Ele era tão maravilhoso, e ela o amava havia tanto tempo... Seu adorado, doce e carinhoso Sasuke. Sakura curvou-se mais um pouco, fechou os olhos e deixou que seus lábios se apossassem dos dele.

Sentiu mais uma vez aquele arrepio de emoção. O que desejava mesmo era estar nos braços dele, na cama dele. Não via a hora de chegar à lua-de-mel para realizar seus desejos, mas talvez não precisasse esperar até lá.

Endireitou-se e viu que, mesmo com aquela expressão de espanto, ele era lindo.

- Mandei virem entregar algumas das compras, querido - disse, toda feliz -, mas acho que ainda vão demorar um pouco. Enquanto esperamos, penso que deveríamos combinar alguns detalhes da cerimônia. Afinal de contas, Sasuke, você me avisou em cima da hora.

- Eu o quê?

- Sasuke queria que a data do casamento fosse surpresa - intrometeu-se Naruto. - E como foi que você descobriu, sua espertinha?

- Ah, Naruto, conheço Sasuke como a palma da minha mão - respondeu Sakura. - Por exemplo, sei que ele gosta de chegar cedo ao escritório, e que pigarreia sempre que precisa ganhar tempo para pensar. - Sorrindo para o "noivo", acrescentou: - Às vezes, quando pensa que ninguém está olhando, ele tira os sapatos por baixo da escrivaninha. E outras vezes, quando está sozinho, conversa com o pai. - Sakura viu que Sasuke arregalara os olhos e perdera a cor. - Ora, bobinho, por que todo esse espanto? Quando duas pessoas se amam como nós, é muito natural que um saiba dos segredos do outro. Aposto que você também sabe de todos os meus segredinhos.

- Ah, sim - disse Naruto, apressando-se a socorrer o amigo - ele sabe, por exemplo, que você gosta de costurar. E também que adora música romântica.

- Ah, Sasuke - murmurou Sakura em tom de ternura -, você também me conhece muito bem. Fomos feitos um para o outro, nem mesmo a distância foi capaz de nos separar. - Ouvindo alguém bater e voltando-se para a porta, exclamou: - Eles chegaram! Espere só, amor, para ver o que comprei!

Depois de beijá-lo rapidamente no rosto, ela correu para abrir a porta. O porteiro do edifício viera acompanhado de outros dois sujeitos, e os três estavam carregados de pacotes.

- Com licença, madame...

- Entrem, entrem - disse Sakura, toda animada. Atravessou a sala, seguida pelos três homens, e então se deteve, com uma expressão de dúvida. Engraçado, não conseguia se lembrar onde ficava o quarto. - Um minutinho - pediu aos carregadores, e avançou pelo corredor. A primeira porta à direita era um banheiro, a segunda era a da suíte. - Por favor, cavalheiros, por aqui!

O quarto era enorme, provido de uma cama king-size. As cores da decoração, porém, eram deprimentes: marrom, verde-escuro, cinza. Uh! Ela teria de dar um jeito naquilo.

Sakura abriu a porta do gigantesco closet e, vendo que os carregadores entravam, começou a empurrar os ternos e camisas de Sasuke para as extremidades dos suportes de cabides.

- É aqui, madame? - perguntou o porteiro.

- Sim, por favor. Podem colocar as caixas aí, que eu mesma arrumo tudo.

- Pronto, senhora - disse o homem assim que toda a carga havia sido depositada no chão. Em seguida fez uma pequena reverência e foi saindo com os outros dois.

- Muito obrigada, o Sr. Uchiha se encarregará da gorjeta, está bem?

Depois, contemplando o suporte de cabides, viu que o espaço não seria suficiente para todas as roupas que comprara. E onde, em nome dos céus, iria colocar seus sapatos?

?

Depois de, com muito má vontade, ter dado uma gorjeta a cada um dos homens e aberto a porta para eles saírem, Sasuke voltara a andar de um lado para outro na sala.

- Chame-a de Konan, Sasuke. Faça de conta que vocês vão mesmo se casar. Seja atencioso, converse com ela, escute-a.

- Você está me pedindo para ser tão louco quanto ela!

- Não, não se trata disso. Olhe, Sasuke, as coisas podem se desenvolver de duas maneiras: ou você entra na brincadeira, a moça se recupera amanhã ou depois e fica tudo bem, ou...

- Ou o quê?

- Ou você chama a polícia - respondeu Naruto. - Eles vão deixá-la apavorada, e o choque pode fazer com que não se recupere nunca mais. A família de Sakura descobre o que você fez, e eu já lhe contei que tipo de família é a dela. Eles contratam os melhores advogados do mundo, mandam publicar o caso em todos os jornais... E você vai passar o resto da vida pagando as despesas hospitalares dela, lutando nos tribunais para se livrar da responsabilidade, e sabe tão bem quanto eu que, em casos como esse, os juízes sempre se decidem a favor do funcionário, e não do empregador.

- Ai, meu Deus do céu... - gemeu Sasuke, fechando os olhos e esfregando as pálpebras com os dedos.

- Então, pense bem no que vai fazer, as conseqüências podem ser catastróficas.

Naruto perguntou-se se era mesmo correto mentir para o amigo daquele jeito. Tinha, porém, um bom motivo: desde a morte do pai, Sasuke se tornara cada vez mais insensível, frio, amargo e sério. Estava seguindo o mesmo caminho do pai, que morrera jovem demais. Alguém tinha de fazê-lo acordar, passar a ver a vida de outra maneira... E esse alguém era Sakura Haruno.

- Tem certeza de que vão ser apenas algumas horas? - perguntou Sasuke.

- Absoluta.

- E o que devo fazer com a moça?

- Para começar, faça-a permanecer aqui.

- O quê?

- Não vai querer que ela saia por aí nesse estado, vai? - retorquiu Naruto. - E se lhe acontecer alguma coisa? Você precisa ficar de olho nela até as coisas se resolverem.

- E o meu trabalho? Como posso trabalhar e vigiá-la ao mesmo tempo?

- Você vai ter de fazer uma escolha, Sasuke. Pode ir trabalhar e colocar em risco tudo o que possui, ou pode ficar em casa e salvaguardar o futuro da sua empresa.

Após um longo e desanimado suspiro, Sasuke acabou assentindo com um movimento de cabeça.

- Está bem, está bem... Mas ainda acho isso tudo uma loucura.

- Vai dar tudo certo, não se preocupe - garantiu Naruto. - Enquanto você cuida de Sakura, vou tratar de descobrir o que aconteceu exatamente. E depois entrar em contato com a família dela - acrescentou, levantando-se, apanhando seu sobretudo e se dirigindo à porta. - Eu ligo para você, mas se precisar de mim antes, pode me ligar. Boa sorte.

Naruto abriu a porta e saiu rapidamente, fechando-a atrás de si. Depois tratou de ir até o elevador o mais depressa possível, se Sasuke saísse do apartamento para lhe perguntar mais alguma coisa e visse o sorriso que tinha nos lábios, seu plano estaria arruinado.

Já no elevador a caminho do térreo, o jovem psiquiatra voltou a pensar em Sakura. Pelo que parecia, a moça não ficara muito machucada, ao menos fisicamente. Mas, e quanto àquela troca de identidade? Sakura era uma sonhadora, e era justamente isso que mais agradava a Naruto na personalidade dela. Muito antes daquela confusão toda, ele já achava que ela seria a mulher ideal para Sasuke, mas nunca encontrara uma forma de apresentar essa idéia ao amigo.

Prático e realista, Sasuke tinha os pés firmemente plantados no chão, Sakura, por sua vez, vivia flutuando vários metros acima do solo. Os dois precisavam um do outro, um seria o complemento ideal para o parceiro. Isso se a moça estivesse fisicamente bem. E se não recuperasse a memória nos próximos dez minutos.

Saindo do elevador, Naruto perguntou-se se não estava arriscando demais, pegou então o celular e ligou para a sua secretária.

- Shizune, preciso de um favor seu.

- Pois não, doutor, pode falar.

- Ligue para todos os hospitais da área próxima a Wall Street, e descubra se em algum deles foi atendida uma moça chamada Sakura, hoje de manhã. Deve ter uns 25 anos, de cabelos rosa e olhos verdes, magra, com pouco menos de um metro e setenta. Ah, ela está com um enorme galo na testa.

- Sim, doutor. E se eu encontrar o hospital?

- Se encontrar, ligue para mim. Obrigado.

Naruto guardou o celular no bolso e saiu para a Fifth Avenue. A neve caía suavemente, e de algum lugar vinha o som de sinos tocando.

Ele era um homem da ciência, um médico que possuía dois doutorados, não era de seu feitio acreditar no destino. Mas o Natal estava chegando, e nessa época, tudo podia acontecer...

?

Sakura. Sasuke tentava se lembrar de como ela se tornara sua assistente. E claro que a moça passara primeiro pelo departamento de Recursos Humanos, mas a certa altura tivera de ser entrevistada pelo futuro chefe.

Ah, sim, ele começava a se lembrar de alguma coisa. Ela era aquela jovem com lábios cheios e tentadores, que o haviam distraído momentaneamente durante a entrevista. E tinha também lindos cabelos rosáceos... Mais do que isso Sasuke não conseguia recordar.

Naquela noite, porém, ela não era Sakura Haruno. Era Konan Baskin, mas não a Konan que ele conhecia.

Suas conjeturas foram interrompidas pelo ruído surdo de algo volumoso que caíra no chão de seu quarto. Podia ter sido qualquer coisa, seu aparelho de fax, seu computador... Ah, meu Deus, podia ter sido ela!

Sasuke foi correndo para o quarto, torcendo para que Sakura não tivesse levado uma queda. Ou desmaiado. Ou ainda pior.

Ao entrar, porém, ele viu que não havia nada fora do lugar. A porta do closet achava-se aberta, e o som de uma voz feminina cantarolando baixinho acalmou-o um pouco. Sakura não estava morta. Mas havia invadido o closet dele.

Ao se aproximar, Sasuke quase teve uma síncope ao contemplar a revolução que a moça fizera lá dentro. Seus ternos e camisas haviam sido prensados nas extremidades do suporte de cabides, seus sapatos tinham sido retirados das prateleiras e agora jaziam amontoados no chão. Os pertences de Sakura haviam tomado conta do espaço, arruinando a simetria de que Sasuke tanto gostava.

- E então, como vai a arrumação? - perguntou ele em tom calmo, sem deixar transparecer seus sentimentos.

Sakura levou um susto e se voltou para ele com os olhos verdes arregalados, depois relaxou e sorriu.

- Ah, querido, é você... - sussurrou. - Vai indo bem, mas precisamos comprar mais cabides, podemos fazer isso amanhã, está bem? Por enquanto eu fiz o que foi possível - acrescentou, apontando para as roupas que comprara com o cartão de crédito dele. - Tenho mais algumas coisas para guardar, mas para isso vou precisar de uma gaveta.

Ao dizer isso deu um passo na direção dele. Sasuke fitou-lhe o rosto, jamais havia olhado para aquele rosto, pelo menos não de tão perto.

A moça tinha uma carinha de criança, ligeiramente arredondada, e a pele clara e lisa. Mas aqueles lábios cheios e sensuais, aquela expressão ao mesmo tempo maliciosa e inocente dos olhos esverdeados...

Sakura deu mais um passo e ficou tão perto que Sasuke pôde ver suas pupilas se dilatarem. E sentir aquele perfume inebriante. E perceber o que ela pretendia fazer.

Ele precisava se afastar daquela mulher.

- Ah, meu amor... - sussurrou Sakura, acariciando com delicadeza os braços dele. Sasuke engoliu em seco, tentando desesperadamente não perder o controle. - É só em você que tenho pensado, é só com você que tenho sonhado... Com você, só com você.

Ele tinha de sair dali. Aqueles dedos carinhosos e sensuais, porém, mantinham-no preso, como petrificado. Aqueles lábios vermelhos e úmidos, aquele sorriso provocante, aqueles olhos...

Com os diabos, pensou Sasuke, desistindo de resistir e puxando Sakura para si. Apossando-se de sua boca, beijou-a até deixá-la sem fôlego.

Ele achou que estava enlouquecendo também.

Nem todas as forças do mundo, porém, seriam capazes de detê-lo.