Séculos depois...
Naquela manhã, não foi o som irritante do despertador que acordou Hiccup Spantosicus Strondus III, nem tão pouco foi a luz do sol que entrava pela janela. O que despertou Hiccup, ou melhor quem, Toothless, que nunca gostou de acordar com o despertador, tinha fincado suas unhas na barriga de Hiccup.
— Ouch, isso doí, Toothless! Saía de cima de mim! — Entretanto, o efeito foi contrário, o gato somente apertou mais suas garras contra o corpo do menino, fazendo-o se levantar e expulsar o felino de cima de si. — Pronto, pronto! Desliguei o despertador, seu gato mimado! Você deveria me agradecer por deixar você dormir na cama comigo! — Mas o bichano não parecia estar dando muita importância para o garoto e saiu à procura de comida pela casa. — Ei, você não pode simplesmente sair assim, Toothless! Estou falando com você... Ah, deixa para lá.
Ignorando seu gato e resmungando sobre cortar as garras do felino, Hiccup foi se vestir. Hoje era um dia importante, sua mãe dizia, porque hoje ele iria entrar em um novo colégio. Entretanto, o menino não conseguia demonstrar tanto ânimo quanto sua mãe. Porque sempre havia um novo começo.
Desde que o pai de Hiccup morreu, sua mãe em uma tentativa frustrada de superar o luto, passou a trabalhar cada vez mais. Veja bem, sua mãe era bióloga, mas tinha um fascínio por répteis, então passou a afundar-se em pesquisas e indo de laboratório em laboratório ao redor do mundo para estudar mais espécies. Eram raros os momentos que os dois passavam juntos, mas o menino não se ressentia por isso.
Hiccup odiava ver sua mãe fazendo esse plano louco de trabalho e isso o fazia se sentir culpado. Se ele somente tivesse avisado seu pai, se ele tivesse sido mais firme ao impedir que ele saísse, ele teria evitado sua morte.
Seus amigos e sua mãe não entendiam porque ele se culpavam tanto, afinal, foi uma fatalidade. Não teria como Hiccup saber que o carro de seu pai capotaria, quando ele perdesse a direção por desviar de um animal. Nisso, o menino concordava, ele não previa o futuro, mas ele era diferente.
Desde criança, ele sempre foi capaz de enxergar coisas que outras pessoas não podiam. Ele não os chamava de "espírito" nem se considerava um "médium", mas gostava de conversar com eles e conhecer suas histórias. Entretanto, era difícil conseguir algum deles para conversar, até mesmo entre os humanos, porque seus "coleguinhas" achavam que ele era uma aberração por sempre ser pego "falando sozinho" ou "fazendo coisas estranhas".
Hiccup enxergava "auras" e delas ele conseguia sentir a emoção das pessoas, seu tempo de vida, a presença de sua morte e, se as tocasse, podia entrar em suas mentes. Quando as pessoas estavam alegres, a sua volta explodia um tom amarelado-brilhante que lembrava o sol; quando estavam tristes, suas auras tingiam ao azul e por aí vai. Quanto ao seu tempo de vida, Hiccup só precisava olhar para cima da cabeça das pessoas e lá, lia a informação. Mas algo que o menino sempre tentou evitar foi procurar a morte, porém não podia se esconder da proximidade da morte... Era quando as auras das pessoas ficavam pretas e seus brilhos naturais se apagavam.
Se somente tivesse avisado a seu pai, olhar para ele com a falta do costumeiro brilho saindo pela porta, sabendo que era a última vez... Nunca mais o menino foi o mesmo. Mas a grande questão era: o que você faria se soubesse que a morte de alguém está perto? Desde aquele dia, prometeu que se visse mais alguém Abraçado Pela Morte ajudaria, independente do perigo ou da situação, porque precisava ser forte e corajoso como seu pai sempre quis que fosse.
Hiccup foi despertado de seus tristes devaneios matinais por um barulho na cozinha. Então, congelou por um momento, será que sua mãe estava em casa? Enfiou sua calça rapidamente e correu até o andar de baixo para encontrar a bióloga.
Acabou nem se surpreendendo, quando viu um pote com farinha no chão e Toothless em cima da bancada olhando para ele.
— Ah, cara. Muito obrigado, Toothless. Agora eu realmente vou ficar atrasado! O que você queria dessa vez? Assar um bolo? Olha essa bagunça! — Enquanto discutia com o gato, gesticulava a toda a sujeira no chão. Mas o gato somente lambia sua pata e olhava com indiferença para o menino.
Depois de limpar tudo apressadamente e deixar comida em um lugar fácil para o bichano pegar (sem quebrar o resto da casa), o moreno pegou sua bicicleta adaptada por ele mesmo na garagem, afinal, desde o incidente em que seu pé ficou preso em uma máquina aos seus 12 anos, teve que reorganizar algumas coisas em sua vida. Pedalando apressadamente, Hiccup rezava para não chegar atrasado no seu primeiro dia.
Afinal, este "era o dia mais importante de sua vida" e, por um curto momento, ele se deixou acreditar nisso.
