Sakura clicou no primeiro site matrimonial e passou um longo tempo sonhando acordada, imaginando-se dentro de um daqueles maravilhosos vestidos de noiva.
Depois, com um suspiro, começou a ler os textos, mas antes anotou o nome da página para voltar a ela mais tarde. Levou mais de quarenta minutos para ler todos os textos, tomando notas em um bloquinho à medida que o fazia. As flores, a decoração da igreja, o oficiante, a festa... Tanta coisa para resolver em tão pouco tempo!
Infelizmente o Algonquin, o primeiro hotel que escolhera, não tinha nenhuma vaga disponível. No Four Seasons, a mesma coisa. Então Sakura conseguiu contato com o Westminster Regent, um dos hotéis mais sofisticados de Manhattan, e finalmente, mesmo assim apenas depois de citar o nome de Sasuke, conseguiu fazer uma reserva. Pagou pelo próprio sistema on-line, usando o cartão de crédito dele. Um cartão cujo limite, pelo que tudo indicava, parecia realmente estratosférico.
Marcou também uma reunião, para o sábado seguinte, com o gerente do bufê, mas queria já estar com todos os detalhes planejados antes dessa data.
Depois de clicar no Yahoo!, Sakura descobriu outro site matrimonial, um que oferecia uma lista de itens e um cronograma. Continuando a ler, ela ajeitou o travesseiro em que estava recostada, confortavelmente instalada na cama de Sasuke, com o laptop apoiado na bandeja de café da manhã.
Sakura estava adorando usar a cama de Sasuke para navegar pela Internet. O cheiro dele impregnava o travesseiro, os lençóis, e lhe despertava o incontrolável desejo de fazer amor com o homem que ela amava. Naturalmente, respeitava a vontade que ele manifestara de esperar até a noite de núpcias, mas respeitar não significava conformar-se. Haveria de fazer tudo o que estivesse a seu alcance para induzi-lo a mudar de idéia.
Bem, o melhor era parar de pensar nisso e voltar a se concentrar na leitura. Dali a cinco minutos, porém, sua concentração foi quebrada pelo toque da campainha lá na sala. Sabia que Chiyo se encarregaria de abrir a porta, mas ficou curiosa para ver quem era, assim, pôs de lado a bandeja com o laptop e saiu para o corredor.
Ao vê-la entrar na sala, Chiyo saudou-a com um movimento de cabeça e retornou para a cozinha. Assim, Sakura pôde voltar sua atenção para o recém-chegado.
— Naruto! - exclamou ela, estendendo os braços para o jovem psiquiatra que vinha sorridente, em sua direção. Os dois se abraçaram e se beijaram no rosto.
— Então - perguntou ele - será que você tem um cafezinho para oferecer a um pobre psiquiatra cansado?
— Claro que sim - disse Sakura, pegando-o pela mão e conduzindo-o até a mesa de jantar. Naruto sentou-se na cadeira de Sasuke. - Como gosta do seu café? Puro ou...
— Já estou levando a bandeja, Konan - avisou Chiyo lá da cozinha. - Sente-se e faça companhia ao Dr. Naruto, que o cafezinho já vai indo.
Sakura aceitou a sugestão e, dali a alguns instantes, a governanta surgiu carregando uma bandeja com duas xícaras. Enquanto Chiyo servia Naruto, Sakura aproveitou para observá-lo com mais calma. Como era possível que um rapaz tão bonito, e médico ainda por cima, ainda não tivesse se casado? Naruto lhe despertava uma profunda simpatia, uma grande vontade de tomá-lo sob sua proteção... embora ele fosse considerado um dos jovens psiquiatras mais promissores do país.
— Obrigada, Chiyo - disse Sakura ao receber sua xícara.
— De nada - respondeu a governanta. - Olhe, Konan, vou aproveitar agora que você tem companhia, para ir ao supermercado fazer aquelas compras. Quer acrescentar mais alguma coisa à sua lista?
— Ah, sim. Se você puder trazer também uns biscoitos e um pouco de queijo, eu gostaria muito. Mas lembre-se: os enfeites vêm em primeiro lugar, está bem?
— Pode ficar sossegada - respondeu Chiyo. - Daqui a pouco estou de volta.
Sakura acenou-lhe um adeuzinho e voltou a se concentrar na conversa com Naruto.
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De pé junto à janela de sua sala, Sasuke contemplava a cidade lá embaixo. Adorava Manhattan, adorava aquele movimento todo, aquela multidão que andava pelas ruas para lá e para cá. Isso, porém, não o impedia de gostar também do lugar tranqüilo onde morava, nos Hamptons, afinal de contas, todo mundo precisava fugir do burburinho de vez em quando. Mas o frenético centro da cidade era onde ele se sentia mais à vontade.
Já era meio-dia, e ele ainda não conseguira fazer nada de útil. A única exceção fora informar ao chefe do departamento de Recursos Humanos que precisava de uma boa secretária até que sua assistente retornasse das férias.
A moça que naquele dia substituía a Sra. Robinson não era das piores, servira a Sasuke um café razoável, transmitira-lhe os recados telefônicos e cancelara seus compromissos para o restante da tarde.
Não lhe saía da cabeça, porém, o comentário que a secretária fizera quando ele entrara no escritório: que haviam todos ficado preocupados ao verificar que ele não chegara em seu horário habitual. Sasuke dera uma desculpa e a moça se retirara satisfeita, mas ele ficara imaginando que devia haver também alguém preocupado com o paradeiro de Sakura. Naruto ainda não conseguira entrar em contato com a família dela.
Sasuke já tinha verificado a secretária eletrônica da mesa dela: a única ligação fora do banco de sangue, querendo saber se naquele dia Sakura iria fazer sua habitual doação. Ele remexera nas gavetas, à procura de uma agenda pessoal com números de telefone, encontrara apenas um montículo de figurinhas recortadas de cartões de Natal, alguns pirulitos, pastas de trabalho e um molho de chaves. Uma daquelas chaves devia ser do apartamento dela.
Não era correto bisbilhotar a vida dos outros, mas, afinal, tratava-se de uma emergência relacionada a problemas de saúde... Se ele fosse à casa de Sakura, talvez encontrasse mensagens desesperadas na secretária eletrônica dela, mensagens dos parentes angustiados com o seu desaparecimento. Então poderia ligar para eles e tranqüilizá-los, dizendo-lhes que ela estava bem.
E se Sakura tivesse algum animal de estimação, um cachorrinho, um gato? E se o pobre bichinho estivesse lá preso no apartamento, morrendo de fome e de sede?
Esse pensamento fez com que Sasuke finalmente se decidisse e chamasse a secretária substituta pelo interfone.
— Sim, Sr. Uchiha?
— Quero avisar que vou sair por algumas horas, senhorita. Na verdade, acho que não volto mais ao escritório hoje.
— Sim, senhor.
— Por favor, anote os recados. Obrigado.
Sasuke desligou o interfone, pegou seu sobretudo e as chaves de Sakura e saiu com destino ao Harlem.
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Naruto fingia que escutava enquanto "Konan" falava sem parar sobre o casamento. O que mais lhe chamava a atenção era o jeito como ela falava, o brilho de seus olhos, sua expressão descontraída e autoconfiante... Quando era Sakura, ela costumava andar com os ombros ligeiramente caídos, como se não quisesse ser notada, falava baixinho, mantendo os olhos fitos no chão.
Já "Konan" era completamente diferente, era tudo o que Sakura poderia ser se tivesse coragem.
— Acho que Sasuke gostaria mais daquelas cores tradicionais - ela estava dizendo. - Mas eu prefiro verde-água e um tom bem clarinho de pêssego.
— E, também acho muito mais bonito - concordou Naruto. - Mas escute, você se importa se mudarmos um pouco de assunto? Quero saber como está se sentindo.
— Eu? Estou ótima, por quê?
— Esse galo aí na sua testa...
— Ah, só dói se eu apertar. Mas o que me preocupa é que não consigo lembrar como me machuquei desse jeito.
— Isso nada tem de anormal - garantiu Naruto. - Muitas vezes um trauma físico como esse provoca uma ligeira amnésia.
— Ah, sim, amnésia...
— E eu queria também lhe perguntar o seguinte: em sua opinião, o que levou Sasuke a colocar aquele anúncio na revista?
Sakura mudou imediatamente de expressão. Naruto estava pisando em terreno perigoso, e sabia disso, mas precisava determinar a gravidade da amnésia e descobrir se ela necessitava de cuidados mais especializados que os seus.
— É que... É que ele não sabia onde me encontrar - murmurou Sakura. - Eu estava no exterior - acrescentou, evitando olhar para o psiquiatra. A xícara de café que segurava parecia ter-se tornado, de repente, um objeto fascinante.
— Ah, sim... Você estava na Europa, não é mesmo?
— Sim, claro, na Europa. Sasuke não tinha como ligar para mim, pois não deixei nenhum número de telefone.
— É verdade - concordou Naruto. - Mas o que ainda não entendi é por que ele decidiu procurar por você justamente agora. Por que não fez isso um ano, dois anos atrás?
— Sasuke não estava pronto para se casar - explicou Sakura, ainda contemplando fixamente a interessantíssima borda dourada da xícara branca. Seu tom de voz se transformara: a vibrante musicalidade da voz de "Konan" dera lugar ao tom baixo e contido da de Sakura. - Mas, assim que chegou a hora - prosseguiu ela -, ele soube que o nosso destino era ficarmos juntos.
— E você? O que acha de tudo isso?
— Eu sempre soube que nós dois haveríamos de ficar juntos. Soube disso no momento em que vi Sasuke pela primeira vez.
— E o que a fez continuar apaixonada por ele todo esse tempo - insistiu o psiquiatra -, e mesmo a distância?
Os ombros tensos de Sakura relaxaram no ato. Se Naruto não estivesse enganado, aquela seria a pergunta mais fácil de responder, pois o amor que sentia por Sasuke era com certeza um assunto muito agradável para ela.
— Você deve saber tanto quanto eu, Naruto - disse Sakura por fim. - É o melhor amigo dele, não é?
— Mas não sou mulher. Não sou você.
Ela tomou um gole de café e deu um sorrisinho.
— Bem, para começar, Sasuke é muito corajoso, só que não sabe disso.
— Corajoso? Como assim?
— Ora, basta ver como ele assumiu os negócios, de peito aberto, sem pensar duas vezes. Acho que queria provar ao pai que era capaz.
— O que você sabe a respeito do pai dele, Konan?
— Bem, Sasuke não fala muito sobre isso. Só sei que o pai dele morreu jovem e que estava com...
— Ah, então você ouviu falar nessa história.
— Mais ou menos - disse Sakura. - Ouvi uns boatos, só isso.
— Foi uma época muito difícil para Sasuke, o pai era seu ídolo, seu modelo de vida. Ele não conseguia encarar o fato de que o pai não passava de um ser humano.
— É, eu sei como são essas coisas.
Naruto ficou indeciso. Normalmente, jamais lhe passaria pela cabeça tecer comentários sobre as circunstâncias que haviam cercado a morte de Fugaku Uchiha, mas algo lhe dizia que Sakura precisava ficar sabendo daquilo. E quando "algo lhe dizia" alguma coisa, Naruto costumava dar-lhe ouvidos: era justamente isso que fazia dele o excelente psiquiatra que era.
— O pai de Sasuke morreu em um quarto de hotel - disse por fim. - Não estava sozinho, e sua acompanhante não era a Sra. Uchiha.
— Ah, meu Deus...
— Foi um escândalo e tanto, que saiu em vários jornais. Sasuke ficou arrasado.
— E quem era a... moça? - Sakura quis saber.
— Uma jovem pintora. Muito bonita, muito talentosa, e não entendia nada de negócios.
— Entendo... E Mikoto, como ficou?
— Fazia muito tempo que a Sra. Uchiha sabia da amante do marido - respondeu Naruto. - É claro que aquilo não a agradava, porém tinha suas razões para aceitar a situação. Mas a morte do marido, ainda por cima na flor da idade, foi um golpe terrível para ela.
— Que coisa mais triste, coitada...
— E a situação ficou ainda pior- prosseguiu o Uzumaki, servindo-se de mais um pouco de café. - Descobriu-se que a empresa não era tão sólida quanto todo mundo pensava. Havia graves discrepâncias nos livros contábeis, e Sasuke teve muito trabalho para pôr as coisas em ordem. Elaborou um plano e seguiu-o à risca, em dois anos conseguiu pagar as dívidas que o pai tinha deixado. Depois prosseguiu no mesmo ritmo de trabalho e transformou as Indústrias Uchiha no império que elas são hoje.
— Mas não acho que foi muito boa essa história de "prosseguir no mesmo ritmo de trabalho" - observou Sakura.
— Por que não?
— Porque Sasuke não sabe mais se divertir. Não sabe que existem outros tipos de satisfação além do trabalho: a alegria, a paixão, as amizades, a aventura...
— E é aí que você entra, não é mesmo, Konan?
— Exatamente - confirmou com um sorriso.
— Pois quer saber de uma coisa? - disse Naruto, rindo também. - Concordo plenamente com você!
— Concorda mesmo?
— Com certeza - respondeu ele. E acrescentou, com um tom de ternura na voz: - Você é uma pessoa muito bondosa, Konan. Uma pessoa que faz coisas maravilhosas para os outros, sem esperar nada em troca.
— Mas eu espero algo de Sasuke em troca, Naruto. Espero o amor e a dedicação dele.
— E existem outras razões para que você o ame tanto?
— Ah, claro, um milhão de pequenas coisas. O fato dele gostar de ler. Sua compulsiva mania de separar as roupas no closet por ordem de tipo, cor, tecido... Sua preocupação de enviar pessoas especializadas para cuidar da mãe dele.
— Apesar disso tudo - observou Naruto -, e apesar de Sasuke ser meu melhor amigo e eu gostar muito dele, a verdade tem de ser dita: ele não é flor que se cheire. Você sabe disso, Sakura.
— Claro que eu sei. Sasuke é apenas um ser humano, e tem defeitos como qualquer outro mortal. Seu temperamento é difícil, ele perde a paciência por pouca coisa, concentra-se tanto no trabalho que mal repara nas pessoas que estão à sua volta...
— É mesmo?
— Sim, mas Sasuke não faz isso de propósito. Não tem a intenção de magoar ninguém.
Mas as pessoas se magoam mesmo assim, pensou Naruto, observando atentamente o comportamento de Sakura. Mas observou também que sua atitude havia se alterado de novo quando ela começara a falar de seu amor por Sasuke: a entusiasmada Konan tinha mais uma vez tomado o lugar da tímida Sakura. Aquele era um fenômeno fascinante, e o psiquiatra percebeu que, na realidade, as qualidades de Konan e as de Sakura coexistiam no interior da mesma pessoa. O difícil seria convencer Sakura disso.
Naruto esperava que, quando ela recuperasse a memória, se lembrasse de como se sentira forte, corajosa e segura de si. E ele estaria a seu lado para ajudá-la a perceber que não precisaria se esconder nunca mais.
Em sua opinião de profissional, o estado de saúde mental de Sakura nada tinha de preocupante. É claro que ela teria de passar por uma fase difícil quando se recuperasse da amnésia, mas era forte o bastante para sair ilesa do processo. E se tudo corresse como ele, Naruto, planejara, Sakura poderia contar com o apoio de Sasuke para tudo o que precisasse. E Sasuke? Nem sequer perceberia que, a cada vez que fosse bondoso e gentil com ela, estaria dando um passo a mais em direção à própria cura.
Sim, porque estavam ambos doentes. E cada um deles era a cura de que o outro precisava. Naruto enxergava esse fato com tanta clareza que chegou a ficar com pena de si mesmo, era aquilo que ele também queria. Queria uma mulher que fosse tão maravilhosa para ele quanto Sakura o era para Sasuke.
Sasuke era um sujeito de muita sorte.
