Sasuke dormira até depois da hora do café. Não estava em sua sala na empresa quando Juugo batera na porta. Não fora o primeiro a chegar ao escritório e não se encontrava lá quando Tobirama Senju ligara do Japão.

Eram nove e quinze, e ele jamais acordara tão tarde. Não era para menos: só conseguira pegar no sono às seis da manhã.

Chiyo já devia ter chegado, será que encontrara Sakura?

Durante o banho, Sasuke se sentiu de novo envolvido pelos problemas que haviam alterado tão profundamente a rotina de sua vida. Será que Sakura já acordara? Será que se lembrava de como se comportara no dia anterior? Se lembrasse, haveria de estar envergonhadíssima, ele teria de convencê-la de que aquilo não tivera importância alguma, que a culpa havia sido da amnésia. Mas como explicar os beijos selvagens que dera em Sakura? Naruto. Ele ligaria para Naruto e lhe pediria para vir. O amigo saberia como fazê-la entender tudo aquilo.

Preocupado, Sasuke terminou rapidamente o banho, enxugou-se às pressas e saiu do banheiro, a barba teria de esperar para ser feita mais tarde.

E se Sakura ainda não se lembrasse de nada e continuasse a pensar que era Konan? Ele não podia passar mais um dia tomando conta dela, tinha de ir para o escritório trabalhar.

Chiyo. Chiyo era uma mulher sensível e compreensiva, Sasuke lhe pediria para cuidar de Sakura.

Ao entrar em seu closet e tentando não se estressar diante da "arrumação" que Sakura fizera, ele se perguntou que destino dar às roupas que ela comprara. Talvez pudesse devolvê-las à loja. Ou talvez o melhor fosse deixá-la ficar com elas, afinal, não podiam ter custado assim tão caro.

Sasuke vestiu-se em tempo recorde, maldizendo o fato de ter de usar uma camisa amarrotada, depois saiu da suíte para avaliar a situação.

Não encontrou ninguém no corredor, e foi espiar pela porta aberta do quarto de hóspedes. Sakura não se encontrava lá, e a cama estava arrumada.

Ele atravessou o corredor e entrou na sala. Então, antes mesmo de ir procurar na cozinha, ouviu a conversa que vinha de lá. Eram duas vozes femininas, uma mais madura e calma, a outra mais jovem e animada. Mas quem ele iria encontrar lá, batendo papo com a governanta? Sakura ou Konan?

Ao se aproximar da cozinha a primeira pessoa que Sasuke viu foi Chiyo, de pé junto à pia e com uma xícara de café na mão. E com um largo sorriso nos lábios, coisa que ele jamais vira antes.

Sasuke deteve-se por um instante. Talvez a providência mais inteligente a tomar fosse simplesmente ir embora, sair correndo daquele apartamento e chamar Naruto para vir dar um jeito naquela confusão.

Mas não, não podia fazer isso. O que era ele, afinal de contas? Um homem ou um saco de batatas?

Por fim entrou na cozinha e...

— E então, Sasuke, vai ficar parado aí o dia todo ou vem me dar um beijo de bom dia?

— Eu... Ah... - Sasuke não sabia o que responder, mas sua dúvida desapareceu: era evidente que Sakura ainda não recuperara a memória. Ainda bem, entretanto, que não estava mais usando a calcinha e a camiseta regata da noite anterior. Vestira novamente uma calça jeans e, dessa vez, em lugar da blusinha curta, preferira uma camiseta também branca, porém larga e comprida.

— Ora, ora... - suspirou ela, aproximando-se dele. - Você primeiro dorme demais, depois fica olhando para mim como se eu fosse um fantasma. O que foi, Sasuke? Será que pegou um resfriado?

— Não foi nada, estou muito bem.

— Ótimo. Então não corro risco nenhum se lhe desejar bom dia como se deve.

Sakura tomou o rosto dele entre as mãos e beijou-o na boca. Mas que "beijo de bom dia", que nada, foi, isso sim, mais uma daquelas explosões de sensualidade que o deixavam totalmente desnorteado.

Como seria de esperar, os hormônios de Sasuke reagiram. Ainda mais porque, como se não bastasse o beijo, ela colou o corpo ao dele, fazendo pressão no local mais sensível de todos.

Sasuke queria afastá-la de si. Quando a segurou pelos ombros, porém, em vez de empurrá-la, abraçou-a ainda com mais força, esmagando-lhe os lábios com redobrada energia.

— Puxa... E eu que pensava que já tinha visto de tudo na vida!

Ao som da voz perplexa de Chiyo, Sasuke finalmente se afastou de Sakura, sentindo o rosto arder de vergonha.

Sakura olhou para ele, depois para a governanta. E então deu de ombros e sorriu, como se as duas estivessem partilhando algum segredinho.

— Desculpe-me, Konan - disse Sasuke, lembrando-se a tempo de chamá-la pelo nome correto -, mas eu estou atrasado para o trabalho.

— Ah, Sasuke, deixe disso. Você fica lindo desse jeito...

— Escute, eu...

— Pelo menos tome o seu café da manhã - interrompeu-o Sakura. - Chiyo preparou uma fritada maravilhosa!

Fritada? O que dera na cabeça da governanta? Chiyo sabia muito bem o que ele gostava de comer no desjejum.

A mulher provavelmente percebera que o deixara contrariado, pois se voltou para a pia e começou a lavar uma xícara que, ele notou, já estava limpa. A mesa se achava posta, mas o jornal não se encontrava em seu devido lugar.

— Onde está o meu... - Sasuke tentou perguntar, mas Sakura saiu correndo, voltou dali a alguns segundos e colocou o Times ao lado da xícara dele.

— Está melhor assim? - perguntou ela com um sorriso.

— Bem melhor, obrigado.

— Ótimo. Mas será que posso lhe pedir uma coisa?

— Sim, o que é?

— Será que você não se importaria de ler o jornal mais tarde? Nós dois precisamos conversar.

Às costas de Sasuke, Chiyo deu uma tossidela. Mas não foi uma tosse de verdade, foi, isso sim, a forma de disfarçar uma risada.

— Precisamos conversar sobre o quê? - perguntou ele.

— Ora, sobre o casamento. Por acaso acha que as coisas vão acontecer por mágica? Temos que fazer nossos planos.

Sasuke abriu a boca para falar, e então percebeu que não fazia a menor idéia do que dizer.

— Pode me dar licença um segundo? - pediu por fim, em tom constrangido.

— Claro... - concordou Sakura, estranhando aquele comportamento.

— Preciso dar um telefonema rápido e volto já. Pode servir meu café enquanto isso?

— Com certeza, querido.

Ele girou nos calcanhares e foi correndo para o quarto.

Naruto.

Sasuke precisava de privacidade para fazer aquela ligação. Não apenas para que Sakura não ouvisse a conversa, mas também porque ele pretendia dizer ao seu melhor amigo algumas verdades que ninguém podia ouvir.

— Ele não é uma gracinha? - perguntou Sakura.

— Ah, sim - concordou a governanta -, o Sr. Uchiha é uma ótima pessoa.

Chiyo chegara às seis e meia, e tentara insistentemente convencer "Konan" a acordar Sasuke, ela, porém, não de deixara persuadir. O coitado precisava dormir, explicara: o dia anterior havia sido muito cheio de emoções e muito cansativo para ambos.

— Puxa - disse Chiyo -, estou admirada até agora. Do jeito como ele a descreveu, imaginei que você era uma pessoa completamente diferente.

— O que foi que Sasuke disse? - perguntou Sakura.

— Disse que você era sensata, boa anfitriã... O Sr. Uchiha nunca mencionou esse seu sorriso de menina, esse seu jeitinho...

— E quando foi que Sasuke me descreveu para você?

Chiyo ficou ligeiramente ruborizada.

— Bem, ele não a descreveu exatamente para mim - explicou em tom meio sem graça. - Eu estava fazendo a faxina e o ouvi conversando com o Dr. Naruto pelo telefone.

— Ah, sim. E você vem trabalhar todos os dias?

— De segunda a sexta.

— Para fazer faxina e o que mais?

— Também para cozinhar, fazer compras no supermercado, ir buscar as roupas dele na lavanderia... Essas coisas.

— Coisas que poderiam ser feitas por uma esposa... - disse Sakura com ar pensativo.

— Pois é - concordou Chiyo. - E agora imagino que vou ter de sair por aí procurando outro emprego.

— Ora, por quê?

— Porque vocês vão se casar e não precisarão mais de mim.

— Ora, Chiyo, deixe disso! Você já faz parte da família. É claro que vamos continuar precisando de você, sobretudo quando os bebês começarem a chegar.

— Bebês? - perguntou Sasuke, que acabava de entrar. - Que bebês?

— Venha se sentar, querido - pediu Sakura. - Coma antes que esfrie.

— Não estou com fome.

— Ah, não? - perguntou ela com uma risada, sentando-se na cadeira junto à dele. - Pois espere só até experimentar esta fritada.

Sasuke sentou-se de má vontade e apanhou o garfo. Sakura não disse mais uma única palavra até que ele finalmente levou à boca um pedaço da fritada de ovos, queijo, bacon e cogumelos, mastigou um pouco e acabou arregalando os olhos com uma expressão de grata surpresa.

— Nossa, mas que delícia... - murmurou Sasuke de boca cheia.

— Eu não lhe disse?! - exclamou Sakura em tom de triunfo.

— Disse, sim, só não me disse que bebês eram aqueles de quem estava falando.

— Os nossos, ora. Nossos filhos.

— Não temos filho nenhum, que eu saiba.

— Mas vamos ter. Eu quero no mínimo quatro, duas meninas e dois meninos.

— Quatro?! - Sasuke engasgou-se com um bocado da fritada e Chiyo lhe deu tamanho tapa nas costas que o garfo dele saiu voando por cima da mesa.

— Uau! - exclamou Sakura, caindo na risada e batendo palmas.

— Bem, chega - disse Sasuke afastando sua cadeira, embora mal tivesse comido duas ou três garfadas. - Preciso sair para trabalhar.

— Mas você nem tocou no seu café e...

— Não, não, estou atrasadíssimo - ele a interrompeu, levantando-se com uma expressão séria no rosto. - Escute, Konan, não quero que você saia de casa. Não ponha os pés na rua, está ouvindo? Chiyo vai ficar aqui com você e, depois que ela sair, não levarei mais de meia hora para chegar.

— E como você espera que eu organize um casamento ficando presa dentro de casa?

— É para isso que servem os telefones - retorquiu Sasuke.

— Espere... - disse Sakura. - Você tem computador? - E então se lembrou: - Ah, sim, há um laptop no seu quarto. Tudo bem, existem milhares de sites na Internet sobre esse assunto. Só não entendo essa sua insistência para que eu não saia à rua. Já sou bem crescidinha, não acha?

— Eu sei por quê, lindinha - intrometeu-se Chiyo lá da pia. - Com um galo desse tamanho na cabeça, o melhor é você não abusar e passar o dia em casa descansando.

Sakura levou imediatamente a mão à testa, fazendo uma careta de dor.

— Puxa, é incrível que eu não me lembre como fiquei com este galo. Que coisa esquisita...

— Isso é perfeitamente natural, querida - garantiu a governanta. - Não se preocupe com isso e fique em casa sossegadinha mexendo no computador.

— Então está bem - concordou Sakura voltando-se para Sasuke. E, para sua surpresa, ele sorriu.

Que sorriso, o daquele homem... Seu rosto se iluminava, transformava-se completamente. Quando Sasuke sorria, ela conseguia enxergar o menino que existia dentro dele, o garoto travesso em vez do empresário carrancudo.

Foi, porém, um sorriso efêmero: Sasuke logo se recompôs e ajeitou a gravata escura.

— Chiyo- disse, voltando-se para a governanta -, muito obrigado por cuidar de Konan para mim, ouviu?

— Imagine, Sr. Uchiha, vai ser um prazer.

— Ah, e você poderia vir até o meu quarto por um minuto? Quero lhe mostrar a mancha que apareceu em uma das minhas camisas.

Preocupado, Sasuke olhou mais uma vez para a porta fechada, pois temia que a qualquer momento Sakura a abrisse e entrasse na suíte. Ele tentara explicar a situação a Chiyo, mas, ao final da explicação, ela parecia ter ficado mais confusa que antes.

— Quer dizer então que vocês não vão se casar?

— Não, Chiyo, não vamos. Isso tudo é imaginação da coitada da moça.

— Mesmo assim o senhor quer que eu a ajude a organizar o casamento.

— Sim, isso mesmo.

— Certo... - fez a governanta. Sasuke, porém, conhecia-a suficientemente bem e sabia que o que Chiyo de fato queria dizer era que ele estava agindo como um idiota.

— Olhe, Naruto vai chegar daqui a mais ou menos uma hora. Vai conversar com Sakura, descobrir por que ela ainda não se recuperou da amnésia e dessa fantasia toda que criou em sua mente. E aí você poderá perguntar a ele tudo o que quiser.

— Sim, senhor. É isso o que vou fazer.

— Muito obrigado, Chiyo - disse Sasuke, dando-lhe uma palmadinha no ombro. - Eu sabia que podia contar com você.

O olhar que ela lhe dirigiu deixou claro, mais do que mil palavras, quanto ele estava errado.