Capítulo I- IRA

Ela queria gritar, mas não conseguia. Era como se algo estivesse atravancando a sua garganta, calando sua voz. Depois do nome dele ter escapado de seus lábios, em um pedido de socorro desesperado, ela já não podia dizer mais nada. Nem sequer sabia porque chamara o nome dele, não tinha muita noção do que estava acontecendo ou de onde estava, mas chamar o nome Sawyer pareceu a ela um gesto natural, como se tivesse pressentido a zelosa presença dele ao seu lado durante o período em que estivera desacordada.

Michael continuava apertando o travesseiro com toda força sobre o rosto dela, impedindo-a de respirar. Lágrimas inundavam seu rosto enquanto executava tão degradante tarefa, mas repetia a si mesmo internamente que era preciso, que estava fazendo isso pela vida de seu filho Walt. Ana-Lucia começou a sentir o corpo ficando pesado, uma dor lancinante no peito devido à tentativa de puxar o ar para os pulmões.

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- Mas que droga!- bradou Sawyer, enfiando o pé em uma poça de lama a caminho da escotilha.

Estava colhendo frutas para Ana-Lucia quando sentiu uma vontade inexplicável de retornar para o abrigo, e sem conseguir conter essa vontade, saiu caminhando a passos rápidos querendo chegar o mais depressa possível. Todos estavam no funeral de Libby, com exceção de Michael. O que poderia estar errado? Por que aquela sensação de que deveria voltar para a escotilha imediatamente?

Por fim chegou, abrindo o despressurizador com certa urgência. Adentrou a sala do computador e correu até o quarto para checar Ana, quando seu coração deu pulos dentro do peito. Não podia acreditar no que estava vendo, Michael empurrava um travesseiro com força, diretamente para o rosto de Ana-Lucia, tentando asfixiá-la. O único sinal de que ainda estava viva eram seus dedos da mão esquerda que se movimentavam debilmente, num pedido de socorro silencioso.

- O que está fazendo, sun of a bitch?- esbravejou Sawyer com os olhos lacrimejantes, nervoso, antes de saltar sobre Michael e arrancá-lo de cima de Ana-Lucia.

Michael voou longe devido à força de Sawyer, aumentada por sua ira repentina. Sawyer retirou imediatamente o travesseiro do rosto dela e percebeu que sua face começava a adquirir uma tonalidade roxa. Abaixou-se sobre ela e num ato de desespero pôs-se a fazer respiração boca a boca, tentando trazê-la de volta a si.

Depois de algumas tentativas, a cor do rosto dela foi voltando e instintivamente ela puxou o ar com toda a força que ainda restava em seus pulmões através da boca. Sawyer sorriu erguendo o rosto dela, e indagou:

- Você está bem?

- Eu acho que sim...- ela respondeu com esforço, sua voz soando baixa, quase um murmúrio. – O que aconteceu?

O peito dela subia e descia devido à tensão dos momentos anteriores. Ao ouvir a pergunta dela, Sawyer lembrou-se de Michael e voltou seus olhos para trás. Ele não estava mais lá.

- Cadê aquele bastardo?

- Eu não estou entendendo nada. O que está acontecendo? Onde é que eu estou?- disse Ana-Lucia, ainda forçando a voz tentando sentar-se na cama.

Foi quando sentiu uma dor aguda no ventre. Levou suas mãos até o local, e seus dedos ficaram encharcados de sangue. Seus olhos alargaram-se com horror e ela começou a tremer.

- Mas o que é isso?

- Você não se lembra, Lucy?- perguntou Sawyer, preocupado com o sangramento do ferimento dela.

- Não, eu não lembro de nada. Só sei que eu estava voltando para a escotilha, me ofereci para ficar com o Michael...- ela tentava recordar, mas só conseguia lembrar cenas desconexas.

- Você levou um tiro.- explicou Sawyer pousando suas mãos no ferimento dela, tentando aplacar o sangramento.

- Mas como? Quem atirou em mim?- ela questionou com fúria.

- Eu não sei Ana, só sei que chegamos aqui na escotilha e encontramos você e a Libby desacordadas, ambas tinham levado um tiro.

- A Libby também?- assustou-se Ana-Lucia. – E como ela está? Para onde a levaram?

Sawyer olhou com pesar, bem fundo em seus olhos escuros e disse:

- Sinto muito, Libby não conseguiu.

O tremor que transpassava o corpo de Ana-Lucia começou a aumentar diante de tal revelação.

- O quê? Não!- ela soluçava, chocada. Estava muito vulnerável naquele momento. – E por que eu estava me sentindo sufocada? Onde estão todos? Que diabos está acontecendo aqui? Eu não entendo, não lembro de nada, Sawyer!

Ela rangia os dentes, se debatendo na cama, sentindo muito ódio dentro de si. Sawyer também não estava entendendo nada, ainda estava abalado depois de ter visto Michael tentando asfixiá-la. Muitas coisas começaram a passar por sua cabeça, se perguntava se Michael não tinha alguma coisa a ver com a fuga de Henry Gale, o assassinato de Libby e a tentativa de homicídio de Ana-Lucia. Com certeza havia lacunas que ainda não tinham sido preenchidas nessa história, caso contrário por que Michael estaria tentando matar Ana?

- Eu preciso entender o que está acontecendo! Preciso entender o que está acontecendo?- ela repetia, seriamente perturbada.

Sawyer tentou controlá-la, segurando-a firme junto ao seu corpo, encharcando a camiseta com o sangue que jorrava do ferimento dela. Ana-Lucia foi ficando pálida, e Sawyer cada vez mais preocupado.

- Jackass, onde você está quando a gente precisa? Ana fique acordada, vamos!

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Kate enxugava algumas lágrimas teimosas que insistiam em cair por seu rosto. O funeral de Libby tinha terminado a pouco, ela ainda estava muito sentida com tudo o que presenciara. Caminhava pela floresta, retornando à escotilha, a pedido de Jack, que resolveu ficar um pouco mais na praia e conversar com Hurley, que estava muito abatido pela perda precoce de sua amada.

Pensava no quanto a morte dela havia sido injusta, e no quanto era difícil viver naquela ilha com tantas incertezas. Chegou a uma clareira, onde tinha um tronco de árvore caído ao chão, sentou-se e se permitiu chorar um pouco por aquela tragédia terrível. De repente, lembrou-se que fora ali naquele exato lugar que trocara um beijo com Jack, algumas semanas atrás. Ficou se perguntando por que o beijara, se uma das coisas que tinha concluído naquele dia era que amava Sawyer. Por isso ficara tão triste pela partida dele na jangada, e tão desesperada ao vê-lo retornar quase morto. No entanto, beijara Jack. Olhou nos olhos dele e quis beijá-lo. Sentiu vontade de beijá-lo de novo, durante o funeral de Libby, talvez porque sentisse necessidade de conforto. Mas quando via Sawyer, queria beijá-lo também. Estaria ficando louca?

Ouviu um barulho de alguém chorando e tossindo muito, não muito longe dali. Pelo timbre sabia que se tratava de um homem. Seguiu em direção ao barulho do choro e surpreendeu-se ao ver Michael, chorando convulsivamente, agarrado a uma árvore. Ele não a viu de imediato, sentia muita dor no estômago e enjôo, por isso começou a vomitar sem controle, o cheiro do sangue fresco de suas vítimas do dia anterior ainda se fazia presente em suas narinas, e achou que nunca mais fosse conseguir se livrar dele.

- Michael, você está bem?

Ele assustou-se muito ao ver Kate, e começou a tremer.

- Michael, você está tremendo.- ela observou. – Por que está aqui sozinho na floresta? Deveria estar descansando na escotilha. Vamos, eu te ajudo a voltar pra lá.

- Não!- disse Michael, tirando o braço não enfaixado, do alcance das mãos dela.

- Jesus, Michael! O que você tem? Está tão estranho!

- Eu preciso ir!- ele disse, ríspido, e saiu cambaleante pela floresta, como se não soubesse onde estava indo.

- Michael! Michael!- gritou Kate em seu encalço, mas ele se enveredou pela mata e ela acabou perdendo-o de vista. Poderia rastreá-lo, mas, definitivamente achou o seu comportamento muito estranho. Resolveu ir até a escotilha perguntar a Sawyer se ele sabia o que estava acontecendo.

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- Quando a gente quer não aparece ninguém nessa droga de escotilha!- comentou Sawyer, sem saber o que fazer, abraçando o corpo desfalecido de Ana, junto ao peito.

Cansou-se de esperar e carregou-a nos braços, ignorando até mesmo o contador, que marcava dez minutos para começar a apitar. Se Jack não vinha até a montanha, a montanha iria até Jack. A carregaria por toda a floresta até a praia, atravessaria o mar se fosse preciso, só pra vê-la bem outra vez, depois cuidaria de Michael.

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Na praia, Jack tinha acabado de falar com Hurley, conversara bastante com o amigo, que não dissera uma palavra sequer desde a morte de Libby. Achou que ele precisava de um tempo, por isso deixou-o sozinho com seu sofrimento. Lembrou que pedira a Kate para ir até a escotilha verificar como estavam Michael e Ana-Lucia, resolveu ir pra lá quando deu de cara com Sawyer chegando na praia, com Ana desacordada em seus braços.

- Sawyer, o que aconteceu?- indagou Jack.

- Não há tempo para explicações agora, vou levá-la pra minha barraca, você precisa olhar o ferimento dela.

- Mas e o Michael?

- Aquele desgraçado tentou matá-la!

- O quê?- espantou-se Jack.

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O computador apitava sem parar na escotilha. Kate adentrou a sala esbaforida e buscou Sawyer, mas aparentemente ele não estava lá. Apressou-se em digitar o código e assim que o contador zerou novamente procurou Sawyer pelos quatro cantos da escotilha.

- Sawyer?

Aonde teria ido. Ana-Lucia também não estava lá, e Kate sabia que ela ainda não tinha condições de andar. Olhou para o contador, ainda faltavam mais de cem minutos para o computador apitar outra vez, resolveu correr até a praia e reportar a Jack os estranhos acontecimentos, mandaria alguém de lá para vir ficar na escotilha.

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- Os pontos cederam, foi isso, devido ao esforço que ela fez para respirar- concluiu Jack, arrumando os pontos do ferimento dela. – Isso está causando infecção, e ela provavelmente terá muita febre, vamos torcer para que a infecção diminua com os medicamentos.

Sawyer assentiu. Jack o fitou com o semblante sério:

- Se você está me dizendo que o Michael tentou matar a Ana, você acha que ele teve alguma coisa a ver com o que aconteceu ontem à noite?

- Eu não sei, não quero fazer julgamentos precipitados, mas o Michael mudou muito desde que o Walt foi levado, pra mim ele seria capaz de qualquer coisa para ter o filho de volta.

- E ela não lembra de nada? O que ela disse quando você a salvou?

- Coisas desconexas, disse que estava confusa, eu achei melhor não perguntar nada.

- Fez bem!- concordou Jack.

- Jack!- chamou Sun, à porta da barraca de Sawyer.

- O que foi?- perguntou ele, limpando as mãos sujas do sangue de Ana em um pedaço de pano.

- O Michael está indo embora, está revirando todas as coisas dele, arrumando na mochila, disse que vai atrás do Walt sozinho outra vez.

Jack e Sawyer se entreolharam, então era verdade, ele tinha algo a ver com os últimos acontecimentos, senão por que estaria fugindo?

- Ah, eu vou matar aquele desgraçado!- bradou Sawyer.

- Calma Sawyer!- pediu Jack, tocando seu ombro. - Precisamos saber até onde ele está envolvido. Fique aqui com a Ana um pouco, Sun chame o Jin e não deixem o Michael deixar a praia por enquanto, em hipótese alguma.

- Jack, o que está acontecendo?- perguntou Sun.

- Talvez Michael esteja envolvido na fuga de Henry Gale, e conseqüentemente no que aconteceu depois.

- Eu não acredito!- exclamou a coreana, aturdida.

- O que vai fazer Jack?- indagou Sawyer.

- Vou chamar o Sayd para o interrogarmos, e ele vai ter que nos contar tudo o que sabe.

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Kate chegou à praia e pôs-se a procurar por Jack. Encontrou-o conversando com Sayd. Aproximou-se dos dois.

- Jack, aconteceu uma coisa estranha.

- Já imagino o que seja.- ele respondeu. – Então Sayd, conto com você?

- Com certeza.- disse o iraquiano.

- Não tem ninguém na escotilha!- falou Kate.- Quem vai apertar o botão?

- Kate, não posso resolver tudo, estou com um problema sério aqui, por que não ficou lá?

Ela fez cara de magoada, e disse:

- Eu só estou tentando ajudar. Qual é o seu problema comigo ultimamente?

- Kate, eu não quero brigar!- ele disse, passando as mãos pela cabeça.

- Por que? Nem pra brigar comigo você tem tempo mais?

Jack olhou para um lado e para o outro, puxou-a para um canto reservado da praia. Kate pensou em protestar, mas ao ver a expressão séria nos olhos dele, resolveu ficar calada.

- Kate, o que você quer de mim?

- Como é?

- Eu não entendo você. Diz que não tenho tempo nem para brigarmos, então estou aqui diante de você, te perguntando, o que espera de mim?

Ela o encarou com aqueles olhos verdes sofridos e respondeu:

- Eu queria que você me dissesse que vai ficar tudo bem, que eu não preciso me preocupar, como fazia antes. Que me acalmasse...

Jack não a deixou terminar de falar, e puxou o rosto dela para si, em um beijo intenso e demorado. Kate surpreendeu-se, mas correspondeu ao beijo com vontade, sem conter um suspiro de satisfação ao sentir a língua dele roçando a sua.

- Isso foi pra te acalmar!- ele disse quando a deixou.

Kate levou as mãos aos lábios, sorrindo sozinha quando se deparou com Charlie observando-a de olhos arregalados.

- Então vocês estão...?

- Cala a boca, Charlie!- disse Kate, afastando-se dele.

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Michael tinha acabado de arrumar suas coisas, e estava pronto para deixar o acampamento antes que as coisas se complicassem quando viu Sayd e Jack se aproximando dele. Sentiu um calafrio no estômago, e por um momento pensou em correr, mas aí viu todas as pessoas do acampamento olhando para ele. Achou que o dia do seu julgamento tivesse chegado e ao ver Eko segurando seu cajado, olhando em sua direção, teve certeza disso.

- Onde está indo, Michael?- questionou Jack, cruzando os braços sobre o peito.

Ele não soube o que responder.

- Será que nós podemos conversar com você, Michael?- perguntou Sayd.

- O que está acontecendo?- indagou Kate a Sun.

- O Jack e o Sawyer acham que o Michael teve alguma coisa a ver com a morte da Libby e o tiro que quase matou Ana-Lucia.

- Como é que é?

- Kate!- chamou Paulo.

Ela voltou seus olhos para o brasileiro, tentando absorver o que Sun tinha acabado de lhe dizer.

- O que foi?

- Ouvi dizer que não tem ninguém na escotilha agora, para apertar o botão.- ele respondeu. – Eu e a Nikki podemos ir pra lá, para fazer isso?

- Fiquem à vontade.- disse Kate, voltando a sua atenção para o que estava acontecendo na praia.

Paulo ficou contente e correu para chamar Nikki.

- Vamos lá, gatinha! Curtir um som lá na escotilha!

- Já falou com a Kate?

- Aham! E pelo jeito ela não tá nem aí, aliás, nunca ninguém está nem aí pra gente, vamos aproveitar.

- Mas Paulo, eu acho que está acontecendo alguma coisa importante aqui na praia, veja, estão todos se reunindo.- Nikki observou.

- E daí? Deixe-os resolverem seus problemas políticos, não fazemos parte desse clube e você sabe!

- Então tá!- ela concordou sorrindo, e os dois saíram de mãos dadas rumo à escotilha.

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- Por que está todo mundo me encarando desse jeito?- queixou-se Michael, imaginando se Sawyer já tinha contado a alguém o que tinha presenciado na escotilha.

- Acalme-se Michael, não precisa ficar nervoso!- disse Sayd, com sua costumeira frieza diante de alguém que obviamente estava mentindo. – Nós só queremos conversar com você, eu e o Jack.

- Anda Michael, vem com a gente!

- O que vão fazer?- questionou Kate.

Jack e Sayd nada responderam, e saíram escoltando Michael para dentro da floresta. Kate olhou para Locke.

- John, faça alguma coisa, eles vão torturá-lo!

- Então eu preciso descobrir por que.- disse ele, seguindo-os floresta adentro.

Eko seguiu logo atrás, também havia ficado intrigado com o que estava acontecendo. Jin voltou-se para Sun, e perguntou em coreano:

- Então ele é o responsável pelo que aconteceu a Libby e Ana-Lucia?

- Talvez seja!- respondeu Sun.

- Se for, nós não somos mais amigos.

- E onde está o Sawyer afinal?- perguntou Kate que não o via desde cedo.

- Está na barraca dele...- falou Sun.

- Eu vou lá!- Kate disse.

- Cuidando de Ana.- Sun completou.

Kate franziu o cenho, pensando consigo porque Sawyer estava tão zeloso com ela desde que levara um tiro, sabia que eles se odiavam. O próprio Sawyer tinha dito a ela uma vez que não suportava a presença de Ana-Lucia no acampamento, por que isso agora? Resolveu ir até a barraca dele e vê-lo cuidando dela com seus próprios olhos.

Encontrou-o debruçado sobre ela, molhando um pano em água fresca e colocando sobre sua testa, na tentativa de baixar a febre, que estava subindo assustadoramente.

- Sawyer?

- Sardenta.- ele disse, sem se voltar para ela.

- Como ela está?

- Com febre. Os pontos do ferimento cederam, e ela começou a ter infecção. Tudo por causa daquele desgraçado do Michael.

- O que ele fez?

- Aquele bastardo, aproveitou que eu saí para colher frutas pra ela e tentou asfixiá-la com um travesseiro.

Kate arregalou os olhos.

- Se eu não estivesse cuidando dela nesse momento, ia com o Jackass e o Ali pra floresta dar uns bons sopapos naquele "sun of a bitch!"

- E por que está cuidando dela?- indagou Kate.

Sawyer ergueu uma sobrancelha:

- Que espécie de pergunta é essa?

- È que eu estou achando estranho você estar sendo tão gentil e cuidadoso com ela depois de tudo o que ela te fez.

- Eu não sou um cara rancoroso.- disfarçou ele.

- Você cuidaria assim de mim, se isso tivesse acontecido comigo?

Sawyer pegou uma mecha do cabelo castanho-avermelhado dela e acariciou:

- Vira essa boca pra lá, sardenta! Que bom que isso não aconteceu com você, e se tivesse acontecido, eu provavelmente não conseguiria chegar nem perto, porque o Jackass não ia sair um minuto de cima de você, e a Ana, ela não é popular por aqui, alguém tem de cuidar dela, por que não eu? Mais do que ninguém, eu sei o que é não ser popular nessa ilha.

- Sawyer...Sawyer...- Ana-Lucia murmurou buscando a mão dele instintivamente.

- Eu estou aqui, cupcake!- disse Sawyer tomando a mão dela, carinhosamente.

Kate observou o gesto dele, e resolveu não perguntar mais nada. Ao invés disso, tirou o pano da testa de Ana-Lucia e voltou a molhar na água fresca. Iria ajudá-lo a cuidar dela.

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Na floresta, Michael estava cercado por Jack, Sayd, Locke e Mr.Eko. Pensava em seu íntimo como iria fugir daquela situação.

- Chega de mentiras, Michael.- falou Jack. – È melhor começar a nos dizer a verdade, algo que justifique por que deixou Henry Gale fugir, e quem realmente baleou Libby e Ana-Lucia.

- Estamos falando sério, Michael.- enfatizou Sayd. – Conte-nos logo ou eu serei obrigado a fazer você confessar, e não vai querer isso, eu te garanto.

Michael começou a chorar, sentindo medo e culpa. Ajoelhou-se diante deles e resolveu confessar:

- Eu fiz isso por causa do meu filho, eu juro. Só por causa dele! Aquelas pessoas me ameaçaram, disseram que se eu não ajudasse a libertar o líder deles que estava preso na escotilha eles iriam matar o Walt. Não tive escolha, Ana-Lucia não me deixaria libertá-lo e a Libby foi um acidente, não era para ser assim.

Os quatro ficaram chocados diante da confissão, imaginavam que Michael tivesse culpa no cartório, mas não pensaram em nenhum momento que ele tivesse atirado nas duas mulheres, mesmo sabendo que ele tentara asfixiar Ana-Lucia para impedi-la de contar que fora o responsável pela fuga de Henry Gale.

- Você atirou nelas?- questionou Eko.

- Sim, mas se eu tivesse escolha não teria...

Jack passou as mãos pela cabeça, abismado. Durante todo o tempo em que estavam naquela ilha sempre considerou Michael um amigo, e aquela atitude dele o deixara muito decepcionado.

- Não existe justificativa para o que você fez!- bradou Jack. – Atirar em duas mulheres a sangue frio?

- Libby era inocente, lamento e muito a morte dela, mas Ana-Lucia não. De alguma forma, ela merecia morrer, atirou na Shannon.

- Cale-se!- gritou Sayd. – Se alguém aqui deveria querer matar Ana-Lucia seria eu, mas não fiz isso e sabe por que? Porque o que aconteceu foi um acidente, ocasionado pelo medo que Ana-Lucia sentia dos Outros, esses que são os culpados pela morte da Shannon. E você se aliou a eles?

- Foi preciso, para reaver o meu filho, e pelo meu filho eu sou capaz de qualquer coisa.

Jack tirou uma arma do bolso de trás da calça e a apontou para Michael, estava sentindo muito ódio pela situação. Sayd e Locke não fizeram nenhuma objeção, mas Eko pôs uma mão em seu ombro, impedindo-o.

- Não faça isso Jack, o dia do julgamento final chegará para ele.

- Eko tem razão.- disse Locke. – Acho que devemos deixá-lo ir, não nos igualemos a ele, será muito mais difícil viver sozinho na selva.

Com esforço, olhos apertados e semblante indignado, Jack guardou a arma de volta no bolso. Michael levantou-se do chão, e sem dizer uma palavra, deu as costas para eles e sumiu na floresta.

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Três dias se passaram, e o desaparecimento de Michael foi muito comentado durante esse tempo, mas aos poucos as pessoas foram esquecendo e voltando às suas atividades cotidianas. Quanto a ele, nunca mais foi visto, e alguns começaram a alimentar a lenda de que ele fora transformado em fumaça negra como castigo pelos crimes que cometera e agora vagava pela floresta assombrando as pessoas.

A infecção de Ana-Lucia piorou visivelmente, mas Sawyer permaneceu fiel ao seu lado, zelando por ela. Ao final daquele terceiro dia, estavam sozinhos na escotilha. Jack a examinara e dissera a Sawyer que a única coisa que podiam fazer agora era esperar que ela se recuperasse ou não. Depois desse diagnóstico, o médico teve que voltar para a praia, Aaron estava muito gripado e precisava de seus cuidados.

Sawyer permaneceu lá com ela, velando seu sono e aplicando compressas para diminuir a intensidade da febre. Em certo momento, ela começou a tremer mais do que em todas as outras vezes, e ele não teve alternativa, tirou a camisa e enfiou-se debaixo dos cobertores com ela, apertando-a junto de si para cessar a tremedeira. Ana-Lucia não objetou a presença dele embaixo das cobertas, pelo contrário, ao sentir o corpo morno dele junto de si, instintivamente buscou pelo aconchego, enroscando seu corpo no dele, recostando a cabeça em seu peito, sentindo-se muito segura no abraço dele.

Na manhã seguinte, despertou com uma energia que não sentia há dias, a febre finalmente a tinha deixado e o ferimento à bala em seu ventre estava cicatrizando. Porém, a confusão mental que se fez em sua cabeça ao se deparar consigo envolta nos braços de Sawyer de peito nu, debaixo dos cobertores enquanto ela mesma usava apenas camiseta e calcinha foi latente. Remexeu-se na cama, nervosamente tentando se soltar dos braços dele sem acordá-lo, quando seu corpo esbarrou na ereção matinal de Sawyer, fazendo seu rosto corar de vergonha. Mas o que estava acontecendo? Indagou a si mesma.

De repente, as lembranças vieram à sua mente como em um filme. Transara com Sawyer, roubara sua arma e depois ameaçara Henry Gale, sendo incapaz de matá-lo. Entregou sua arma a Michael que atirou nela e depois atirou em Libby. Empurrou o braço de Sawyer com violência e levantou da cama, pondo-se a andar pelo quarto de um lado para o outro. Sawyer despertou com o movimento brusco dela e encarou-a.

- O que você pensa que estava fazendo?- ela indagou a Sawyer ao vê-lo acordado.

- Eu estava cuidando de você.- ele apressou-se em responder. – Como o fiz todos esses dias em que você esteve debilitada pelo tiro.

O tiro! Aquela lembrança atordoou-lhe e um ódio sem fim começou a surgir no fundo de seu peito e feito veneno líquido se expandiu por todas as suas veias, tomando, invadindo cada fibra do seu ser até explodir sem controle. Era mais do que raiva, ia além disso, como se estivesse sendo possuída por algum tipo de espírito demoníaco que aos poucos sugava sua alma. E ela gritou, como nunca tinha gritado, até sentir a garganta arder e as amídalas incharem. Cravou suas unhas na madeira do tampo da mesa, e a pele debaixo de seus dedos sangrou.

Foi quando viu olhos azuis brilhantes e lacrimosos observando-a. A ira, aquela força ruim, apertou ainda mais em seu peito, e ela bradou como um animal enfurecido:

- O que você quer? Vá embora daqui! Me deixe sozinha!

- Ana!- ele murmurou, a expressão compadecida diante da dor dela.

- Fuck you, man! Eu não preciso da sua piedade, nem da de ninguém, vá embora!

- Ana-Lucia!- Sawyer gritou. – Você precisa se acalmar, toda essa raiva não vai te ajudar, acredite em mim, eu imagino o que esteja sentindo.

- Não, você não sabe.- ela gritou de volta. – Agora ouça, não tenho nada contra você, só quero que vá embora e me deixe sozinha, sei cuidar de mim mesma, eu não preciso de ninguém.

Sawyer se aproximou dela, que deu um passo para trás, cambaleante. Ele deu mais um passo para frente, e segurou seus punhos com força, ela se debateu, tentando arranhá-lo, gritando histérica, mas Sawyer não a soltou, ao invés disso puxou-a ainda mais para si, envolvendo os braços ao redor da cintura dela, forçando seu corpo pequeno sobre o dele.

- Não! Não! Não!- Ana-Lucia continuou gritando, desesperada para soltar-se, mas ao sentir o calor dos braços dele em torno de si e o olhar amoroso dele para ela, desabou.

- Shiii, shiiii. Vai ficar tudo bem!- ele murmurou baixinho no ouvido dela, embalando-a em seus braços, distribuindo beijinhos em seus cabelos.

Ana-Lucia chorou muito, desabafando tudo de ruim que sentia desde antes de cair naquela ilha, chorava por todas as desgraças que já sofrera, amparada pelos braços de Sawyer.

Continua...