Enquanto corria, viu Ibank arrastando um rapaz – ou o que restava dele – para Solmea.

Solmea... Outra coisa que Tammy não entendia.

O garoto sempre esteve ali, no centro de Ruina. Solmea não envelhecia como humanos... Ou nevaranos. E tinha habilidades estranhas, como recuperar órgãos internos com suas partes biônicas. Como Solmea havia perdido o olho e o braço, ninguém sabia. E porque os havia substituído com partes de Sentinelas, menos. O que se sabia é que Solmea estava ali para ajudar, e sempre que possível, levavam os feridos ao menino. Vida e morte eram questões que somente Solmea poderia resolver, naquele mundo inóspito.

Tammy parou. Precisava ajudar Ibank. Opaeng trazia duas mulheres nos ombros, esbaforido, e havia mais um corpo caído na entrada. Não havia tempo, e...

Um instante. A vida em Ruina era definida num único instante. E naquele momento, Tammy e Aniark definiram sua sobrevivência – pelo menos mais um pouco. O feixe de raios laser do Sentinela mirava suas cabeças; ambos conseguiram desviar, graças aos instintos de defesa dos trajes de Tammy.

Entre os seis prismas de lutas nevaranas, arqueiros arcanos, guardiões arcanos e espadachins arcanos não eram fruto da Torre dos Sábios. Mestres das forças desenvolveram estas artes após o Êxodo. Antes, eram chamados de Manipuladores da Força Arcana, devido a seu extenso conhecimento. Mas este conhecimento foi compartilhado, tornando o título obsoleto.

Ainda assim, eram eles os mestres. Conseguiam interagir com as forças a seu redor, integrando-se com as formas de vida e de energia naquelas terras. Por eles, tudo fluía. Para outros prismas, a Força Arcana era apenas uma ferramenta; para eles, era a própria vida.

Tammy pertencia a esse prisma. Ainda era relativamente nova. Tinha conseguido alcançar o sexto grau da Força Arcana há poucos meses, com muitas ressalvas do alto comando da Floresta do Desespero. O oficial Schuteberg franzia o cenho sempre que a garota vinha ter com Kallua, instrutora responsável pelos arqueiros arcanos de toda Nevareth.

Os ensinamentos de Kallua trouxeram a habilidade de entender a linguagem da estrutura de titânio que envolvia seu corpo. E esta compreensão a salvava sempre. Como agora. Se demorasse um pouco mais para retrair a cabeça, conforme o brilho estranho de seu visor, não teria uma.

O Sentinela recarregava as baterias. Mais um tiro, mais uma chance de matar. Tammy foi mais rápida. O cristal que carregava no punho brilhava. Tammy trouxe a mão direita para o arco em riste de sua mão esquerda, formando uma flecha branca.

Aniark fechou os olhos, tamanha a luz emanada da flecha. A força do disparo de Tammy trouxe todos os corpos para trás, rasgando o ar e acertando o Sentinela em cheio. Pedaços de metal voavam pelos ares, e o ruído era insuportável.

Apenas um Sentinela a menos, entre outros tantos que já se apinhavam ao sul. Vinham na frente, abrindo caminho para o mestre. O som dos rotores era único. Tammy disparou mais flechas para afastá-los. Os que morressem com elas eram apenas lucro. Com 10 flechas disparadas, conseguiu limpar o portão sul do forte.

Não era a primeira vez que as máquinas tentavam invadir a colônia. Mas as investidas ficavam cada vez mais ousadas.

O vulto ameaçador no portão sul era prova disso. Se os Escavadores finalmente mostravam as caras... Não tardaria para que toda a sorte de criaturas deixasse a antiga estação de trem e tentasse a sorte contra a colônia. Novamente. Por que outra razão a antiga colônia teria perecido?

Arco em riste. As ligas metálicas do Escavador estavam expostas.

Sombras emanavam de sua mão direita, enquanto palavras roucas eram ditas. Incompreensíveis aos terráqueos feridos aos pés de Solmea, mas vívidas e ameaçadoras para o garoto. Um nevarano sempre sabia quando as magias das sombras eram invocadas.

O Escavador seguia seu rastro de destruição, tentando derrubar a barreira arcana que envolvia a colônia, A cada investida, o ar da colônia era distorcido. Destroços das estruturas metálicas das lojas desabavam nas praças. Já não havia abrigo para os "bravos" viajantes das guildas, que corriam esbaforidos para o portal. Ruina ficava sem forças.

Tammy ergueu a mão direita, tocando a corda mágica do arco com a ponta dos dedos. O negrume tomou sua mão esquerda. O feristino perdia o verde vivo, natural do cristal, ficando turvo e sombrio. A flecha estava formada: uma grande concentração de energia negra, silvando nas mãos da arqueira, tinha o gigante de ferro como alvo.

Tammy tremia. Não tinha ainda dominado as técnicas das sombras, e temia que aquela concentração fugisse de seu controle. Mas sabia que esta era sua maior arma contra os Escavadores, que sucumbiam rapidamente às magias negras.

Fechou os olhos. A visão era a maior inimiga da precisão, ensinava Kallua. Precisava ouvir e entender o ambiente, para que seu plano surtisse efeito.

- Esta leva jeito... Se tivesse os cabelos soltos, eu poderia jurar que era outra pessoa. – Crowpar observava a cena, e sorria. Tammy estava agora sozinha na cidade. Era ela a única coisa entre a destruição de Ruina e seus algozes. Se ela falhasse, tudo estaria perdido.

Um disparo. Três erros. Tammy acertou o Escavador em cheio, e o gigante tombou. O estrondo dos rotores indo ao chão fez com que os guardas tapassem os ouvidos. Toda a terra tremia, enquanto o Escavador urrava, tentando levantar para encarar seu quase algoz, sem muito sucesso; ela tinha destruído as patas dianteiras da criatura, e já era um grande avanço. Mas Escavadores nunca andam sozinhos. E nada deixa um Escavador mais furioso que um companheiro ferido.

Três erros, que poderiam custar a vida de todos em Ruina. Num instante, uma fenda se abriu na praça, quase engolindo Solmea. Dela, emergia mais um colosso. Brilhava intensamente. Um rubro intenso, infernal. Os urros da criatura eram desesperadores. E ela, agora, buscava seu alvo, nada difícil de encontrar.

O braço metálico atingiu Tammy em cheio. Atirada às paredes da ala norte do forte, Tammy sentia a visão turva. Não entendia o que suas vestes queriam dizer, pulsando tanto, tentando levantar alguém que mal tinha forças para respirar. E por não entender, sentiu na carne as garras afiadas do Escavador.

A perna direita parecia estar em chamas. O sangue empapava suas botas e deixava uma poça negra à sua volta. Era o fim dela. O Escavador já tinha emergido completamente. Era o líder.

Escavadores não tinham olhos. Mas Tammy se sentia examinada. Nua. Como se a criatura enxergasse cada centímetro dela, e analisasse o que lhe doeria mais. Talvez estivesse pensando qual seria a melhor forma de vingar o Escavador aleijado às portas da cidade...

Talvez estivesse brincando com ela. A garra de metal preparava o ataque, descendo com toda força em direção à arqueira arcana. Ela não podia correr, ou desviar. Era o fim. Tammy fechou os olhos, esperando o golpe...

O som do metal batendo em... Algo. Talvez tivesse sorte e o Escavador enroscasse a garra na ala superior da Torre. Mas o som era diferente. Quase... Arcano.

Tammy abriu os olhos, e a luz fez dilatar a íris triangular. As estrelas de três pontas se cruzaram. As dela, e as do rapaz franzino na estalagem.

Era uma característica nevarana. Os nascidos em Nevareth tinham olhos coloridos, e a íris triangular. Quando dilatadas, viravam estrelas. Quando dilatadas em certos guerreiros, ficavam invertidas, e possibilitavam transformações únicas.

A íris do rapaz era uma estrela. E estava invertida. Ele não era mais um garoto franzino, mas um gigante debaixo do escudo arcano, que tinha dobrado o tamanho e fornecia abrigo à arqueira caída. Tammy reconheceu os olhos amarelos e cheios de medo vistos antes, na estalagem de Crowpar. Mas ele estava diferente. O medo tinha desaparecido.

- Vá você ficar com Crowpar agora, moça. Essa é minha luta agora.

A surpresa e a ira lutavam em Tammy. Estava ferida e não poderia fazer muito agora, mas não podia deixar que um guardião arcano fizesse seu papel. Precisava fazer alguma coisa, e rápido.

O guardião girou seu escudo, criando ondas magnéticas que deixavam a atmosfera dourada, e deslocavam o ar. Como numa dança, o guardião empunhava o escudo. Esquerda, direita, esquerda novamente. O ar deslocado empurrava o Escavador para fora da cidade. E assim foi, até que as criaturas se chocaram. Um ruído terrível seguiu o choque.

Era impossível saber o que era da colisão, e o que era da dor dos Escavadores. Se é que eles sentiam dor. Eles sempre produziam ruídos horríveis. Às vezes, pareciam gritar. Mas ninguém sabia o que emanava daquelas criaturas.

O guardião ergueu seu escudo, deslocando suas ondas magnéticas para cima. Elas rapidamente tomaram a barreira mágica de Ruina. Um reforço, para que o Forte agüentasse um pouco mais. Até que se descobrisse uma saída, e...

Um silvo. O guardião sentiu a manipulação das forças arcanas. Algo havia acontecido. Olhou em volta, procurando seus companheiros de guilda, que havia chamado. Encontrou apenas uma mulher ferida, coberta de negro, olhos púrpuros e a íris estrelada.

E invertida.

Ela agora segurava duas pistolas de energia pura, fumegantes. Uma para cada Escavador, talvez. O ódio a mantinha em pé. Então, ele soube o que fazer. Girou seu escudo, mais uma vez, abrindo a brecha certeira para os disparos de energia da atiradora.

Tammy reuniu todas as energias que tinha, quando percebeu o que o guerreiro queria dizer com "luta". Guardiões arcanos não eram feitos para o embate. Eram mestres da defesa. Da proteção. O rapaz ia direto para o precipício, se resolvesse atacar. Ele estava apenas defendendo a cidade, aguardando reforços... De quem? Restavam apenas os dois ali – e ele só estava ali porque ela e Crowpar o tinham desarmado. Ele não queria e nem podia lutar. Isso era tarefa dela.

Com tudo que tinha, conjurou os espíritos anciões. O feristino que envolvia suas duas mãos tomou vida, crescendo e criando duas grandes armas de energia, reluzentes como Anun. A magia era o suficiente para mantê-la em pé, e os cristais não descansariam enquanto o inimigo não estivesse morto. Era o que lhe bastava.

Na brecha de energia aberta pelo guardião, ela encontrou a oportunidade perfeita. Grandes globos de fogo negro eram formados nos gatilhos das armas, e cuspidos com toda a força. Um atrás do outro. Os Escavadores faziam um barulho infernal, quase insuportável. E ela sentia as pistolas ganhando mais vigor a cada tiro. Como se elas gostassem da carnificina. As armas consumiam mais e mais energia, aumentando o fogo negro, engolindo o mundo ao redor.

A visão de Tammy ficava turva. Ela não via mais os Escavadores; apenas escombros, e o negrume. Na mão esquerda, a pistola se desfazia, e as sombras eram recolhidas pelo verde vivo do feristino.

As estrelas de três pontas do guardião arcano novamente encontraram as suas. Como um espelho. E o breu tomava conta.