Foi Chiyo quem abriu a porta, exatamente como Naruto esperava. Ele queria conversar com ela em particular antes de enfrentar Sasuke e Sakura.

- E então, como vão as coisas? - perguntou, entregando-lhe o casaco e as luvas.

- Não faço a menor idéia - disse ela. - Aqueles dois ainda não deram sinal de vida. - E então, inclinando-se na direção dele e semi-ocultando a boca com a mão, acrescentou em voz baixa: - Mas saiba que no quarto de hóspedes ninguém dormiu.

- É mesmo?

- Pode acreditar. E mais uma coisa: eles nem jantaram direito. Tudo o que encontrei foi uma embalagem vazia de queijo em cima da pia, e os biscoitos desapareceram do armário.

- Muito interessante...

- Só não sei é como essa história vai acabar, Dr. Naruto. Ela é um amor de garota, e é exatamente de quem ele precisa. Mas a coitada não vai passar a vida inteira pensando que se chama Konan, não é mesmo?

- Não, não vai.

- Mas se lembrará desse tempo que ficou aqui conosco, certo?

- Acho que sim, Chiyo. Sakura acabará recuperando a memória, talvez aos poucos, talvez tudo de uma vez. De uma forma ou de outra, nós estaremos aqui para ajudá-la.

- Então está bem. Doutor, por que não pega um cafezinho enquanto eu vou tentar acordar o Sr. Uchiha?

Ele lhe deu um afetuoso tapinha no ombro e foi para a cozinha. Os enfeites de Natal fizeram-no sorrir. Nossa, a árvore era enorme! E ainda não fora enfeitada, sinal de que sua proprietária tivera algo de muito mais interessante para fazer na noite anterior.

Naruto serviu-se de café e voltou para a sala, pensando na pesquisa que fizera sobre amnésia. Estava convencido de que Sakura sairia ilesa daquele contratempo, pelo menos fisicamente. Nenhum dos artigos que ele lera citava qualquer seqüela preocupante. Já as conseqüências emocionais do acidente eram outra história e tinham mais a ver com Sasuke do que com Sakura.

Sasuke precisava dela muito mais do que podia imaginar. Sakura seria a única pessoa capaz de romper as correntes que o prendiam, por sua própria vontade, àquela vida cinzenta de trabalho e preocupações, sem alegria.

A melhor coisa que poderia acontecer seria Sakura ir se lembrando pouco a pouco de seu passado, tendo Sasuke a seu lado para suavizar o processo.

- Bom dia...

Naruto voltou-se ao som da voz dela. Sakura usava um quimono de seda azul, e tinha os cabelos desgrenhados.

- Você está com cara de quem está precisando de um café - observou ele.

- Estou mesmo - murmurou ela com os olhos semicerrados, saindo em direção à cozinha. Vendo que Sakura parecia ainda não ter acordado completamente, Naruto foi atrás dela.

Enquanto Sakura abria o armário para pegar a xícara, ele se encostou contra o balcão.

- Então, como está se sentindo?

- Cansada.

- E a cabeça, ainda dói? Ela levou a mão à testa.

- Só um pouquinho.

- Que bom.

Sakura foi até a cafeteira e se serviu, só depois ergueu os olhos para ele.

- Mas ando tendo umas tonturas - disse finalmente.

- Como assim, tonturas?

- Não sei, é uma coisa esquisita... Não estou doente, sinto-me muito bem. Só que às vezes fica tudo escuro à minha frente e tenho a impressão de estar caindo de um precipício.

- Tem idéia do motivo dessas tonturas?

- Deve ter sido a pancada na cabeça, não?

- É provável - respondeu Naruto.

Sakura foi para a sala, levando sua xícara consigo. Sentou-se em uma das cadeiras da mesa de jantar e o psiquiatra, que a seguira, sentou-se à sua frente.

- Ah, Naruto, minha vida mudou tanto... Nunca fui tão feliz. Mas, sabe... Está me acontecendo também uma outra coisa.

- O quê?

- Não sei se é porque passei tanto tempo longe daqui ou por outro motivo, mas tenho tido uns sonhos estranhos.

- Com quê?

- Ah, sei lá... Um apartamento, uma árvore de Natal...

- Você não os reconhece?

- Não - respondeu Sakura. - Mas é engraçado, vejo essas coisas de forma tão nítida e detalhada como estou vendo você aqui na minha frente agora. E, a cada vez que sonho, acordo assustada, sem saber onde estou. Na noite passada, por exemplo, acordei umas cinco vezes.

- Não acho que isso seja algo com que se preocupar - declarou Naruto. - Sejam o que forem esses sonhos, Konan, você está a salvo. Está segura com pessoas que gostam muito de você.

- É, estou mesmo me sentindo segura - confirmou ela com um sorriso. - Ah, Naruto, ele é... Ele é maravilhoso!

Naruto ouviu o som de passos arrastados e se voltou no momento em que Sasuke, de chinelos e roupão e com os cabelos tão desgrenhados quanto os de Sakura, entrava na sala.

- Pelo jeito - disse o psiquiatra com um sorriso -, ele agora não está se sentindo tão maravilhoso assim.

O rosto de Sakura se iluminou ao ver Sasuke, e ali, diante dos olhos observadores do jovem psiquiatra, a mesma transformação ocorreu na expressão de Sasuke ao vê-la. Desaparecera a eterna expressão fechada que lhe proporcionava uma aparência envelhecida, e o sorriso que brincava em seus lábios era agora o de um garoto.

Sasuke foi se servir de café e se reuniu a eles novamente na sala. Antes de se sentar, porém, passou por trás da cadeira de Sakura, fez com que ela inclinasse a cabeça para trás e beijou-a na boca.

- Puxa - exclamou Sasuke ao se sentar -, não acredito que estou atrasado de novo! Duas vezes em dois dias seguidos, é uma falha indesculpável.

- Como atrasado? - surpreendeu-se Sakura. - Você não está pretendendo ir trabalhar hoje, está?

- Ora, e por que não estaria?

- Sasuke, o nosso casamento é daqui a alguns dias, temos um milhão de coisas para fazer!

- Ah, não, nós não... - Sasuke calou-se e olhou para Naruto. - Quer dizer, nós não precisamos de uma cerimônia complicada, com essa história de igreja e tudo o mais. Na minha opinião, devemos nos casar só no civil e pronto.

- Está falando sério?

- Estou. Prefiro passar o tempo com você depois da cerimônia, sem festa, sem aquela gente toda. Você e eu, só nós dois.

- Ah, meu amor, que idéia romântica! - exclamou ela com um largo sorriso. - Vamos fazer isso!

- Bem, então hoje você fica em casa terminando a decoração de Natal, está bem?

- Ah, não - protestou Sakura com um muxoxo. - Não quero ficar em casa o dia inteiro. Quero sair, quero ir almoçar com você.

Ele mais uma vez olhou disfarçadamente para Naruto, que, também disfarçadamente, fez que sim com a cabeça.

- E onde a madame gostaria de ir almoçar? - perguntou Sasuke, esboçando uma reverência em direção a Sakura.

- Ah, não sei... Ouvi falar de um restaurante novo, inaugurado por três topmodels que...

- Não! - exclamaram ao mesmo tempo Sasuke e Naruto.

- Minha nossa! Por que não?

- A comida não é muito boa - disse Sasuke.

- E os preços são muito altos - completou Naruto.

- Ah, eu não sabia. E que tal o...

- Já sei! - interrompeu-a Naruto. - Acho que vocês devem ir almoçar no Charlemagne, é um restaurante maravilhoso.

- Ótimo - concordou Sakura, batendo palmas. - E depois podemos ir comprar os enfeites da árvore.

— Ah, mas eu não posso... - ia dizendo Sasuke, mas Naruto deu-lhe um pontapé na canela por baixo da mesa. - Ai!

- O que foi? - perguntou Sakura, assustada, vendo-lhe o rosto contraído de dor.

- Nada, ele queimou a língua com o café - respondeu Naruto, olhando de cara feia para o amigo. - Sasuke vai adorar ir fazer compras com você, Konan. Vocês dois vão passar uma tarde muito agradável na cidade.

Sasuke só faltou fuzilar o outro com o olhar, mas, quando se voltou para Sakura, transformou-se na própria imagem da gentileza.

- Sim, é claro. Eu vou adorar.

- Então se apresse, meu amor - disse ela, levantando-se -, e vá trabalhar. Quero almoçar cedo, assim teremos mais tempo para as compras.

- O que você chama de cedo? - perguntou ele com uma expressão desconfiada.

- Que tal dez e meia?

- Não, que absurdo!

- Onze?

- Nem pensar.

- Onze e meia, então.

- Impossível.

- Quinze para o meio-dia e não se fala mais nisso!

- Está bem, madame, às suas ordens: quinze para o meio-dia. Sakura recompensou-o com um beijo e Sasuke segurou-lhe o rosto com as duas mãos em um gesto de carinho.

Aquilo não era grande coisa, mas já era um bom começo, pensou Naruto com um suspiro. Seu plano haveria de dar certo, tinha que dar.

Sasuke desligou o celular e olhou para Naruto, pensando na informação que acabara de receber. Enquanto ele estivera brincando de casinha com Sakura, Bob Riverside se associara a um outro empresário para comprar a área que circundava o complexo industrial. E, ainda por cima, parecia que eles iriam conseguir uma alteração no zoneamento, deviam ter subornado algum funcionário corrupto da prefeitura. E, diante dessa nova situação, as Indústrias Uchiha poderiam ter um prejuízo de milhões de dólares.

- O que foi esse telefonema? - perguntou Naruto.

- Um contrato de negócios que foi para o espaço - murmurou Sasuke entre os dentes cerrados.

- Puxa, que pena... Mas tenho certeza de que você vai dar um jeito de resolver o problema.

- É tarde demais, Naruto - disse Sasuke, contemplando o movimento da rua pela janela do carro. - Agora não tem mais jeito.

- Como, não tem mais jeito? Não me diga que o mundo vai acabar só porque você passou dois dias sem ir ao escritório!

- Dois dias foram suficientes para a empresa perder um negócio da maior importância. E agora quem vai sofrer as conseqüências são os acionistas.

- Sei que não gosta de falar nesse assunto, mas por que diabo é você a única pessoa capaz de resolver esse tipo de problema na empresa?

- A empresa se chama Indústrias Uchiha, Naruto. Acho que isso responde à sua pergunta.

- Ora, Sasuke, não me venha com essa! Há pessoas competentíssimas trabalhando com você, só que você nunca delega responsabilidades a ninguém. E assim fica estressado porque não tem tempo para viver, e elas ficam frustradas porque você não as deixa mostrar do que são capazes.

- Ah, mas você não sabe...

- Não, Sasuke, isso não está certo. Ou é você quem resolve tudo, ou ninguém resolve nada, E se lhe acontecer alguma coisa, já pensou nisso? Vai ser igualzinho a quando seu pai morreu, só que você não tem um filho pronto a assumir a empresa em seu lugar.

Sasuke respeitava as opiniões do amigo e, no que dizia respeito à psiquiatria, confiava plenamente na sabedoria de Naruto. Mas quem entendia de negócios era ele, Sasuke, e apenas ele era capaz de entender a gravidade daquela situação.

- Tudo bem, vou pensar no assunto - disse, para encerrar a discussão. - Mas, nesse meio tempo, não posso me dar ao luxo de continuar com essa brincadeira com Sakura.

- Brincadeira? Como, brincadeira?

- Olhe, Naruto, tentei ser gentil e ajudar a moça, mas tenho meus limites. Você me garantiu que a essa altura ela já teria recuperado a memória. Por que isso ainda não aconteceu?

- Porque estamos lidando com um ser humano, Sasuke. E, quando se trata da mente humana, as coisas nem sempre correm como se espera.

Sim, Sakura era um ser humano, pensou Sasuke, um ser humano cheio de qualidades. Mas quando aquela história toda chegasse ao fim, ela voltaria para a sua vida normal, e ele também. A moça já virara o mundo dele de cabeça para baixo: continuar com aquela brincadeira de faz-de-conta poderia levá-lo a um desastre.

- Escute, Naruto, preciso que você converse com Sakura. Vá se encontrar com ela no restaurante, em meu lugar. Tenho certeza de que se você explicar o que...

- Posso saber de que diabo você está falando?

- Estou dizendo que sinto muito, mas acabou. Sakura é uma ótima garota, mas eu não posso permitir que ela continue a atrapalhar meus negócios dessa maneira.

- Ah, não pode?! - exclamou Naruto, furioso. - E o que você pensa que a moça é, um cachorrinho que a gente não quer mais e joga fora?

- Por Deus, Naruto, não estou dizendo que vamos abandoná-la a coitada na esquina da Broadway com a Quinta Avenida. Acho apenas que devemos ajudá-la a voltar para a sua antiga vida.

- É isso o que você quer, não é mesmo? Que tudo volte a ser como era antes?

- É claro.

- Então, Sasuke Uchiha, você não passa de um pobre-coitado.

- Ah, muito obrigado.

- Estou falando sério, está ouvindo? Gosto de você como se fosse meu irmão, mas se você fizer uma coisa dessas, Sasuke, juro que...

- Que não vai gostar mais de mim?

- Pare com isso, Sasuke! Pensa por acaso que é melhor que os outros, que não precisa de afeto como todo mundo?

- Naruto, é melhor pararmos com essa discussão antes que...

- Sasuke, escute o que estou lhe dizendo: você precisa de Sakura muito mais do que ela de você.

- O que foi, você enlouqueceu? Por acaso sou eu quem está sofrendo de amnésia?

- Ah, não? Então por que é que não consegue se lembrar do que significa viver a vida para valer? Por que é que não se lembra do homem que você já foi, um homem que eu admirava e respeitava?

Sasuke deixou escapar um longo suspiro.

- Deixe dessa conversa, Naruto, e vamos ao que interessa - retorquiu por fim. - Quando permiti que você me convencesse a participar dessa encenação, não concordei nem por um instante a continuar indefinidamente com ela. E chegou a hora de acabar com a brincadeira.

- Então vá você mesmo dizer isso a Sakura, não conte comigo para isso.

- Mas eu já não lhe disse que não posso sair do escritório hoje? Que tenho problemas urgentíssimos a resolver?

Naruto bateu no vidro que os separava do motorista no banco dianteiro do automóvel.

- Pois não, senhor - respondeu o rapaz pelo interfone.

- Pare o carro, Ben, por favor. Eu vou descer aqui mesmo.

- Naruto, você não pode fazer isso comigo - protestou Sasuke. - O destino da empresa depende da minha presença lá hoje o dia todo.

Naruto fitou-o diretamente nos olhos, depois desceu do carro e bateu a porta com toda a força.

Quando Ben reconduziu o veículo para o fluxo do tráfego, o primeiro pensamento de Sasuke foi o de ligar para Sakura e desmarcar o encontro para almoçar. Mas então se lembrou de tê-la observado enquanto ela dormia toda enrodilhada como um gatinho, com unia expressão de felicidade no rostinho de anjo...

Ah, por que diabo dormira com ela? Sabia que não deveria fazer isso, mas acabara não resistindo. Sua fraqueza terminara por lhe complicar terrivelmente a vida e ele não tinha ninguém a quem culpar senão a si mesmo.

Por que fora se envolver com aquela moça? E, o que era pior, como iria conseguir esquecê-la?

Ah, que delícia estar ao ar livre! Caminhar pela Park Avenue sob o sol suave de inverno, sentindo aquele ventinho frio no rosto... O Natal estava por toda parte, nas ruas enfeitadas, nas vitrines das lojas, no sorriso das crianças. Só que Sakura já havia recebido seu presente, o presente mais lindo que alguém já ganhara no mundo.

Ela estava apaixonada, e era correspondida. E eles iriam se casar, só no civil, sem festa nem multidões, depois embarcariam em um tapete mágico e voariam para a mais espetacular lua-de-mel da história da humanidade.

Um sujeito apressado chocou o ombro contra o de Sakura e então a fitou de cara fechada, como se a culpa tivesse sido dela. Mas Sakura se limitou a sorrir, nada neste mundo seria capaz de lhe tirar o bom humor. Ah, como a vida era boa...

Ao chegar à esquina, Sakura esperou juntamente com os outros pedestres que o semáforo abrisse. Enquanto esperava, começou a se lembrar de como Sasuke havia sido maravilhoso com ela na noite passada... E mais duas vezes naquela manhã. Aquele Sasuke... Quem diria? O jeito como a beijava, e o jeito como... Bem, era melhor deixar para pensar nisso mais tarde e prestar atenção por onde ia, senão acabaria sendo atropelada.

Sakura não via a hora de se encontrar com Sasuke e estava também ansiosa para lhe contar a novidade. Recebera um telefonema da mãe dele, aquela doçura de mulher, as duas haviam tido uma longa conversa, e Sakura descobrira muita coisa interessante a respeito do homem que ela amava. A Sra. Uchiha lhe falara sobre o senso de dever do filho, sobre seu esforço no trabalho, sobre as coisas que o deixavam feliz. Mikoto também sugerira que Sakura se encarregasse das providências para a lua-de-mel e que os dois fossem passá-la no Taiti, o lugar de que ele mais gostava no mundo.

Sakura atravessou a rua correndo. Mais dois quarteirões e chegaria ao restaurante, onde Sasuke estaria à sua espera. E então eles...

Tudo ficou escuro à sua frente e dessa vez a tontura veio mais forte do que nunca. Sakura conseguiu se apoiar no muro de um edifício, e só não caiu porque se segurou na grade.

Ela não havia ligado para a mãe. Era esse o problema que a perturbava. Sua mãe estava sentada ao lado do telefone, morrendo de preocupação, esperando por seu telefonema... Como pudera se esquecer de ligar para a própria mãe?

Sakura respirou fundo e sentiu que sua visão começava a clarear. O que haveria de errado com ela? Até quando teria de suportar aquelas vertigens e aquelas horríveis sensações de desmaio?

Voltou para a parte central da calçada, deixando-se levar pela multidão que caminhava na mesma direção. Começou a procurar um telefone público, e finalmente encontrou um a meio quarteirão do restaurante. Mas quando introduziu o cartão no aparelho e se preparou para digitar o número, percebeu que não sabia mais para quem desejava ligar. Por mais que se esforçasse, não lhe veio à mente nenhum nome, nenhum rosto.

...

...

...

...

A mão de encher o Sasuke de tapa chega a tremer!

Égua, Sasuke! Até em adaptação fica negando as aparências, disfarçando as evidências... Assim não dá!

E fico in love com o Naruto todo centrado e shipper SasuSaku!

Tadinha da Sakura, gente! Mas vamos seguindo o fluxo que tem mais coisa pra acontecer.