Larry Podesky, advogado de Bob Riverside, virou a página do contrato e continuou a ler linha por linha, em um tom de voz irritantemente pausado.

Sasuke não conseguia prestar atenção a uma única palavra. Aquela garota dos diabos... Não poderia ter a consideração de telefonar para avisar que não viria? Com isso ele teria tempo de providenciar uma substituta decente, uma que fosse capaz de preparar um café menos intragável e que não derrubasse um copo de água bem em cima da calça de Riverside.

— ...a parte interessada efetuará a devida restituição aos proprietários do terreno...

Sasuke tentou novamente concentrar-se na leitura do contrato, mas era como se Podesky estivesse falando grego, ele não entendera nada desde o início.

E, pelo jeito teria de adiar sua decisão. O que, pensando bem, não era má idéia, parecia haver algo de errado naquela história. Caso contrário, por que Bob Riverside estaria com o rosto vermelho daquele jeito? Já tendo conversado com ele várias vezes, Sasuke sabia que aquela não era sua aparência normal. O que estaria deixando o sujeito tão nervoso?

Ainda bem que Sasuke se lembrara de mandar fazer uma pequena investigação no passado de Riverside, se o empresário tivesse algum podre a esconder, Suigetsu, homem de confiança de Sasuke, haveria de descobrir. Naquela reunião, o importante era ouvir com atenção e avaliar com extremo cuidado tanto Riverside quanto o contrato.

Infelizmente, Sasuke fracassara em ambas as tarefas.

— ...duzentos e setenta mil dólares, a serem depositados no Chase Manhattan Bank quand... - Podesky interrompeu-se no meio da palavra, erguendo o olhar para a porta da sala de reuniões. Quanto a Bob Riverside, estava de olhos arregalados e queixo caído.

Sasuke girou na cadeira para ver que diabo...

A srta. Haruno? Sakura Haruno? Com um enorme curativo na testa? Com as roupas sujas e rasgadas? Com apenas um pé de sapato?

Ela entrou na sala como um pé-de-vento, indo na direção dele com os braços abertos e um enorme sorriso no rosto sujo de lama.

— Sasuke, querido! Sasuke, querido!

Sakura atirou-se em cima dele, e Sasuke, por um instante, pensou que ela iria matá-lo. Em vez de uma facada no peito, porém, o que ele recebeu foi um beijo na boca.

Sasuke teria preferido a facada.

Ela o beijou apaixonadamente, curvando-se sobre seu corpo, apoiara as mãos em seus ombros de tal forma que ele não tinha como escapar, a cabeça presa de encontro ao encosto da cadeira.

Sasuke abriu a boca para protestar, mas logo percebeu que cometera um erro. A língua da Srta. Haruno penetrou entre seus lábios, enroscando-se de forma provocante em sua própria língua. Ele ficou tão chocado que se esqueceu de respirar, ainda mais quando ouviu o gemido longo, rouco e sensual que ela não conteve.

Conseguiu finalmente empurrá-la, mas não a tempo de evitar levar uma mordidinha no lábio inferior. Sakura endireitou-se devagar, com um sorriso malicioso, os olhos cintilando com uma expressão que, na opinião de Sasuke, só podia ser de insanidade. A moça devia ter sofrido algum terrível acidente para ficar daquele jeito.

— Li o anúncio na revista, querido - sussurrou ela com voz rouca. - Você sabia que eu iria ler, não é mesmo? E sabia também que eu largaria tudo para atender ao seu chamado. - Antes que Sasuke tivesse tempo de responder, ela se voltou para Riverside e o advogado: - Por favor, cavalheiros, perdoem esta minha invasão, é que o amor às vezes nos leva a cometer loucuras. Sabiam que Sasuke e eu vamos nos casar?

— Co-como? - gaguejou Riverside, estupefato.

— Meu nome é Konan Baskin - disse Sakura com uma risada. - Sei que estou com uma aparência horrível, mas não via a hora de chegar aqui. Para dizer a verdade, deixei toda a minha vida para trás. - Voltando-se para Sasuke, acrescentou: - Se você não se importa, amor, vou precisar comprar umas coisinhas...

Konan Baskin? Mas que diabo...? Sasuke sacudiu a cabeça, atônito, perguntando-se se deveria chamar a polícia. Não, era melhor chamar Naruto, ele saberia o que fazer... Afinal de contas, lidava com gente maluca o tempo todo.

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— Escute, é melhor você... - Sasuke ia expulsá-la da sala, mas a moça se voltou novamente para ele, os cabelos róseos balançando em torno de seu rosto. Por que ela dissera que se chamava Konan? Será que pretendia chantageá-lo? Será que ficara louca varrida? Ou ainda pior?

— Tenho de comprar alguma coisa decente para vestir, querido - declarou Sakura com toda a calma. - A gente se encontra mais tarde no seu apartamento, está bem? Temos muito o que conversar.

Curvando-se de novo para Sasuke, deu-lhe mais um beijo molhado e provocante, depois endireitou-se, sorriu e foi embora.

Ele deveria ir atrás dela. Ver se aquela maluca não iria roubar alguma coisa, dar um tiro em alguém, atirar-se de alguma janela. Mas aquele segundo beijo...

Aquele beijo mexera profundamente com Sasuke. De forma embaraçosa e, digamos assim, muito visível. Se ele se levantasse...

Achou melhor permanecer sentado e empurrar a cadeira ainda mais para perto da mesa, e, ao fazê-lo, viu a expressão chocada com que o fitavam Riverside e o advogado.

— Por favor, cavalheiros, aceitem minhas desculpas por esse... incidente.

— Ela é... sua noiva? - perguntou Riverside.

— Não, imagine! - exclamou Sasuke. - É minha assistente. - Viu que Podesky erguia uma sobrancelha, e acrescentou: - E o nome dela não é Konan Baskin.

— Ah... - fez Riverside.

— Bem, senhores, creio que não nos resta opção a não ser agendar uma nova reunião. - Sasuke estava ansioso por ver aqueles dois pelas costas. Precisava se acalmar, pensar... Precisava ligar para Naruto.

— Bem, então... - começou a dizer Podesky, mas a campainha do interfone assustou-os. O pobre advogado tremia tanto, que deixou cair os papéis que segurava e, ao se abaixar para apanhá-los, bateu violentamente a cabeça na quina da mesa de reuniões.

— Sim? - disse Sasuke, apertando o botão do interfone.

— Sr. Uchiha? - gaguejou a secretária, em voz baixa e trêmula.

— Sim, o que foi?

— Acho melhor o senhor vir até aqui um pouquinho.

A interrupção servira para clarear um pouco a cabeça dele, e também para resolver o problema com... aquela outra parte de sua anatomia. Sasuke levantou-se, ajeitou a gravata e voltou-se para Bob Riverside.

— Com sua licença, por favor.

— Sim, claro - respondeu o outro.

Sasuke retirou-se da sala, esperando que os dois sujeitos encontrassem sozinhos o caminho da saída. Mas não foi direto para a ante-sala da recepção, deteve-se por alguns instantes no pequeno corredor que separava os dois ambientes, para pensar um pouco.

Não podia se precipitar, nos dias que corriam, não era seguro tomar uma decisão que envolvesse problemas trabalhistas sem consultar os advogados e a equipe dos Recursos Humanos. Se demitisse a moça imediatamente, poderia ter problemas depois. Em contrapartida, ela não passava de uma doida de pedra.

Quando entrou na ante-sala, porém, viu que a Srta. Haruno não se encontrava mais lá. A Sra. Ayres, que naquele dia substituía Guren Robinson, tinha o rosto branco como cera. Sua cadeira estava afastada da escrivaninha para dar espaço à gaveta de cima, aberta.

— Eu tentei impedi-la, Sr. Uchiha - murmurou ela.

— Impedi-la de quê? - perguntou Sasuke.

— Ela disse que não havia problema, que o senhor não iria se incomodar...

Sasuke aproximou-se da escrivaninha, lutando para não perder a calma.

— Mas o que aconteceu, afinal de contas?

— Ela pegou o cartão de crédito - disse a sra. Ayres. - E um molho de chaves. Olhe, Sr. Uchiha, eu nem sabia que essas coisas estavam aí, juro! Eu nunca havia aberto essa gaveta.

— Ela pegou o meu cartão de crédito? - insistiu Sasuke, estupefato. A secretária corou e fez que sim com a cabeça, os olhos já cheios de lágrimas. - Por favor, Sra. Ayres - prosseguiu ele -, encontre o número do telefone de Naruto Uzumaki, ligue para ele e passe a ligação para a minha sala.

— Sim, Sr. Uchiha.

— Depois me traga três aspirinas e um copo de água.

— Sim, Sr. Uchiha - repetiu ela, a voz embargada.

— Calma, sra. Ayres - disse Sasuke, com pena da coitada -, a culpa não foi sua, não vou responsabilizá-la por nada.

— Obrigada, Sr. Uchiha.

Sasuke seguiu para a sua sala, perguntando-se o que deveria fazer. Ligar para a companhia de cartões de crédito, naturalmente, e depois... Depois o quê?

Além do óbvio, havia mais alguma coisa que o incomodava naquela história. A Srta. Haruno dissera que se chamava Konan Baskin. O anúncio devia ter saído naquele dia... O que acontecera? Será que a moça tinha ido comprar a revista e fora atropelada por um carro? Ou sofrerá um assalto? Ou será que aquilo tudo não passava de uma terrível armação?

O telefone tocou e, deixando-se cair em sua cadeira, Sasuke apanhou o receptor.

— Uchiha falando.

— O que aconteceu, Sasuke?

— Naruto, eu estava no meio de uma reunião com Bob Riverside e o advogado dele, quando Sakura, a substituta da minha secretária, surgiu do nada e invadiu a sala de reuniões como se estivesse entrando na casa da sogra.

— Sério? - surpreendeu-se Naruto.

— Sério - confirmou Sasuke. - Estava com um enorme curativo na testa, e parecia ter sofrido algum acidente ou ter sido atacada por um assaltante, não sei.

— Você chamou um médico?

— Eu não!

— E por que não?

— Bem, porque ela... ela...

— Ela o quê, homem de Deus?

— Ela me beijou - Sasuke falou em tom constrangido.

— Ela o quê?!

— Ela me beijou. Na boca. Bem ali na sala de reuniões, na frente de Riverside e Podesky. E, como se não bastasse, disse que se chamava Konan Baskin e que nós dois iríamos nos casar.

Silêncio do outro lado da linha. Não, não um silêncio total, Sasuke achou ter percebido uma risadinha abafada. Depois ouviu uma ligeira batida à porta, e a sra. Ayres entrou com as aspirinas, que ele engoliu rapidamente.

— Puxa vida - disse Naruto por fim -, que coisa estranha...

— Que é estranha eu sei, o que preciso saber é o que fazer. A moça pegou meu cartão de crédito, tenho de ligar para a...

— Não, não ligue - interrompeu-o Naruto.

— O quê?

— Não ligue para a polícia, nem para ninguém. Ainda não.

— Por que não?

— Porque precisamos de mais informações antes de decidir o que fazer.

— Informações, Naruto? Pois vou lhe dar uma informação: há uma doida solta pela cidade com o meu cartão de crédito!

— Ela disse mais alguma coisa?

— Disse.

— O quê?

— Que precisava comprar umas coisinhas e que... Ah, meu Deus...

— E o que mais?

— Que iria se encontrar comigo mais tarde no meu apartamento. Ela pegou minhas chaves também.

— Muito bem - declarou Naruto em tom decidido -, então é por aí que vamos começar. - Sasuke perguntou-se se havia explicado direito a gravidade da situação, pois Naruto não parecia muito abalado. - Encontro-me com você daqui a meia hora - acrescentou o psiquiatra, com a voz mais calma deste mundo.

— Ótimo. Estou indo para lá.

— Mas antes, Sasuke, faça-me um favor...

— O quê?

— Peça alguma coisa para comer, está bem? Estou morrendo de fome...

— Idiota.

Sasuke desligou e apertou o botão do interfone, tinha de pedir à sra. Ayres que cancelasse todos os seus compromissos daquela tarde. E tudo isso por causa de uma secretariazinha... Ele jamais deveria tê-la contratado, afinal de contas, aqueles lindos cabelos rosados não serviam de compensação para a enorme encrenca em que ela se transformara.

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— Acho que deveríamos chamar a polícia.

— Nada disso - discordou Naruto -, são apenas quatro e meia. Vamos esperar até as cinco.

— Pelo amor de Deus, Naruto, às cinco horas ela pode já ter esgotado o estoque de todas as lojas!

— Sasuke deixe-me lhe perguntar uma coisa - pediu o psiquiatra, apoiando os cotovelos na mesa e afastando para um lado seu copo de cerveja. - Você alguma vez conversou com Sakura?

— Claro que sim, ela trabalha para mim, não trabalha?

— Estou perguntando se você já conversou de verdade com ela, fora dos assuntos de trabalho.

— Não, isso não - admitiu Sasuke. - E por que eu deveria conversar?

— Porque você a vê cinco dias por semana.

— Por favor, Naruto, você sabe muito bem que não gosto de me envolver pessoalmente com os funcionários.

— Não perguntei se você se envolveu com a moça, e sim se falou com ela algumas vezes, se sabe alguma coisa a respeito de sua vida.

— Tudo o que sei dela é que, pelo menos até agora, seu trabalho sempre foi eficiente.

— Já ouviu falar de Temari Haruno?

— A violinista? - perguntou Sasuke, sem entender por que o amigo tinha mudado de assunto.

— Ela mesma - disse Naruto. - É a irmã mais velha de Sakura. E de Hinata Haruno, já ouviu falar?

— Já. A escritora, não é?

— Isso mesmo. Pois é outra irmã de Sakura.

— Sério? - surpreendeu-se Sasuke.

— E é claro que ouviu falar também de Ino Haruno, certo? - insistiu Naruto. E, vendo que Sasuke fazia que não com a cabeça, acrescentou: - Vire-se e olhe lá para fora.

— Lá fora? - estranhou Sasuke, voltando-se de frente para a janela da sala de seu apartamento de cobertura.

— Está vendo aquele outdoor? - perguntou Naruto, apontando para um enorme anúncio em que uma mulher seminua fitava com desejo um homem seminu. - Aquela é Ino, outra irmã de Sakura.

— Está falando sério?

— Claro que sim.

— Inacreditável - observou Sasuke, virando-se de novo para a mesa.

— Pois é. Quatro garotas, das quais três são celebridades internacionais.

— E a quarta é... Sakura.

— Exatamente - disse Naruto.

— Muito comovente, mas o que tem tudo isso a ver comigo?

—:Ainda não sei com certeza, mas acho que a sua Srta. Haruno deve estar profundamente perturbada.

— E o que é que eu devo fazer a esse respeito? - perguntou Sasuke, exasperado.

— Assim que eu descobrir, conto para você.

— Mas Naruto, acho que esse assunto é problema das autoridades!

— Ainda não. Deixe-me conversar com ela primeiro.

— Pois espere sentado, a esta hora ela deve estar em um avião rumo a Monte Carlo.

— Não está, não - discordou Naruto. - Tenho certeza de que Sakura vai voltar.

O ruído de uma chave girando na fechadura deu um susto nos dois. Sasuke olhou para Naruto. Naruto olhou para a porta. Naruto levantou-se. Sasuke permaneceu sentado. Sakura Haruno entrou alegremente na sala e largou no chão diversas sacolas de compras, fechando a porta com o pé. O curativo da testa desaparecera, deixando à vista um enorme galo. Estava vestida com roupas apresentáveis, aparentemente caras, e, detalhe surpreendente, usava dois sapatos diferentes.

— Olá,querido - disse, sorrindo para Sasuke. - Oi, Naruto.

— Oi, Sakura- respondeu o psiquiatra. - Como vai?

— Só "como vai"? - estranhou ela, em tom de brincadeira. - Não vai me dar um beijinho?

Naruto dirigiu a Sasuke um rápido olhar de esguelha, depois sorriu, segurou as mãos que Sakura lhe estendera e beijou-a no rosto.

— Puxa, você está maravilhosa! - observou.

— Ah, obrigada, você também. E então, Sasuke lhe contou a novidade?

— Que novidade?

— Que nós vamos nos casar - sorriu Sakura.

— Ah, sim, claro que contou.

— Não é uma notícia fantástica?

— Fantástica, com certeza.

Sakura soltou as mãos de Naruto e se voltou para Sasuke. Ah, meu Deus, pensou ele, ela vai me beijar de novo. Mas desta vez não conseguirá de mim a menor reação. Puxa, essa moça precisa de ajuda, pelo visto ficou completamente louca.

Sakura se curvou para ele.

Seu perfume era delicioso.