Retratação: vide capítulo 1


Abraçados

Capítulo 3 – A CONVERSA!


Ao acordar no dia seguinte, Nigel estava sozinho. Naqueles segundos entre o sono e o despertar seu cérebro reviveu os acontecimentos da noite passada e a realidade fez com que arregalasse os olhos em desespero.

"Meu Deus!" pensou "Sydney vai me matar quando ela descobrir há quanto tempo isso vem acontecendo. Será que eu teria tempo suficiente para fazer minhas malas e fugir antes que ela volte e me dilacere membro por membro?" O último pensamento fora tão ridículo que o rapaz riu.

- É claro que ela não vai me matar – disse em voz alta – Ela mesma disse que estas coisas acontecem. Somos ambos adultos, tenho certeza de que lidaremos de maneira madura com isso.

Sentindo-se um pouco melhor, Nigel se levanta e vai para o banheiro, tomar um banho antes que Sydney voltasse. Não que se importasse em tomar banho com ela presente no quarto; a questão é que, não importando quantas vezes ele dissesse que não, ela sempre entrava no banheiro sem bater.

Ao sair, vinte minutos depois, encontrou Sydney sentada numa pequena mesa na sacada, lendo jornal. A mesa estava coberta de pacotes e copos de café. Ao ouvi-lo chegar, a mulher desvia o olhar do jornal e sorri.

- Bom dia, Nigel – ela o cumprimenta, e volta a ler seu jornal.

Nigel encarou por alguns segundos, totalmente confuso. Esperava que ela fosse diretamente para a discussão sobre a noite passada. "Bem", pensou o rapaz "Qualquer coisa que possa me manter vivo por mais alguns instantes é vantagem", completa, rindo mentalmente.

- O que temos para o café, pergunta ao sentar-se.

- Você escolhe – diz Sydney – temos frutas, baguetes com cream cheese e muffins – ela pegou um outro pacote sobre a mesa e entregou ao rapaz – comprei o seu jornal.

- Obrigado! – Nigel a agradece, surpreso com o bom humor e não entrando em detalhes. Começou a tomar seu café e nem se apercebeu de que uma hora se passara tranqüilamente, a única conversação acerca do clima e de notícias do jornal. Repentinamente, Nigel se pensa que muitos casais tinham cafés da manhã bem menos harmoniosos. A idéia de estar casado com Sydney o faz sorrir; eles eram extremos opostos!

- Qual a razão do sorriso? – pergunta a mulher.

- O que? – Nigel balança a cabeça para dissipar os pensamentos – nada, apenas pensando.

- Quer compartilhar com os amiguinhos? – pergunta bem humorada.

- Não acho necessário! – diz Nigel, voltando para seu jornal. Dez minutos depois, ao levantar os olhos do papel, encontrou o olhar de Sydney fixo nele – vamos ter aquela conversa agora? – pergunta a ela, que assente – alguma chance de eu escapar? – não deu pra resistir a brincadeira, Sydney apenas sorri em resposta.

- Não! – responde a mulher, observando Nigel dobrar seu jornal com um suspiro.

- Certo... mas posso começar? – pergunta o rapaz.

- À vontade – responde Sydney, e Nigel não consegue evitar mais um sorriso. Não parecia que ela estava nervosa, mas com Sydney, nunca se sabe.

- Em primeiro lugar – começa – peço desculpas. Não esperava que você descobrisse sobre isso. Saiba que eu jamais me aproveitaria de você, em nenhuma situação. Foi um acidente, não acontecerá novamente – completa.

- E por que não se aproveitaria de mim? – pergunta Sydney, de repente – será que eu não sou bonita o bastante? – Nigel apenas tentou gaguejar uma resposta, enquanto Sydney ria incontrolável.

- Céus! – ela diz entre risos – se você pudesse ver sua cara, Nigel! – ela respira fundo – relaxa! Estava apenas brincando. Eu sei que você jamais se aproveitaria de mim, mas o fato é que nós temos um problema.

- Eu sei – ele diz – mas a menos que eu peça demissão, não sei como poderíamos resolver.

- Você NÃO vai se demitir! – Sydney diz com veemência – se pensa que vou deixar meu melhor assistente escapar por causa de algo assim, está enganado.

- Então, o que faremos? – pergunta Nigel – vamos ignorar, esperando que passe? Somos adultos e capazes de lidar com isso.

Sydney fica em silêncio por alguns instante, enquanto Nigel olha para sua xícara de café. Esperava que aquilo não significasse o fim da melhor amizade que já tivera. Ela era sua melhor amiga, não sabia o que faria sem ela.

- Tive bastante tempo para pensar, hoje de manhã – diz Sydney, calmamente – e cheguei a uma conclusão – Nigel apenas a observava – não quero ignorar. Isto já vem ocorrendo há bastante tempo, e eu acho que está na hora de encararmos a possibilidade de haver algum bom motivo por trás disso tudo.

- Por exemplo? – pergunta o rapaz. Podia imaginar onde Sydney queria chegar, mas nada melhor do que ouvi-la dizer.

- Não sei – diz a morena, levantando-se de sua cadeira, dando alguns passos pela sacada e parando para olhar a paisagem lá embaixo, de costas para Nigel – Tudo o que sei é que eu gosto de acordar nos seus braços – então ela se volta e o encara – gosto do cheiro de seu sabonete na minha pele, depois que dormimos juntos, da sua respiração na minha nuca, quando me abraça, ou do som das batidas do seu coração em meus ouvidos quando me deito sobre seu peito. Mas há uma coisa que eu não suporto – prossegue depois de um suspiro – não suporto a sensação de vazio quando acordo e você está do outro lado da cama. É ainda pior do que saber que você está no quarto ao lado.

Nigel também se levanta e se coloca ao lado dela, recostada na amurada.

- O que quer dizer, Syd? – perguntou com voz baixa.

- Que nossos inconscientes talvez estejam tentando nos dizer alguma coisa – ela retoma – que talvez não devêssemos lutar contra isso, mas aproveitar a oportunidade e ver onde ai dar.

- Quer dizer – Nigel tenta – ir com calma? Ver se há algo além de amizade entre nós?

- Exatamente – concorda a mulher – você sabe... longas conversas, cinema, jantares, coisas assim.

- Em outras palavras: encontros? – Nigel vai direto ao ponto – só há um pequeno problema com isso, Syd. Eu não quero fazer nada disso – vendo os olhos de Sydney cheios de lágrimas, Nigel se chuta mentalmente por não te mais tato.

- Tudo bem, Nigel – ela diz, tentando desesperadamente não deixar as lágrimas rolar – eu entendo, somos apenas amigos – sentindo a primeira lágrima escorrer, ela se afasta dele.

- Ainda não terminei – ele, com gentileza se aproxima dela e a puxa para seus braços, roçando-lhe os lábios com os seus – como eu dizia, – ele dá um leve sorriso – eu não quero ir devagar. Tudo o que você enumerou, os jantares e o cinema, por exemplo, nós fazemos há quatro anos. Você sabe de coisas sobre mim que eu não diria a mais ninguém neste mundo.

- O que você quer, Nigel? – Sydney pergunta.

- Você! – ele diz – tudo o que você estiver disposta a compartilhar comigo. Mente, coração, corpo e alma. TUDO. Mas eu aceito ir devagar, se é assim que você deseja – ela apenas o encarou, sentindo as lágrimas escorrendo por seu rosto, para em seguida ser envolvida pelos braços firmes de Nigel, embalando-a enquanto chorava – nunca pensei que fosse viver para ver o dia em que a grande Sydney Fox choraria pr causa de um homem.

- Por você, Nigel – ela diz – você é o único que vale minhas lágrimas.

- Você sabe – ele diz, despreocupadamente – se você não estivesse com uma aparência tão terrível, eu te beijaria agora.

- Eu não estou com uma aparência terrível – ela protesta.

- Está sim – ele a provoca – seu nariz está escorrendo, olhos vermelhos e inchados... não está em sua melhor forma agora, Syd – ela ergue a mão para dar-lhe um soco no ombro, mas Nigel segura-lhe a mãe e leva aos lábios – Sydney, você não pretende levar isso MUITO devagar, não é? – pergunta.

A resposta da mulher foi pegá-lo pela frente da camisa e beija-lo.

- Então a gente não vai devagar – ele diz com um sorriso assim que ela o soltou para respirar. Sydney apenas o tomou pela mão e o levou para a cama.

- De jeito nenhum – ela disse, imitando-lhe o sotaque Inglês, jogando-o na cama e quase pulando sobre ele.

Qualquer outro detalhe ou conversa teria que esperar, decidiram.


Fim!