Sakura sorriu para o garçom quando ele veio encher mais uma vez seu copo com água. Já passava do meio-dia e Sasuke estava atrasado. Mas não havia motivo para se preocupar, em uma cidade como aquela, muita coisa poderia ter acontecido para atrasá-lo: um telefonema, um congestionamento de trânsito...
Se não tivesse sido por aquele ataque de tontura, ela nem teria dado importância ao atraso de Sasuke, mas dessa vez ficara seriamente abalada. Bem, fosse qual fosse o motivo das vertigens, ela não permitiria que aquilo lhe estragasse o bom humor.
Sentiu um arrepio ao se lembrar dos acontecimentos da noite anterior e pensar nos anos de felicidade que estavam por vir. Ao pensar em como Sasuke e ela haveriam de envelhecer juntos. E que aquele seria apenas o primeiro dos cinqüenta Natais que iriam comemorar um ao lado do outro...
Por falar nisso, como fora seu Natal do ano anterior?
Lembranças fugidias passaram pela mente de Sakura: um aroma aqui, uma imagem ali, mas nada de concreto. Nenhuma verdadeira recordação de nenhum dos Natais que já passara em sua vida.
Aquilo já estava começando a deixá-la apavorada. Ela devia ter tido um Natal. Devia tê-lo passado com pessoas de quem gostava. Ou talvez... Ah, sim, só podia ser isso: ela passara seus Natais longe de Sasuke e era por isso que não se lembrava deles.
E Sasuke, por que estava demorando tanto? Sakura olhou pela milésima vez para a porta do restaurante, mas as duas únicas pessoas que acabavam de entrar eram duas velhinhas muito parecidas, ambas com cabelos encaracolados e branquinhos. Pareciam irmãs...
Irmãs? Sakura se lembrava vagamente de ter lido alguma coisa ou assistido a um filme sobre três irmãs, uma mais bonita e talentosa do que a outra. Ah, que bobagem, preocupando-se porque não conseguia se lembrar com clareza. O que haveria de errado com ela naquele dia?
O som de uma risada vinda do outro lado do salão atraiu-lhe a atenção, era uma voz que Jane conhecia, que já ouvira diversas vezes antes. Ela se virou para observar as pessoas, mas não reconheceu ninguém. Também não se lembrava de nenhum dos detalhes do restaurante, mas naquela manhã dissera a Naruto que já havia estado ali.
Como podia não se lembrar de um lugar daqueles? Tratava-se de um dos restaurantes mais finos de Manhattan e, segundo Naruto, Sasuke almoçava ali pelo menos uma vez por semana.
Ah, talvez ela tivesse lido a respeito do Charlemagne em alguma revista, o melhor era parar de se preocupar com aquilo.
O garçom surgiu novamente diante dela.
- Quer fazer seu pedido agora, senhorita?
- O quê? Ah, sim... Acho que uma xícara de chá iria bem.
* Pois não. Com leite ou limão?
- Eu... Eu n-não sei.
O rapaz a fitou com um olhar compreensivo e lhe dirigiu um sorriso.
- Trarei os dois acompanhamentos e a senhorita escolhe, está bem? Volto daqui a um minuto.
- Muito obrigada.
Ele saiu em direção à cozinha e Sakura tentou se controlar para não entrar em pânico. O que havia de errado com ela? Por que não conseguia se lembrar sequer de como gostava de seu chá? E onde estava Sasuke, que não chegava nunca?
Foi então que o viu entrando no salão do restaurante. Seu alívio foi tamanho que ela deixou escapar uma exclamação em voz alta, sem se incomodar com os olhares de surpresa dos ocupantes das outras mesas. Ah, Sasuke finalmente chegara, não havia se esquecido dela...
Ele vinha passando por entre as mesas, aproximando-se cada vez mais. Sakura levantou-se, esforçando-se para resistir ao impulso de sair correndo e se atirar nos braços dele.
Ela estava ansiosa para vê-lo sorrir, para vê-lo dar aquele sorriso especial que lhe iluminava as feições. Quando Sasuke a viu, porém, não lhe dirigiu mais que um aceno de cabeça.
- O que foi, querido? - perguntou Sakura assim que ele chegou à mesa. - Algum problema?
- Problema? - repetiu Sasuke, beijando-a rapidamente no rosto.
- Sim, problema - insistiu ela, percebendo que Sasuke evitava fitá-la nos olhos.
Ele fingiu que não ouvira e se sentou, apanhando o cardápio. Depois, vendo que ela permanecia de pé, chamou-a:
- Konan?
- Humm?
- Sente-se, por favor.
Ela obedeceu, percebendo que as pessoas das outras mesas a observavam de novo. E então descobriu o motivo do comportamento retraído de Sasuke: ele não gostava de dar demonstrações de afeto em público. Aquela era uma característica da personalidade dele que ela já conhecia e que precisava respeitar.
Sasuke abriu o cardápio, examinou-o rapidamente e fechou-o, deixando-o de lado.
- Sasuke?
- O que foi?
- Você parece aborrecido.
- Pois é. Foi um problema que aconteceu na empresa.
- Não me diga! Alguém se machucou?
- Não, ninguém se machucou. Mas o valor das nossas ações na Bolsa foi parar lá embaixo.
- Puxa, que coisa...
- "Puxa, que coisa" - repetiu Sasuke, com um sorriso sardônico. - Acho que vou usar essa expressão como título do meu relatório aos acionistas... - Sakura se sentiu como se tivesse levado uma bofetada em pleno rosto, corando até a raiz dos cabelos. Sua intenção fora apenas a de oferecer uma palavra de apoio e simpatia e Sasuke lhe dera uma resposta cínica daquelas. - Ah, Konan, desculpe-me - pediu ele, arrependendo-se de sua grosseria. - Eu não queria dizer aquilo.
- Tudo bem, querido, não tem importância.
- É que hoje fui apanhado de surpresa - justificou-se Sasuke. - Não dei a devida atenção a um determinado negócio, e isso agora vai me custar um bocado de dor de cabeça. Não tive a intenção de descontar em você.
- Não se preocupe com isso, já passou. Tenho certeza de que você vai encontrar uma solução para o problema. Mas primeiro vamos comer, ninguém consegue raciocinar direito de barriga vazia.
Pronto, pensou Sakura, o brilho retornara aos olhos dele. E também o amor que Sasuke sentia por ela. Aqueles ataques de mau humor não deviam ser levados a sério, afinal de contas, até mesmo as pessoas apaixonadas tinham seus bons e maus momentos.
O garçom veio trazer o chá que Sakura pedira e perguntou a Sasuke o que ele gostaria de tomar.
- Um uísque, por favor. Puro.
O rapaz se afastou em direção ao bar e Sakura se serviu. E só depois dos primeiros goles de chá notou que o havia misturado com limão, e não com leite.
- Humm...
-O que foi? - perguntou Sasuke. - Por que esse sorriso?
- Nada, não. É o chá que está muito gostoso.
- Então, já escolheu o que quer comer?
Sakura fez que sim com a cabeça. Nesse momento o garçom voltou com o copo de uísque, ocupando-se em seguida em anotar os pedidos. Assim que ficou de novo a sós com Sasuke, ela apoiou a mão sobre a dele e perguntou:
- Gostaria de falar sobre o problema que aconteceu na empresa, querido?
- Não, não gostaria. Não quero estragar o nosso almoço.
- Podemos deixar para amanhã nossas compras de Natal - declarou Sakura. - Estou vendo que você precisa voltar para o escritório.
- Obrigado, Konan. Era exatamente isso que eu ia lhe pedir.
- Pois é, eu já tinha adivinhado.
- Que bom.
- Ah, sabe, conversei com sua mãe pelo telefone hoje de manhã.
- Sério?
- Ela ficou triste porque você não estava em casa, queria lhe contar que ganhou no bingo ontem à noite. Um prêmio de quase mil dólares!
- Que ótimo... E que mais ela disse?
- Ah, sua mãe me contou muita coisa sobre a sua infância, querido. Contou que aos cinco anos você adorava brincar de caubói, e vivia correndo pela casa em um cavalinho de cabo de vassoura.
- Ah, não... - fez Sasuke, levando a mão à cabeça. - Mamãe não podia ter lhe contado uma bobagem dessas!
- Por que não? - surpreendeu-se Sakura. - Achei tão engraçadinho... E a fiz prometer que, quando voltar do cruzeiro, vai me mostrar todas as fotografias de você bebê.
- Ah, meu Deus...
- O que vai acontecer, caso você não tenha se esquecido, depois de amanhã.
- O quê?
- Como o quê? Sua mãe volta do Caribe depois de amanhã, querido. Vai chegar ao Aeroporto La Guardiã às oito e não sei quanto, eu anotei tudo direitinho.
Sasuke fechou os olhos e os apertou com os dedos, aquela notícia fora realmente a gota d'água. Mas, antes que Sakura tivesse tempo de lhe perguntar o porquê daquela reação, a comida chegou: o filé malpassado com batatas cozidas que ele pedira e o peito de frango com alface, tomate e maionese pedido por Sakura.
Os dois começaram a comer, cada um distraído com os próprios pensamentos.
O súbito barulho de louça quebrada assustou Sakura e ela demorou alguns segundos para perceber que sua xícara de chá se estilhaçara em mil pedaços. Mas como, se ela não se lembrava de tê-la pegado após o início da refeição? Como também não se lembrava de nenhum dos outros Natais de sua vida...
Sasuke ficou mais assustado ainda ao observar o rosto dela. Sakura ficara pálida como cera e seus olhos estavam arregalados, parecia terrivelmente confusa e apavorada.
Ele se ajoelhou a seu lado e apanhou do chão um dos cacos de porcelana, mas se esqueceu completamente da xícara quebrada quando ela olhou nos olhos dele. Deus do céu, como aquela criatura era desprotegida e vulnerável!
- Calma, Konan, está tudo bem - murmurou Sasuke, tomando-lhe carinhosamente a mão.
- Mas...
- Não, não se preocupe. É por causa da pancada que você levou na cabeça. Parece que foi um pouco mais grave do que havíamos pensado.
* Tenho tido umas tonturas esquisitas a toda hora... E não consigo me lembrar de...
- Eu sei, eu sei. Mas tudo isso logo vai passar, pode acreditar em mim.
- Vai mesmo?
Sasuke levantou-se e depositou o caco de porcelana na mesa, depois inclinou-se e beijou Sakura delicadamente nos lábios.
- Vai, sim, eu juro - sussurrou por fim.
Quando Sasuke reassumiu seu assento, viu que ela estava visivelmente mais calma. Graças a Deus. Gostava dela, gostava muito, mas, com todos os seus compromissos de trabalho, não tinha disponibilidade para ajudá-la. Sakura precisava de alguém que lhe fizesse companhia, que lhe desse atenção, porém, infelizmente, esse alguém não era ele. Sasuke não tinha tempo de dar atenção nem à sua própria vida.
Isso não significava, contudo, que ele quisesse magoá-la. Não, de forma alguma, Sakura se transformara em uma pessoa especial em sua vida, e esse era um fato que Sasuke não podia negar. Mas ele não a amava, amor era uma coisa completamente diferente.
- Sasuke?
- Sim?
- Eu pretendia esperar para lhe contar, mas...
- O que foi?
Sakura se inclinou em sua direção.
- Já organizei tudo para a nossa lua-de-mel - murmurou, em tom de segredo.
- Nossa... lua-de-mel?
- Isso mesmo - confirmou ela com um largo sorriso. - Já providenciei tudo: passagens, reservas, tudo mesmo. Você não vai precisar levantar uma palha.
- Mas...
- Ela me pediu para não lhe dizer nada, só que eu não agüento guardar segredo. O lugar para onde vamos, que eu não vou lhe contar agora, foi idéia de sua mãe. Na verdade, o plano todo foi idéia dela. Sua mãe não é mesmo um amor?
- Ah, sim... - disse Sasuke por entre os dentes. - Mamãe é uma gracinha.
Mamãe e suas manipulações, pensou ele. Naruto e suas idéias geniais. Tudo corria bem em sua vida antes daquela maluquice toda e agora ele não sabia como se safar daquela enrascada.
Aquela altura ele já deveria estar de volta ao escritório. Já deveria ter comunicado a Sakura que estava tudo acabado, oferecido a ela um ombro para chorar e dado o fora dali.
Mas não podia lhe dizer nada, podia? Sakura ficaria com o coração em pedaços e isso Sasuke não seria capaz de suportar. Que belo empresário "frio e calculista"... Não era de admirar que Bob Riverside tivesse ido procurar outra pessoa.
Mas, pensando bem, o que eram apenas mais alguns dias? Que mal haveria em Sakura ficar mais algum tempo na casa dele, desde que se limitasse a enfeitar a árvore de Natal? E a tomar seus banhos na banheira de hidromassagem?
Ah, que droga, seu pensamento se desviara na direção errada. Sasuke ficou imediatamente excitado, como acontecia toda vez em que pensava nos acontecimentos da noite anterior e daquela manhã. Tivera de esperar até os trinta e um anos para descobrir que fazer amor podia ser uma coisa maravilhosa.
- Sasuke?
- Humm?
- Por que é que você está sorrindo?
- Ah, eu estava só me lembrando de hoje de manhã.
- Hoje de... Ah, entendi - disse Sakura com um sorrisinho maroto. - Da primeira vez ou da segunda?
- Das duas.
- Pois é - murmurou ela. - Eu também não consigo parar de pensar nisso. - Sasuke levou à boca um pedaço de filé e Sakura espetou com o garfo uma rodela de tomate. - Escute, você tem mesmo que voltar para o escritório? - perguntou de repente. - Esse problema que precisa resolver não pode esperar até amanhã?
- Não, não pode. Mas também não sei de que vai me servir voltar ao escritório, já que não tenho cabeça para trabalhar. O que foi que você fez comigo, sua diabinha?
- Eu? Nada, ora. Só coloquei um pouco de tempero na sua vidinha sem graça.
Embora na realidade não tivesse nenhum motivo para isso, Sasuke não resistiu e caiu na risada. Como podia rir, se tinha consciência de estar cavando para si mesmo um buraco cada vez mais fundo?
- Sasuke?
O som de uma voz feminina veio por trás dele. Sakura ergueu os olhos e sorriu. Charles ia se virar, mas a recém-chegada deu a volta pelo lado oposto da cadeira.
- Pois n... - O sorriso se congelou nos lábios dele. Ah, não, meu Deus, não! Ela não! Não agora!
- Como é que você vai, meu docinho de coco? - perguntou a mulher com voz afetada, inclinando-se para ele e beijando-o em cada lado de seu rosto. - Que sorte a minha encontrá-lo aqui!
- Quem sabe possamos conversar mais tarde, e...
- Conversar mais tarde? Como assim?! - exclamou ela agitando no ar um exemplar da revista Atitudes, com o maldito anúncio assinalado por um círculo feito com batom vermelho. - Você me fez voltar da Europa porque queria falar comigo e agora eu não quero esperar nem mais um segundo.
- É que... - Sasuke olhou para Sakura com uma expressão desesperada, tentando fazê-la entender que devia ir embora, que precisava fugir correndo dali. Era como se ela estivesse paralisada diante de um caminhão que se aproximava em alta velocidade, e ele não pudesse fazer nada para salvá-la.
- Então, querido? Não vai me apresentar à sua amiga?
Sasuke levantou-se, esforçando-se para pensar em uma saída para aquela situação.
- Olhe, por que não marcamos um almoço para amanhã...
A mulher, que ele não via há anos, voltou-se para Sakura e lhe estendeu pomposamente a mão de unhas perfeitamente manicuradas.
- Meu nome é Konan Baskin, queridinha. Qual é o seu?
A expressão do rosto apavorado de Sakura ficaria gravada a fogo na memória de Sasuke para o resto de sua vida. Ela se voltou para ele, os olhos cheios de lágrimas.
- Sasuke! - exclamou, com uma voz cujo tom já beirava a histeria.
- Calma, eu posso explicar tudo. É só você ficar calma.
- Mas eu não estou entendendo...
- Eu sei, eu sei, parece mesmo difícil de entender, mas eu lhe juro que vai ficar tudo bem.
Sakura fez que não com a cabeça e se levantou, depois se voltou para Konan, com o olhar de um animalzinho assustado.
- Se você me der licença... É que tenho outro compromisso.
Então apanhou sua bolsa e saiu em direção à porta do restaurante.
- Sakura, espere!
Ela parou e se voltou para Sasuke. E ali mesmo, de pé entre um grupo de quatro pessoas e uma mesa vazia, recuperou a memória. Ele viu nos olhos dela o que acontecera, e teve certeza ao observar que Sakura tremia da cabeça aos pés. Ela se lembrou de quem era e se lembrou de tudo o que fizera.
E com um grito estrangulado que despedaçou o coração de Sasuke, Sakura Haruno deu-lhe as costas e saiu correndo do restaurante.
...
...
...
Oh, gente! E agora? O.O
