Capítulo II – Domingo;

O apartamento se encontrava silencioso, hora ou outra esse silêncio era interrompido por um resmungo incoerente ou pela respiração rasa de alguém dormindo. Era um domingo, o sol lá fora há muito já havia despontado no céu, infelizmente naquele dia o sol não poderia ser apreciado, pois o céu encontrava-se nublado, carregado de nuvens cinzentas e frias, afinal ainda era inverno, que estava finalmente chegando ao fim.

Nico acordara exatamente com o frio do inverno se apossando de seus ossos, causando arrepios desagradáveis em seu corpo, mais uma vez o italiano esquecera-se de fechar a janela de seu quarto antes de dormir. Sentou-se ainda sentindo seus ossos moerem de forma dolorosa por ter passado muito tempo em uma mesma posição durante o sono e olhou para o relógio digital na cabeceira de sua cama, suas letras em vermelho sangue mostrando que não passava das nove horas da manhã.

Suspirou vendo que de nada adiantaria voltar a deitar-se, o sono já se dissipando de si. Saiu da cama, se espreguiçando e sentindo seus ossos e juntas retornarem ao lugar, deixando para trás uma sensação confortável de formigamento bem na base da nuca e nos braços. Caminhou em direção à saída do quarto, agarrando sua toalha cinza felpuda no caminho, precisava de um banho quente para tirar a sensação de frio congelando sua espinha.

Nico passou por uma porta de madeira pintada de branco e estacou no lugar, suspirando em desapontamento com visão a sua frente. Parece que ele não fora o único a esquecer de algo antes de ir dormir. No caso a sua frente, seu companheiro de apartamento esquecera-se de ir para a cama.

Leo estava com seu tronco parcialmente deitado em sua mesa de trabalho; os braços cruzados a sua frente apoiando a cabeça, em uma espécie de travesseiro improvisado, resmungos suaves saindo dos lábios entreabertos. Aquela posição parecia deveras desconfortável, Leo com toda certeza acabaria com um torcicolo quando acordasse, "E passaria o dia todo reclamando disso", Nico suspirou com o pensamento. O latino não tinha jeito mesmo.

Di Ângelo até poderia carregar o latino para a cama, mas só porque os dois eram quase do mesmo tamanho – Nico perdendo por somente um centímetro –, não queria dizer que isso tornava o Valdez mais leve. Escolheu por simplesmente colocar um cobertor grosso e quentinho por sob o corpo do outro, ajeitou melhor o cobertor por sobre o corpo de Leo e parou um momento para admirar seu ínfimo trabalho. Seus olhos vaguearam em direção a face adormecida de seu melhor amigo, analisando e guardando na memória os traços comicamente élficos do outro, as maçãs do rosto proeminentes, os cílios sedosos, o nariz levemente arredondado na ponta e fino, a tez de um tom levemente bronzeada, típica de alguém de origem espanhola. Mas o que naquele momento mais chamava a atenção de Nico eram os bagunçados cachos na cabeça de Leo, às vezes Nico tinha a impressão que se enrolasse seus dedos naqueles cachos e depois os soltasse eles voltariam ao lugar como se fossem molas. Raspou de leve as pontas dos dedos sob os fios achocolatados, mas logo os retraiu em direção ao peito, seu coração batia em fortemente em seu peito. Saiu às pressas do quarto, fechando a porta o mais silenciosamente possível, ele realmente precisava de um banho para se acalmar, suas bochechas se sentiam estranhamente quentes, um banho frio possivelmente era o melhor.

Leo resmungou algo, antes de abrir lentamente os olhos com mesmo tom que seus cabelos, o olhar ainda desorientado se foi em direção à porta do quarto, um sussurro rouco – "Nico...?" – saindo dos lábios carnudos antes de seus olhos pararem no pequeno relógio de ponteiros sob sua mesa de trabalho. Levantou-se às pressas, quase caindo ao dar um passo longe da mesa, em menos de uma hora Leo teria que se encontrar com Piper, sua amiga de infância, para resolver algumas coisas sobre o casamento dela com seu noivo e também um bom amigo de Leo, Jason. E ele realmente não queria se atrasar e ter que enfrentar a ira de Piper.

[...]

Leo há pouco saíra do banho, tinha se encontrado com Nico saindo do banheiro depois de finalmente ter conseguido se firmar sobre os dois pés, e o mesmo parecia envergonhado por um momento na presença de Leo, mas antes de realmente confirmar essa hipótese Nico gaguejou algo inteligível antes de ir para seu quarto, batendo a porta com força.

Saiu de seus pensamentos ao sentir o aroma inconfundível de café fresco e a chiado de bacon sendo frito. Entrou na pequena cozinha americana que ficava separada apenas por um balcão de madeira, Nico se encontrava em frente ao fogão vestido com roupas confortáveis e próprias para o final de inverno, o avental preto com caveiras em chamas colocado sob a roupa. O aroma delicioso que chegava ao olfato de Leo o inebriando em um sentimento de paz e acolhimento, voltou seu olhar mais uma vez para o corpo magro de Nico, observando o modo como o jovem italiano balançava a cabeça em sincronia com a melodia contagiante da música da banda Train que tocava no rústico rádio vermelho que Leo havia instalado na cozinha depois de descobrir de como Nico adorava cozinhar com música tocando, observou também no modo que os quadris de Nico se moviam em sincronia não praticada com o ritmo da música enquanto remexia nas panelas, mesmo que Leo negaria com todas suas forças pra qualquer um, ele por um momento pensou que Nico, seu melhor amigo, estava extremamente sedutor com aquele rolo inconsciente dos quadris e cozinhando ali na sua cozinha. Balançou a cabeça, limpando esses pensamentos da cabeça e terminando de entrar na cozinha cumprimentando seu amigo.

— Bom dia, fantasminha! — Leo sorriu quando Nico se sobressaltou logo lhe dando um brilho mal-humorado, mas logo retornando a sua tarefa de antes. Leo sentou-se em uma das cadeiras da pequena mesa de metal com lugar para três pessoas e engoliu em seco ao perceber que ainda estava observando o amigo e seus quadris. Maldito rebolado, Di Ângelo!

— Bom dia, Leo. — Respondeu Nico, depois de colocar algumas porções de comida em dois pratos, caminhando e sentando-se em frente ao outro, passando seu prato e vendo o outro devorar rapidamente o seu desjejum. — Se continuares a comer com essa rapidez acabará engasgando, Valdez... — Logo que terminara de falar, viu seu amigo soltar um ruído estrangulado da garganta, seguida de uma pequena e desconfortável tosse.

— Como eu disse... — Nico suspirou, voltando sua atenção ao seu próprio café da manhã.

— Ah, Nico! Estou com pressa, tenho que me encontrar com a Piper para resolver algumas coisas sobre o casamento dela com Jason, sério, quem marca algo em pleno domingo? E porque justo eu tenho que ser arrastado pra isso?! — Leo bufou, voltando a comer, dessa vez com mais calma.

— Talvez porque sejas o padrinho e melhor amigo dos nubentes... — Nico revirou os olhos, e Leo levantou o olhar, suas feições torcidas em uma careta confusa.

— Nu... o que? Nico, cara, eu sei que você só consegue falar assim na maioria das vezes, mas não se esqueça de que eu não sou um dicionário pra sempre entender o que você fala bro! — Leo reclamou, balançando a cabeça em negação, Nico imitou a ação.

— Nubentes, Leo, quer dizer noivos. E se você não é um dicionário, então deveria começar a memorizar um! — Resmungou irritado, Nico sabia que Leo não era um dicionário, e que deveria tentar falar um pouco menos formal, mas era extremamente difícil às vezes.

— Tudo bem, não precisa ficar com raiva! Bem, eu tenho que ir, vou ver se consigo chegar antes das sete, aí a gente pode ver juntos o especial de Star Trek, o que acha? — Perguntou Leo, já se encaminhando para a saída, pegando sua jaqueta de exercito. Saiu pela porta, não antes de escutar a resposta do outro e mesmo que nem estivesse na frente do outro, sabia que Nico estava sorrindo.

— É bom mesmo que retorne nesse horário, Valdez! Não quero ter que lhe esperar!