Assim que atingiu um dos cantos da boca de Sasuke, a língua de Sakura voltou bem devagar, e, quando chegou ao centro, introduziu-se ligeiramente entre os lábios dele. Da garganta de Sasuke começou a brotar um gemido baixo, longo e abafado, e então ele a agarrou como se pretendesse esmagá-la, e beijou-a como se pretendesse devorá-la viva.

Sakura jamais fora beijada daquela forma. Quando sentiu a mão dele em seu seio, ela empinou os ombros para trás, na intenção de lhe facilitar o movimento. Depois, quando Sasuke acariciou-lhe, delicada e demoradamente, o bico do seio, Sakura acabou por deixar escapar um grito de prazer, um grito imediatamente contido por aqueles sedentos lábios masculinos. Ela não pôde mais resistir à tentação de tocá-lo, e, deslizando a mão pelo peito e pelo ventre de Sasuke, sentiu entre os dedos sua poderosa masculinidade.

Havia somente um lugar aonde os dois poderiam ir a partir dali, e, se o fizessem, a culpa seria dela. Sakura não queria iniciar seu casamento daquela forma, então, a despeito do desejo que a consumia, empurrou Sasuke delicadamente e se afastou, deixando-o a fitá-la com os olhos vidrados.

Ela se levantou e foi para a cozinha, sentindo as pernas bambas.

- Vou preparar um café - declarou, lutando para não deixar a voz trair seu estado de espírito. - Sabe, quando faço macarrão, gosto muito de usar aqueles molhos prontos, temperados com especiarias. Você já experimentou? Bem, é claro que o molho feito em casa é melhor... Mas leva um tempo enorme para cozinhar... Que tal uma salada para acompanhar? Deixe-me ver o que você tem na geladeira.

- S-sim, claro - balbuciou Sasuke, sem saber nem a que estava respondendo, no estado de excitação em que se encontrava, era como se Sakura estivesse falando norueguês. O que estaria acontecendo com ele? Jamais fora do tipo de sujeito que sai com uma mulher somente pelos atributos físicos dela, com Sakura, porém, estava se sentindo o próprio homem de Neandertal. Faltavam-lhe apenas a clava e a roupa de pele de animal.

Ele a queria. Ele a desejava. Queria fazer de tudo com ela, desde a primeira até a última posição do Kama Sutra.

-E então, Sasuke, você não vem me ajudar?

Depois de lavar as mãos na torneira da pia, Sasuke começou a picar as folhas de alface, a cada poucos segundos, porém, virava-se para observar Sakura.

Sua atração física por ela era mais do que evidente, mas alguma coisa a mais lhe estava acontecendo. Sakura despertara em seu íntimo algo que ele havia muito sufocara, e, agora que esse algo voltara a se manifestar, Sasuke se deu conta de quanto tempo fazia que não se sentia daquela forma.

- Sasuke?

- Sim? - respondeu ele, já ocupado em fatiar os tomates.

- Sabia que gostei muito de conversar com sua mãe?

- Ela também - disse Sasuke. Um pouco demais para o meu gosto, pensou.

- Onde ela está?

- No Caribe, perto de Saint Thomas.

- Mas ela vai com amigos ou sozinha?

- Ah, sim, vai sozinha. Mas eu contrato pessoas de confiança para ficarem de olho nela.

- Por quê? - estranhou Sakura. - Ela não tem amigos?

- Mamãe faz muitos novos amigos em suas viagens. Aonde quer que vá, ela é sempre a alma da festa.

- Então por que você precisa contratar gente para tomar conta dela?

- Bem, é que... Minha mãe é muito excêntrica.

- Como assim, excêntrica?

- Para você fazer uma idéia - exemplificou Sasuke -, ela certa vez foi ao Alasca e comprou um totem de quinze metros de altura para me dar de presente. E mandou entregarem no meu escritório.

Sakura caiu na risada enquanto, de luvas acolchoadas nas mãos, levava a fumegante panela de macarrão para escorrer na pia.

- E o que você fez com ele? - perguntou por fim.

- Doei-o ao Metropolitan Museum.

- Belo gesto. Mas sua mãe também teve uma idéia simpática, aposto que achou que você iria adorar o totem.

- É, adorei mesmo. Embora tenha tido de gastar mais de cem mil dólares até vê-lo são e salvo no museu.

- Nossa! - admirou-se Sakura. - Tudo isso? E que outras excentricidades sua mãe fez?

- Houve aquela vez - respondeu ele, abrindo a embalagem plástica das cenouras - em que mamãe ficou desaparecida na ilha de Creta por vários dias. Finalmente a localizamos em uma colônia de nudistas, um clube fechado, do qual ela havia comprado um título com validade de três anos.

- Puxa! - exclamou Jane, rindo novamente. - Mas você tem de admitir que sua mãe tem estilo, não é mesmo?

- Ah, sim, isso ela tem de sobra.

- Você alguma vez a acompanhou em uma viagem?

- Não - disse Sasuke. - Esses cruzeiros marítimos duram semanas, e eu não tenho tempo disponível.

- Ah, que pena... Acho que sua mãe adoraria a sua companhia.

- Ela prefere viajar sozinha - garantiu ele, voltando a se concentrar no preparo da salada.

- Sasuke?

Dessa vez ele não se conteve, e acabou sorrindo.

- Sim, o que foi?

- Por que decidiu pôr aquele anúncio na revista? Sei que queria me encontrar, mas por que agora?

- Eu não queria... - Diabo, ele quase falara o que não devia. - Quer dizer, eu não queria perder mais tempo. Sempre lamentei o fato de termos perdido o contato, e tinha medo de que você já estivesse casada e cheia de filhos.

Sasuke sentiu o contato suave da mão dela no cotovelo e ficou como paralisado.

- Eu jamais faria isso - sussurrou Sakura. - Fiquei esperando por você. Se fosse preciso, teria esperado pelo resto da vida.

- Por quê? - perguntou ele, largando a faca e se voltando para ela.

- Porque amo você.

- Verdade?

- Mais do que tudo na vida. Sempre o amei, Sasuke.

- Tem certeza?

- Absoluta. É o destino, meu amor, destino com D maiúsculo.

- É, parece que você tem razão.

- Sabe querido... Tendo sido quem tomou a iniciativa nessa história, você está sendo cauteloso demais.

- É mesmo?

- É, sim. E acho que é por isso que estou aqui, para ajudá-lo a mudar de atitude.

Com esse pequeno comentário, Sakura retornou ao fogão para mexer na panela do molho borbulhante.

Enquanto guardava o restante dos legumes nos saquinhos plásticos, Sasuke tentou imaginar como ela reagiria se ele lhe fizesse algumas perguntas bem direcionadas. Talvez fosse o que Sakura precisava para ser reconduzida à sua vida normal.

Sasuke decidiu esperar até que os dois estivessem sentados à mesa, e, enquanto ela preparava um molho vinagrete, ele guardou os saquinhos no refrigerador. Depois colocou a salada na mesa e ajudou Sakura a encontrar os pratos e talheres. Ela colocou a tigela de macarrão na mesa e ele foi pegar a jarra de água na geladeira.

Sasuke continuou a esperar enquanto os dois se serviam e começavam a comer. Ele se limitou a comer calado por alguns minutos, mal sentindo o sabor da comida, sua mente lutava para decidir que pergunta fazer a Sakura.

- E então, gostou da salada? - disse por fim.

- Está uma delícia. E o macarrão, está bom?

- Maravilhoso - garantiu Sasuke. - Quer que eu lhe sirva mais um pouco?

- Quero, sim, obrigada.

- Sabe, Konan, eu estava pensando na sua mãe...

- Na minha mãe? - assustou-se ela, parando de comer. - O que tem minha mãe?

- É que não sei como ela está. Ela vai bem? Você não me disse nada...

A criatura vivaz e sensual que o torturara de desejo, a garota sensual e ousada que quase o levara à loucura começou a empalidecer ali à sua frente. Sasuke arrependeu-se até o último fio de cabelo por ter aberto a boca, era evidente que Sakura não estava preparada para uma pergunta tão direta.

- Mi-minha m-mãe está... - ela gaguejou. - Está...

- Ainda mora em Paris?

- Ah, sim, claro. Ainda mora em Paris.

- Que bom - observou ele. - Ela gosta tanto de lá... Por favor, pode me passar a salada? - Sakura apanhou a tigela e, aos poucos, a cor foi retornando a seu rosto. Apesar disso, Sasuke ainda se sentia alarmado, e continuou a falar da comida. - Este macarrão está mesmo uma delícia, muito obrigado.

- Você é quem me agradece? A alma de uma refeição é a salada e esta que você preparou está fantástica.

Sasuke não conseguia compreender aquele estranho modo de Sakura ver as coisas e também não entendia o que estava acontecendo com ela. A tensão que tal situação lhe provocava era quase insuportável.

O que ele precisava era de uma boa noite de sono. Já eram oito horas, convinha lavar logo os pratos e em seguida acomodar a moça para dormir no quarto de hóspedes.

Depois ele iria se trancar em seu quarto e torcer para encontrar forças para trabalhar um pouco.

Sakura enxugou o último prato e entregou-o a Sasuke, que o guardou no armário junto com os outros.

Como ela previra, a decoração do apartamento dele era de extremo bom gosto, composta de móveis e aparelhos domésticos caríssimos que formavam conjuntos perfeitos.

Havia, porém, algo de perturbador em toda aquela perfeição: uma certa frieza, uma desconfortável impessoalidade. Aquele parecia um modelo de lar, desses que se vêem nas revistas, e não um lar de verdade.

Não bastava uma governanta para manter tudo em ordem. O que o apartamento precisava era de um verdadeiro toque feminino. Depois do casamento, Sakura trataria de transformá-lo em um lugar mais aconchegante e humano.

- Quer que eu lhe prepare um drinque? - perguntou-lhe Sasuke.

- Não, obrigada. Estou com um pouco de dor de cabeça.

- Quer tomar uma aspirina?

- Quero, sim, por favor.

Ele saiu em direção à suíte, e Sakura se aproximou do único local da sala que parecia conter um pouco de vida: a estante de livros. Ali havia um grande número de clássicos, desde Shakespeare até Dickens, em contrapartida, havia também opções mais modernas e interessantes, como as obras completas de Michael Crichton. Ela pegou um dos livros de Crichton e abriu-o: parecia ter sido lido repetidas vezes, com orelhas no canto de várias páginas e diversas anotações rabiscadas a lápis.

A descoberta fez Sakura acabar gostando daquela sala. E a fez amar Sasuke ainda mais: afinal de contas, ele sabia sonhar, sabia viajar nas asas da própria imaginação.

Ela desejou saber que sonhos eram aqueles e, acima de tudo, ajudá-lo a torná-los realidade. Não fora exatamente isso que Sasuke fizera por ela?

- Pronto, aqui está - soou a voz dele. - Eu lhe trouxe duas aspirinas. Está bom assim?

- Está ótimo - respondeu Sakura. - Ótimo mesmo.