Sakura tomou um comprimido de cada vez, depois bebeu o restante da água e devolveu o copo a Sasuke.
— Obrigada.
— De nada, imagine.
— Eu estava olhando os seus livros, sabe?
— É mesmo?
— Acho ótimo que você goste de ler - sorriu ela, correndo a ponta dos dedos pela coleção da História da Civilização na prateleira mais próxima. - O que mais você gosta de fazer, Sasuke?
— Você diz que me conhece tão bem... Não sabe dos meus gostos?
— Tenho minhas suspeitas, mas queria ouvir da sua boca.
Ela estava falando sério, o que significava que aquela seria uma longa conversa. O Wall Street Journal de Sasuke ainda o esperava, dobrado, dentro de sua pasta, o noticiário financeiro da CNBC já começara na televisão.
Apesar disso, ele foi até o sofá e se sentou.
— E então, o que é mesmo que você quer saber? - perguntou.
Sakura não respondeu imediatamente, antes foi se sentar também. Para alívio de Sasuke, porém, ela escolheu a extremidade oposta do sofá, acomodando-se de pernas cruzadas. Se ele tentasse se sentar naquela posição, acabaria com uma dolorosa distensão muscular, porém Sakura parecia tão confortável como um gatinho sobre uma almofada.
— Quero saber o que você gosta de fazer - respondeu Sakura finalmente.
— Essa não é uma pergunta fácil de responder - observou Sasuke. - Vamos fazer uma coisa: você fala primeiro, assim eu vou ter tempo de pensar.
— Bem, eu gosto de ver o sol nascer. Gosto de me levantar bem cedinho, quando ainda está escuro, e subir ao topo do edifício mais alto que puder encontrar, para assistir à luz do sol despertando Manhattan.
— Muito bem, continue.
— Também gosto muito de música suave - acrescentou Sakura. - Mas chega de falar de mim, agora é a sua vez.
— Só isso? - surpreendeu-se ele. - Pensei que você iria passar horas e horas me contando dos seus gostos.
— Vamos, Sasuke, não mude de assunto, é sua vez de falar.
Ele olhou para a parede em frente, de onde pendia seu quadro favorito. Havia algo que lhe agradava muito nas cores sombrias da pintura, na forma como a aba do chapéu ocultava boa parte do rosto do personagem central, mas não a sua expressão. Os detalhes da rua freneticamente movimentada eram vibrantes: as outras pessoas que passavam para lá e para cá, as mulheres, os homens de negócios, o guarda de trânsito... Mas o sujeito de chapéu estava imóvel, com as mãos nos bolsos e a aba puxada para cima dos olhos.
— Aquele quadro, por exemplo - disse Sasuke por fim, apontando para a pintura. - Gosto muito dele.
— Por quê?
— Ora, por que as pessoas gostam de uma obra de arte? Porque se identificam com ela.
— Mas é uma pintura tão triste... Transmite tanta solidão!
— Eu não acho - discordou ele. - Para mim, a figura do homem de chapéu mostra como se pode permanecer firme, com os pés no chão, em meio a toda a loucura do mundo. Não tem nada a ver com solidão.
— Pois eu acho o homem de chapéu solitário, terrivelmente solitário. O modo como esconde o rosto, como não olha para nada à sua volta... E como se ele estivesse no meio do oceano, mas nunca se molhasse.
— Talvez ele não queira se molhar - murmurou Sasuke.
— Acontece que ninguém gosta de ficar à margem da vida - murmurou Sakura, fitando-o com um olhar cheio de carinho.
Ele sentiu o impulso de refutar aquele argumento, mas mudou de idéia.
— É, você tem razão - disse por fim. - Ninguém gosta.
* Pois é - concluiu Sakura. - Bem, eu sei que não é muito tarde, mas você se importaria se eu fosse dormir?
— Fique à vontade. Afinal de contas, você teve um dia difícil.
— É verdade, um dia muito difícil.
Os dois se levantaram do sofá e foram em direção ao corredor.
Sakura entrou no banheiro, enquanto Sasuke prosseguiu até o quarto de hóspedes.
Ao acender a luz, ele notou como a decoração era sombria. Fazia muito tempo que não entrava ali, e se esquecera de que as cores predominantes naquele quarto eram cinza-escuro, vinho e marrom.
Aquele ambiente melancólico não era digno de Sakura, mas não havia outro jeito. Sasuke então teve uma idéia: voltou para a sala, pegou um vaso de flores e levou-o para alegrar um pouco o quarto onde ela iria dormir.
Enquanto Sakura se preparava, ele levou para o closet do quarto de hóspedes diversas das caixas de roupas novas que ela comprara. Não achou necessário transferir as peças que ela pendurara no closet da suíte dele, aquelas roupas não permaneceriam ali por muito tempo.
Depois foi até a cozinha e apanhou uma jarra de água e um copo. Sakura poderia sentir sede no meio da noite.
Sua intenção fora a de tornar o ambiente mais agradável para ela, mas, quando terminou, percebeu que cometera um erro tático. Um grande erro tático.
Toda aquela preparação para dormir fizera-o pensar em outra coisa que se pode fazer em uma cama. Fizera-o pensar na pele macia da Haruno, na firmeza de seus seios...
Ora, mas que diabo! Lá estava ele novamente, deixando-se dominar por seus mais baixos instintos. E nem sequer vira ainda a roupa que ela iria usar para dormir!
A coisa mais sensata a fazer era ir para seu próprio quarto e se trancar lá dentro. Se tivesse de tomar pílulas para dormir, paciência, mas tinha certeza de que, se trabalhasse um pouco, conseguiria desviar a mente daquela idéia fixa.
Sasuke saiu rapidamente para o corredor, e não se deteve nem para desejar boa-noite a Sakura através da porta do banheiro. Deixara acesa a luz do quarto de hóspedes: ela perceberia que era ali que deveria dormir.
Ele entrou em sua suíte e girou a chave na fechadura. Como lhe garantira Naruto, tudo o que precisava fazer era suportar aquela situação até o dia seguinte.
Sasuke pegou o pijama na gaveta e foi para o banheiro tomar um banho frio. Quando, finalmente, ficou pronto para se deitar, percebeu que sua mente estava confusa demais para se concentrar no trabalho. Assim, apagou a lâmpada de cabeceira, empurrou para o lado uma das caixas de roupas femininas que sobrara sobre a cama e deslizou para debaixo do cobertor.
Visões de baby-dolls transparentes dançavam por trás de suas pálpebras fechadas. Que droga, ele não chegara sequer a abrir o Wall Street Journal, não sabia se a Bolsa de Valores tinha tido alta ou baixa, não sabia de nada. Aquela garota fizera sua vida rotineira virar de pernas para o ar.
Esforçava-se para pegar no sono, mas seu cérebro viajava a quilômetros por hora. Por mais que tentasse desviar o pensamento, tudo o que via à sua frente era a imagem de Sakura Haruno, que pensava se chamar Konan Baskin.
Konan! A verdadeira Konan! Será que vira o anúncio na revista? E se ela ligasse e Sakura atendesse ao telefone? Mas não, Naruto lhe assegurara que aquela confusão toda logo chegaria ao fim, não havia, portanto, motivo para preocupação.
Sasuke tentou concentrar o pensamento no trabalho, na figura de Bob Riverside. Só que a silhueta de Riverside foi mudando de forma, transformando-se na de uma mulher voluptuosa que vestia um baby-doll vermelho...
Com todos os diabos! Como podia dormir se não conseguia pensar em outra coisa? Sasuke mudou de posição, ajeitou o travesseiro, virou-se de lado e passou o braço em torno do outro travesseiro.
Só que aquilo não era um travesseiro: era ela, era Sakura.
Mais um truque de sua imaginação perturbada? Ah, meu Deus, não era, não! Sakura estava mesmo ali, deitada a seu lado.
Ele deixou escapar um gemido de desespero, e imediatamente sentiu o contato da mão feminina em seu braço.
Sakura estava quase dormindo, naquele estado de semiconsciência no qual não se distingue entre a realidade e o sonho. O movimento e o gemido de Sasuke, porém haviam revertido o processo.
— Sasuke, o que foi? Está se sentindo mal?
— Não, mas posso saber o que você está fazendo aqui?
— Dormindo, ora! Ou melhor, eu estava quase dormindo.
— Mas não era para você dormir aqui - retorquiu ele.
— E onde eu deveria dormir? No sofá da sala?
— Claro que não, no quarto de hóspedes.
— Você tem um quarto de hóspedes?
— Tenho, sim. E o deixei arrumado para você.
— Mas por quê? - estranhou Sakura. E, sentindo que Sasuke se afastava dela, abriu os olhos e viu que ele erguera o corpo e se recostara nos travesseiros.
— Por quê? - repetiu ele. - Porque nós dois não somos... Porque você não é... Porque não fica bem, pronto.
— Ora, Sasuke, acalme-se, eu não vou estuprá-lo. Se você não fosse tão desajeitado, nós dois já estaríamos no décimo sono. - Fechando novamente os olhos, Sakura acrescentou: - Vamos, deite-se e relaxe. Não vou morder você.
— Ah, não vai? Essa é muito boa. Só falta você querer me convencer de que não é dada a umas boas mordidinhas.
— Puxa, Sasuke - disse Sakura, estendendo a mão para a lâmpada de cabeceira e acendendo-a -, será que você não pensa em outra coisa a não ser em sexo?
— Não estou pensando em nada - garantiu ele. - Por favor, apague a luz e vá para o seu quarto.
— Ótimo! - explodiu ela. - Durma sozinho, que estou pouco me incomodando. Estou cansada demais para me importar - acrescentou, jogando as cobertas para o lado e fazendo menção de se levantar.
— Ah, meu Deus...
— Ah, meu Deus o quê? - perguntou Sakura, surpresa, interrompendo o movimento. - O que foi?
— Você não está de pijama! - exclamou Sasuke.
Ela baixou o olhar para o próprio corpo. Era verdade, não estava de pijama, detestava pijamas. Vestira-se para dormir como sempre o fazia: de calcinha e uma camisetinha regata.
— Sasuke, pare de olhar para mim como se eu estivesse nua.
— Não está, mas é como se estivesse.
— Mas será que tudo mexe com os seus hormônios? Diga-me uma coisa: há quanto tempo você não faz sexo?
— Escute, Sakura, já é tarde, sei que está muito cansada. O quarto de hóspedes está prontinho à sua espera.
— Ah, claro - indignou-se Sakura, sentando-se na beirada da cama e colocando os pés no chão -, até parece que vou conseguir dormir depois dessa conversa toda. Espero que haja um aparelho de televisão nesse tal quarto de hóspedes.
— Não há, não - disse Sasuke -, o único televisor desta casa está aqui no meu quarto.
— Ah, é?! - exclamou ela, levantando-se. - Então o que é que vou ficar fazendo? Não posso ler por causa da dor de cabeça, e não sei fazer tricô!
— Basta você se deitar e fechar os olhos, que o sono logo vem.
— Ah, Sasuke, a teoria na prática é outra coisa - discordou Sakura. E, ao notar que ele segurava o cobertor de encontro ao queixo como se fosse uma virgenzinha tímida, acrescentou: - E por que essa vergonha toda? Não precisa ficar se escondendo de mim.
— Quem disse que estou me escondendo de você? - defendeu-se Sasuke, baixando imediatamente o cobertor até a cintura e revelando um pijama antiquado, de algodão branco listrado de azul. - O que foi? - perguntou, ao ver a expressão do rosto de Sakura.
— Nada, não - respondeu ela com um olhar malicioso. - Um pijama e tanto esse seu, não é mesmo?
— Não há nada de errado com ele. É macio, confortável...
— Ah, sim, quanto a isso não há dúvida.
— Então por que você está me olhando desse jeito?
— Estou olhando para você porque esse seu pijama é muito interessante - declarou Sakura, inclinando-se e começando a subir na cama de quatro, bem devagarinho. - Eu estava muito tranqüila até agora há pouco, mas agora não sei o que foi que me deu...
Sasuke podia ver-lhe claramente os seios pelo decote da regatinha, e cada vez melhor à medida que ela se aproximava.
— Pare com isso - murmurou ele, sem desviar o olhar.
— Não consigo. Será que você não entende? Esse pijama... Não posso me conter, tenho que senti-lo com as minhas mãos!
— Konan, por favor, pare com isso! - Ainda fitando de olhos arregalados os seios dela, Sasuke puxou de novo o cobertor até o queixo.
— Sasuke?
— O que foi?
— Você tem certeza absoluta de que quer esperar?
— Esperar o quê?
— Esperar até a noite do casamento, ora!
— Olhe, Konan, eu estou lhe avisando... - Sasuke ia se afastando e Sakura chegando cada vez mais perto, até que ele atingiu a beiradinha da cama e não havia mais para onde se afastar. - Ou você pára aí mesmo, ou eu... Eu...
Ela não parou. Engatinhou os últimos centímetros que faltavam e, quando ia se atirar em cima de Sasuke, ele despencou da cama e caiu sentado no chão com um baque surdo.
— Sasuke! - exclamou a mulher, debruçando-se por sobre a beirada da cama e encontrando-o sentado ali no chão, com o olhar parado. - Você está bem? - perguntou, assustada.
— Estou ótimo - respondeu ele em tom frio. - Poderia fazer a gentileza de me passar o travesseiro?
— Claro - disse ela, atendendo-lhe ao pedido.
— Obrigado - agradeceu Sasuke secamente. Depois colocou o travesseiro no chão, puxou o cobertor de cima da cama, deitou-se, cobriu-se e fechou os olhos.
— Sasuke?
— O que foi?
— Você não está muito desconfortável?
— Não.
— Ah, não sei qual de nós dois é o mais louco - desabafou Sakura com um suspiro. - Eu, por jogar tudo para o alto para vir atrás de você, ou você por me chamar e depois não querer fazer nada comigo.
— Escute, Konan, quer fazer o favor de apagar a luz e dormir de uma vez?
— Está bem, seja como você quiser. Vou dormir no outro quarto. É só que não consigo entender você, Sasuke, simplesmente não consigo.
Sakura pulou da cama, saiu do quarto e bateu a porta com força. No momento em que se encontrou lá fora no corredor, porém, ficou morrendo de vontade de voltar para dentro. Sentia-se muito solitária sem Sasuke, solitária e com medo.
