No sexto andar do prédio sem elevador, Sasuke girou a chave na fechadura da porta. Antes havia batido, para o caso de haver alguém lá dentro, mas a única resposta que obtivera havia sido da mulher que morava do outro lado do corredor, que entreabrira a porta e o olhara com uma expressão desconfiada. Quando ele tentara lhe fazer uma pergunta, a mulher batera a porta em sua cara.
Sasuke entrou em um cubículo, que dificilmente mereceria a denominação de apartamento, e mal pôde acreditar no que via. Os móveis amontoavam-se em um espaço por demais reduzido, mas o que de fato o deixou atônito foi a presença de uma banheira na cozinha. Ele jamais vira nada parecido com aquilo, jamais imaginara Sakura morando em um lugar como aquele.
Depois de examinar a minúscula área que englobava sala, cozinha e local de banho, Sasuke entrou no banheiro - que mais parecia um lavabo - e no quarto, onde não cabiam mais do que uma cama e uma cômoda.
E tudo isso sem falar no frio terrível que reinava em todo o apartamento.
Pelo visto, Sakura não tinha nenhum bichinho de estimação, mas na sala havia algo que emprestava um pouco de vida àquela triste moradia. Uma arvorezinha de Natal. Uma árvore esfolada, velha, capenga, feia que só ela, mas que havia sido decorada com todo o afeto e carinho. Dos galhinhos tortos pendiam laços de fita feitos a mão, sacolinhas de pano contendo pirulitos, guirlandas de pipocas e pequenos porta-retratos. Sasuke reconheceu duas pessoas nas fotografias: Ino, a irmã de Sakura que era modelo, e, para sua surpresa, a si próprio.
Era uma velha foto sua do New York Times, tirada em um evento social qualquer. Sakura a recortara do jornal e mandara plastificá-la, coisa que não poderia ter feito depois do acidente.
Sasuke voltou a atenção para as paredes. No alto de uma delas havia cerca de uma dúzia de ganchinhos, cada um servindo de suporte para um chapéu diferente, de crochê, de palha e de vaqueiro, além de alguns bonés e boinas, todos pendurados de forma simétrica e artística.
A parede oposta, então, era algo digno de ver. No centro havia uma espécie de moldura, pintada diretamente na parede com tinta preta, e dentro do amplo quadrado se via uma colagem de figuras e fotografias recortadas. Sasuke se aproximou para ver melhor e observou fotos de pessoas que deviam ser da família de Sakura, diversos recortes da figura de um cão Labrador magricela... O edifício da Chrysler ocupava um espaço considerável, o mesmo ocorrendo com fotografias do Central Park.
E lá estavam novamente as fotografias dele. Obtidas em revistas, em jornais... Sakura recortara todas as fotos de Sasuke já veiculadas pela imprensa, algumas delas de anos antes. Mas por quê, meu Deus? Para quê?
Aquilo parecia uma paixonite de adolescente... Mas como, se até o dia anterior ele mal falara com ela, mal reparara em sua existência?
Sasuke sentia-se terrivelmente confuso, mas não podia ficar o dia todo de pé diante daquela parede. Precisava encontrar a agenda de telefones de Sakura, dar os telefonemas necessários e depois ligar para Naruto.
Voltou para o quarto e abriu uma a uma as gavetas da pequena cômoda. Nada havia ali a não ser roupas. Ao abrir a gaveta das calcinhas minúsculas e coloridas de Sakura, Sasuke se apressou a fechá-la de novo, os pensamentos e sensações que o assaltaram não condiziam com a seriedade da situação.
Foi então que ele se deu conta de que não viera até ali simplesmente atrás de uma agenda de telefones. O que de fato desejava era saber mais a respeito de Sakura, entender por que ela se voltara para ele assim que tivera seu estado mental alterado. Sakura não era seu tipo, não era de forma alguma uma mulher para quem ele teria olhado duas vezes, mas o estado em que o deixava quando se aproximava dele...
Voltando-se para a cama, Sasuke notou uma caderneta de capa dura semi-escondida debaixo do travesseiro. Apanhou-a rapidamente, mas não era uma agenda de telefones, era um diário, desses em que as adolescentes costumavam registrar os acontecimentos do dia-a-dia.
O que estava escrito naquelas páginas não era de sua conta, e Sasuke não haveria de lê-las. Entretanto, naquele apartamento não havia agenda alguma, nem laptop... E na secretária eletrônica não fora deixada nenhuma mensagem.
O que fazer, senão abrir o diário de Sakura? Tinha de haver números de telefone anotados ali, a não ser que ela guardasse tudo na cabeça. Ou, pior ainda, na bolsa, a qual ninguém sabia que fim levara.
Sasuke sentou-se na cama e examinou as últimas páginas da caderneta, mas elas estavam em branco. Abriu então a capa da frente, e na folha de rosto finalmente encontrou uma lista de números de telefone: mamãe, Hinata, Ino, Temari, tia Tsunade, vovó, escritório. A primeira ligação seria, naturalmente, para a mãe dela.
O telefone ficava na sala, que parecia ainda mais gelada que o quarto. Sasuke sentou-se em uma cadeira de espaldar reto, pegou o aparelho e digitou os primeiros três algarismos, e então desligou.
O que deveria dizer aos familiares de Sakura? Seria conveniente falar da amnésia? Sim, claro que sim, sobretudo para a mãe dela.
Sasuke finalmente digitou o número inteiro e, após alguns instantes, uma mulher com sotaque espanhol atendeu.
— Posso falar com a Sra. Haruno? - pediu ele.
— La senhora no está acá.
— E quando poderei falar com ela?
— Va a demorar mucho. Ela está en Europa con el senhor y la hija, quer dizer, la filha.
— Muito obrigado, até logo. - Sasuke desligou, imaginando que a tal hija devia ser Temari, ele se lembrava de ter lido no jornal que a pianista se achava em turnê. Depois ligou para o número de Hinata, mas ela também não estava em casa, viajara para a Califórnia. A próxima da lista era Ino, a mulher seminua do outdoor.
— Alô? - atendeu ela, com a voz pastosa de quem acabava de despertar.
— Eu gostaria de falar com Ino Haruno, por favor.
— É ela. Quem está falando?
— Meu nome é Sasuke Uchiha.
— Espere um pouco - disse a moça, e Sasuke ouviu um baque surdo, ela devia ter deixado cair o aparelho. Depois ouviu o ruído de um fósforo sendo riscado, uma tossida, e de novo a voz de Ino: - Foi Sakura quem lhe deu o meu número?
— Bem, eu... Sim, de certa forma foi. E é por causa dela que estou ligando.
— Sei. Ela deve ter-lhe falado da inauguração do meu novo restaurante. E então, você vai?
— Não, Sakura não me falou nada. Mas escute, eu...
— Ela disse que você iria viajar - interrompeu-o Ino.
— Viajar, eu? Quando?
— Esta semana.
— Ah, sei... Mas, seja como for, estou ligando porque Sakura sofreu um aci...
— Droga, tem alguém ligando na outra linha! Você pode aguardar um segundo?
— Sim, claro - respondeu Sasuke, prestes a perder a paciência.
Ino foi atender à outra chamada e ele ficou esperando. Mas será que deveria ficar ali aguardando como um bobo até que ela se dignasse a retornar? Era mais do que evidente que a famosa topmodel não estava muito interessada em saber de Sakura, na verdade, não estava nem um pouco interessada.
Sasuke passou o telefone para a outra mão e consultou o relógio de pulso, já fazia quase cinco minutos que Ino fora atender à outra chamada. Ele lhe daria mais vinte segundos.
Trinta segundos depois, Sasuke desligou, fizera o que estava a seu alcance. Era óbvio, porém, que Sakura estava em muito melhores mãos ficando com ele do que estaria com a irmã. Pobre garota!
O olhar dele se dirigiu de novo para o diário em suas mãos. Folheou-o como quem não quer nada, mas, em meio à caligrafia inclinada e extravagante que recobria a primeira página, um nome saltou a seus olhos. O seu.
Sasuke começou a ler e perdeu a noção do tempo.
…
O porteiro chamou pelo interfone bem no momento em que Sakura terminava de colocar um fio de lampadazinhas coloridas em volta do batente da porta da cozinha.
— É a árvore de Natal que está chegando! - exclamou Chiyo, os olhos brilhando como os de uma criança. Depois desligou o interfone e, com um amplo sorriso, acrescentou: - Puxa... Faz quatro anos que trabalho aqui e nunca vi uma árvore de Natal neste apartamento. O Sr. Uchiha jamais deu importância a enfeites de Natal.
— Chiyo... será que ele vai ficar bravo comigo?
— E se ficar, o que é que tem? Afinal de contas, é Natal!
— Isso mesmo, muito bem! - entusiasmou-se Sakura, avaliando com o olhar o espaço que as duas haviam reservado para a árvore. Ficava perto da janela maior, logo atrás do sofá.
Os entregadores bateram à porta e ela foi correndo abrir, ansiosa para ver a árvore. Tudo o que viu, porém, foi um pacote volumoso e comprido. - Podem colocar ali, por favor - pediu aos homens, apontando para o local escolhido.
Sakura e Chiyo seguiram de perto os três entregadores e ficaram observando o trabalho deles. Com a eficiência proporcionada pela prática, eles trabalharam rapidamente, dali a quinze minutos a base já fora montada sobre um forro de lona, e a árvore, fixada e colocada a prumo. Faltava apenas cortar a cordinha que prendia os galhos.
Sakura estava a ponto de sair dançando pela sala, de tanta alegria. Ah, Sasuke iria adorar aquela árvore!
— Afastem-se um pouco, por favor - pediu o mais alto dos três
sujeitos, empunhando um enorme alicate de corte.
A cordinha se rompeu como se fosse de manteiga e, finalmente livres do aperto, os galhos da árvore... mal se moveram.
Sakura só faltou desmaiar, tal sua decepção. Que diabo de árvore de Natal magricela era aquela?
Quando pensou em reclamar com os entregadores, viu que eles já se encontravam de saída e que Chiyo estava lhes dando uma gorjeta. Então, receosa de parecer mal-agradecida, disse à governanta:
— Muito bonita a nossa árvore, Chiyo, você fez uma ótima escolha.
— Não tente me enganar, sua espertinha. Pensa que não estou vendo essa sua carinha de desapontamento? Mas não se preocupe, os galhos estão assim porque ficaram muito tempo amarrados. Daqui a mais ou menos uma hora já estarão abertos.
— Ah, que alívio! - exclamou Sakura, batendo palmas como uma garotinha. - Pena que não tenhamos enfeites suficientes.
— Não tem problema, ainda faltam alguns dias para o Natal.
— Você tem razão, Sasuke e eu teremos tempo de comprar o que falta.
— Sabe, Konan, eu estive pensando... - disse Chiyo, e Sakura tratou de prestar atenção. Percebera que, toda vez que a governanta usava essa expressão, era porque tinha algo de importante a dizer. Que idade teria Chiyo? Cinqüenta, sessenta? Era uma mulher esguia, mediana, com braços magros mas que suportavam um bocado de trabalho pesado, e com os pés firmes no chão. Era muito segura de si e sempre dizia o que pensava, o que fazia com que Sakura gostasse ainda mais dela. - Eu queria lhe pedir - prosseguiu a mulher - que, aconteça o que acontecer, você não saia nunca do lado do Sr. Uchiha, está bem?
— Como assim, Chiyo? O que está querendo dizer?
— Estou querendo dizer, minha filha, que você faz bem a ele. Que com você a seu lado, o Sr. Uchiha vai ser mais feliz.
— Mas foi ele quem mandou me chamar, Chiyo.
— Sei disso. Mas quero apenas que você faça o que lhe pedi, certo? - Chiyo olhou para o relógio de pulso e exclamou: - Nossa, veja só que horas são! Se não correr, vou perder o meu ônibus.
A governanta saiu em direção à cozinha e dali a pouco voltou já de casaco, galochas e luvas. Usava a bolsa a tiracolo por cima do casaco, segurando-a firmemente de encontro à parte frontal do corpo. Um trombadinha teria muita dificuldade para assaltá-la na rua.
Sentindo de repente uma aguda pontada na cabeça, Sakura fechou os olhos. De onde lhe viera aquele galo na testa? Teria sido assaltada? Teria se descuidado de sua bolsa e...
Não, ela não tinha bolsa nem dinheiro nem identificação alguma. Tudo o que comprara no dia anterior havia sido com o dinheiro de Sasuke, não com o seu.
— Ai, meu Deus... - Sentindo-se dominada por uma intensa vertigem, Sakura teve de se agarrar com força no encosto do sofá.
— O que foi, lindinha? O que está sentindo?
— Não foi nada, não... Acho que me entusiasmei demais com a decoração de Natal, só isso.
— Não, você não parece bem - contrapôs Chiyo, levando a mão à alça da bolsa para tirá-la do ombro. - Posso muito bem tomar o ônibus do próximo horário.
— Não, Chiyo, imagine, nem pensar. Vá pegar o seu ônibus e não se preocupe comigo, já lhe dei muito trabalho por hoje.
— Mas, lindinha, você está pálida! Como posso deixá-la sozinha nesse estado?
— Já passou, Chiyo, pode acreditar. Foi uma tontura de nada, e já passou. - Para provar o que dizia, Sakura largou do encosto do sofá e se aproximou da governanta.
— Então está bem. Mas é melhor você comer alguma coisa.
— Vou comer, pode ficar sossegada - garantiu Sakura, acompanhando a outra até a porta. - Agora vá direitinho para casa, sua família a está esperando.
— Está bem, Konan, até amanhã.
Sakura tinha muito o que fazer antes do retorno de Sasuke, e a primeira providência teria de ser a de tomar um banho. Depois de toda a decoração que fizera naquela tarde, ela se sentia suada e suja de poeira.
Antes de sair da sala, porém, observou pela milésima vez a ár-vore de Natal. Chiyo tinha razão: os galhos estavam se abrindo cada vez mais.
Satisfeita, dirigiu-se para a suíte de Sasuke. Fora ali que passara mais tempo ocupada em pendurar enfeites e fios de lâmpadas. Havia enfeitado tudo o que pudera alcançar e, quando apagava a lâmpada do quarto e acendia as pequenas luzes faiscantes, o ambiente se enchia de vida, cor e movimento.
Enquanto trabalhava na decoração, Sakura se perguntara qual seria a sensação de fazer amor em um quarto como aquele. Talvez não demorasse a descobrir, bastava persuadir Sasuke a deixar de lado aquela história de esperar pela noite de núpcias.
Ao abrir a porta do closet, ela contemplou a pilha de cabides novos que Chiyo trouxera do supermercado. Devia ter primeiro arrumado as roupas e depois se ocupado com os enfeites de Natal, mas...
Sakura escolheu um vestidinho preto para aquela noite, depois fechou a porta do closet e foi até o quarto de hóspedes apenas para apanhar roupas íntimas. O que pretendia era tomar um banho de imersão na gigantesca banheira de hidromassagem de Sasuke.
Ao entrar pela primeira vez no maior banheiro que já vira na vida, Sakura ficou encantada com a beleza e a sofisticação do ambiente. O piso de mármore branco fazia um maravilhoso contraste com os tapetes de cores discretas. O vidro dos imensos espelhos ressaltava o granito negro do quilométrico lavatório. As enormes toalhas eram espessas, alvas... divinas. Não havia nada em cima dos balcões, nem mesmo pertences pessoais normais como escovas, barbeador ou secador de cabelos.
Tudo isso, porém, deixou de interessar a Sakura quando ela pousou o olhar naquela fantástica banheira. Ah, que maravilha seria Sasuke e ela ali dentro juntinhos...
Sakura abriu as torneiras, regulou a temperatura da água e se despiu. Não conseguiu, entretanto, esperar até que a banheira se enchesse, quando a água ainda nem chegara à metade, ela deslizou para o interior daquela que ainda lhe parecia uma pequena piscina.
À cabeceira da hidro havia um console repleto de botões e interruptores. Alguns deles controlavam os jatos de água, outro ligava a música, havia ainda um interfone e, quem diria?, um telefone.
A água já chegara ao nível ideal, e Sakura fechou as torneiras. Voltou-se então para o console: o que deveria ligar primeiro? Ah, sim, antes de mais nada, a música.
Música clássica bem suave fez-se ouvir pelos alto-falantes escondidos em algum lugar. Sakura então acionou o controle do primeiro jato, e a água da banheira se encheu de vida e movimento. Quando terminou de apertar interruptores e girar botões, ela havia sido transportada para um outro mundo. Todas as necessidades de seu corpo - à exceção de uma - estavam sendo atendidas, com uma massagem deliciosa que eliminava dores e tensões musculares que ela nem sabia ter.
Sakura então reparou em um apoio para a cabeça, de plástico inflável, semi-oculto por trás de um enorme frasco de óleo para banho. Apanhou-o, acomodou-o atrás da nuca e fechou os olhos.
Ah, que delícia... Se dependesse dela, não sairia dali nunca mais. O único detalhe capaz de tornar mais agradável aquele banho seria a companhia de Sasuke ali a seu lado.
Como pudera ter tanta sorte? Talvez tivesse feito alguma coisa maravilhosa em uma vida passada.
A esse pensamento, sua mente foi invadida pela imagem de uma árvore de Natal. Não aquela lá da sala, nova, grande, verde e linda, e sim uma coisinha velha, torta e desbeiçada. Um arremedo de árvore que serviria melhor como lenha para lareira do que como suporte daqueles patéticos enfeitinhos feitos a mão. A visão, muito nítida, deixou-a triste, e Sakura não sabia por quê. Tudo o que sabia é que ficara com pena da pobre dona daquela arvorezinha sem graça, enquanto ela, Konan, ganhara de presente o mais belo espécime da floresta.
Sakura sacudiu a cabeça para espantar a tristeza, aquele não era o momento de pensar em coisas desagradáveis.
A imagem que surgira em sua mente, porém, não desaparecera por completo. Um fragmento, uma pequena fotografia de superfície brilhante que pendia de um galhinho quase sem folhas, continuava a incomodá-la. Sakura tentou distinguir o rosto da foto, mas não obteve sucesso, e, finalmente, a água morna e borbulhante deixou-a em tal estado de sonolência que a imagem perturbadora acabou por se desvanecer no ar.
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Ai, gente! Bate uma peninha da Sakura, mas ao mesmo tempo ela é uma criatura maravilhosa que causa muitas risadas. As coisas entre o nosso casal só vão melhorar, ou não. Até a próxima, beijos!
