Capítulo II- Arrogância

Estar aconchegada daquele jeito tão íntimo ao corpo de Sawyer provocava sensações indescritíveis em Ana-Lucia. O cheiro masculino dele era inebriante, e o corpo dela arrepiava levemente ao constatar isso. O ataque de fúria repentina que tivera há alguns minutos havia findado, e naquele momento ela não queria mais nada a não ser estar nos braços dele.

Eram sentimentos conflitantes, não gostava de sentir-se vulnerável, mas não tinha como evitar precisava de colo, e Sawyer estava oferecendo isso a ela, sem pedir nada em troca, mesmo depois de tudo o que ela tinha aprontado para ele.

Ficaram ali, parados, no meio da cozinha, até que o alarme nosso de cada dia começou a tocar. Sawyer amaldiçoou o alarme internamente, sabia que era um momento raro e único ter Ana-Lucia quietinha em seus braços, mesmo quando fizeram amor ela mostrou-se agressiva e mandona, não deixando ele tomar as rédeas da situação de jeito nenhum. Olhou profundamente nos olhos dela, e antes que Ana-Lucia pudesse dizer qualquer coisa, suspendeu-a do chão, surpreendendo-a.

- Sawyer, o que está fazendo?- sussurrou como se estivesse com medo de que alguém a ouvisse.

- Estou te levando de volta pra cama, cupcake, ainda não está em condições de sair andando por aí.

Ele a depositou gentilmente na cama e pegou o cobertor para cobri-la. Ana-Lucia não reclamou, a energia que sentira ao despertar havia se esvaído, dando lugar novamente à fraqueza.

- Eu vou apertar a droga do botão, fica aí paradinha que eu já volto!

Ana-Lucia deu um meio sorriso, quando foi que Sawyer ficara tão gentil? Aquilo estava muito estranho, e quando ele voltou para o lado dela, não hesitou em perguntar:

- O que você está ganhando?

- Como é?- ele indagou, sem entender.

- O que está ganhando para ficar aqui tomando conta de mim?

Sawyer ergueu uma sobrancelha, malicioso, sentando-se na ponta da cama:

- Por enquanto nada, mas sei que vou ganhar depois.

Ana-Lucia irritou-se levemente com a pretensão dele:

- Escuta aqui caipira, se está achando que...

Sawyer colocou um dedo sobre os lábios dela, calando-a.

- Não estou ganhando nada para fazer isso, cuidei de você porque eu quis, chica.- ele afirmou.

- Então se você quis, não espere que eu te agradeça!- ela respondeu malcriada, tentando disfarçar a ternura que sentiu ao ouvi-lo dizer que cuidara dela porque quis.

Ele nem ligou para o aparente mal-humor dela e debruçou-se levemente sobre o seu corpo. Ao vê-lo se aproximando, o coração de Ana-Lucia disparou, mas ela não entregou os pontos:

- Para com isso, Sawyer, agora mesmo ou eu vou quebrar a sua cara.

Sawyer continuou ignorando-a, e aproximou seus lábios dos dela. Ana-Lucia não conteve um suspiro ao sentir a respiração quente dele tão próxima, seus olhos não saíam daquela boca carnuda e vermelha, tão convidativa, sem perceber estava fazendo "biquinho", preparando-se para ser beijada quando de repente, Sawyer se afastou sem nenhuma explicação. Ana-Lucia ficou com uma cara frustrada, e o texano disparou a rir:

- Então é isso o que você quer né, baby? Beijinho na boca!

Ana-Lucia alargou os olhos, a cara fechada ao mesmo tempo em que as bochechas estavam coradas de vergonha.

- Cala a boca, caipira dos infernos!- ela disse, tremendo de raiva embaixo do cobertor.

Mas Sawyer continuava rindo, deixando-a ainda mais irritada.

- Por que toda essa agressividade comigo, Analulu? Aceite isso, estamos quites, você roubou a minha arma e eu poderia ter te abandonado, deixando-a morrer, como você pensou em fazer comigo várias vezes quando estávamos voltando para o acampamento. Mas não, resolvi ser o bom samaritano e cuidei de você, agora vai ter que conviver com isso!

Ela simplesmente não soube o que responder, ficara magoada. Por um breve momento pensou que Sawyer estivesse cuidando dela porque fora capaz de sentir algo por ela. Mas estava enganada, ele só queria mesmo se vingar, fazê-la conviver o resto do tempo que permanecessem naquela ilha com o fato de que o devia, e Ana-Lucia odiava dever a alguém.

- Você...- ela murmurou, tentando dizer algo quando uma lágrima escapuliu de seus olhos.

O peito de Sawyer apertou, não queria fazê-la chorar. Mas a arrogância fazia parte da sua natureza, jamais admitiria a Ana-Lucia que cuidara dela porque teve medo de perdê-la, porque de todas as mulheres daquele acampamento ela era a única que tinha sido capaz de confrontá-lo de verdade, mais do que Kate, desde o início quando se conheceram dentro da armadilha, que ela mesma tinha preparado para ele. No entanto, aquele era um momento de extrema vulnerabilidade de ambas as partes, e Sawyer não agüentou vê-la daquele jeito, a arrogância acabara de lhe dar uma trégua.

- Você é um homem muito vil! –ela exclamou. – Como pôde cuidar de mim somente por vingança?

- Eu sou vil e vingativo? Tem certeza Lulu? Por acaso fui eu quem seduziu alguém para roubar uma arma e depois matar um outro alguém por vingança?

Mais lágrimas encheram seus olhos, e Ana-Lucia estava odiando chorar tanto na presença de Sawyer, mas não conseguia parar a si mesma. Sawyer levou sua mão direita ao rosto dela e acariciou-o ternamente. Em seguida aproximou outra vez sua boca da dela, os lábios de Ana-Lucia ainda estavam pálidos por causa de tudo o que passara. Ela sussurrou, sabendo o que ele iria fazer:

- Não, não...

Mas dessa vez ele iria beijá-la, queria fazer isso de novo desde quando a vira caída no sofá, desacordada por causa do tiro. Dissera a si mesmo que seria a primeira coisa que faria quando ela despertasse.

- Não, Sawyer...- ela disse outra vez, mas seus olhos já estavam fechados aguardando o beijo inevitável quando um leve pigarro masculino cortou o momento deles.

Sawyer parou imediatamente, e Ana-Lucia voltou a abrir os olhos.

- Doutor!- exclamou Sawyer ao ver Jack parado no meio da cozinha, de frente para o quarto que não tinha porta.

Jack tinha um sorriso divertido no rosto diante da situação, ao contrário de Kate que vinha logo atrás dele carregando um cesto de frutas, que quase deixou cair ao vislumbrar a cena.

- Há quanto tempo estão aí?- indagou Sawyer, preocupado que os dois tivessem visto a discussão dele com Ana-Lucia e os conseqüentes carinhos trocados entre eles.

- O suficiente!- disse Jack, ainda sorrindo.

Ana-Lucia não disse uma palavra sequer, estava muito embaraçada com aquela situação constrangedora, afinal não era todo dia que alguém do acampamento a via em uma cama, seminua com um homem debruçado sobre si se preparando para beijá-la. Jack notou que estavam ambos muito embaraçados e por isso tratou de mudar de assunto.

- Bem, eu vim até aqui para ver como está a Ana-Lucia.- ele se dirigiu até a cama e sentou-se na beirada tocando a testa dela de leve. – Está sem febre, isso é um bom sinal. E durante a noite?

Jack perguntou isso a Sawyer, mas o texano estava tão constrangido com a situação que nada disse, apenas trocou alguns olhares com Kate, que aparentemente lhe fuzilava com o olhar. Seu cinismo sempre tão oportuno havia desaparecido naquele momento.

- Sawyer? Eu estou falando com você!- insistiu Jack.

- O que você disse, doc?

- Eu perguntei sobre como ela passou a noite?

- Ela teve muita febre, mas eu cuidei de tudo e agora ela está bem melhor.- Sawyer limitou-se a responder.

- Cuidou de tudo, hã?- questionou Kate. – Você agora é médico?

Sawyer preferiu ignorar o comentário dela, e perguntou:

- O que você trouxe aí sardenta? Mangas? Eu estou com vontade de comer manga.

Jack voltou toda a sua atenção para Ana-Lucia.

- E agora Ana, como se sente?

- Eu não sei ao certo.- ela respondeu. – Quando acordei me senti cem porcento, como se nunca tivesse levado um tiro, mas depois voltei a sentir fraqueza e resolvi voltar pra cama.

- Fez muito bem, nesse momento de recuperação é importante que não faça nenhum tipo de esforço, se alimente adequadamente e repouse bastante. Eu vou dar uma examinada no seu ferimento.- Jack disse, já erguendo o cobertor dela para examiná-la.

Ana-Lucia trocou um olhar desconfiado com Sawyer, que havia acabado de cortar uma manga e disse a Jack:

- Será que o Sawyer poderia sair enquanto você faz isso, é que eu não me sinto muito à vontade...

- Como queira, rambina.- disse Sawyer, depositando a manga em cima da pia. – Aliás, creio que meu trabalho por aqui acabou, então eu peço demissão do meu cargo de enfermeiro e retorno para o meu humilde lar lá na praia. Melhoras pra você, Analulu.

E dizendo isso, ele foi até o quarto somente para pegar sua camisa que estava pendurada no espelho da cama, vestiu-a e saiu em direção ao despressurizador. Kate o acompanhou com os olhos, mas permaneceu na escotilha. Jack havia pedido a ela que colhesse algumas frutas e preparasse uma salada para Ana-Lucia comer, por isso ela o tinha acompanhado até a escotilha aquela manhã.

- Vamos lá! – falou Jack, erguendo o cobertor de Ana-Lucia para examiná-la assim que Sawyer saiu.

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Mais alguns dias se passaram, e Ana-Lucia melhorou por completo. O ferimento à bala cicatrizou, deixando apenas uma pequena marca em seu ventre. Jack finalmente lhe deu alta para que ela voltasse à praia. Depois daquele dia em que ela e Sawyer quase se beijaram na escotilha, ela não o vira mais, porque ele não retornara para vê-la nem uma vez. Durante todo o tempo em que permaneceu em convalescença, alguém sempre aparecia para cuidar dela a mando de Jack, Sun, Rose, e até mesmo Kate. Mas quem ela queria mesmo era Sawyer. Odiava admitir, mas sentia e muito a falta dele, era como se tivesse se acostumado à sua constante presença no período em que esteve desacordada.

Quando Jack disse a ela que já estava curada e poderia retornar à praia, o coração dela encheu-se de felicidade. Finalmente poderia ir ao túmulo de Libby prestar sua homenagem à amiga assassinada e principalmente, veria Sawyer de novo. Seu estômago contorcia-se de ansiedade só de pensar nisso, mas jamais contaria a alguém, era o seu segredo. Tomou um longo banho no chuveiro da escotilha, dando especial atenção aos cuidados com seu corpo. Depilou as pernas, lavou os cabelos cuidadosamente com xampu e depois vestiu as roupas limpas que Rose havia lhe trazido gentilmente.

Olhou-se no espelho enquanto penteava os cabelos negros. Sentiu-se bonita, com uma imagem renovada. Talvez fosse a imensa sede de viver que estava sentindo depois de quase ter morrido, era uma nova chance e Ana-Lucia não queria desperdiçá-la. Não sabia ao certo o que diria ou faria quando visse Sawyer outra vez, mesmo assim não se importou muito, vê-lo já seria o suficiente.

- Mas o que eu estou pensando?- falou consigo mesma. – Não posso ficar agindo como uma tola!

Mordeu o cabo do pente e sentou-se no balcão diante do espelho, perguntou a si mesma em voz alta.

- O que você quer Ana-Lucia?

Mas a verdade é que não sabia ao certo, sua única certeza era de que a vingança e a ira haviam deixado seu coração. Jack dissera a ela que Michael tinha desaparecido e em outros tempos não hesitaria em sair atrás dele somente para matá-lo como vingança pelo que fizera a ela e Libby, porém definitivamente não sentiu vontade de fazer isso, só queria viver, o máximo que pudesse.

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Sawyer lia calmamente pela milionésima vez o manuscrito de mistério sem o nome do autor que encontrara na praia há algum tempo, parte dele chamuscada, porque Jack o jogara no fogo no dia em que foi até a barraca dele exigir as armas de volta, quando viu Ana-Lucia retornando para a praia.

Parou de ler imediatamente, deixando o manuscrito de lado e pôs-se a observá-la, e pareceu-lhe que ela caminhava em câmera lenta, deslizando pela areia branca da praia, o vento despenteando seus cabelos negros soltos, os quadris fartos se movimentando sutilmente de um lado para o outro a cada passo que dava. Até que parou diante dos restos mortais de sua barraca e abaixou no chão uma mochila que trazia às costas. Agachou-se por um momento e seu olhar cruzou com o de Sawyer. Desviou o olhar rapidamente ao perceber que ele a estava encarando, sentindo um intenso frio na espinha.

Sawyer não resistiu e levantou-se, caminhando em direção à barraca dela, queria vislumbrá-la de perto. Ana-Lucia sentiu o coração bater mais rápido e pensou: "Oh Deus, ele está vindo para cá!" No entanto, colocou a sua melhor máscara de indiferença e fingiu estar muito ocupada em ajeitar a lona de sua barraca.

- Hey, you!- Sawyer saudou com seu jeito cínico ao chegar perto dela.

- Hey, yourself!- ela respondeu, sem olhar para ele.

Sawyer correu para o outro lado da barraca e pegou uma das pontas da lona de plástico ajudando a erguê-la sobre as estacas.

- Roupas novas?- gracejou, medindo-a dos pés à cabeça, malicioso, fixando seu olhar principalmente na calça justa jeans que ela usava, até o meio da canela, o que delineava suas pernas.

- Yeah!- ela respondeu, totalmente concentrada na tarefa de amarrar as pontas da lona ou pelo menos era o que ela queria que ele pensasse.

- Pra alguém que levou um tiro você me parece ótima!

Ela ergueu os olhos escuros para ele, e perguntou, arisca:

- O que você quer Sawyer?

- Jesus, mulher! Não precisa querer me bater não, só estou te ajudando a arrumar a droga da sua barraca!

- Aham! Assim como lá na escotilha, você só estava cuidando de mim!- Ana-Lucia jogou verde, queria ver o que ele diria em relação a isso.

- Você ainda está pensando nisso?- ele retorquiu. – Eu já te disse porque cuidei de você, para ficarmos quites, e você ter que passar o resto da vida se torturando, sabendo que um dia eu fiz algo por você sem esperar nada em troca.

Ana-Lucia largou as pontas da lona com tudo, irritada. O plástico cedeu totalmente, desmanchando o telhado da barraca dela.

- Eu não gosto de dever nada pra ninguém!- bradou. – Então acho melhor você me dizer logo o que quer por ter cuidado de mim.

- Lu, eu não quero nada.- Sawyer respondeu, sorrindo de forma irritante para ela. Virou as costas e foi embora, deixando Ana-Lucia com muita raiva.

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Jack separava alguns medicamentos na mesa da despensa, quando Kate se aproximou, sentando-se ao lado dele no banco de madeira corrido. Ele ergueu os olhos castanho-esverdeados para ela e perguntou:

- Precisa de alguma coisa, Kate?

- Nada.- ela disse. – Posso te ajudar?

- Claro! Vai separando esses comprimidos vermelhos desses azuis, não entendo porque estão juntos no mesmo frasco, são para coisas totalmente diferentes.

Kate começou a fazer o que ele disse. Ficaram em silêncio separando os medicamentos, até que ela perguntou:

- A Ana-Lucia está mesmo recuperada?

- Sim.- disse Jack, com um sorriso. – Nunca fui de acreditar em milagres, mas realmente cheguei a pensar que ela fosse morrer, o tiro perfurou uma área muito sensível do corpo dela.

- Então foi o seu milagre.- Kate constatou.

- Meu não!- Jack afirmou. – Do Sawyer, a dedicação dele para a recuperação dela foi fundamental, e te digo mais, acho que existe algo entre eles, algum tipo de ligação que fez com que a Ana reagisse mais rápido ao tratamento, como se quisesse ficar viva para estar com ele, inclusive isso me surpreendeu bastante porque jamais os imaginei juntos.

- Você acredita mesmo nisso, Jack?- Kate questionou balançando a cabeça negativamente.

- Por que está me perguntando isso?

- Sei lá, você não me parece o tipo de pessoa que acredita nessas coisas, ligações espirituais, recuperações milagrosas, isso tem mais a ver com o Locke.

- Kate, desde que caímos nessa ilha ando tendo que rever meus conceitos. Mas por que todas essas perguntas? Te incomoda o fato de algo estar acontecendo entre eles?- Jack indagou, desconfiado.

- Mas é claro que não!- ela apressou-se em dizer. – Mas você sabe como o Sawyer é, logo que chegamos aqui ele dizia que nós tínhamos uma ligação e agora está dizendo que tem essa mesma ligação com a Ana-Lucia.

- Sawyer nunca disse que tinha algum tipo de ligação com a Ana-Lucia, pelo menos não pra mim! Por que? Ele disse algo a você?

- Não!- respondeu Kate, de cabeça baixa.

- Kate, estou intrigado.

- Com o quê?

- Com esse seu súbito interesse por uma possível relação entre Sawyer e Ana. Se algo estiver mesmo acontecendo entre eles, creio que não temos nada a ver com isso a não ser...

- A não ser o quê, Jack?

- Que você tenha interesses pessoais nessa história.

- Pois você está enganado!- ela reiterou.

Jack sorriu:

- È bom saber disso! Odiaria pensar que você sente algo pelo Sawyer além de amizade.

- Por quê?- ela provocou, marota.

- Eu já terminei por aqui.- ele disse, recolhendo os frascos e guardando em um saco plástico. – Preciso dar um pulo na escotilha, até Kate.

- Até!- ela respondeu, intrigada com as últimas palavras dele.

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- "Padre nuestro que estas en el cielo, santificado sea tu nombre, venga a nosotros el vuestro reino..."

Ana-Lucia rezava de joelhos diante do túmulo de Libby. Havia colocado algumas flores sobre ele e agora se despedia da amiga com muito pesar no coração, lamentava imensamente que Libby não tivesse conseguido sobreviver como ela.

- Hey, dude!- saudou Hurley parando ao lado dela diante do túmulo.

- Hey!- respondeu Ana-Lucia, finalizando sua oração, fazendo o sinal da cruz.

- Eu soube que você tinha voltado para a praia e quis te cumprimentar, que bom que está bem!

- Obrigada, Hurley!- ela disse, sorrindo. – Eu sinto muito pela Libby, a Rose contou-me que vocês estavam envolvidos.

- De alguma forma. Eu invejo o Sawyer, dude!

- Por quê?- ela indagou.

- Porque ele se esforçou tanto cuidando de você, e valeu a pena, você está viva. Não tive a mesma chance com a Libby.

- Hurley, você esteve o tempo todo na escotilha quando eu e a Libby estávamos em perigo, não esteve?

- Sim, o tempo todo.- ele confirmou.

- Em algum momento, o Jack pediu ao Sawyer que cuidasse de mim?

- Não dude! Não mesmo! Desde o primeiro momento ele se propôs a cuidar de você, mal deixava qualquer um chegar perto, só o Jack porque é o médico!

Aquela revelação deixou Ana-Lucia com a pulga atrás da orelha, e naquela mesma tarde ela resolveu procurá-lo.

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O barulho constante do machado partindo a madeira em vários pedaços, seguido do gemido estafante de Sawyer devido ao esforço que estava fazendo, eram os únicos sons possíveis de serem ouvidos a vários metros de distância dentro do silêncio natural da floresta. Ele gostava de fazer aquele serviço, não porque fosse o cara mais prestativo da ilha, mas porque servia como uma espécie de terapia. Cortar lenha e pensar na vida. Uma vez Jack gracejara a respeito desse hábito dele, dizendo que sua profissão fora da ilha deveria ter sido lenhador.

Deu mais umas quatro ou cinco machadadas em um grosso tronco que tinha derrubado, quando ouviu uma voz muito familiar atrás de si:

- Hey, Dino da Silva Sauro, você tem um momento?

Sawyer largou o pesado machado no chão e voltou-se para a dona da voz:

- O que você quer chiquita? Eu estou muito ocupado agora.

- Quero te fazer uma pergunta, só vai levar um momento.

Ele enxugou o suor da testa com as costas das mãos e alongou o corpo para não ficar doloridas depois de todo aquele esforço. Ana-Lucia não conseguiu não prestar atenção ao tórax dele, nu, suado, exposto à luz do sol.

- Então pergunta logo porque eu ainda quero cortar mais uns três troncos.

Ela mordeu o lábio inferior e deu dois passos em direção a ele, antes de perguntar:

- O que você quer por ter cuidado de mim?

Sawyer ergueu uma sobrancelha:

- Sinceramente, acho melhor parar de insistir nessa história, pode não gostar do que eu pedir.

- Então você quer mesmo pedir alguma coisa? Seus cuidados não tinham sido de graça?

Ele pôs-se a rir:

- Jamais conheci alguém mais arrogante do que você, Lulu. Mas tudo bem, vou abrir o jogo. Nada do papai aqui sai de graça!

- All right!- ela concordou. – E eu também não gosto de ficar devendo. – O que você quer? Sua arma de volta? Saiba que o Jack a devolveu pra mim.

- Benzinho, a essa altura do campeonato, armas são o que menos me interessam.

- Então para de enrolar e me diz logo o que você quer!

- Um beijo.- ele respondeu, provocante.

- Como é?

- Um beijo rambina, da sua boca na minha, preciso ser mais claro do que isso?

Ana-Lucia balançou a cabeça, incrédula.

- Só isso?

- Porque Analulu? Está disposta a me oferecer mais? Não sabia que os meus préstimos para com a sua pessoa valeriam tanto assim.

- Não seja estúpido!- ela disse. – Pensei que fosse querer algo concreto.

- E um beijo não é uma coisa concreta pra você?

- Ok, fine!- ela concordou. – Mas só um beijo e minha dívida com você estará quitada.

Ela se aproximou, ficando a polegadas de distância dele. Sawyer a agarrou pela cintura. Ana-Lucia protestou:

- Eu disse que seria só um beijo, nada de gracinhas!

- Por mim tudo bem, cupcake!- ele respondeu malicioso, aproximando seu rosto do dela.

Ana-Lucia achou que seu coração ia sair pela boca naquele momento, nem mesmo quando pulara em cima dele na selva e arrancara suas roupas sentira tanto nervosismo. Os lábios foram se aproximando pouco a pouco, até poderem sentir as respirações um do outro em seus rostos. Antes de beijá-la, Sawyer assoprou levemente os lábios dela, provocando arrepios de prazer pelo corpo de Ana-Lucia. Finalmente seus lábios se tocaram, e ao mesmo tempo em que enfiava a língua em sua boca, Sawyer colou o corpo pequeno dela no seu, fazendo-a soltar um gemido delicado ante o contato das mãos calorosas que apertavam sua cintura. Beijavam-se ardentemente quando ele a ergueu do chão com incrível facilidade e escarranchou as pernas dela ao redor de sua cintura.

Com uma mão, Sawyer apoiava o corpo dela no seu, com a outra acariciava sua nuca, puxando o rosto dela ainda mais próximo de si, enquanto devorava sua boca. O beijo intenso durou cerca de cinco minutos, até que Ana-Lucia desprendeu as pernas do corpo dele deslizando para baixo. Pararam de se beijar, já estavam sem fôlego. Arfando, ela se afastou dele, e disse arrogante:

- Minha dívida com você já está paga!

Continua...