Poucos terráqueos agüentavam o deserto. O cheio apimentado enchia as narinas. As mulheres viviam com náuseas, e os homens ficavam com os rostos inchados. O canto dos suricatos era tão irritante quanto o choro de crianças, e as sombras de arquiterixes em vôo sempre amedrontavam.
Tammy não entendia o que os terráqueos ainda faziam em Nevareth. Eles não se adaptavam em colônia alguma, e tinham muito a reclamar do que aquele mundo lhes oferecia.
Aproximou-se da tenda a oeste. Como sempre, as tendas mais simples eram as mais úteis.
- Incrível, meu velho. Nem a preguiça de atender a clientela você muda.
No outro extremo da tenda, uma figura displicente tirava os pés da mesa devagar. Saía do escritório, em direção ao balcão. O rosto tinha um sorriso irônico. Trajava vestes negras, próprias dos homens do deserto.
Já no balcão, o homem retirou os óculos escuros, revelando olhos cristalinos como as águas do oásis de Eileen, a leste da cidade.
- Oras, mulher. Quem quer se apressar e suar a camisa neste forno? Eu é que não me arrisco. E por onde tem andado, Tammy? Qual a encrenca que te traz ao deserto desta vez?
- Ei, Cox, não é tão ruim assim me ver. Diga a verdade. – Tammy retirava do alforje alguns espólios valiosos de caça. Pesados, também. Peso no alforje nunca favorecia uma luta, e Tammy sabia disso. Os donos de armazém em Nevareth também sabiam. Tammy conhecia todos, pois visitava as estalagens regularmente.
- Vê-la nunca é ruim. Os problemas que você traz são péssimos. – Cox colocava os itens de Tammy em seu armário, como de costume. – Fiquei sabendo que você virou estrela em Ruina, é verdade?
- Eu? Imagine... – não era a primeira vez que Tammy ouvia tais palavras. Mas elas sempre incomodavam. Sua perna ainda doía, onde o Escavador a tinha ferido.
- Você matou dois Escavadores sozinha. Devia celebrar.
- Só fiz minha obrigação. Nada para celebrar nisso.
- Mas as palavras voam no vento, minha cara. E os sons que produzem são outros. O Atirador das Sombras não é dever de ninguém.
- Quem disse isso? – os olhos de Tammy faiscavam de ódio, enquanto o sorriso de Cox sumia. – Quem está espalhando estes absurdos? Eu sei atirar, mas não usei a sombra, até porque não tenho grau para isso, e...
Num gesto brusco, Cox puxou a arqueira para o escritório. Zoro assistia, apreensivo. Colocou as mãos para trás. Não podia deixar Tammy sozinha, não agora. Mas se revelasse o que sabia fazer, talvez pusesse tudo a perder.
Cox fechava a porta, com os olhos fixos no arcano franzino. Ensaiou um sorriso, interrompido pela mão dura de Tammy na face.
- Tire as mãos de mim e diga o que quer. – o tom era seco, ameaçador. As vestes de titânio ficavam rubras, indicando que Tammy não hesitaria em atacar.
- Eu não quero nada. Sou apenas um funcionário do armazém... Como Crowpar. – dizendo isto, Cox percorria as estantes do inventário. Tammy observava, apreensiva. Talvez Cox quisesse a recompensa dos continentes e quisesse entregá-la. Zoro. Ela sabia que não poderia confiar num menininho como aquele. Era ele o único ser no multiverso que sabia seu nome. Só isso explicaria.
Cox retirou das estantes do armazém um recipiente cilíndrico enferrujado. Um pergaminho. A cabine estava empoeirada; era parte da ala mais antiga do armazém. Provavelmente, a primeira estante a ser construída no deserto, durante a Retomada. Aquilo devia ter aeons de existência.
- Isto pertence a você. A ordem era entregar ao primeiro sobrevivente que alcançasse a Sombra. Vivo aqui há eras, e nunca ouvi falar em Arqueiros Arcanos tocando a Sombra, menos ainda em grau tão baixo.
- Isto é loucura, Cox. Eu não fiz isso. É só fofoca, você sabe muito bem como são os terráqueos. Qualquer coisa pra eles é digna de mito, todas as histórias são exageradas e...
Cox pousava um dedo sobre os lábios de Tammy. Seus olhos fixavam os dela. Olhos velhos. Muito velhos.
- Eu também não vejo Titânio sobrevivendo aos Escavadores. Você encontrou dois deles. E seus trajes estão inteiros. Quando precisar negar seus feitos, tenha isso em mente: os trajes estão vivos. Eles foram forjados por Patren, antes da abertura dos selos. E morrem quando tocam as criaturas do Patren despertado.
Assustada, Tammy recuava. Quem era aquele homem? Tantos anos naquele armazém, e ela nunca desconfiara. As coisas que Cox dizia eram coisas antigas. Coisas de lendas. Coisas que só os aprendizes da Torre dos Sábios saberiam. Mas a Torre estava morta. E seus aprendizes, há muito desaparecidos.
- O que está dizendo, Cox?
O homem sorriu.
- Estou dizendo o que você já deveria saber. Hora de procurar uma forja pra você. Se quiser continuar incógnita, você precisa abraçar o ósmio. E seu amigo também.
Cox estendeu um alforje velho a Tammy, guardando o cilindro dentro.
- Seu depósito tem algum dinheiro. Creio que seja suficiente para pagar Sullivan por um traje completo.
- Como você sabe de tudo isso?
Cox sorriu novamente, destrancando a porta.
- Sou só o velho do armazém. Eu guardo as coisas das pessoas, e entrego quando é preciso. Você precisa disso agora.
Tammy abriu a porta, boquiaberta. Ainda não entendia quem era aquele homem, nem o que fazia ali. Não tinha ideia do que aguardava naquele pergaminho. Seus olhos se encontraram com os de Zoro, parado na entrada do armazém. Pobre garoto. Ele não sabia no que tinha se metido.
Nisso, eles estavam quites. Porque Tammy não fazia ideia do que estava acontecendo, e nem como encontrar as respostas para o que procurava. Verdade seja dita, ela não sabia o que procurar.
Tudo tinha que começar em algum lugar. E ela tentaria lá.
- Vamos – a secura na voz deixou Zoro confuso.
- O que aconteceu? Onde vamos? O que você pretende? Eu não...
Tammy colocou a mão na boca de Zoro, bruscamente.
- Vamos para o Templo Esquecido. É hora da reunião de família.
