No dia em que o anúncio iria sair, Sakura levantou-se ao nascer do sol. Seus sonhos haviam sido deliciosos, povoados com a imagem de Sasuke e com cenas de ternura e paixão.
Apressada, jogou para o lado seus os cobertores e se sentou na beirada da cama, procurando, com os pés, a proteção dos chinelinhos acolchoados. O chão do cubículo que Sakura chamava de apartamento costumava ser terrivelmente frio de manhã, mas ela não podia se dar ao luxo de deixar o aquecimento ligado durante a noite. Manhattan era cheia de magia, porém o custo de vida naquela cidade era bastante alto.
Envolveu-se às pressas em seu roupão e foi para o banheiro com os dentes batendo de frio, aquele era o pior cômodo do apartamento, o mais gelado. Em seguida correu para a sala, ansiosa para ver sua árvore de Natal à luz da manhã. Contemplou com ternura a arvorezinha, a sua árvore, que pendia um pouco para um lado e que perdera um ou outro galhinho, mas que ela enfeitara com todo amor e carinho. Sakura fizera pequenos laços de fita e costurara cestinhas de pano, que enchera de pirulitos. E fizera também graciosos enfeites de pano em forma de moldura, colocando em cada um a fotografia de alguém de quem gostava.
Desnecessário dizer que a fotografia de Sasuke ocupava o lugar de honra.
Eram enfeites feitos em casa, não chegavam sequer aos pés das lindas decorações vendidas nas lojas, porém para Sakura, tinham um significado todo especial. E daí se as outras pessoas não conseguiam ver as coisas como ela via? E daí se achassem que Sakura tinha um parafuso solto? Seus olhos verdes eram capazes de enxergar maravilhas, e era isso que lhe dava forças para se levantar da cama a cada manhã.
Aproximando-se do balcão da pia, Sakura ligou a cafeteira, depois debruçou-se sobre a mesa minúscula e ligou o chuveiro. Na verdade, era bastante conveniente ter a banheira na cozinha, assim podia preparar o café e tomar banho ao mesmo tempo.
Livrando-se das roupas, pulou para dentro da banheira e entrou embaixo do jato morno do chuveiro, fechando a cortina plástica circular.
No meio do banho, porém, esqueceu-se de que era apenas Sakura. Na realidade, estava tomando uma ducha com ele. Sasuke lavava-lhe os cabelos rosáceos com movimentos suaves dos dedos longos e fortes, e ela se inclinou ligeiramente para trás a fim de sentir o corpo quente e molhado dele de encontro às suas costas...
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Sasuke ajustou sua gravata de seda cinzenta. O viva-voz do telefone, instalado no banheiro, chiava com o ruído de estática enquanto ele esperava que Naruto retornasse de outra ligação.
- Ainda está aí, Sasuke?
- Estou - respondeu ele. - Mas vou sair daqui a dois segundos.
- Sei que não gosta de ser interrompido de manhã - disse Naruto -, mas preciso saber onde pretende passar a véspera de Natal.
- Ah, Naruto, sei lá! Ainda falta uma semana.
- Samui quer que você venha cear conosco, e não vai me deixar em paz enquanto eu não confirmar a sua presença.
- Por que não diz à sua irmã que ela precisa sair e se distrair um pouco mais? - perguntou Sasuke.
- Olhe só quem fala! Logo você, cujo último encontro com uma garota deve ter sido há mais de um ano!
- Desculpe-me, Naruto, mas vou ter de desligar.
- Espere, espere, não é hoje que sai aquele seu anúncio na revista?
- Sim, é hoje.
- E o que vai fazer se ela ligar? - insistiu Naruto.
- Vou atender o telefone, ora. E, agora, até logo, vou desligar.
Naruto, antigo companheiro de dormitório e melhor amigo de Sasuke tinha diversas manias irritantes, uma delas era a de lhe telefonar de manhã, quando ele precisava da linha livre para seus corretores da Bolsa. O mercado asiático pouco estava se importando com seus planos para o Natal e, para dizer a verdade, Sasuke se importava menos ainda. As pessoas pareciam supervalorizar aquelas inconvenientes festas de fim de ano, que só serviam para atrapalhar os negócios. O que Sasuke não contara ao amigo era que pretendia aproveitar aquele intervalo para se casar. Isso se Konan ligasse... Se ela já não tivesse se casado. Se...
Um resquício de dúvida, porém, ainda permanecia na mente de Sasuke. Se a reconciliação com Konan não desse certo, ele teria de recomeçar a sair com outras mulheres, e essa era a última coisa que desejava no mundo. Só de pensar nisso sentia um arrepio de angústia, pois não gostava de fazer coisas para as quais era desajeitado.
Na cozinha, Sasuke encontrou a mesa posta com seu café da manhã: um ovo cozido, uma torrada sem manteiga e uma xícara de café. Chiyo, sua governanta, também não se esquecera de deixar o New York Times aberto sobre a toalha.
-Bom dia, Sr. Uchiha - saudou-o, ocupada com a máquina de lavar louça.
Ele se limitou a responder com um movimento de cabeça e se sentou, já distraído com as manchetes do jornal.
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Descendo os seis lances de escada que conduziam à rua, Sakura perguntou-se pela enésima vez se deveria ter mandado publicar o anúncio que redigira, em vez do de Sasuke. Era verdade que ele nem ficaria sabendo que ela preparara um texto alternativo, mas Sakura sentia um pouco de remorso. Quando a gente ama uma pessoa, deseja que ela seja feliz, não é verdade? É por isso que deveria ter mandado publicar o anúncio carinhoso que redigira, o texto seco e frio que Sasuke lhe ditara com certeza não atingiria os objetivos dele.
Até a banca de jornais estava encantadora, com os enfeites de Natal.
- Bom dia, Srta. Sakura.
- Olá, sr. Teuchi, como vai?
- Em que posso servi-la hoje? - perguntou o velhinho.
- Preciso da revista Atitudes.
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Sasuke abriu a porta de sua sala e acendeu a luz, gostava de ser o primeiro a chegar ao escritório.
Como sempre, um dia cheio estendia-se diante do jovem executivo. Às nove, Sasuke teria uma longa reunião com Bob Riverside e sua equipe, o almoço, como de costume, seria no Restaurante Charlemagne. A tarde receberia seus advogados, e à noite acompanharia Naruto a um leilão de antigüidades.
- Sasuke Uchiha - disse para o viva-voz, tomando um gole de café.
- Sr. Uchiha, é Juugo. Já tenho os cálculos que o senhor pediu.
Eram exatamente sete e quinze, Juugo era um sujeito pontual. Sasuke gostava de gente pontual.
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Sakura estava atrasada, o metrô enguiçara e ficara mais de dez minutos parado a quilômetros da estação de Wall Street, onde ela deveria desembarcar. Passara o tempo lendo a revista, retornando vezes sem conta à seção de classificados pessoais. Lá estava o anúncio frio e impessoal: "Konan Baskin, ex-aluna da Vassar, ligar para S. U.".
Konan. Devia ser linda, alta e elegante, sofisticada e dona de impecável bom gosto. Devia ser o complemento perfeito para a personalidade de Sasuke. Só que...
Só que não o amaria como Sakura o amava. Se amasse, jamais o teria abandonado, uma mulher teria de ser louca para se afastar de um homem como aquele.
Com um tranco, o metrô recomeçou a se movimentar, e Sakura logo chegou à Pearl Street. Apressou-se a desembarcar, semi-esmagada por um mar de passageiros tão atrasados quanto ela.
Finalmente na rua, Sakura inspirou com prazer o ar frio da manhã. Não tinha tempo, entretanto, de aproveitar a agradável sensação de estar ao ar livre nem de contemplar a decoração de Natal das ruas, teria de voar, se quisesse chegar ao trabalho no horário.
Atravessou a rua correndo, junto com outros pedestres, desviando-se de táxis e limusines. Atingindo a outra calçada, passou a caminhar o mais depressa que podia em direção ao imenso edifício empresarial que ficava no centro de Wall Street.
Atravessou mais uma rua e passou embaixo de um andaime, esforçando-se para abrir caminho por entre as dezenas de funcionários bem agasalhados que também queriam entrar no prédio.
Foi quando ouviu o grito.
- Ei, cuidado aí!
Olhou para cima e viu um objeto branco que vinha caindo.
Foi atingida diretamente na cabeça. Algo como uma explosão de luz cintilou diante de seus olhos, e uma dor insuportável transformou-lhe as pernas em geléia. Depois a luz deu lugar à escuridão.
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Ai, como lhe doía a cabeça... Ao abrir os olhos, Sakura sentiu que a luz intensificava a dor, e gemeu alto.
- Ah, ótimo, finalmente acordou.
- O quê? - sussurrou ela, piscando repetidas vezes, tentando focalizar a visão. A voz era de um rapaz. Um rapaz vestido de branco.
- Esta é uma sala de emergência, e meu nome é dr. Larson. Você levou uma pancada na cabeça.
- Levei? - perguntou Sakura, levando imediatamente a mão à cabeça e tocando as ataduras que a envolviam.
- Tem muita sorte por estar viva - prosseguiu o médico. - Foi um golpe e tanto.
- Mas o que foi que caiu em cima de mim?
- Isto aqui - disse ele, mostrando-lhe uma estatueta de gesso. Sakura levou alguns segundos para perceber que se tratava de uma figura de Cupido, com arco e flecha. Faltavam-lhe, porém, a asa direita e os pés.
- Quer dizer que a minha cabeça levou um golpe de... Cupido?
- Pois é. Um Cupido de gesso pesando mais de um quilo.
- E como estou doutor? - quis saber, aflita. - Foi muito grave?
- É isso que vamos descobrir agora, está bem?
A dor era indescritível, Sakura sentiu a visão escurecer de novo e por pouco não voltou a perder os sentidos. O olhar preocupado do médico aumentou ainda mais sua angústia, talvez tivesse mesmo se machucado gravemente.
- Ai, que dor, meu Deus... - Quando o médico a ajudou a se sentar, ela percebeu que se encontrava sobre uma maça. Tinha a saia encharcada e rasgada, o suéter sujo de lama. Aquele amontoado de tecido escuro em cima da cadeira junto à cortina devia ser o seu casaco.
- Aqui, olhe para o meu dedo - pediu o médico.
- Está bem - murmurou Sakura, acompanhando o movimento da direita para a esquerda, depois da esquerda para a direita. Em seguida o médico fez brilhar uma luz forte diante de seus olhos, piorando ainda mais a dor.
Quando voltou a enxergar, ela notou que o médico era jovem. Trinta anos? Pouco mais ou menos. E era também um bocado bonito.
O médico bateu delicadamente em seus joelhos com um marte-linho de borracha, e, pela expressão do rosto dele, seus reflexos pareciam estar em ordem.
- Agora vamos preencher a ficha - disse o dr. Larson, apanhando a prancheta. - Qual é o seu nome?
Sakura ficou olhando para ele, confusa. Seu nome. Seu nome. Por que motivo não conseguia dizer o próprio nome?
- Engraçado... - disse baixinho.
- O que foi?
- Acho que não me lembro.
- Não se lembra do quê? - perguntou o médico, com uma expressão subitamente alerta.
- Do meu nome - respondeu Sakura, com um sorrisinho nervoso.
- Ah, sei...
- Sabe o quê?! - exclamou ela, sentindo o estômago se contrair e começando a ofegar. - O que está acontecendo?
- Qual é o nome de sua mãe? - insistiu ele, ignorando-lhe as perguntas. Nada. A mente de Sakura parecia tomada pelo vácuo. - O nome de seu pai? Tem irmãos ou irmãs?
- Eu... Eu... - Ela fechou os olhos, lutando para não perder o controle e começar a gritar.
- Você chegou ao hospital sem bolsa - declarou o dr. Larson -, e não encontramos nada em seus bolsos. - Sakura reabriu os olhos e viu que o médico estava junto à cadeira, remexendo no casaco dela. - E nas mãos você tinha apenas isto - prosseguiu ele, mostrando-lhe uma revista de capa brilhante. Atitudes.
Foi quando tudo ficou claro na mente de Sakura.
- Ah, graças a Deus! - murmurou ela com um suspiro de alívio.
- O que foi?
- Eu me lembro. É claro que me lembro. Puxa, que susto levei!
- Ótimo. Qual é o seu nome, então?
- É Konan. Konan Baskin.
...
Uau! A Sakura é muito fofa, né? Escolhi essa história pra adaptar por causa disso. Acho que as personalidades bateram. Aguardem o próximo capítulo, não deve demorar. Beijos! ?
