A claridade invadiu os olhos de Tammy, perturbando seu sono. Levantou-se, num salto. Ela não se lembrava dali.
O dia branco denunciava outra colônia. Não estava em Ruina. Mas onde? Anun seguia firme, mas... A leste. O cheiro doce de relva...
Estava de volta à Floresta do Desespero. Mas como veio parar ali?
Fez menção de levantar, e sentiu mil adagas perfurando sua perna. Levantou o lençol, e viu as faixas de seda reforçada. Kallua havia tratado a ferida. De repente, a lembrança.
Ruina. Os Escavadores estavam mortos, disso ela tinha certeza. O espírito do Atirador não a deixaria enquanto as criaturas não morressem, mas... O que tinha acontecido? Os olhos amarelos do nevarano guardião... Onde ele estava?
Com muito esforço, levantou-se. Para andar, conjurou seu arco, usando-o como apoio. Foi até a porta da estalagem.
- Ora ora... Vejam só quem finalmente vai pagar a estadia. – A voz nasal e sarcástica de Nadler era a pior coisa para ouvir, depois de uma batalha como aquela. – Você tem dinheiro consigo? Não posso deixá-la mais ocupando o quarto sem adiantamento.
- A Nação vai te pagar, como sempre. Seria ótimo se você parasse de extorquir as pessoas dessa forma. – Contrariada, Tammy deixou a estalagem, indo ter com Kallua. A perna queimava a cada passo, mas ela não se importava. Então, sentiu uma mão franzina no ombro.
Os olhos amarelos.
- Você está bem? Vejo que já pode andar. – Sem jeito, o rapaz tentava engajar uma conversa.
- Andar? Antras andam melhor que isso. E eles rastejam.
O rapaz esboçou um sorriso tímido, ao abaixar a cabeça.
- Está melhor que antes. Anun girou pelo menos vinte vezes.
- Ah, sim... – Tammy ainda não se lembrava de nada, mas estranhou a contagem. Nevaranos comuns não conheciam as rotações de Anun. Isto era ensinamento antigo, guardado pela Torre dos Sábios e revelado a poucos. – O que houve em Ruina?
- Bem, você desmaiou. – O rapaz agora oferecia a mão, para ajudá-la a caminhar. Notou a súbita mudança nos olhos dela. Por algum tempo, teve medo por sua vida, mas decidiu arriscar a gentileza. – Mas matou os Escavadores. Pássaros elétricos tentaram romper a barreira, e meca-insectóides investiram pelo oeste. Meca-búfalos também vieram. Alguns companheiros de guilda apareceram para ajudar, e limparam o lugar. Solmea e Soyoung ajudaram com os feridos... E Crowpar contatou Kallua para tratar você. Eu a trouxe pra cá, e...
- E o quê?
- Estava aguardando. – O rapaz agora titubeava ao falar. Aparentava nervosismo. – Queria saber se ficaria bem.
Dois pares de olhos. Dois pares de estrelas. Não eram estrelas comuns; Tammy estava acostumada com as estrelas de três pontas nevaranas. Elas nunca ficavam aguçadas, e não eram espontâneas, como as dele. Estrelas assim eram reservadas a poucos...
- Anun abeta'se jusa, freate.
- Freate Anun as juse.
Um juramento antigo. Tammy não sabia se ele morderia a isca, mas decidiu tentar. Acertou na mosca. Os que sabiam as palavras antigas eram poucos, trilhando o real caminho dos seis prismas. Mas Tammy se lembrava da estrela invertida dele. Não era uma estrela qualquer.
- Qual o seu nome, irmão?
- Deavren Zoro. E o seu? – Os olhos de Zoro, determinados, dilatavam, encarando os olhos dela.
Tammy ficou espantada ao ouvir o sobrenome, pois entendia agora a origem do guerreiro.
- Leeatha Tammen.
- Leeatha...
- Como Deavren.
- Mas achei que estavam todos...
- Mortos. Achei o mesmo de vocês.
A tradição era de suma importância em Nevareth. A catástrofe que se abateu sobre Nevareth era tão grande, que algumas famílias, supostamente sobreviventes da Grande Destruição e líderes da rebelião, eram tidas pelos Sete Sábios como Arautos da Glória. Eram lendas, cultuadas pelo povo. Dizia-se que eram descendentes dos verdadeiros Manipuladores Arcanos e que seus dons iam além do imaginável. Mas ninguém tinha pistas sobre o paradeiro destas famílias. Pelo que se conhecia delas... Eram apenas mitos. Não se ouvia falar de descendentes vivos desde a Grande Destruição.
Tanto Capella quanto Procyon ordenavam buscas incessantes pelos continentes, sem obter qualquer resultado. Só se conheciam os nomes de outrora. Deavren, Leeatha, Safhur, Naences, Peador e Khadaul.
Tammy e Zoro se entreolhavam, assustados. A desconfiança dominava. Talvez um deles estivesse mentindo. Talvez estivessem apenas tentando a captura, para obter a alta recompensa oferecida pelas nações. Eram muitas as possibilidades.
- Como me achou? – Tammy perguntou, fechando a mão direita. Olhou rapidamente ao redor. Poderia fugir pela floresta mutante, buscar abrigo nas casas de jogos mantidas por troglos. Com o naco de carne podre no alforje, poderia comprar o silêncio deles.
- Eu não achei ninguém. Fui a Ruina lutar. A guilda pode me banir se eu não conseguir nenhum troféu. Todos acham que sou um fracote, porque nunca entro nas arenas e não compareço aos campos de guerra. Eu só não...
- Não quer que saibam quem é.
- Como você não quer. E você... Você me deu a benção protetora, não pedi nada. Como sabia que eu era?
- Eu não sabia. Só não gosto de ver nevaranos mortos. Olhe para si mesmo. Não parece que agüenta uma ventarola, que dirá um Escavador.
- As aparências sempre enganam, e eu conto com isso para continuar vivo. – Zoro agora tinha um tom zangado.
- Seus pais...?
- Meu pai morreu na Grande Destruição. Minha mãe vivia no deserto, com... – Zoro sentiu que falava demais. – Bem, não importa. Ela desapareceu explorando o Elo Perdido há algum tempo. Pretendo encontrá-la, mas... Eu preciso treinar. E você?
- Meus pais... São outra história. – Agora Tammy se revelava contrariada.
- Desculpe. Não queria incomodar. Só fiquei curioso. Passei tanto tempo escondido e negando minha identidade que encontrar outro como eu é... Um mundo novo. Gostaria de conversar um pouco.
Zoro era realmente um menino. O corpo franzino, os traços novos, os olhos vivos de quem tinha acabado de encontrar o mundo. Talvez pudesse dar uma chance...
- Bom... Vamos sair daqui. Precisamos conversar melhor.
Dirigiram-se a Porto Lux. Harper saudava Tammy, contente. Como responsável pelo transporte da arqueira de Ruina até a Floresta, ficava satisfeito em vê-la melhor.
Tammy e Zoro desceram à praia, para observar a paisagem. O horizonte ganhava tons alaranjados. Anun estava no centro do Universo; Matga, a lua azul de Huan, ficava à sua esquerda; e Goya, a lua lilás de Pastur, à sua direita.
Conversaram sobre a infância conturbada. Encontraram muitas semelhanças, dividiram muitos fardos e respostas. Zoro, então, trouxe à tona um pergaminho, muito querido à sua mãe.
- Você reconhece isto?
- Creio que não.
- Minha mãe disse que quando as seis famílias voltarem a tocar o pergaminho, Nevareth voltará à sua glória.
- Bom, isso não vai acontecer. Somos só nós dois.
- Como você sabe disso?
Tammy ficou surpresa. Ela não sabia. Até encontrar Zoro, ela se pensava única. Ou última. Mas as coisas tinham mudado de figura.
- Zoro, isso não é sensato.
- Pense nisso. Há uma razão para nos encontrarmos, e sabermos exatamente o que dizer um ao outro. Isto foi planejado. Eu não acreditava nas histórias que minha mãe contava, então... Vi a sua estrela. E vi o espírito com você. Seu grau não suporta o Atirador das Sombras. Você deveria ter morrido, mas...
- E seu grau não suporta o Escudo das Sombras. E daí? Você sustentou a barreira mágica sozinho. – Tammy lembrava que só guerreiros do décimo grau controlavam aquela técnica. E mesmo assim, nunca um guardião arcano conseguiu transformar a energia negra do escudo em luz. Ela ainda lembrava as ondas quentes e douradas emanadas do escudo de Zoro.
- Exatamente. Eu nunca tinha feito isso antes.
- E o que tem isso? Agora quer sair por continentes e dimensões caçando as famílias? Quer chamar a atenção de Capella e virar o macaquinho dela para os terráqueos, ou ser cobaia arcana de Procyon?
- Eu... – Zoro, por um instante, retraiu-se.
- Não quis ser grosseira... – Tammy tentava consertar suas palavras. O tempo tinha deixado a arqueira rude. – É loucura sairmos procurando as famílias assim. Sequer sabemos por onde começar, não temos nada planejado, não sabemos em quem confiar. Não sei se posso...
- Confiar em mim? Eu também não sei se posso confiar em você. Mas as coisas são o que são. Você iniciou o juramento. O ciclo foi aberto, e só se fecha quando estivermos completos.
- Você conheceu Sirius.
- E você, também.
O céu já estava vermelho. Do oceano, as sombras dos tubarões insetos começavam a emergir. As coisas estavam mudando novamente. E Tammy não gostava disso. Mas não podia ignorar o que Zoro dizia. Todas as histórias e lembranças colecionadas diziam respeito às famílias. À sua família. E ao papel que tinha no destino de Nevareth.
Destino este que Tammy negava solenemente. Era apenas uma arqueira arcana, com treinamento médio, muito longe de ser uma verdadeira guerreira. E nem um pouco propensa a ser uma exímia manipuladora da Força Arcana.
Pelas palavras e pelo olhar determinado de Zoro, o destino tinha outros planos para ela.
