VI- Gula
- O galo ainda nem cantou e você já está de pé?
Ana-Lucia abriu um sorriso para Sawyer enquanto vestia uma camiseta branca, na penumbra da barraca, era muito cedo e o sol ainda não se manifestara.
- Galo é?- ela indagou, erguendo a sobrancelha daquele seu jeito inconfundível. – Pois eu pensava que o único galo que existia por aqui era você.
Sawyer deu uma risada, e sentou-se na cama, afastando o cobertor do corpo, a natureza prometia clima quente para o resto do dia.
- Cuidado Lulu, parece que o meu sarcasmo já está contaminando você!
Ela deu outro sorriso para ele e prendeu os cabelos negros num prático rabo de cavalo.
- Mas falando sério, cupcake, aonde você vai assim tão cedo? Vai passear na floresta com o Mr. Eko outra vez?
- Não.- ela respondeu despreocupadamente. – Quero correr um pouco, só isso!
Já ia caminhando para fora da barraca quando Sawyer a chamou de novo:
- Ana!
Ela voltou-se para ele com o olhar interrogativo.
- Vai sair assim sem me dar bom dia?
- Ah, me desculpe!- Ana-Lucia disse com cinismo e se jogou em cima dele na cama, beijando-lhe os lábios. – Bom dia!
- Au!- ele queixou-se. – Assim você quebra todos os meus ossos, mulher!
Sawyer envolveu as mãos na cintura dela, e apertou-a contra si. Ana-Lucia reclamou e afastou as mãos dele de sua cintura.
- Opa, opa, cowboy! Já disse que agora vou correr na praia, ver o nascer do sol, portanto pode desengatilhar a sua "arma"!
- Humpf!- Sawyer resmungou quando ela saiu de cima dele.
- Você deveria vir comigo, está ficando muito preguiçoso e desleixado! Podia pegar um bronze nesse seu traseiro lindo!
- Meu amor, eu vou passar essa! E ficar aqui bem quietinho na tranqüilidade do nosso lar!
- Nosso lar?- ela questionou rindo. – Se isso é tudo que pode me dar, acho melhor eu arranjar outro.
- Òtimo! Case-se com o cara mais rico da ilha, o Locke, ele tem uma escotilha e um botão pra apertar a cada 108 minutos.
Ana-Lucia balançou a cabeça negativamente e fez um tchauzinho com a mão direita antes de deixar a barraca. Lá fora, o acampamento estava muito silencioso, ninguém levantara ainda. O sol surgia no céu aos poucos. Ela caminhou até a beira da praia e enrolou a calça jeans até o meio da canela. Fez alguns exercícios de alongamento e preparou-se pra correr, respirando fundo antes.
Percorreu com destreza a orla da praia, mantendo o ritmo, até que resolveu dar uma paradinha na sexta volta. Adentrou a floresta andando bem devagar e respirando o ar puro. Escorou-se em uma árvore para descansar e bebeu água de um frasco que havia prendido ao bolso da calça. De repente, ouviu um barulho atrás de si e voltou-se de imediato. Seus olhos se alargaram ao ver um garoto negro diante si, completamente encharcado, com uma expressão indecifrável nos olhos.
- Meu Deus!- exclamou. – Quem é você? Da onde apareceu?
Esticou sua mão para tocar o rosto do menino diante de si, mas ele afastou-se levando o dedo indicador aos lábios, pedindo silêncio para que ela o escutasse.
- Eles querem o bebê! È só o que querem!- o menino disse num sussurro quase inaudível!
- O quê?- indagou Ana-Lucia, tentando compreender o que ele dizia.
- O bebê! Eles vão levá-lo para fazê-la pagar!
E essa foi a última coisa que o garoto disse antes de desaparecer diante de seus olhos como num passe de mágica. Ana-Lucia sentiu um intenso frio na espinha, e esfregou os olhos para ter certeza de que não estivera sonhando acordada. Porém, nem teve tempo de absorver nada e sentiu braços fortes a pegando violentamente e um capuz envolvendo sua cabeça, sufocando seu grito por socorro.
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Kate despertou de repente, estava tendo um sonho ruim, mas ao recordar-se de que não estava sozinha em sua barraca, seu rosto exibiu um belo sorriso e ela se espreguiçou bem devagar, afastando com cuidado o braço de Jack que estava enroscado em sua cintura, depois de terem passado mais uma noite juntos. Apesar do cuidado dela em acordá-lo, ele despertou de imediato e os dois trocaram olhares.
- Bom dia!- ela saudou.
- Bom dia!- ele respondeu, preguiçoso. Já amanheceu?
- Aham!- Kate respondeu, marota.
- Ih!- Jack exclamou. – E agora? Se eu sair daqui todo mundo vai saber que dormimos juntos!
Kate riu: - È verdade, então acho que dessa vez a minha reputação está mesmo arruinada nessa ilha. Você vai ter que casar comigo!
Jack riu, e a olhou intensamente, beijando sua mão: - Então o que estamos esperando? Pedimos a benção do monstro da ilha e o Eko nos casa na igreja que está construindo.
- A benção do monstro da ilha?- ela repetiu, achando graça. – Só você pra pensar numa coisa dessas, Jack!
Beijaram-se, mas um barulho indiscreto cortou o clima de romance.
- Me desculpe!- disse Kate, embaraçada. – Foi o meu estômago, estou morrendo de fome.
Jack sorriu com o embaraço dela: - Eu estou com fome também, acho que dormimos demais, está muito claro lá fora, já devem ser mais de dez horas.
- Ah ,mas eu não queria sair daqui! Por que não comemos aqui na barraca?- Kate indagou.
- È uma ótima idéia Kate, mas preciso verificar se está tudo bem, se tem alguém precisando de mim.
- Eu preciso de você!- ela disse, dengosa.
- Eu sei!- ele respondeu afagando seus cabelos. – Mas o dever me chama!
- Por que você é tão chato?- ela queixou-se e levantou da cama, procurando pela calça jeans, estava usando apenas camiseta e calcinha.
Jack vestiu sua camisa, as calças e calçou os sapatos. Estava planejando comer alguma coisa, verificar as pessoas no acampamento e depois dar um passeio com Kate na floresta. Entretanto, mal colocou o pé para fora da barraca e percebeu que havia algo errado no acampamento. Todos estavam reunidos no centro da praia, conversando entre si com os semblantes muito sérios.
- Eu tenho certeza do que eu vi! Era um monstro!- bradava Nikki, muito assustada. Paulo a abraçava tentando confortá-la.
- Mas o monstro que você está descrevendo Nikki, não se parece em nada com a fumaça preta que eu já vi!- falou Charlie.
- E por que o seu monstro necessariamente tem que ser igual ao dela?- refutou Paulo.
- Monstros não existem!- disse Bernard.
- O que está acontecendo?- perguntou Kate, enquanto prendia o cabelo num coque, vendo todo mundo reunido no meio da praia.
- Eu não sei.- respondeu Jack indo para lá.
- Dudes, sei lá, essa ilha é sinistra, pode ter sido qualquer coisa!- comentava Hurley quando Jack e Kate se aproximaram.
- O que aconteceu?- Jack foi logo indagando.
- Parece que a Nikki viu algo.- falou Eko que ainda não se manifestara.
- Gente, alguém viu a Ana-Lucia?- perguntou Sawyer se metendo na discussão.
- Não!- responderam alguns sem dar muita importância, estavam mais interessados no relato de Nikki sobre ter visto uma estranha criatura logo cedo.
- Mas em plena luz do dia!- exclamou Claire embalando Aaron nos braços, a medida em que Nikki continuava sua narrativa.
- Eu não acho a Ana-Lucia em lugar nenhum!- Sawyer desabafou baixinho para Jack.
- Ela deve ter ido pra cachoeira ou fazer uma caminhada na floresta.- Jack disse, assim como os outros, mais interessado no que Nikki estava contando.
- Doc, eu estou falando sério, já estive em todos os lugares pra onde ela costuma ir, e simplesmente não a encontro.
Mas Jack não o estava ouvindo: - Onde você disse que isso aconteceu, Nikki?
- Dentro da floresta, cerca de um quilômetro e meio.- Paulo respondeu por ela.
- Sim.- Nikki concordou com ele, e repetiu a narrativa que tinha acabado de contar às pessoas para Jack. – Eu e o Paulo saímos para caminhar bem cedo, e eu me afastei um pouco dele para usar o banheiro, e foi quando o vi, aqueles olhos estranhos, nunca tinha visto uma coisa como aquela. Estava agachado sob uma poça de sangue, mas não havia corpo.
- Você viu o tal monstro também, Paulo?- questionou Kate.
- Não vi não, na hora eu só ouvi o grito da Nikki e corri pra lá, não vi o monstro, mas vi as pegadas, o sangue e achei isto!- ele tirou um elástico amarelo desgastado do bolso.
Os olhos azuis de Sawyer se alargaram, reconhecendo o objeto de imediato.
- Isso é da Ana-Lucia!- afirmou, assustado.
As pessoas começaram a se entreolhar com medo ao ouvir a afirmação dele, imaginando se mais um habitante do acampamento havia sido morto pelas forças misteriosas da ilha.
- Jack ,eu preciso de uma arma!- Sawyer pediu humildemente, encarando Jack.
- Eu vou te dar a arma, Sawyer.- concordou Jack. – Mas vou com você atrás da Ana-Lucia.
- Gente, de repente não aconteceu nada com ela, talvez a tal criatura que a Nikki viu tivesse matado algum outro animal...
- Eu não conto com o ovo na galinha, sardenta!- respondeu Sawyer, muito sério. – Ana saiu pra correr muito cedo, já devia ter voltado!
- Certo!- disse Kate. – Então eu vou com vocês!
- È melhor você ficar Kate!- falou Jack, ele não fazia a menor idéia do que iriam enfrentar, e odiava quando Kate fazia questão de se colocar em situações de risco.
- Não Jack, nem começa!
- Kate!- ele insistiu.
- Não me diga o que eu não posso fazer!- ela bradou. – Vão precisar de mim pra rastrear!
Sawyer interrompeu a pequena discussão deles, muito irritado:
- Hey, deixem pra brincar de casinha quando eu achar a minha garota!
- Eu vou com vocês só até o local das pegadas!- avisou Paulo.
- Tome cuidado!- pediu Nikki, dando um rápido beijo nos lábios dele.
Em seguida, os quatro rumaram rapidamente para a escotilha, para pegar as armas e adentrar a floresta em busca de Ana-Lucia.
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O local onde supostamente Nikki tinha visto o monstro não ficava muito longe da escotilha. Jack assustou-se com o tamanho das pegadas, mas não admitiu em hipótese alguma que pudesse ser algum tipo de monstro, ele era um homem da ciência, não ligava para crendices.
- Isso tá me parecendo com pegadas de um urso polar!
- Ah, qual é doc?- rebateu Sawyer. – Só se for um urso polar super-alimentado!
- Daqui eu consigo rastrear pra onde ele foi! As pegadas estão espalhadas, mas obedecem a uma espécie de padrão!- disse Kate, torcendo o nariz pra quantidade de sangue que havia no local.
- Será que esse sangue é mesmo humano?- indagou Paulo.
- Não temos como saber assim!- respondeu Jack.
- Eu acho que já chega de perdermos tempo!- falou Sawyer, engatilhando seu rifle.
- Eu vou voltar pro acampamento.-avisou Paulo.
- Ok!- concordou Jack, seguindo Sawyer e Kate que já se embrenhavam na mata rastreando as pegadas da estranha criatura.
Caminharam por cerca de uns quarenta minutos dentro da mata, seguindo as pegadas, mas não encontraram nada. Exaustos, pararam à beira de um riacho para descansar e beber água. Foi quando Kate escutou os sussurros, palavras desconexas, ditas no vento, que ela não conseguia entender. Olhou para Sawyer e viu que ele estava muito preocupado. Aguçou os ouvidos para tentar entender algo do que os sussurros diziam. Estranhamente era só ela quem conseguia ouvir.
Kate começou a andar na direção das vozes, apesar de ainda não conseguir entender nada do que diziam, era como se as vozes a tivessem guiando para algum lugar importante, chamando-a.
- Kate!- chamou Jack ao vê-la se afastando dele e de Sawyer. – Aonde você vai?
Ela não respondeu e continuou caminhando. Jack e Sawyer se entreolharam e a seguiram, imaginando que ela tivesse visto ou ouvido alguma coisa.
- O que foi sardenta? Pra onde está indo?- indagou Sawyer, curioso.
- Shiiii.- ela pediu silêncio a ele, levando o dedo indicador à boca, as vozes estavam ficando mais claras para ela, pareciam dizer, "Ana vai pagar, Ana vai pagar"!
De repente, uma chuva torrencial começou a cair, e eles chegaram à uma clareira onde havia um enorme bambuzal. O coração de Sawyer disparou ao ver Ana-Lucia amarrada no alto do bambuzal, com uma corda no pescoço.
- Ana!- ele gritou, nervoso.
- Ai meu Deus!- exclamou Kate.
- Temos que tirar ela de lá agora!- bradou Jack.
Sawyer mais que depressa tentou subir pelo tronco do bambu, mas era muito desajeitado para a tarefa e seus pés escorregavam, a chuva e a lama também não estavam ajudando muito.
- Deixa comigo!- disse Kate. – Subo em árvores melhor do que você!
E dizendo isso, ela escalou com um pouco de dificuldade o bambu liso, mas conseguiu subir com a destreza de quem estava acostumado a executar esse tipo de tarefa. Tirou uma faca que tinha no bolso de trás da calça, e pôs-se a cortar a corda. Não demorou muito e a corda cedeu, Sawyer tratou de segurar Ana-Lucia antes que o corpo desfalecido dela se estabacasse no chão.
- Ana-Lucia! Ana-Lucia!- ele gritou passando as mãos pelo pescoço dela, retirando um pedaço de corda que ainda estava preso.
Jack apertou os olhos e mordeu os lábios, aquilo era um "deja vu" para ele e Kate. Uma vez se encontraram com Charlie na mesma situação e o médico sentiu muito ódio por aquilo estar acontecendo de novo, com outra pessoa do acampamento.
- Se afaste, Sawyer!- ele pediu. – Vou cuidar dela!
Mas Sawyer não se afastou, deu apenas espaço para que Jack a olhasse. Kate ficou parada debaixo da chuva com as mãos no rosto, temendo pela vida de Ana-Lucia, não gostava dela, tinham suas diferenças, mas não queria que ela morresse.
Sawyer deitou a cabeça dela em seu colo enquanto Jack apalpava-lhe a garganta. Em seguida, ele começou a fazer respiração boca a boca em Ana, tentando trazê-la de volta ao mesmo tempo em que massageava seu peito com intensidade. Nos primeiros momentos, não houve mudança no semblante dela, e sem perceber Kate estava chorando, escorada no bambuzal.
- Vamos Ana!- pediu Jack. – Você é forte, já escapou de uma pior do que essa!
Ele continuou insistindo na massagem cardíaca e na respiração. Sawyer permanecia quieto, compenetrado, com a cabeça dela em seu colo, pedindo internamente que Jack a salvasse, até que finalmente um sopro de vida tomou-lhe e ela puxou o ar que Jack lhe enviava com força para dentro de seus pulmões. Seu rosto adquiriu um pouco mais de cor e ela abriu os olhos, atordoada.
- Ana!- exclamou Jack, sorrindo.
Kate sorriu também ao vê-la despertando e correu até eles, abraçando Jack por trás, deitando sua cabeça nas costas dele que estava de joelhos na lama. Ana-Lucia não conseguia dizer nada, sua garganta latejava e ela se sentia perdida e confusa, debateu-se momentaneamente tentando entender o que acontecia ao seu redor, até que vislumbrou os olhos azuis de Sawyer, encarando-a, olhos amorosos e lacrimejantes.
- Sawyer...- ela chamou num fio de voz.
- Eu estou aqui, baby, eu estou aqui!- ele limitou-se a dizer.
A chuva parou tão rápido quanto tinha começado. Saywer suspendeu Ana-Lucia em seus braços e eles fizeram o trajeto de volta para o acampamento sem entender nada do que acontecera.
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Um pacto mútuo de silêncio surgiu depois disso, a pedido de Ana-Lucia. Ela não comentou com absolutamente ninguém sobre o garoto que vira na floresta antes de ser seqüestrada e amarrada no bambuzal. A criatura que Nikki afirmou ter visto na floresta, não foi vista novamente, e como Ana-Lucia voltou para o acampamento viva, concluiu-se que o sangue encontrado na floresta não era o dela e muito menos de outra pessoa do acampamento, Jack pediu a Hurley que fizesse um outro censo e constatou-se que estavam todos vivos e bem.
Mas o pacto de silêncio foi feito, entre Ana, Sawyer, Jack, Kate, Eko e Locke, os únicos que ficaram realmente sabendo o que acontecera com ela na floresta, aos demais contaram que ela se perdera na floresta e quase morrera escorregando de um penhasco. Sayd não acreditou nessa versão, poderiam enganar qualquer pessoa, menos ele. Mesmo assim, preferiu ficar na sua e esperar pelos próximos acontecimentos, se houvessem.
Duas semanas se passaram depois desse incidente. Sawyer e Ana-Lucia ficaram ainda mais conectados, e de repente já não se importavam mais de serem vistos juntos trocando carinhos. No início, as pessoas comentavam e faziam piadinhas sobre o inusitado casal, mas depois se cansaram de falar. Com Jack e Kate, foi a mesma coisa, sem perceberem passaram a namorar ao ar livre, na frente de todos, andando de mãos dadas e trocando beijinhos apaixonados. Paulo comentou certa vez que se o resgate não vinha, "crescei e multiplicaivos!"
Mas até aquele momento, o único sinal de multiplicação que havia no acampamento era a gravidez bastante adiantada de Sun. A coreana exibia uma linda barriga e alegres, ela e Jin a cada diz preparavam alguma coisa nova para o bebê que ia chegar logo. Naquele dia, Sun estava cortando alguns pedaços de pano que serviriam de fraldas para o bebê quando Hurley a abordou tentando parecer desinteressado:
- Hey Sun! Tudo bom?
- Está tudo bem Hurley!- ela respondeu sorrindo, momentaneamente tirando sua atenção do que fazia.
- Eu tô parecendo mais velho pra você hoje?
Sun ergueu novamente o rosto:
- E por que pareceria?
- Nada não, só estou tendo uma pequena crise existencial hoje, até mais dude!- disse ele, se afastando.
- Até!- respondeu Sun, voltando a concentrar-se em sua tarefa.
Hurley saiu caminhando cabisbaixo pela praia, estava muito triste e desanimado aquela manhã. Observou Rose lavando roupa em uma tina, duas garotas conversando, Charlie tentando dar papinha a Aaron que cuspia tudo e sujava a camisa dele, Steve jogando gamão com Sayd. Tudo estava calmo, nada mudava nunca, o resgate nunca chegaria e eles morreriam naquela ilha. Pensando nisso, ele resolveu ir para o único lugar onde se permitia sofrer por horas a fio sempre que sentia necessidade, o túmulo de Libby.
Chegando lá, sentou-se em um tronco ao lado da cova e levou as mãos ao rosto, chorando. Assim que se acalmou, limpou o rosto displicentemente e pôs-se a conversar com Libby:
- Oi amor, aqui estou eu outra vez.
Kate vinha caminhando pela floresta, caçando passarinho com um estilingue que ela mesma confecionara, quando viu Hurley sentado ao lado do túmulo de Libby. Sentiu pesar por ele, e já ia perguntar se estava tudo bem quando o ouviu dizer:
- Sabia que hoje é o meu aniversário! Mas ninguém aqui desse acampamento sabe disso! Também que diferença faz fazer aniversário aqui? Isso só serve pra me lembrar que é mais um dia que passo nessa ilha, mais um dia longe da minha família!
Ao ouvir aquelas palavras, Kate se escondeu atrás de uma árvore para que ele não a visse, e ficou pensando consigo que entendia exatamente o que ele queria dizer. Já se sentira assim muitas vezes, mas não ali na ilha, por mais estranho que parecesse, a ilha era o único lugar onde realmente se sentia acolhida e amada. E tudo isso por causa de Jack Shephard, a cada dia se apaixonava mais por ele. E os sentimentos que tinha por Sawyer, se esvaíram, ficando bem claro em seu coração que o que ela sentia pelo texano era apenas uma profunda amizade.
Ela ficou observando Hurley mais um pouco, até que decidiu deixá-lo realmente sozinho com seus pensamentos. Queria poder ajudá-lo de alguma forma. Ajudá-lo a sentir-se mais querido dentro do acampamento, mas como? De repente, uma idéia assaltou-lhe. Era aniversário dele, por que não fazer uma festa? Isso seria uma coisa inédita na ilha, mas ia ser muito divertido também, se estavam mesmo presos lá, que mal haveria em terem um pouco de diversão?
Correu até o acampamento e logo avistou a pessoa com quem queria falar primeiro sobre isso, Charlie!
- Hey, Charlie!- ela chamou enquanto se aproximava dele. O roqueiro estava entregando Aaron de volta para Claire, enquanto tentava sem sucesso limpar as manchas de papinha que se espalhavam por toda sua camisa preta.
- Oi Kate!- ele disse, quando a ouviu chamá-lo.
- Olá Claire!- Kate saudou a australiana.
- Oi Kate.- Claire respondeu. – Eu vou dar um banho no Aaron, com licença!
- Vai lá!- falou Kate, voltando seus olhos para Charlie.
- O que que foi?- indagou ele. – Por que toda essa empolgação?
- Hoje é aniversário do Hurley!
- Sério? Mas ele não me disse nada. Como você sabe?
- Eu meio que escutei sem querer ele dizendo. Mas acha que é bobagem e prefere que ninguém saiba. Então eu tive uma idéia.
- Que idéia?
- Por que não fazemos uma festa de aniversário surpresa pra ele? Com muita comida! A gente pode pedir a contribuição de todo mundo, tipo, o Locke poderia caçar um porco, o Jin pescar alguns peixes, a gente colhe umas frutas, pede uns legumes da horta da Sun...
- Nossa, isso vai ser demais!- exclamou Charlie. – A gente pode até pedir bebida pro cara da escotilha!
- Pro Desmond?- questionou Kate. – Mas ele é tão estranho, soturno, quase não fala com ninguém, não se envolve com nada aqui no acampamento.
- Ah que nada, o Dezzie é uma ótima pessoa, você que ainda não teve oportunidade de conversar com ele. Pode deixar que eu arranjo as bebidas!
- Então tá, eu vou falar com o Jack e com quem mais tiver na escotilha, você vai falando com o pessoal daqui e lembre-se, o Hurley não pode nem sonhar com isso, vai ser surpresa!
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Ana-Lucia lia preguiçosamente na cama, um dos livros de Sawyer, cujo título era bastante sugestivo: "God, are you there? It's me Margareth!", quando "o próprio" entrou todo molhado na barraca, só de calção e puxou o livro das mãos dela, dizendo:
- Tá legal, me diz agora, nesse exato momento, o que você quer, e eu te dou!
Ana deu uma risada:
- Como é que é?
- Tô falando sério, docinho! Qualquer coisa que me pedir, será sua!
- Hum, deixa eu pensar!- ela falou, envolvendo seus braços no pescoço dele e o puxando para si. Beijou-o nos lábios e em seguida deu lambidas no rosto e pescoço dele. – Você está salgado!
- Tava tomando banho de mar.- ele respondeu, se acomodando entre as pernas dela. – E então, não vai me responder não? Essa é a sua última chance, cupcake!
- Então é isso o que eu quero!
- O quê?- ele questionou sem entender.
- Cupcake!
- Cupcake?- ele repetiu.
- Exato, você vai conseguir cupcakes pra mim, faz tanto tempo que eu não como, e você vive me chamando de cupcake...
- Mas Ana, onde diabos eu vou arranjar cupcakes pra você, hã?
- Sawyer, você me perguntou o que eu queria e disse que eu poderia pedir o que eu quisesse! Então eu quero cupcakes! Pensou que eu fosse pedir o quê? A lua, as estrelas?
Sawyer franziu o cenho.
- Trate de arranjar cupcakes pra mim, porque eu estou desejando!
- Desejando?
Ela assentiu, balançando a cabeça.
- Agora me deixe terminar de ler o livro, cupcake!
Ele deu um suspiro resignado, pensando no que ele tinha acabado de inventar. E agora, onde arranjaria cupcake para satisfazer a gula de Ana?
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- John! Jack! Vocês estão aqui?- Kate indagou ao adentrarba escotilha e não ver ninguém nem na sala do computador, nem na cozinha e muito menos no quarto. Mas Jack tinha lhe dito logo cedo que ia ficar a manhã toda na escotilha com o Locke. Chamou por ele novamente: - Jack!
- Eu!- ele respondeu do banheiro, o chuveiro estava ligado, mas ele conseguiu escutar a voz de Kate chamando por ele.
Notando que ele estava no banho, Kate sorriu, marota. Locke não estava lá, o que significava que poderiam ficar sozinhos algum tempo. Ela então, girou a maçaneta da porta do banheiro, ficando feliz em encontrá-la destrancada. Trancou-a assim que entrou no banheiro.
- Kate?- Jack chamou, mas não ouviu resposta. Começou a pensar que havia sido impressão sua ter escutado a voz dela.
Sorrateira, Kate caminhou na ponta do pé e despiu toda a sua roupa, peça por peça. Jack surpreendeu-se quando ela entrou no boxe de repente, completamente nua.
- Hey you!
- Hey stranger!- ele respondeu sorrindo. – O John está lá fora, não dá pra gente ficar brincando aqui no banheiro agora.
- Hum, hum!- ela disse balançando a cabeça negativamente. – O John não está lá fora.
- Mas pra onde ele foi?
- Eu não sei, Jack!- ela murmurou roçando seu corpo nu, no corpo molhado dele.
Jack a abraçou e deslizou os lábios pela nuca dela, descendo as mãos pela cintura esguia de Kate e apertando seu traseiro.
- Hoje é aniversário do Hurley!- ela comentou. – Nós vamos fazer uma festa surpresa pra ele!
- Uma festa?- Jack indagou. – Interessante!
- Pois é, e todo mundo vai colaborar com alguma coisa, vai ser muito legal!
- Tenho certeza que sim!- disse Jack, se abaixando e abocanhando um seio dela.
Kate esticou a mão e pegou o sabonete no porta-trecos do boxe e o entregou a Jack, erguendo a sobrancelha sugestivamente. Ele entendeu o recado e começou a ensaboá-la, sua mão deslizando sensualmente por seu corpo, acariciando suas partes sensíveis. De repente, ele largou o sabonete no chão e a imprensou contra a parede de azulejos fria do banheiro, tomando-a. Kate deu um grito de prazer e se enroscou no corpo dele.
Nesse momento, Locke entrou na cozinha e escutou o grito de Kate, seguido de risadinhas e gemidos de prazer do casal. Ele balançou a cabeça negativamente, e jogou um copo de alumínio no chão para que os dois soubessem que ele estava lá.
- Quem está aí?- indagou Jack do banheiro.
- Ah Jack, você está aí? Pensei que tinha saído e deixado o botão sozinho!- ironizou Locke.
- Ah não, não! Eu estou só tomando um banho.
- Então tá, vou ficar na sala do computador.- mas antes que fosse para lá, Locke cumprimentou Kate, só para deixá-la embaraçada. – Ah, oi Kate!
- Olá John!- ela respondeu de dentro do banheiro, muito vermelha.
Jack queria rir da cara dela.
- Eu acho melhor eu sair daqui!- ela disse, se afastando dele.
- Nada disso, foi você quem começou!- falou Jack, mantendo-a pressionada na parede, voltando para o interior do corpo dela, ainda com mais vontade.
- Hummm Jack, não faz assim...
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Já era noite e Sawyer não tinha conseguido o que prometera à Ana-Lucia. Estava pensativo, sentado em frente á sua barraca, ignorando toda a movimentação que estava acontecendo no acampamento em decorrência do aniversário de Hurley quando Charlie se aproximou dele.
- Mas você é um folgado mesmo né? Nem tá ajudando com o niver do Hurley!
- Ah, hoje é aniversário do Jabba? E eu com isso? Tenho coisas mais importantes com o que me preocupar.
- Como o quê, por exemplo?- perguntou Charlie.
Sem ter nada a perder, Sawyer resolveu se abrir com ele:
- È que eu prometi que daria uma coisa à Ana e não consegui!
- Cara, então você tá ferrado! Não pode prometer uma coisa a uma mulher e não cumprir! Ainda mais uma do tipo da Ana-Lucia.
- Tá, e o que você acha que eu deveria fazer?
- Se você der uma força aqui pra gente com a festa do Hurley, eu vou te ajudar com isso. Mas primeiro me fala, o que foi que você prometeu?
- Cupcakes. Você sabe, aqueles bolinhos caseiros recheados de chocolate e cobertos de açúcar!
Charlie arregalou os olhos azuis para ele:
- Então eu sei exatamente o que você deve fazer! Deixa comigo! Mas agora vem dar uma mão pra gente que daqui a pouco o Jack tá trazendo o Hurley pra cá!
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- Dude, eu já tô cansado de passear na floresta, quero voltar pra minha barraca!- queixou-se Hurley para Jack.
- Ainda não, já estamos quase terminando!- falou Jack, colhendo algumas plantinhas do chão e guardando-as em um saco plástico.
- Ai, por que fui aceitar ajudar você a procurar plantas medicinais? Cê devia ter chamado a Sun, ela manja muito mais disso do que eu. Meus pés estão me matando.
- Calma, já está acabando, Hurley. Segura esse saco aqui pra mim!- disse Jack ,querendo rir. Combinara com o pessoal da praia que sumiria com Hurley a tarde inteira para que eles pudessem organizar a festinha de aniversário surpresa para ele. Estava só esperando um sinal para que pudesse levá-lo para a praia.
Um estrondoso morteiro foi lançado no céu da ilha, emitindo o brilho inconfundível de fogos de artifício. Hurley assustou-se.
- Dude, o que será que está acontecendo lá na praia?
- Eu não sei.- respondeu Jack, preocupado. – Acho melhor irmos pra lá averiguar!
Os dois saíram correndo, tomando o caminho da praia. Logo chegaram, não estavam muito longe.
- SURPRESA!- gritaram todos quando Hurley adentrou o acampamento. Ele ficou de boca aberta, vendo tudo o que tinham feito. A praia estava cheia de enfeites, e bem no centro dela havia uma mesa cheia de comida de todos os tipos, além de uísque e vinho.
Os olhos dele brilharam, não tinha palavras para agradecer.
- Dude, como vocês souberam que hoje era o meu aniversário?
- Pessoal, vamos cantar parabéns pro Hurley!- disse Kate, puxando o coro.
Enquanto todos cantavam parabéns, Sawyer puxou Ana-Lucia para um canto.
- O que foi?- ela indagou. – Vamos perder a festa!
Ele mostrou a ela uma caixinha rosa, e a depositou em suas mãos.
- Mas o que é isso, Sawyer?
- Abre!- ele pediu.
Ana-Lucia ergueu uma sobrancelha e abriu a caixinha. Estava vazia.
- Eu acho que deveria ter uma coisa aqui dentro não é?
- E tem!- ele afirmou. – Não está vendo? Aí está o cupcake que você me pediu.
- Hã?
- Não era isso que você queria? Eu tive a sorte de conseguir roubar um da caverna de um urso polar e olha que ele ficou muito zangado porque esse era o único recheado com mousse de chocolate.
Ana-Lucia ficou paralisada, sem saber o que dizer.
- Ah, você não quer? Então eu como ele por você, mas depois não me vem mais com essa história de que está desejando cupcakes, porque eu consegui um pra você!
Ele pegou a caixinha das mãos dela e ia fingir comer o bolinho, conforme Charlie havia lhe instruído quando Ana-Lucia se atirou nos braços dele e o beijou intensamente. Ao longe, Charlie observava os dois, e comentou consigo em pensamento: - Eu sabia que ia dar certo!
- Sawyer, eu te amo, te amo!- sussurrou Ana-Lucia enquanto se beijavam.
Sawyer a levantou do chão e rodou com ela, num típico gesto apaixonado. As pessoas aplaudiram ao ver a demonstração de carinho em publico dos dois.
- Pessoal, já chega de cumprimentos!- disse Hurley. – Vamos à melhor parte agora!
- È isso aí, galera!- gritou Charlie. – O jantar está servido!
Alvoroçadas, as pessoas correram para a mesa e começaram a se servir de tudo o que mais gostavam, excessos aquela noite certamente seriam permitidos. Sayd tentou sintonizar o rádio para fazer a animação da festa. O aparelho fez estática e as pessoas começaram a falar empolgadas, em uníssono:
- Vai Vai Vai Vai!
Uma música animada começou a tocar no rádio, um antigo sucesso chamado "Born to be alive". As pessoas começaram a dançar, se divertindo muito. Era definitivamente um dia muito alegre na ilha. Jack puxou Kate para dançar, e os dois começaram a tentar fazer passos na pista de areia. Num dado momento, ela trocou um olhar com Ana-Lucia, a latina sorriu para ela, aconchegada nos braços de Sawyer, Kate devolveu o sorriso, tudo estava em paz, pelo menos por enquanto.
Entretanto, nem todas as pessoas estavam livres e despreocupadas aquela noite. Sozinho, Eko mantinha sua vigília próximo à igreja, preparado para qualquer tipo de ataque vindo do inimigo.
Continua...
