Os personagens pertencem a Kishimoto M.
Novo Começo
- Por HarunoX7
Abotoei meu jaleco. Desabotoei. Retirei. Coloquei de novo. Tirei de novo. Joguei em baixo da mesa chutando-o com o pé com rapidez, ouvindo as batidas da porta.
- Pode entrar.
Ino abriu a porta afoita sentando logo em seguida. Bufei e sentei desajeitadamente, 'esperava alguém mais importante'.
- Você não vai acreditar. - ela falou erguendo a sobrancelha esquerda. - O Kazekage é a visita.
- Eu sei. - respondi sem dar importância.
- Como assim você sabe? Quase tive que prometer o meu corpo ao Katsuo em troca dessa informação, pra você simplesmente dizer "Eu sei".
- Tsunade-shishou me disse. - falei escondendo o sorriso. - Eu vou ser a guia dele.
- ...
Por um momento pensei que o maxilar de Ino fosse se deslocar.
- Eu-não-acredito! - sua feição passou de incrédula pra maliciosa, com uma mistura de irritação e inveja, em poucos segundos. - Você vai passar o dia com o gostoso!
- Gostoso?
- É Testuda! O Sabaku-gostoso-kun.
- Ino, ele é o Kazekage. - falei repreendendo-a.
- Isso só o torna mais gostoso ainda. - ela me olhava como se eu fosse louca. - Fala sério que você nunca se pegou pensando no que ele tem por debaixo daquela roupa de Kage?
- A ultima vez que eu o vi, sem estar preocupada em salvar minha pele e no meio de uma guerra, foi no exame chunnin. E isso tem anos.
- Azar o seu. Acredite. - ela observava as unhas e dobrava e desdobrava as pernas varias vezes seguidas. - Tsunade adora mandar meu time pro Oeste, principalmente pra Suna. É a visão do paraíso. E eu não estou falando das areias de lá.
- Sei bem do que esta falando.
- Oh não. Não sabe. Ruivos não fazem o meu tipo, mas aquele ruivo. - ela pegou um dos meus prontuários do dia para se abanar, derrubando alguns papeis. - Ouve o que eu estou te dizendo. Você esta com ele e de repente se pega em duvida do que observar, aqueles olhos profundos, os cabelos chamativos, os ombros largos ou a bunda redondinha e deliciosa.
- Por favor, Ino. - disse puxando meu prontuário da sua mão e catando os papeis que caíram no chão. - Vou passar o dia com ele e espero estar concentrada no hospital, não nas partes traseiras do Kazekage.
- É impossível. E no final do dia você vai concordar comigo. - ela pegou outro prontuário, mas parou no meio do caminho quando a encarei raivosa. - Por falar em final do dia, ontem você estava meio aérea. Esta mesmo tudo bem, amiga?
Suspirei alto.
- Eu só estava cansada. E aquela velhinha apareceu do nada, falando aquelas coisas e depois a Tsunade me chamou de..
Flashback
- Tenho uma missão para você.
- Missão?
- É mais como uma tarefa. - falou amassando um papel e jogando-o no chão. - Amanhã nos vamos ter visitas. Esta sabendo algo sobre isso?
- Ino comentou algo sobre isso, mas disse não saber do que se tratava.
- Como sabe, Konoha é muito bem preparada no campo da medicina e também muito bem relacionada com as outras vilas próximas. - balancei a cabeça, incentivando ela a continuar. - Gostaria que você apresentasse todo o hospital geral amanhã para nossos convidados, desse algumas amostras, talvez alguma cirurgia..
- Sim senhora, Shishou.
- E fosse o mais cordial possível com eles. - ela me olhou rapidamente, para logo depois voltar a prestar atenção às folhas em suas mãos. - Não é todo dias que o Kazekage, em pessoa, decide fazer uma visita, minha menina.
- O que você disse?
- É isso mesmo, o Kazekage em pessoa vai vim.
- Não, não isso. - disse afoita. - Depois disso. Você me chamou de alguma coisa.
- Não, não. Não chamei não. - ela jogou mais uns papeis no chão, acertando Tonton que dormia próximo a mesa. - Chamei a Shizune, que por sinal até agora não chegou. SHIZUNE!
- Tem certeza?
- Absoluta. - disse Tsunade estranhando aquele tipo de pergunta. - Você esta bem, Sakura?
- Sim, sim. - falei já cansada de tanto ouvi essa pergunta hoje. - Só estou um pouco cansada. Boa noite, shishou. Com sua licença.
- Certo. Boa noite, Sakura.
- Sim, Tsunade-sama. - disse a mesma entrando com mais papeis em uma mão, e uma garrafa na outra. - Boa noite, Sakura-chan.
- De novo, Sakura? - Ino perguntou preocupada. - Você estava pensando em que? Começou a falar de uma velhinha, depois de Tsunade-sama e parou. Do nada. E estou aqui te chamando há séculos.
- Desculpa. Minha ultima paciente ontem me falou umas coisas sobre meu coração, algo bom que estava por vir, algo sobre um novo começo e..- cada vez que eu me lembrava dela, conseguia ouvir suas palavras, fazendo meu coração pulsar mais rápido. - E não consigo esquecer isso. Foi estranho.
- Espera. Você ta falando da Chie-sama? - ela falou rindo enquanto balançava a mão. - Relaxa, Sakura. Ela fala isso pra todo mundo, adora dar uma de vidente. Ela me disse uma vez que eu ia ter que ensinar a alguém o que é o amor. Imagina só, eu ensinando alguém a amar. Pff.
- Não sei, Ino. - meus olhos se fixaram nos prontuários em cima da mesa. - Ela me pareceu tão certa. E tudo se encaixou tão bem.
- Ela falou sobre o Sasuke? - Ino perguntou receosa.
- De certa forma sim. - sorri. - E me fez olhar por um ângulo diferente.
- Sakura. Eu posso te fazer uma pergunta? - Ino se levantou e recostou na mesa, logo a minha frente. Balancei a cabeça afirmando. - Você ainda..
Ouvimos alguns passos rápidos pelo corredor, para logo em seguida a porta ser aberta no empurrão e uma cabeça loira e afoita aparecer no vão da porta.
- Sakura-sama. - Misaki tinha as mãos nos joelhos e falava entre as respirações. - O Kazekage chegou.
- É um prazer recebê-lo, Kazekage-sama.
Me curvei em frente ao garoto de olhos verdes e cabelo vermelho. E me irritei ao concordar, pela primeira vez, com as palavras de Ino. O Sabaku de garoto não tinha mais nada.
- Haruno Sakura.
Sua voz firme e grossa me tirou do meu mundo particular, me fazendo voltar a postura comum e voltando os olhos para qualquer ponto que não fossem seus olhos.
- Vou ser sua guia hoje. - falei começando a andar devagar, para que ele me acompanhasse. - Tsunade-shishou pediu que lhe fosse apresentado nossas instalações, técnicas e formas de trabalho. Temos orgulho do trabalho que fazemos aqui e queremos passar nossos ensinamentos para o máximo de ninjas médicos possível. E no final do dia que nos encontrasse com ela.
Íamos andando pelo hospital, apresentando cada ala enquanto eu falava sobre nosso trabalho, pesquisas e vitórias. Enquanto o Kazekage apenas balançava a cabeça ou, no máximo, exprimia um 'hn. Sem fazer pergunta ou comentário algum.
- Essa é a Emergência. - já tínhamos percorrido todo o primeiro andar do hospital, parando na emergência, onde o elevador principal levava para os outros andares. - Talvez essa seja uma das alas em que nós temos mais orgulho do nosso hospital, somos muito bem treinados e preparados para qualquer situação adversa. Não importa qual seja ela.
- Sei que não.
Por um momento, sua voz me assustou. Assustou porque não esperava que ele falasse algo, porque era uma voz maravilhosa e me fazia ficar arrepiada sem intenção alguma, mas principalmente porque eu sabia do que ele falava.
Ele falava da guerra de um ano atrás. Dos corpos estendidos por qualquer metro quadrado livre nesse hospital. Das enfermeiras e médicas correndo desesperadas. Dos familiares chorando. Do momento em que até o homem mais otimista do mundo tinha duvidas quanto ao futuro de Konoha.
- Você pode estar vendo uma sala calma, leitos vazios e pessoas silenciosas. Mas há exatos 11 meses, Kazekage, conseguir ouvir os próprios pensamentos, era uma dádiva. - de repente minha voz tinha ficado fraca e melancólica e não fui a única a perceber, pois o Sabaku me olhava de canto de olho. - Talvez nós nunca nos recuperemos totalmente, mas o hospital luta cada dia um pouco mais pra se reerguer.
Não sei exatamente quantos minutos ficamos observando a ala da emergência, mas como um estourar da bolha, de repente alguma enfermeira derrubou um copo de vidro. O barulho reverberou por toda a ala vazia e silenciosa. E quando dei por mim, minha mão direita apertava o antebraço do Sabaku com tanta força que ao soltar era possível ver o sangue voltando normalmente ao seu curso.
- Oyurushi kudasai, Kazekage-sama. - falei me curvando diversas vezes, e já acumulando chackra nas mãos. - Eu sinto muito mesmo. Eu posso..
Eu mal me movi poucos centímetros em sua direção e sua areia já me tinha sobre controle. Eu não tinha mais movimento sobre minhas mãos ou meus pés e sentia o aperto dele, esse não chegava exatamente a doer, mas não eram confortáveis.
Conseguia sentir a areia percorrer todo o meu corpo. Dos pés a cabeça, mas o mais curioso era o pescoço. Era no pescoço o local que eu tinha mais consciência da areia, talvez porque era um local sensível ou porque lá o aperto era um pouco mais firme, ou simplesmente, por que era o local que me causava um pouco mais de receio.
- Não.
O Sabaku deu dois passos para trás e em segundos eu não conseguia sentir mais nada, só a vontade de continuar o guia como se nada tivesse acontecido.
- Se for de sua vontade podemos parar um pouco. - ele balançou minimamente a cabeça, o que eu entendi como um não. - No segundo andar ficam mais cinco alas..
Horas depois, eu já tinha percorrido todo o hospital, realizado uma cirurgia e atendido alguns casos na emergência, todos simples, mas casos. E tudo sobre o olhar do Kage de Suna. Agora andávamos em direção a torre central, para encontrar a shishou. Subíamos cumprimentando as pessoas, na verdade, só eu fazia isso. O Sabaku apenas seguia, enquanto os outros se curvavam em respeito.
Eu estava cansada.
Como qualquer dia de trabalho, mas mais que isso. Cansada de ter que ser acompanhada a todo o momento, de ter que explicar coisas que eu fazia todos os dias sem nem pensar duas vezes, cansada de me sentir esta sendo avaliada a todo o momento, de ser a única a falar durante todo o dia.
Sério mesmo. Eu tinha tentado dialogar com o Kage durante todo dia, de todas as formas possíveis, mas nada surtiu efeito. Qualquer pergunta era respondida com um sim ou com um não, no máximo outra resposta que se resumia a poucas palavras.
Flashback
Estávamos almoçando no refeitório do hospital. Todo o roteiro, da recepção até o refeitório, se resumia a uma apresentação completa do hospital. E isso incluía a qualidade da comida que disponibilizávamos para nossos pacientes e seus acompanhantes.
Eu já havia explicado como nossa comida era armazenada, produzida e descartada. Tudo visando o cuidado com a saúde do paciente, e com possíveis infecções. Quando terminei de lhe explicar nossa comida já estava servida e posta na mesa central do refeitório.
- Como estão Temari-san e Kankuro-san?
Estávamos em silêncio há vários minutos. Não que o silencio me incomodasse, a companhia do Kazekage era agradável, mas eu tinha algumas perguntas a fazer.
- Bem.
'Como eu disse, tudo se resumia a poucas palavras'.
- E ser Kazekage, como é?
- Interessante.
- Não é cansativo?
- Não.
'Que saco!' Eu gostava da companhia dele, mas tudo seria muito mais leve e melhor se ele também estivesse com vontade de conversar.
- Quantos dias você vai..
- Você gosta de conversar. - por um momento fiquei em duvida se isso foi uma critica ou um simples comentário, mas preferi me calar mesmo assim.
- Sumimasen.- sentia meu rosto ficar quente, então decidi me concentrar na comida que acabara de chegar. - Itadakimasu.
'Ao menos ele disse mais que uma palavra.'
Bati duas vezes na porta de madeira a minha frente, esperando a permissão para entrar.
- Entrem. - disse a shishou lá de dentro. - Gaara. Sakura.
- Tsunade-sama. - me curvei, enquanto o Sabaku ao meu lado apenas fez um movimento com a cabeça 'Que criatura anti-social, nem com a Hokage.' - Como prometido, estamos aqui.
- Muito bem, Sakura. - Tsunade apoiou os braços na mesa a sua frente, encarando o outro Kage. - E então Gaara, como foi a visita?
- Como esperado.
'Espera. Isso era pra significar algo?'
- Fico muito satisfeita.
'Pelo visto sim.'
Peguei a Tonton no colo, acariciando seu pelo ralo e sua pele rosada, ouvindo o ronronar da mesma. Tsunade continuou falando algo sobre conhecimento médico e capacidade de um hospital com Gaara, mas eu viajava pensando na minha cama.
- Sakura? - ela chamou minha atenção. - Você esta de acordo?
- Sim. Espera. - falei rápido, interrompendo sua próxima fala. - De acordo com o que?
- Onde você estava enquanto eu falava? - Tsunade usou um tom mais sério. - Perguntei se você esta de acordo em hospedar o Kazekage.
'OQUE? Sério isso? Só pode ser gozação'
- Gomen. Eu não estava preparada, nem minha casa..- falei receosa. - Mas estou de acordo sim, Tsunade-sama.
- Sinto muito o transtorno, Gaara.
- Sem problemas, Tsunade. - o Kazekage falou simplesmente, chamando minha atenção. - Existe mais alguma coisa a ser tratada?
- Não, não. Se for de sua vontade vocês podem se retirar.
Com um único balançar de cabeça o Kazekage saiu. Fiquei olhando pro nada, ainda com Tonton no colo, quando Tsunade começou a gritar e eu percebi que ainda estava parada.
Desci rapidamente depois de me despedir, encontrando Gaara parado a porta da torre central.
- Vamos. - disse começando a andar. - Você gostaria de comer alguma coisa ou ir direto para o meu apartamento?
- Comer.
- Certo. - Virei meu corpo em outra direção, sentindo o Kazekage me seguir. - Vamos ao Ichiraku.
Andamos com calma. De acordo ia ficando mais tarde o clima ia esfriando aos poucos e o vento se tornando mais forte, mas nada que incomodasse.
Eu tinha sempre um casaco reserva no hospital, enquanto o Kazekage, pelo que eu ouvira dizer, era munido de uma 'armadura' de areia. Ainda me lembro do exame Chunin e do esforço que Lee tivera para apenas arranhar a armadura de areia do Sabaku No.
Para chegarmos mais rápido ao Ichiraku passamos por uma área mais deserta, mas nem por isso mais calma. Vários bares ocupavam os dois lados da rua, enchendo as calçadas de mesas e de pessoas.
Conseguíamos ouvir um baixo barulho de musica vindo de dentro de vários deles, se misturando com o cheiro de álcool. Não era um local vulgar ou desrespeitoso, longe disso, mas abrigava e atendia todo tipo de ninja, de várias vilas vizinhas.
Passamos sem olhar pros lados, tentando não chamar atenção de qualquer pessoa que estivesse ali. Não era um lugar em que o Kazekage deveria ser visto, não enquanto fazia uma visita executiva a uma vila amiga.
- Olha lá. - uma deles disse sentado em um balcão.- O Kazegake.
Em poucos segundo encontrei o olhar que nos encarava. Primeiramente, pensei que tudo não passasse de curiosidade, ver um Kage tão novo era sempre uma coisa extra-ordinária, mas não.
Seu olhar era de critica, era de repulsão. Ele encarava o Sabaku No sem respeito algum, sem no mínimo educação. Era como observar um animal, apenas esperando suas próximas ações.
E de repente, tudo tinha mudado. Me sentia com 7 anos, quando toda a vila olhava daquele mesmo jeito para Naruto, quando todos julgavam uma pequena criança que não tinha nada alem de azar de ter um 'ser' dentro de si.
Senti toda a repulsa e o ódio que vinha sentindo há meses, quando olhos raivosos e críticos caiam sobre Sasuke, quando ouvia um baixo 'traidor', mas tinha de ver meu colega de time apenas apertar o punho e seguir em frente.
Me virei em sua direção, sem pensar duas vezes no visitante que estava ao meu lado, pronta pra lhe dizer algumas palavras.
- Qual o seu pr..?
Senti minhas pernas travarem e meu corpo dar um solavanco, sendo amparado também pela areia. A areia apertava meus tornozelos e formavam uma barreira ao redor do meu tronco, impedindo que eu caísse.
Virei o rosto apenas na direção do Kazekage, ele estava na mesma posição de segundos atrás, nem ao menos me olhava. Sua expressão era a mesma também, era como se nada tivesse acontecido.
Enquanto eu fervia por dentro.
Com raiva do idiota que dissera aquilo, com raiva do Sabaku No que me impedira e com raiva de mim mesma, que durante momentos críticos possuía uma calma invejável, mas que com poucas palavras tinha se descontrolado em frente ao Kage de outra vila.
Voltei o olhar para o ninja, que como esperado já tinha sumido, e me virei novamente em direção ao Kazekage que dessa vez me olhava. Dessa vez, senti todo o seu olhar sobre mim. Toda sua curiosidade que me perfurava, mas que tentava se manter escondida.
Seu olhar continuava em mim, mas com poucos segundos eu não conseguia mais decifrar o que ele queria dizer. Por um momento pensei em Ino, em como ela estava certa mais cedo, em como eu não conseguia me desviar dos olhos verdes do Sabaku no.
E em como eles eram bonitos.
- GAARA! SAKURA-CHAN.
