Pecado Original

" - Então a serpente tentou Eva para que ela comesse do fruto proibido e depois o oferecesse a Adão. Sem conseguir resistir à tentação e muito curiosa para descobrir sobre todas as verdades do mundo, Eva se entregou e comeu. Quando Adão voltou ao Jardim do Éden, Eva apressou-se em oferecer-lhe a maçã. De início, ele rejeitou mas assim como Eva, não resistiu e comeu do fruto do proibido."

Ana-Lucia franziu o cenho diante da narrativa bíblica que Mr. Eko contava com toda a sua serenidade. Era noite de lua cheia, e os sobreviventes mais uma vez se reuniam em volta da fogueira crepitante. Naquela noite, Eko fora o encarregado de contar as histórias, e em sua grande sabedoria narrava a todos a história de Adão e Eva, o princípio de tudo.

- Por que esse olhar, Ana?- indagou o Padre, percebendo a expressão dela. – Eu sequer terminei de contar a história.

- E nem precisa, Eko!- ela respondeu. – Eu costumava ser assídua nas minhas aulas de catecismo quando criança, e sei muito bem que Eva será culpada por ter oferecido a maçã a Adão e por isso os dois foram expulsos do paraíso, daí vieram todas as desgraças que hoje assolam a humanidade.

Locke deu um sorriso: - Ana levantou uma questão interessante, e eu realmente adoro históricas bíblicas, elas podem ser capazes de explicar tudo dependendo da interpretação. A serpente e a maçã, a primeira parábola da Bíblia. Observem a ambigüidade da serpente com a maçã, a apologia do sexo proibido. Serpente e maçã não podem coexistir! Entendem o que eu digo!

- Locke, legal esse seu papo "Nova Era" dude, mas eu tô a fim de escutar o resto da história.-falou Hurley.

- È Eko, continua!- pediu Claire, aconchegando Aaron adormecido em seus braços.

Ao lado de Claire, Jack e Kate dormiam, um escorado no outro, já não estavam prestando atenção à história há um bom tempo. Ana-Lucia se levantou:

- Eu vou dormir, boa noite a todos.

Saiu caminhando em direção à barraca de Sawyer quando sentiu ânsia de vômito.

- Ai não, outra vez! Nada para no meu estômago! Shit!

Correu para um canto onde ninguém pudesse vê-la e vomitou. Depois lavou a boca com um pouco de água numa tina do lado de fora da barraca, respirou fundo e entrou nela. Sawyer cochilava com um livro aberto sobre o peito. Ana-Lucia pegou o livro de cima dele e o jogou num canto, em seguida tirou a calça jeans e as botas, deitando-se ao lado dele na cama.

Ao sentir o corpo morno dela ao lado do seu, Sawyer passou um braço pela cintura dela e trouxe-a para si: - Chica!- murmurou.

Ela ficou calada, e se aconchegou no corpo dele, beijando-lhe a face.

- Sawyer?

- Yeah?- ele indagou, sonolento.

- Acha que algum dia seremos resgatados dessa ilha?

- Aham!- ele respondeu, mas não estava prestando atenção, já havia adormecido outra vez.

Ela resolveu fechar os olhos também, e logo adormeceu.

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Claire dormia tranqüilamente, em sono profundo quando sentiu uma respiração quente em seu ouvido, algo incômodo. Fez uma careta de olhos fechados, mas logo a sensação passou, já não sentia o ar quente em seu rosto e o sono a tomou novamente. Inconscientemente ela aconchegou-se ainda mais a Charlie, que dormia esparramado ao seu lado de braços abertos.

Aaron, em seu bercinho, estava acordado, mas quietinho, de olhos bem abertos. Um vulto gigantesco se mexia na entrada da pequena barraca, e se arrastava para dentro, tentando entrar com seu pesado corpo. Silencioso, o vulto que aos poucos, iluminado pelo intenso luar ganhava ares de um ser real, se empurrou com esforço pela porta estreita de lona, que começou a ceder de modo que pudesse acomodar tão enorme intruso, encostou sua grande e assustadora cabeça no bercinho de Aaron. O menino ficou agitado no berço e caiu no choro ao sentir a textura gelada de um focinho sobre seu corpinho.

Claire e Charlie acordaram imediatamente com o choro do bebê, e seus olhos se alargaram ao ver um imenso urso polar sobre o berço do pequeno.

- Ai meu Deus! Ai meu Deus!- murmurou Claire, baixinho, com medo até de respirar.

O animal estava inclinado sobre o berço, a lona da barraca cedendo aos poucos. Ele cheirava Aaron com curiosidade, que não parava de chorar. Desesperado, Charlie levantou-se do lado de Claire e tentou puxar o berço de perto do urso, mas aparentemente, o bicho estava mais interessado em Aaron do que supunham e não hesitou em atirar Charlie para longe com a pata.

- Charlie!- gritou Claire, vendo-o cair desmaiado na areia.

O urso deu um urro feroz para Claire, que se afastou rapidamente, chorando desesperada e com muito medo pelo filho. Queria gritar e pedir socorro, para que todos acordassem e viessem em seu encalço, mas misteriosamente ninguém tinha percebido nada do que se passava e continuavam dentro de suas barracas dormindo.

- Sai de perto do meu filho!- murmurou.

O enorme animal voltou a debruçar-se sobre Aaron, lambendo-o. Claire gritou em pânico, com medo de que o bicho estivesse prestes a devorá-lo.

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Um choro alto de bebê despertou Ana-Lucia de seu sono, e inquieta ela se soltou dos braços fortes de Sawyer que a prendiam e rolou de lado na cama. Teria sido um sonho afinal? Mas então o choro voltou a se repetir, ainda com mais intensidade, e ela teve certeza de que não estava sonhando. Ouviu vozes também, do lado de fora da barraca, murmúrios desesperados, algo com certeza estava acontecendo. Sawyer, porém, continuava dormindo profundamente. Num impulso, Ana levantou-se da cama, vestiu rapidamente a calça jeans e procurou por um objeto em particular em sua mochila.

Foi nesse momento que Sawyer acordou, os gritos lá fora e o choro de Aaron estavam mais altos. Ele olhou para Ana-Lucia que enfiava algo no cós de sua calça embaixo da camisa larga dele, que ela vestia.

- Ana, aonde você vai? O que está acontecendo lá fora?

Ela não se deu ao trabalho de responder, e saiu correndo para fora da barraca. Sawyer a seguiu e se deparou com a cena inusitada de um urso polar ameaçando todos para que ficassem longe de Aaron. Seus olhos se alargaram, horrorizados. Claire tremia amparada por Rose, e Charlie estava desmaiado no chão.

- Mas onde diabos está a cavalaria desse acampamento? Locke, Sayd, Jack?- indagou Sawyer.

Ele olhou Ana um pouco mais a sua frente, ela parecia caminhar em direção ao urso, encarando-o.

- Ana, você enlouqueceu?- Sawyer bradou, ao perceber que ela se aproximava cada vez mais do bicho.

Mas ela não o ouvia, seu olhar travava com o do urso, tão feroz quando o do animal, e sem pensar duas vezes, Ana-Lucia inacreditavelmente tirou do cós da calça uma pistola carregada e acertou vários tiros no urso polar, que por um milagre não caiu morto em cima do bercinho de Aaron. Assim que viu o urso caído, Claire se soltou dos braços de Rose e correu até o filho. Ana-Lucia ficou parada no meio da praia, com a arma ainda em punho. Sawyer apressou-se até ela.

- Você ainda tem a minha arma? Quando pretendia me contar?

Várias pessoas socorriam Charlie naquele momento, dizendo que o levariam para a Escotilha, onde estava Jack. Ana não se deu ao trabalho de responder a pergunta de Sawyer, e voltou para a barraca. Sawyer foi atrás dela.

- O quê? Não vai falar comigo agora? Por que escondeu isso de mim?

Ela entrou na barraca, dando as costas para ele. Sawyer entrou atrás dela e bradou: - Não dê as costas para mim! Dammit! Você roubou a minha arma, veio viver comigo e nem sequer me disse que ainda estava com ela. Por que mentiu pra mim?

Ana-Lucia deu-lhe um olhar raivoso:

- Por que tudo se resume ao que você tem e o que você não tem, Sawyer?- ela indagou. – Não estava satisfeito em me ter, precisava da arma também?

- Não é nada disso! Eu adoro você, mas pensei que não existissem mais mentiras entre nós!

- E o que importa se eu tinha uma arma? Salvei o bebê não salvei?- ela protestou, nervosa.

- Esse não é o ponto! Se você mentiu pra mim sobre isso, pode estar mentindo pra mim sobre outras coisas e eu não quero ficar dormindo com o inimigo!

- Fine, Sawyer! Se você me vê como sua inimiga, que seja!

Sawyer percebeu que a discussão estava tomando proporções drásticas, e ele realmente não queria brigar com ela, estava magoado porque Ana lhe escondera a arma, mas ao mesmo tempo não dava a mínima, eram sentimentos conflituosos que se resumiam em uma coisa só, Sawyer a amava e para ele era tudo o que importava.

- Cupcake!- Sawyer disse com a voz doce. – Eu não quero brigar, vamos esquecer esta história de arma, apagar isso de uma vez por todas.

Ele se aproximou dela, com cuidado. Ana-Lucia ficou parada no meio da barraca, olhando pra ele com uma expressão muito séria. De frente para ela, Sawyer tocou sua face e em seguida a puxou num abraço caloroso, beijando o topo de sua cabeça. Sentiu que o corpo dela tremia ao seu toque, e sussurrou:

- Eu pensei que já tínhamos resolvido isso, por que ainda insiste em me afastar de você?

Ana o surpreendeu beijando-o após ele murmurar essas palavras. Sawyer colou seu corpo ao dela e a deitou na cama. Roçou o rosto em seu pescoço, e disse baixinho ao pé do ouvido: - Eu te amo, Ana-Lucia, te amo!

Ela fechou os olhos e ficou parada, como se estivesse lutando dentro de si mesma para tomar uma decisão que não queria. Sawyer entrelaçou seus dedos com os dela por alguns momentos, quando sentiu que ela parecia relaxar, pôs-se a abrir um a um os botões da camisa que ela usava.

- Não sei porque ultimamente você pegou gosto em vestir as minhas camisas!- ele disse, sorrindo.

Fazia algumas semanas que não se amavam. Locke inventara uma grande expedição para o interior da ilha em busca de carne na qual Sawyer achara divertido participar e ficou um bom tempo ausente. Quando voltou estava desesperado para tê-la, mas Ana sempre tinha uma desculpa para afastá-lo. A princípio ele estranhou bastante o comportamento dela, mas depois esqueceu o assunto porque ela continuava carinhosa como sempre. Mas naquela noite, depois da briga nenhuma desculpa o convenceria a não ir adiante, para ele esse era o melhor jeito de fazer as pazes.

- Senti tanto a sua falta, baby, não faz idéia!- ele dizia enquanto abria os botões da camisa.

Quando ele vislumbrou-lhe os seios, Ana começou a respirar mais rápido, visivelmente preocupada com algo. Sawyer afastou delicadamente a camisa, e seus olhos se alargaram.

- Por que os seus seios estão maiores?

Sawyer os tocou, com muito cuidado e Ana-Lucia fez uma careta, demonstrando claramente que o toque dele nos seios dela a incomodava.

- O que foi?- ele indagou, ficando preocupado.

- Meus seios estão doloridos!- ela respondeu, sem jeito.

- Por quê? Tem algo a ver com as suas "regras"?- ele questionou bastante embaraçado.

- Regras?- ela retorquiu, se permitindo sorrir um pouco.

Ele continuou tirando a camisa, até que Ana-Lucia estivesse livre dela, e quase caiu para trás quando viu que o ventre dela estava cheio e arredondado.

- Mas o quê? Você es-tá?- ele questionou, gaguejando.

- Sim Sawyer, eu estou grávida!

Sawyer se afastou dela, nesse exato momento, fitando-a como se ela fosse uma bomba relógio prestes a explodir. Ana-Lucia sentou-se na cama, cobrindo os seios com os braços numa posição de defesa. Ele ficou lá parado sem olhar para ela, por vários minutos.

- Eu estava com muito medo de te contar.- ela disse por fim. – Não só pela sua reação, mas porque eu mesma estou assustada. Mas já devíamos saber não é? Uma hora isso ia acontecer! Cometemos o pecado original, provamos do fruto proibido e aqui está a conseqüência! – Ana acariciou o próprio ventre.

- Eu sei!- Sawyer respondeu, quebrando o próprio silêncio. – Mas por que não me contou assim que desconfiou disso? Digo, há quanto tempo já sabe?

- Há mais de um mês, eu comecei a enjoar muito, e parei de menstruar. Daí, quando você inventou de partir naquela caçada eu quis te contar pra você não me deixar, porque eu não queria ficar sozinha. Mas também não queria admitir isso pra mim mesma, eu não gosto de precisar de ninguém, e preciso tanto de você...

Sawyer ergueu os olhos azuis para ela e se deu conta do quanto ela estava vulnerável e precisava do seu apoio, mas algo ainda o travava no lugar.

- Eu perdi...-ela começou a dizer. – Perdi um filho uma vez, levei um tiro em serviço e tinha muito medo de engravidar de novo e perder o bebê mais uma vez. Foi tudo o que eu senti quando tive certeza de que estava grávida: Medo. Fiquei me imaginando sozinha na floresta com uma barriga imensa sem ter ninguém pra me ajudar...

Ele não deixou ela terminar de falar e se aproximou novamente dela, tomando-a em seus braços.

- Não tenha medo, baby, não vou te deixar, nem agora, nem nunca. Nós vamos ter um filho, não importa se estamos nessa droga de ilha! Eu estou aqui com você e nada vai te acontecer.

Beijaram-se com sofreguidão, dessa vez não existiam mais segredos entre eles, só a verdade absoluta sobre o amor que os unia.

- Me ama, Sawyer!- ela pediu enquanto se beijavam.

- Acha que podemos?- indagou Sawyer com um sorriso safado no rosto.

- Yeah, desde que você me toque com cuidado...- ela respondeu, deitando-se na cama.

Sawyer colocou-se por cima dela, sem forçar seu peso sobre ela, apoiando-se nos braços. Roçou o nariz pelo pescoço dela e lambeu os bicos de seus seios, delicadamente, quase sem tocá-los. Desceu para o ventre e beijou a barriguinha aparente, com muito carinho, estava extasiado com a idéia de ser pai. Antes de cair na ilha, descobrira que tinha uma filha, apesar de ter tido o cuidado de garantir o sustento dela, nunca quis conhecê-la e ser um pai de verdade, mas agora com Ana teria essa oportunidade de estar ao lado de seu filho.

Abriu o zíper da calça dela e terminou de despi-la, queria possuí-la o mais rápido possível, era uma necessidade urgente, mas não era somente carnal, era algo mais profundo. Tendo-a despida diante de seus olhos, despiu-se também, não só das roupas, mas também de seus medos e preconceitos. Receando machucá-la, trouxe-a para cima de seu corpo e deixou que ela se encaixasse com ele, ditando o ritmo. Amaram-se profundamente, sentindo a completude de estarem juntos, corações batendo no mesmo compasso, enquanto o prazer se aproximava, infinito e absoluto para ambos.

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Na manhã seguinte, Ana-Lucia foi até a escotilha disposta a tomar um longo banho. Encontrou Kate sentada na frente da cadeira do computador digitando o código. Esta quase caiu da cadeira ao vê-la. Ana-Lucia tinha decidido, depois de revelar seu segredo a Sawyer, não esconder mais nada de ninguém, e por isso apareceu na escotilha usando uma camiseta regata branca que mostrava claramente sua barriga de quase três meses e meio.

- Oh meu Deus, você está grávida!- exclamou Kate.

- Não sardenta, eu engoli uma melancia!- rebateu Ana-Lucia, rindo do espanto de Kate.

- Desculpe.- disse Kate. – Eu não estou fazendo graça nem nada, apenas surpresa.

- Não esquenta com isso.- respondeu Ana-Lucia. – Praticamente todo mundo na praia teve essa reação ao me ver hoje cedo.

- De quanto tempo está? Eu não tinha percebido nada.

- Porque eu não queria que ninguém soubesse ainda, mas agora não me importo mais e respondendo à sua pergunta, devo estar com pouco mais de três meses.

- E você e o Sawyer estão felizes?

Ana-Lucia ergueu uma sobrancelha e deu um meio sorriso: - Felizes do nosso jeito!

- O Jack já sabe?

- Não. Vim aqui tomar um banho e esperava contar a ele, afinal ele é o único médico daqui e agora vou precisar fazer um plano de saúde o quanto antes.

Kate sorriu: - Ele saiu a pouco pra pegar umas frutas pro Charlie, mas deve voltar logo.

- E como ele está?- ela perguntou, não tinha ido checá-lo depois de atirar no urso.

- Ele vai sobreviver.- falou Kate. – Graças a você, Bernard nos contou que você salvou o Aaron de ser comido pelo urso polar.

- Fiz apenas o que precisava ser feito.- ela disse, timidamente. – Bom, enquanto o Jack não volta, eu vou tomar o meu banho. Ela se dirigiu ao banheiro e fechou a porta atrás de si.

Kate foi até o quarto verificar Charlie que ainda dormia. Parou na cozinha para beber água quando de repente, escutou passos vindos da sala do computador. Indagou com a voz doce: - Jack, é você?

Caminhou até lá, mas não encontrou ninguém. Estava começando a achar que o som dos passos tinham sido impressão sua quando sentiu algo golpeando-lhe a cabeça, vindo por trás, fazendo-a cair desmaiada no chão sem entender nada.

Ana-Lucia tinha acabado de tirar as botas, o jeans e a camiseta branca ficando só de calcinha e sutiã, quando viu um homem conhecido adentrar o banheiro que ela se esquecera de trancar. Seus olhos alargaram-se e ela bradou cheia de ódio:

- O que você está fazendo aqui?

Continua...