Sakura sentia-se no céu, aconchegada nos braços dele. Os lábios sedentos de Sasuke, as mãos viris que a seguravam com o desespero de uma paixão contida... Ah, Sasuke! Sasuke, que se esforçava tanto para parecer distante, para fingir que não gostava de ninguém... Mas ela sempre soubera que aquilo não passava de uma máscara.
Sakura entreabriu os lábios e a língua dele se enroscou na sua, provocando-lhe uma sensação que transformou seus joelhos em gelatina. E o aroma que o corpo de Sasuke exalava, então? Tão masculino, tão autêntico... Nada de perfumes nem de outros artifícios, somente sabonete e aquele cheiro de homem que lhe era tão característico.
Tudo estava correndo como ela sempre sonhara. A cerimônia do casamento haveria de ser perfeita, a lua-de-mel, em Paris, quem sabe? , seria a realização de todas as suas fantasias. E a vida dos dois juntos? Seria com certeza uma sucessão de momentos de pura felicidade.
De repente Sasuke afastou o rosto do dela, fitando-a como se nunca a tivesse visto antes.
- Querido, o que foi? - perguntou Sakura, surpresa.
- É que você não... Acho que... Não sei, mas...
- Ah, meu amor - murmurou ela com um sorriso -, deixe de ser bobo... Sou eu que estou aqui, Sasuke, comigo você não precisa fingir. E assim mesmo que o amo: sem máscara. Será que ainda não percebeu isso?
Dando-se conta de que ainda a segurava com toda a força, Sasuke soltou-a e afastou os braços tão depressa que chocou o cotovelo esquerdo na quina da porta do closet.
- Mas que... - rosnou ele, deixando escapar duas ou três pragas das boas e esfregando o cotovelo machucado.
- Já estou quase terminando a arrumação - declarou Sakura, tentando distraí-lo da dor. - Depois podemos ir preparar o jantar juntos, o que acha? - Sasuke limitou-se a fazer uma careta, a pancada devia ter sido realmente dolorida. - Que tal prepararmos um macarrãozinho? - ela continuou. - Acho que vai ficar ótimo. E depois vou lhe mostrar as coisinhas que comprei na Victoria's Secret.
- Victoria's Secret?! - exclamou ele, empalidecendo visivelmente ao ouvir o nome da loja famosa por vender as lingeries mais provocantes de Manhattan.
- O que foi, amor, está sentindo alguma coisa? Quer que eu ligue para o médico?
- Pois é - murmurou Sasuke -, um de nós dois precisa mesmo de um médico...
- Então vou ligar agora mesmo - declarou Sakura, virando-se em direção ao telefone, mas ele a segurou pelo braço.
-Calma, estou brincando. Não preciso de médico nenhum.
Ela permaneceu alguns momentos a fitá-lo com uma expressão preocupada.
- Sabe de uma coisa, meu bem? - perguntou por fim.
- O quê?
- Acho que fiquei tempo demais longe de você, e estou muito arrependida. Se eu soubesse que você se encontrava nesse estado...
- Que estado? - ele interrompeu-a com um olhar de raiva. - O que está querendo dizer?
- Ah, querido, você está tão tenso... Com a respiração difícil e o rosto tão vermelho! Não quero ser indelicada, meu amor, mas, apesar de ser tão bonito, você está com uma aparência terrível.
Sasuke soltou do braço dela e esfregou as têmporas com a ponta dos dedos.
- Você tem razão - admitiu em voz baixa -, acho que não estou na minha melhor forma.
- Está vendo?! - exclamou Sakura em tom de triunfo. - E como se nunca tivéssemos nos separado! - Em seguida foi até a cama dele e tirou a tampa da primeira caixa da pilha que fora colocada sobre as cobertas. Depois afastou para os lados o papel de seda e expôs à vista uma lindíssima camisola, feita de um tecido branco, extremamente macio e muito fino, quase transparente. Retirando da caixa a requintada peça de lingerie, ergueu-a e segurou-a diante do próprio corpo, depois voltou-se para Sasuke e viu que ele permanecia parado no mesmo lugar, de olhos arregalados e o olhar fixo. Ótimo, sua intenção fora exatamente essa. - Acha que hoje devo usar esta aqui?
- N-não s-sei - gaguejou Sasuke com voz rouca.
- Ou este aqui?- insistiu Sakura, abrindo a segunda caixa e
dela retirando um minúsculo baby-doll vermelho.
Sasuke levou a mão ao próprio pescoço, como se estivesse sufocado.
Sakura observou que ele parecia realmente não estar se sentindo bem. Ela precisava conversar com Sasuke a esse respeito.
O telefone tocou e ambos levaram um susto, como estava mais perto, Sakura atendeu.
- Alô? - Enquanto uma voz feminina respondia? em tom de surpresa, Sakura se voltou para Sasuke. Ele tentava correr para o telefone, mas tropeçou e se estatelou no chão. - Ah, meu Deus... Você está bem? - perguntou ela.
- Estou muito bem, querida - respondeu pelo telefone a voz de mulher.
- Não falei com você, desculpe-me, foi com Sasuke, que levou um tombo.
- Com Sasuke?
- Isso mesmo. Sasuke Uchiha.
- Sei muito bem quem é Sasuke, querida - riu a mulher. - Fui eu quem o pôs no mundo.
- Ah, perdoe-me - disse Sakura. - Como vai a senhora?
- Estou ótima, obrigada. Mas quem é você, meu bem?
Vendo que Sasuke já se levantara do chão e não parecia ter-se machucado gravemente, Sakura concentrou a atenção na conversa com a mãe dele.
- Sou Konan, Sra. Uchiha - respondeu.
- Konan? Engraçado, sua voz está diferente...
- É que já se passou algum tempo... Estou um pouco mais madura, não é mesmo?
- Sim, claro.
- Muito bem - prosseguiu Sakura, sentando-se na beirada da cama -, o que a senhora me conta?
- Eu? Nada de mais... Estou apenas estranhando um pouco essa situação. Vai ver que tomei vinho em excesso no jantar.
- Ah, sim, a senhora está no navio de cruzeiro... O que está achando da viagem?
- Uma maravilha, minha querida - entusiasmou-se a Sra. Uchiha. - O único problema é que estou engordando a olhos vistos, a comida é tão deliciosa que não há dieta que agüente.
- Sei exatamente do que a senhora está falando, eu também tenho de enfrentar essa tentação. Imagine que... - Sakura interrompeu-se e viu que Sasuke se encontrava bem à sua frente, fitando-a com uma carranca de dar medo. Ah, como ela se arrependia de ter ficado tanto tempo longe daquele homem... Era evidente quanto ele precisava dela. - Sasuke quer falar com a senhora - disse Sakura ao telefone -, mas antes quero lhe dizer que estou muito feliz por estar entrando na sua família. Tenho certeza de que nós duas vamos nos dar muito bem, e espero que a senhora volte da viagem a tempo para o casamento.
Sasuke estendeu a mão para ela, exigindo que Sakura lhe entregasse o aparelho.
- Casamento? - perguntou Mikoto do outro lado da linha, em tom surpreso.
- Pode deixar que Sasuke vai lhe contar todos os detalhes, Sra. Uchiha. Até logo.
Sakura não chegou a ouvir a resposta, Sasuke arrancou-lhe da mão o telefone sem fio, girou nos calcanhares e foi se fechar no banheiro, batendo a porta com toda a força.
Sakura não se importou, afinal, precisava mesmo de tempo para encontrar uma gaveta onde guardar sua lingerie.
- Não, mamãe, não vamos nos casar coisa nenhuma.
- Mas, Sasuke, ela parece ser uma garota tão doce!
- Que doce, que nada, ela é completamente maluca, isso sim.
- Pare com isso, meu filho, Konan não é nada disso.
- Ah, não? - rosnou ele. - Pois, para começar, o nome dela não é Konan, é Sakura Haruno. Trabalha no escritório como minha assistente, o que não passa de uma denominação mais chique para um office-boy de saias. Na verdade, mal a conheço.
- Haruno? Não faz muito tempo, li um livro de uma tal de Hinata Haruno.
- É irmã dela.
- Verdade?! - exclamou a Sra. Uchiha. - Ah, querido, adorei o livro! Era uma história tão...
- Mamãe, por favor!
- Está bem - suspirou ela. - Mas a moça parece ser tão boazinha...
- Ah, meu Deus... - Sasuke gemeu baixinho. Que situação, aquela! Mas Naruto perdera o juízo se achava que ele iria participar da insanidade de Sakura. Com o risco de ser processado ou não, iria chamar a polícia. E também aqueles sujeitos vestidos de branco que colocam camisas-de-força nas pessoas.
- Sasuke?
- Sim, mamãe?
- Você parece que não está me ouvindo! Eu lhe perguntei por quê, afinal de contas, essa Sakura está dizendo que se chama Konan.
- Ainda não sabemos com certeza, mamãe. Deve ter sido um acidente, ela está com um galo na testa e as roupas rasgadas.
- Você chamou um médico para ela?
- Não, não chamei.
- Pois ligue imediatamente para Sam e peça para ele ir examinar a moça.
- Está bem, mamãe, vou cuidar disso.
- Ótimo. E, por favor, Sasuke, seja gentil com a pobrezinha, pois ela parece ser um amor. Uma garota que valeria a pena você conhecer.
- Eu já a conheço, mamãe, ela trabalha na minha empresa.
- Não foi isso que eu quis dizer. Sabe de quem ela me faz lembrar?
- De quem, da tia Lila? A que está internada naquele hospício?
- Nada disso, seu malcriado - ralhou a Sra. Uchiha. - Ela me faz lembrar de mim mesma, quando conheci seu pai.
- Por quê? Você também pensava que era outra pessoa?
- Sasuke, por favor, deixe de brincadeiras. Estou falando das qualidades dessa garota, da sua vivacidade, da sua alegria de viver.
- Pois é. Alegria demais para o meu gosto.
- Mas, querido, foi a minha alegria de viver que fez tanto bem a seu pai. Ele era tão sério e taciturno... Não o tivemos conosco por muito tempo, mas, enquanto esteve ao nosso lado, fiz tudo para tomar a vida dele mais alegre. Nós dois nos divertimos muito juntos.
Diversão? Ele jamais vira o pai se divertindo, nem mesmo durante as férias. Ah, sim, a não ser daquela vez, na praia... Sasuke ficara espantadíssimo e até constrangido ao ver o pai rindo às gargalhadas e beijando efusivamente a esposa.
- Bem, mamãe, agora tenho de desligar, não posso deixar Sakura muito tempo sozinha.
- Isso mesmo, meu filho, muito bem. E lembre-se, Sasuke, seja bonzinho com ela. Você é um bom rapaz, e sabe disso, apesar de viver carrancudo, é uma das pessoas mais bondosas que já conheci.
- Ora, mamãe, bondade sua. Mas obrigado mesmo assim.
- Amanhã eu ligo de novo, pois vou querer saber como estão as coisas.
- Muito bem, a gente se fala amanhã.
- Sasuke?
- Sim, mamãe?
- Eu amo você. Sabe disso, não sabe?
- É claro que sei. Também amo você, muito.
- Ótimo.
Assim que a mãe desligou, Sasuke digitou o número de Naruto.
- Dr. Uzumaki falando.
- E então, Naruto, já descobriu o que aconteceu com aquela doida?
- O que você pensa que eu fico fazendo? Dormindo no ponto? Já descobri, sim, senhor, consegui falar com o médico que a atendeu no hospital.
- Muito bem, e o que foi?
- Sakura foi atingida na cabeça por um Cupido de gesso.
- Por um o quê?
- Uma estatueta de Cupido - esclareceu Naruto. - Que caiu, sabe de onde? De uma sacada do seu edifício, Sasuke.
- Mas que droga!
- Pois é. Mas, felizmente, os exames mostraram que não houve nenhuma conseqüência mais grave, nenhum dano permanente.
- Ainda bem - disse Charles. - Mas por que então essa história de se chamar Konan?
- É uma troca de identidade temporária, que vai desaparecer por si mesma. Mas, até que isso aconteça, é de fundamental importância que você continue fingindo que acredita.
- Não, eu não posso fazer isso.
- Por que não?
- Porque... - Sasuke hesitou. - Porque ela comprou uma camisola.
- E o que tem isso?
- Uma camisola transparente.
- Ah, agora estou entendendo...
- Naruto, Sakura é minha funcionária. Não fica bem ela ficar usando uma... coisa dessas na minha presença. - Enquanto esperava a resposta do amigo, Sasuke teve mais uma vez a impressão de ouvir uma risadinha abafada. Devia ter sido só impressão, pois não era possível que Naruto estivesse achando graça de uma situação como aquela. - E imagine - prosseguiu -, ela disse à minha mãe que vamos nos casar. E quer que eu vá para a cozinha com ela preparar um macarrãozinho!
- Ora, Sasuke, e o que tem isso? Deixe que ela faça o que quiser! Será que não é capaz de distraí-la pelo menos até amanhã?
- Mas é que...
- Pelo amor de Deus, Sasuke, você já é bem crescidinho para dar conta dessa tarefa. E agora me dê licença, que acabo de preparar o jantar e estou morrendo de fome. Até amanhã.
