Ele estava tão furioso com Molly que mal conseguia ouvir o que ela continuava dizendo.

"Malfoy é um irresponsável, sem escrúpulos que obviamente não faz a menor ideia do que esta fazendo!" E ele queria gritar com ela. Será que não existia ninguém são naquele quarto? Será que ninguém iria defender Draco? Porque é que Remus estava calado?

Todas essas perguntas inundaram sua consciência e pela primeira vez desde que 'desmaiara' ele se sentiu vivo. Quem diria que passar raiva era um ótimo remédio para energizar sua mente letárgica? Céus, se Ron ouvisse seus pensamentos agora ficaria horrorizado. Estava do lado de Draco, Merlin, se pudesse falar estaria fazendo discursos ao seu favor. De verdade, o mundo dava voltas.

Mas para o espanto de todos, inclusive o de um Harry comatoso, foi Draco quem interrompeu o discurso odioso da Sra. Weasley,

"É mesmo?" Malfoy perguntou com a voz arrastada e um pouco distante.

O quarto ficou inundando durante alguns instantes por um silêncio pesado até que todos pareceram se recuperar.

"Draco!" Remus exclamou, à medida que Ginny e Molly deixavam escapar um "Malfoy!" em um tom nada agradável.

"Não sabia que você tinha um diploma em poções ou era uma medi-bruxa para julgar o meu trabalho como apropriado ou não." O loiro pareceu não se abalar com a recepção nada calorosa e à medida que falava Harry percebia como sua voz ia se aproximando.

Se pudesse teria franzido o cenho. Não sabia se era sua memória que estava falhando, mas o tom de voz do sonserino estava diferente do que se recordava. Seu tom arrastado continuava impecável, mas não havia aquela mesma energia de antes. Se pudesse dar um palpite diria que Draco estava cansado, imensamente cansado.

Mas claro que o cansaço do loiro não era nada para Molly nem para Ginny, ambas estavam se deixando cegar pelo preconceito que existia entre as duas famílias.

"Não é preciso ser nenhum expert para enxergar o que você está fazendo de errado, Sr. Malfoy." Molly grunhiu e Harry podia imaginá-la apontando o dedo para Draco.

"Hummm." Foi à única resposta do loiro, que parecia ocupado demais para responder as provocações da ruiva.

Remus, prevendo que aquele atrito só serviria para intensificar uma briga sobre como o tratamento de Harry deveria ser realizado, tentou aproveitar o momento para apaziguar a situação e tirar mãe e filha do quarto.

"Draco, só passamos para fazer uma visita," seu tom era amável e pela primeira vez Harry sentiu-se irritado com o bruxo. Aquele não era o momento para por panos quentes, pelo contrário, aquele era o momento de Remus se impor e mostrar que estava do lado de Malfoy. Mas claro que isso era pedir demais do último Maroto, agora que pensava melhor, começava a compreender porque Snape se irritava tanto com o licantropo. "Não queremos atrapalhar o seu trabalho."

"Remus!" Molly imediatamente guinchou, indignada. Para a surpresa de Harry, Draco se manteve firme, ignorando-a. "Você não ouviu nada do que eu disse? Não vou permitir que você destrua as chances de Harry de conseguir superar essa situação." Ela informou decidida.

Remus pareceu ficar sem palavras, sem saber como responder. Molly aproveitou o silêncio para se virar na direção de Draco.

"Você está me ouvindo, Sr. Malfoy?" Molly guinchou. "Isso aqui não é o seu playground, Harry não é a sua cobaia."

Com isso Draco finalmente despertou e antes mesmo que ele abrisse à boca a temperatura do quarto pareceu cair alguns graus.

"Sim, Sra. Weasley, ouvi perfeitamente," sua voz arrastada ganhou um tom um tanto quanto ameaçador, "mas enquanto senhora não tiver nenhum direito legal sobre o Potter, duvido muito que eu seja obrigado a obedecer a suas vontades."

Molly provavelmente ficara boquiaberta por algum tempo, porque não respondeu imediatamente o que o sonserino acabara de dizer.

"Remus, você vai realme-"

"Seria pedir muito que vocês tivessem um pouco de bom senso?" Malfoy a interrompeu, seu tom continuava glacial. "Isto aqui é um hospital e não a cozinha da sua casa. Potter pode estar em coma, mas isso não significa que eu esteja, gosto de trabalhar em silêncio."

"Ora, seu-" Molly urrou, mas novamente foi interrompida.

"Molly, por favor, ele está certo, venha." Remus finalmente interferiu com o tom de voz mais tranquilo que conseguiu produzir. "Draco, nos desculpe pelo incomodo, voltarei mais tarde para conversarmos melhor."

Tanto mãe quanto filha não ficaram nenhum pouco contentes ao serem literalmente arrastadas para fora do quarto. Se fosse em qualquer outro momento de sua vida, Harry provavelmente teria achado toda aquela situação absurda e teria defendido as ruivas, mas não dessa vez, dessa vez estava do lado de Draco e teria feito o mesmo, só que muito antes e com muito mais eficiência que Remus.

Não demorou para que um abençoado silêncio se estabelecesse e ele tornasse a se concentrar para identificar outros ruídos. Era estranho ver o quanto era fácil retornar a rotina de ouvir Draco trabalhando, apesar de acabar de reconquistar uma certa consciência. Mesmo que não quisesse admitir, aquilo acabara se tornando a única atividade capaz de deixa-lo em paz.

Ouviu a forma pesada com a qual Malfoy respirava, estranhou a diferença. Antes suas inspirações eram mais profundas e calmas, agora ele parecia capturar o ar em grandes golfadas, expulsando-o dos pulmões com mais força do que o necessário.

Percebeu quando ele abriu o pergaminho e começou a escrever. Seu pulso trabalhava em um ritmo descontínuo e vez ou outra Harry podia jurar ouvi-lo suspirar ou se apoiar em uma das mãos.

As coisas haviam mudado. Malfoy não tinha mais aquela aura de confiança e tranquilidade, estava inquieto, inseguro. Ouvi-lo naquele estado não era nada agradável.

Continuou se concentrando, esperando o momento que o loiro se permitisse finalmente relaxar, mas teve que se contentar com o ritmo de seus rabiscos, a pena praticamente rasgando o papel devido à força de seus dedos.

Tentou se manter acordado, achou injusto que ele pudesse adormecer e que Malfoy continuasse de pé, trabalhando em busca de um antídoto, mas o cansaço foi mais forte que sua força de vontade e antes que ele percebesse acabou adormecendo.


Harry acordou sentindo-se estranhamente confortável. Ao seu lado podia ouvir os sussurros suaves de Draco que parecia não ter se movido desde que ele adormecera. Por longos minutos se permitiu apenas escutar, sem pensar em nada, apenas se concentrou nos ruídos e na voz compenetrada do sonserino.

"Pó de bicórnio... duzentos miligramas... Hortênsia... Preciso encontrar a dose diária..."

Ficaram assim por um bom tempo até Harry perceber o quanto começava rapidamente a ficar cansado. Era como se algo estivesse drenando todas as suas energias.

Um sono pesado ia se espalhando por sua consciência e ele se esforçou ao máximo para não adormecer. O que diabos era isso? Mal acabara de acordar!

Estava tão ocupado em lutar contra o cansaço que demorou um pouco para perceber que Malfoy parara de escrever e parecia estar se levantando.

"Potter, Potter," ele disse em um tom de voz baixo, "não posso me distrair um segundo que você começa a me dar trabalho."

Mas Harry estava tão exausto que não conseguiu compreender direito o que o sonserino queria dizer e nem porque ele dissera isso. Continuou tentando prestar atenção no que o bruxo estava fazendo, mas tudo o que escutou foram alguns ruídos estranhos.

Inesperadamente sentiu o cansaço começar a se desfazer, como se algo estivesse puxando-o para fora de seu corpo. Seja lá o que Malfoy fizera, estava dando certo. Nunca em toda sua vida desejou tanto ser capaz de falar, de contar para o sonserino que aquilo ali dera resultado.

Draco, alheio ao que estava acontecendo tornou a sentar, os sons de sua pena sobre o pergaminho voltando com menos energia do que antes.

Harry agradeceu ao novo fôlego e apenas continuou ouvindo, esperando que algum momento tivesse uma pista melhor sobre o seu estado de saúde.

Estava em um meio transe, sentindo-se imensamente relaxado com os ruídos que Malfoy fazia que praticamente levou um imenso susto quando uma voz interrompeu o silêncio do quarto.

"Foram gentis ao dizer que você estava cansado."

E pela exclamação que Malfoy deixou escapar Harry teve certeza que ele também fora pego de surpresa.

"Blaise." Draco respondeu da forma menos cordial possível e o grifinório estranhou o tom, até pouco tempo atrás, se sua memória não estivesse falhando, Malfoy defendera veementemente os Zabini.

"Draco, quando é que você iria me mandar uma mensagem?" Blaise respondeu, também percebendo o tom irritado do loiro, mas em nenhum momento se deixando abalar. "Ainda fugindo, não é mesmo?"

A pergunta teria feito às sobrancelhas de Harry se esconderem por detrás de seus cabelos se ele fosse capaz de movê-las.

"Não estou fugindo de nada Blaise."

"Não mesmo?" E a voz de Zabini estava nitidamente mais próxima da de Draco.

"O que você está fazendo aqui?" Malfoy perguntou de forma ríspida, só para depois acrescentar, "não, não precisa responder, Snape e suas malditas intervenções."

"Draco-"

"Olha, seja lá o que ele disse para te fazer vir aqui, esqueça." O loiro grunhiu querendo colocar um ponto final na história.

Um silêncio desconfortável foi à única resposta que ele recebeu e por alguns instantes Harry ficou confuso sem saber exatamente o que estava acontecendo, até escutar Draco sibilar em um tom de voz que ele nunca ouvira antes.

"O que você está fazendo?"

E ao ouvir isso Blaise deu uma risada discreta, uma risada que por algum motivo muito estranho Harry não gostou nenhum pouco.

"Bem, deste ângulo," o tom de voz de Zabini era baixo e rouco, cada palavra dita com cuidadosa lentidão, "eu diria que estou tocando você."

O que se seguiu foi uma confusão de sons. Draco pareceu inspirar com bastante força e sua cadeira fez um estranho ruído, como se tivesse sido empurrada para trás com algo bastante pesado em cima. Mas o som que mais chamou a atenção de Harry foi o de um estalo, muito parecido com um tapa.

"Tudo isso é por causa do Potter?" foi a perguntar imediata de Blaise, que se encontrava bastante irritado.

"Não, tudo isso é por causa do meu trabalho." Malfoy praticamente urrou de raiva. Não era difícil perceber que odiava quando alguém sugeria que ele tinha outros motivos para fazer o que fazia além de seu claro respeito pelo próprio trabalho. "E o que isso importa agora?"

"Agora?" Zabini exclamou em um tom perplexo. "Você está mais pálido do que o normal e com olheiras terríveis. Quando foi a última vez que você comeu?" Pressionou. "E Snape disse que faz mais de uma semana que você não dorme direito, desde que Potter-"

"Oh, Snape, Snape, Snape, sempre enfiando o nariz onde não é chamado." Draco o interrompeu em um tom de voz venenoso.

"Ele é o seu padrinho!"

"Quando conveniente, claro." O loiro debochou.

"Draco!"

"Se ele estava tão preocupado, porque não veio me ver pessoalmente? Porque enviou," E neste ponto Malfoy fez uma clara pausa carregada de escárnio, "você?"

"É tão ruim assim me ver?" Blaise pressionou em um tom de voz curioso e mais baixo.

Draco permaneceu alguns segundos sem responder até soltar um suspiro. "Blaise, apenas vá embora."

Novamente um silêncio pesado fazendo com que Harry se contorcesse de angústia devido a sua impossibilidade de ver o que estava acontecendo. Só podia imaginar que Draco optara por ignorar completamente Blaise agora que já deixara claro que não o queria ali, mas pelos sons seguintes o grifinório podia afirmar com toda certeza que Zabini não estava disposto a ser dispensado com tanta facilidade.

Um leve som de passos, a cadeira sendo empurrada pela segunda vez e ruídos de algo tombando. Harry não conseguia classificar todos os barulhos, mas parecia que Draco e Blaise estavam lutando, o que só fez com que ele ficasse preocupado. O que diabos estava acontecendo?

"Pare de tentar se esconder de mim." Blaise exclamou em um tom angustiado, sua respiração claramente pesada.

Draco respondeu em menos de um piscar de olhos, sua voz não mais que um sibilo. "Não est-" Mas foi rapidamente interrompido por um som que Harry a princípio não soube dizer o que era.

O que se seguiu foi o estrondo da mesa sendo empurrada e de alguém se debatendo. Harry, agoniado, cogitou a possibilidade de Blaise estar se impondo sobre Draco.

Foi com espanto que ele finalmente se deu conta que os ruídos mais baixos eram sons de beijo. Os dois estavam se beijando, ali, em seu quarto! Tentou pensar em qualquer outra coisa, tentou aplacar aquele incomodo que fervilhava no fundo de sua mente, aquela irritação contida que não tinha nenhum motivo para existir. O beijo na cabeça de Harry pareceu durar horas, horas angustiantes que ele tentou apagar de sua memória.

Quando ambos pareceram finalmente se separar ele só ouvi o ruído de suas respirações ofegantes, sentindo-se enojado com toda a situação.

"Quem você quer enganar, Draco?" Blaise perguntou depois de um tempo.

"Me deixe em paz, Blaise" Foi a única coisa que Draco respondeu, sua voz carregada de cansaço e algo que Harry não conseguiu identificar.

Novamente um silêncio intenso recaiu sobre o quarto só para ser acompanhado pelos sons de passos e um frasco se quebrando. Com certo espanto Harry sentiu o próprio corpo mover alguns centímetros, como se algo pesado tivesse esbarrado em sua cama, empurrando-a para o lado.

"Vá. Embora. Blaise." Draco exigiu em um tom forçadamente controlado.

Blaise permaneceu sem falar nada.

"Por Salazar, não me faça repetir," o loiro ameaçou, sua voz assumindo um peso de novo.

Parecendo despertar, Zabini finalmente deixou escapar um suspiro, a respiração um pouco descompassada quando comparada a de Malfoy.

"Se você continuar me empurrando para longe deste jeito, Draco, um dia eu irei parar de voltar atrás por você." Foi à única coisa que Blaise murmurou antes de começar a se mover.

Ao seu lado o grifinório ouviu com nitidez o exato instante em que Malfoy deixou escapar o ar que estava prendendo nos pulmões.

Harry estava tão chocado e irritado que acabou não se dando conta que algo importante acabara de acontecer. Depois de dias em coma, pela primeira vez ele sentira alguma coisa, sentira a cama se mover, o único problema é que sua mente estava mais preocupada em formular uma imagem bizarra de Draco e Blaise se beijando contra uma mesa.


N/A: Aha, atualização mais rápida, para compensar o dramalhão mexicano que foi o capítulo passado hahahaha (Alguém percebeu que a idiota aqui numerou o capítulo errado? Era pra ser o Cap. IV, eu fui lá e coloquei III. Tsc. Tc.). Mas sim foi uma sacanagem aquele fim.

Bem, mais tarde irei revisar este aqui, com calma, mas ele já está em boas condições para que vocês leiam. Agora, preciso confessar que até agora este é o meu preferido, mesmo sabendo que algumas pessoas irão querer com toda certeza me matar por conta da última parte (Flavia FV tenha piedade!). Mas Draco não é de longe nenhum monge hahahahaha, e é tão engraçado escrever Harry confuso e com ciúmes (obviamente ele sempre é meio tapado e nunca percebe que está com ciúmes). Enxerguem o Blaise como um catalisador, nada mais do que isso.

Também perguntaram algumas vezes se vai ter Snape/Lupin, bem, os dois se aproximaram, não pretendo focar neste romance em específico, mas algo pode sim se desenvolver, principalmente porque eu prefiro o Remus com o Severus do que com o Sirius (é, gosto de casais dramáticos cheios de angst).

E Ayaazinha se o que eu escrevi por todo este capítulo não puder ser chamado de pensamentos dúbios, céus, me avise! Hahaha. Acho que já ficou bem claro que Harry está começando a ver Draco por um novo ângulo, hunn.

E ah, Lyra Wolf, os processos químicos ficaram assim tão bem definidos porque eu 'formulei a poção'. Sou fascinada por farmacologia e química, então pensei, quer saber, vou montar uma poção como se eu estivesse montando um remédio. Coisa de gente à toa, sabe como é xD

Agradeço a todos que estão deixando reviews (e os que não estão tb!). Gostaria de citar os nicks aqui mas cada dia que passa fico cada vez mais preguiçosa. Depois vou criar vergonha na cara e responder pelo fanfiction, nunca usei a ferramenta de resposta de reviews, será uma experiência nova.

Tentarei atualizar rápido. Espero que eu tenha compensado o sufoco do Harry 'apagando'.

E o final de semana está chegando! Beijos para vocês.