INÉRCIA

por MSM


Warnings: Sétimo livro UA, Mature, NC-17, Hurt/Confort, fortes traumas psicológicos e menção a sexo não consensual.

Notas da Autora: Fanfic inspirada na música Fake Plastic Threes, do Radiohead. Sugiro que escutem a música enquanto lêem a fic. (:

Eu ia fazer dessa fic uma one-shot, mas eu adicionei umas quatro/cinco (dez) cenas depois que a fic estava "pronta" e acabou ficando ridiculamente grande, então eu resolvi dividir em duas partes.

Sinopse: Essa é a história do menino que deu à menina a sua alma e, em troca, recebeu dela o seu coração.


Notas da Autora: Às vezes o único jeito de sair de um ciclo é reinventar a si mesmo completamente. Com a ajuda e através de alguém, é claro. (:

A segunda (e última... última? hihi) parte de Inércia vem em 21 dias, isto é, três semanas. Já está terminada. Eu sei, ninguém está mais surpreso do que eu. Para quem esquecer, vai estar no cronograma de atualizações. Vejo vocês em breve!

Ah, e já que estamos aqui, vale avisar: aguardem novidade em Konstantine (juro, sério).

Revisem!


01.

gravity always wins


Hermione inspirou profundamente enquanto olhava pela janela, as gotas da chuva se prendendo no vidro e escorrendo devagar, o chá dentro da caneca tão gelado quanto o clima lá fora. Não era raiva. Já tinha deixado de ser raiva há algum tempo e se tornando mágoa ao longo do caminho. Um sentimento de abandono tão imenso no peito que parecia capaz de armazenar uma pessoa lá dentro.

Instabilidade, eles disseram, Estresse pós-traumático. Provavelmente não colaborava com o caso de Hermione o fato de ela ter sido tirada da sala aos berros, escortada por dois homens enormes, impedindo que ela arrancasse as cordas vocais do medibruxo a sua frente com as unhas, aquele filho da puta que a havia sentenciado ao inferno na Terra.

A casa era confortável. Fria e impessoal, mas inegavelmente confortável. Demorou três dias para sair do quarto e ir até a cozinha, apenas para descobrir que a comida sobre o fogão feita por Deus-sabe-quem já estava azeda por ter ficado tanto tempo fora da geladeira. Não se deu o trabalho de jogar a comida no lixo, o estômago embrulhando por conta do cheiro de podre que subiu da panela quando tirou a tampa.

Saiu da cozinha logo em seguida, o estômago fundo e dolorido pela fome. Passou os dedos pela parede ao andar até a sala. Um sofá verde escuro de dois lugares posto na perpendicular a duas poltronas. Disse a Harry que ele poderia ir se foder quando ele lhe perguntou se ela gostaria que uma televisão fosse providenciada. Era fraqueza o suficiente estar presa naquele lugar gelado, seria suicídio se aquilo se tornasse remotamente parecido a um lar.

A raiva a teria consumido viva se não fosse pelo medo. Ao cair o Sol no horizonte, o medo sempre vinha. Os joelhos contra o peito enquanto balançava suavemente para frente e para trás, esperando clarear um novo dia e manter os berros dentro do peito, por mais que as imagens reprisadas constantemente na cabeça a fizessem ter vontade de arrancar a própria pele até se tornar irreconhecível, apenas para extirpar aquilo tudo de dentro de si.

As feições duras de Fenrir Greyback eram nítidas nas suas lembranças, a sensação dos dedos daquele monstro filho de uma puta nos seus ombros, costelas, seios, pernas e quadril ainda vivos na memória com uma força que parecia queimar todo e qualquer pensamento coerente no cérebro de Hermione, deixando apenas as sensações que vinham com a mesma força que ele usara para impor o seu corpo contra o dela durante a noite escura, como aquela cela úmida e mofada onde todos os pesadelos ganhavam vida.

Conscientemente, ela não culpava Harry ou Ron pelo tempo que passou confinada no seu inferno pessoal, sabia que eles estavam tentando desesperadamente chegar a ela desde que foram separados, quando Bellatrix Lestrange a torturou por ter supostamente entrado no seu cofre de Gringotes. Ouviu o alvoroço na sala, os berros de Ron e Harry perguntando onde a tinha enfiado, para onde a tinham levado, e então, de repente, havia apenas o silêncio. E silêncio. E silêncio, silêncio, silêncio, silêncio.

As lágrimas corriam pelo rosto recostado no chão imundo da cela. As pedras frias e úmidas sob seu corpo, molhando a roupa que grudava vagarosamente contra ela. Os olhos vidrados desde o momento em que Bellatrix enfiou a faca na sua pele pela primeira vez. Mudblood, escrito em toda extensão do seu antebraço esquerdo, para que o mundo todo soubesse a imundície que corria sob as suas veias assim que a olhassem.

Hermione nunca achou que aquilo a representaria, aquela palavra vil pela qual guerras eram lutadas. Ela tinha seu valor, seu cérebro e um coração no peito que bombeava mais do que sangue pelo corpo. Hermione Granger tinha alma.

Atenção redobrada para o tempo verbal em que a frase fora construída: tinha, pretérito perfeito, o método utilizado para se dizer que algo não existe mais.

Demorou para que a quebrassem, para que a partissem em um, dois, um milhão de pedacinhos que provavelmente jamais poderiam ser colados com perfeição novamente. Não foram as surras, os berros, a falta de comida, banho ou água. Não era o sentimento de que não passava de um animal enjaulado que se agarrava com todas as forças no último pensamento coerente que passava pela cabeça. Não era a incerteza se eles conseguiriam voltar por ela, se Harry e Ron conseguiriam fazer qualquer coisa sem ela.

Não, nada disso.

O primeiro arranhão na alma de Hermione veio quando ele a olhou pela primeira vez, recostado na parede do outro lado do porão que ficava a sua cela. Ele comia uma maçã, a estudando como se estivesse tentando gravar e catalogar todas as suas feições, o sorrisinho demoníaco escondido em intervalos regulares sob a fruta que levava a boca. Havia algo de errado com ele, um calafrio que subia pela espinha a sua mera presença. Ele voltou no dia seguinte - dias, horas, eras glaciais ou minutos, tudo a mesmíssima merda quando se está confinado sob a terra como quem é enterrado vivo - a amarrou com um feitiço contra a parede da cela, entrando logo em seguida no cubículo e passando seus dedos pelo colo de Hermione, reconhecendo o coração batendo como um martelo no peito dela, o mesmo sorriso demoníaco nas suas feições.

Perguntou se ela o achava feio na sua próxima visita, as palavras proferidas a milímetros do ouvido de Hermione, os braços dela novamente presos sobre a cabeça, as pernas separadas também coladas à parede. Ela lhe disse que sim, que reconheciam um monstro quando via um e ele era o pior tipo deles.

Achou que apanharia, achou que ele enfiaria suas unhas afiadas no seu rosto e puxaria até descolar todo o seu maxilar, mas ele apenas sorriu novamente, a combinação de músculos faciais, dentes e intensidade no olhar que ficaria para sempre impressos na mente dela, a acordando no meio da noite com a garganta arranhando de tanto berrar. Ele disse que a quebraria, disse que ela não sabia o que era um monstro, não ainda, mas que em breve ela não apenas saberia como jamais iria esquecer.

E ele o fez.

Ela não gritava mais quando Harry e Ron finalmente chegaram, demorou alguns minutos para se dar conta que aquilo não era um devaneio especialmente bem construído pela sua mente, demorou ainda mais para que esboçasse uma reação diferente de encarar com olhos vidrados o espaço atrás da cabeça de Ron, enquanto ele felicitava aos céus por ela estar bem.

Ouviu distantemente quando Harry comentou que, por Deus, ela estava magra, finalmente prendeu seus olhos nos dele quando ele tocou o seu braço, a cabeça se virando rapidamente para o rosto dele, o pânico familiar que seguia ao toque se formando na boca do seu estômago. Sentiu o gosto de bile subindo pela garganta enquanto tentava formular pensamentos coerentes e dizer a si mesma que aquele ali na sua frente era Harry, que iria embora, que estava tudo bem agora.

Da ultima vez que o vira, Ron ainda carregava no supercilio a cicatriz que resultou da sua unha contra a face dele quando ele a tocou para a transportar para St. Mungus, o medibruxo disse a ela que precisou ser amarrada quando chegou lá, que gritou por hora e horas e horas e horas.

Eles visitavam de vez em quando, saiam das linhas de frente do campo de batalha para lhe fazer companhia e chá quente, comentando sobre amenidades e a informando sob um prisma que provavelmente era muito mais otimista que o real sobre como ia a guerra. Algo sobre trincheiras, Hogwarts, uma casa-forte na França e foda-se. Era engraçado como uma pessoa podia se preparar a vida toda para viver uma situação, mas então algo acontecia e em poucos dias ela se via afastada de tudo aquilo que jurou defender e lutar, se tornando um peso morto numa casa confortável e impessoal no meio de lugar nenhum.

Ela costumava argumentar que o que vivera naquele calabouço do inferno apenas serviria como incentivo para lutar com ainda mais força contra Voldemort, costumava argumentar exaustivamente sobre como estava bem e sã e que arranhar Ron ou gritar a plenos pulmões quando alguém a tocava não eram coisas que ainda fizesse. Os relatórios de St. Mungos, aparentemente, valiam mais que a sua palavra. E ela sentiu ódio e ofensa, até o ponto que não sentia mais nada que não solidão e medo, as memórias rodando como um filme infinito na cabeça

Hermione levou o chá novamente aos lábios enquanto assistia a chuva escorrer pela janela. Bebeu todo o líquido de uma vez só. Não fazia diferença se o chá estava gelado. Nada fazia diferença agora.

xx

Fazia três meses que desistira de advogar pelo seu caso quando ele chegou. Ela o encarou por longos minutos quando Harry o trouxe, ouvindo apenas algumas palavras do interminável discurso que o amigo oferecia sobre como Narcissa Malfoy havia salvado a sua vida e que Draco Malfoy havia optado por esconder a si mesmo sob a proteção da Ordem da Fênix em troca de informações que os ajudariam a capturar os comensais remanescentes.

Ela não disse nada. Absolutamente nada. A indignação crescendo dentro do peito enquanto literalmente mordia os lábios para evitar questionar aos berros o porquê aquele bosta estava ali na sua casa e não no inferno ou onde quer que escolhessem enfiar Malfoy. Mas aquela não era a sua casa, não é? Aquela era uma casa financiada pelo ministério, que provavelmente só estava sob seu uso porque ela era amiga de Harry. As pessoas tendiam a fazer isso, lamber Hermione para encontrar a aprovação de Harry Potter e se aproveitar da imagem dele logo em seguida para conseguir o que queriam. Ela estava ali de favor. A amiga insana e inútil de Harry Potter.

Malfoy provavelmente deveria ter baixado os olhos e se enterrado embaixo da terra pela vergonha de estar sendo escondido pelo seu inimigo de colégio numa casa emprestada pelo ministério que defendia a gentalha que ele odiava e com Hermione Granger como companheira de casa, mas ele sustentava o olhar dela, uma das sobrancelhas um pouco mais erguida que a outra, petulante como sempre fora.

Ela deu um passo para o lado e Malfoy entrou na casa segurando uma mochila nas mãos, olhando fundo nos olhos de Hermione como se a desafiasse a dizer qualquer coisa para ele. Ela não o fez, fixando os olhos nos de Harry no momento em que Malfoy passou pela porta.

"Se nós tivéssemos qualquer outro lugar para colocar ele e o manter seguro, você sabe que faríamos, Hermione.", Harry comprimia os lábios e inclinava a cabeça para o lado quando pedia desculpa por alguma coisa, ele provavelmente achava que o fazia parecer mais vulnerável e, assim, mas suscetível ao perdão das pessoas. Hermione tinha vontade de arrancar a maçaneta da porta atrás de si e enfiar no crânio dele.

"Que seja."

"Olha, é só por algum tempo, nós vamos -"

"Que seja, Harry.", nós, ele dizia. Hermione pensou em perguntar quem era essa gente que havia transformado o 'eu' de Harry numa entidade na primeira pessoa do plural. Nós, o time que luta contra Voldemort enquanto ela estava naquela casa se afogando em auto-comiseração. Nós, o grupo e pessoas que honestamente esperava mais da bruxa mais brilhante do seu tempo. Nós, todos os seus ex-amigos que agora apenas se referiam a ela como 'Coitada da Hermione', para então completar uma frase qualquer. Havia certo ar de conspiração naquele 'nós' que Harry e Ron frequentemente empregavam, algo que a deixava desconfortável e confusa, o que apenas a fazia concluir que, de fato, ela estava completamente louca.

"Okay... Eu, hm... É.", ele inclinou a cabeça para o lado novamente quando levou sua mão direta ao ombro de Hermione, como quem coloca os dedos dos pé na água antes de decidir se deve ou não pular. Ela sabia que ele queria se certificar que ela não reagiria violentamente ao seu toque, que não surtaria como havia acontecido nas primeiras semanas que voltou daquela cela demoníaca. Ele provavelmente a queria abraçar depois disso, dizer algumas palavras reconfortantes contra os seus cabelos para depois ir embora e a largar ali com Malfoy e voltar apenas sabe-se lá quando.

Ela resolveu se aproveitar da sua frágil condição mental e puxar o braço violentamente dos dedos de Harry, arregalando os olhos, como se estivesse prestes a ter um ataque. Ela se virou logo em seguida, entrou na casa e trancou a porta atrás de si, deixando Harry com uma expressão que provavelmente seria o retrato fiel do termo 'culpa'.

xx

Harry a havia visitado duas vezes desde que trouxera Malfoy, Ron outras três. Fazia dois meses que vivia sob o mesmo teto que Malfoy e todas as conclusões que Hermione havia chegado sobre como seria viver com ele se provaram completamente infrutíferas.

Viver sob o mesmo teto que Draco Malfoy era exatamente como viver sozinha. Não, não exatamente como viver sozinha, Hermione escutava os passos na cozinha de vez em quando, a porta da geladeira abrindo e fechando, a água do chuveiro ligando e parando de cair sobre o azulejo algum tempo depois. Era mais como morar com uma sombra. Silencioso, onipresente e silencioso.

Ela imaginou que algumas discussões viriam da sua prolongada convivência com Malfoy, imaginou como algumas delas beirariam a violência e seriam interrompidas por uma batida abrupta na porta de entrada ou pela varinha apontada para a jugular um do outro. Hermione certamente não imaginava um fantasma, um morto-vivo que podia contar nos dedos quantas vezes tinha visto andando pela casa, olhando para um ponto no infinito atrás da cabeça de Hermione sempre que cruzavam.

Teria repreendido a si mesma por constatar que Malfoy não reagiria agressivamente a ela e mesmo assim tentar provocar alguma espécie de confronto nas poucas vezes que se deparava com ele, mas a verdade é que Hermione se sentia sozinha. Tão, tão sozinha. Uma pessoa pode ficar apenas determinado tempo sem interagir com qualquer outro ser humano, antes de perder completamente a sua mente.

Engraçado era pensar que Harry e Ron a haviam enfiado naquela casa por conta da sua frágil constituição mental, quando na verdade era o silêncio e a falta de interação social que estavam finalmente ativando a paranóia que inundava os sentidos durante a noite e a transferindo para todos os momentos do dia.

Às vezes ela não sabia se os passos que ouvia no corredor eram reais. De vez em quando, eles se pareciam alarmantemente com o barulho das botas dele contra o chão de pedra da sua cela, o que era completamente inviável, porque o barulho do assoalho de madeira sob os pés era completamente diferente do som que ele fazia, mas mesmo assim, Hermione podia jurar que era o mesmíssimo som. Tinha dias que tanto fazia se era noite ou dia, se estava frio ou quente, tudo o que ela conseguia fazer era encarar a parede do quarto até os olhos arderem, num esforço de queimar os neurônios a ponto de não se lembrar de mais nada.

O constante estado de paranóia e o tédio a faziam pensar o tempo todo, o que era uma benção e uma maldição, no caso de Hermione, já que pensamentos coerentes provavelmente impediriam que ela fosse internada em St. Mungos nas próximas semanas, no entanto, sempre a levavam de volta àquele lugar, de um jeito ou de outro, a cela na Mansão Malfoy era sempre a linha de chegada dos seus pensamentos.

E o fato de Malfoy estar na casa com a porra do seu silêncio também não ajudava, ela não conseguia deixar de se perguntar o que deveria ter passado pela cabeça dele ao saber que a menina irritante e nojenta que estudou por seis anos com ele estava sendo estuprada por uma lobisomem no porão da sua casa. Aquilo devia gerar algum tipo de reação nele, qualquer tipo de reação, ainda mais por tudo o que Dumbledore fizera por ele, por tudo o que Harry dizia sobre como ainda havia uma chance para Malfoy.

Hermione se pegava frequentemente imaginando que caralhos de chance seria essa: qual seria o mérito de uma pessoa que testemunhava impassiva o estupro e a tortura de alguém que conhecia, independentemente do que sentia em relação àquela pessoa. Aquilo ia além de frieza, além de preconceito e rivalidades infantis. Aquilo era consentir à pior violência que uma pessoa podia cometer contra outra. Aquilo era fechar os olhos para a pior forma de sofrimento que existia. Aquilo era fazer parte da violência, porque há determinadas situações em que se ausentar já é uma violência em si.

Se Malfoy havia consentido a toda aquela podridão, então qual era o mérito, a chance que todos eles falavam que ele merecia? Por que Snape havia sacrificado a sua reputação com a Ordem para salvar a alma de Malfoy? Por que Harry insistia em o enfiar naquela casa com ela, mesmo sabendo de tudo o que lhe aconteceu, disposto a proteger e dar a Malfoy o caralho da chance?

Quanto mais Hermione obcecava com aquelas questões, mais ódio ela sentia. E ódio era bom, ódio era seguro e dava forças. Alguém consumido pelo ódio não ficaria sentado na sua cama sentindo pena de si mesmo e reprisando infinitamente o filme dos seus pesadelos na mente. Alguém que sentia ódio colocava aquela merda de casa abaixo e berrava a plenos pulmões com Harry e Ron por terem demorado tanto e ainda se acharem no direito de a trancar naquela casa nojenta, berrava a plenos pulmões com Malfoy, porque ele era vil, sujo e o pior tipo de gente que existia no mundo e ainda assim as pessoas viam algo digno de se preservar nele.

Ela não via. Ela não via absolutamente nada. E ela queria que Malfoy correspondesse às suas predições sobre como seria morar com ele para que ela pudesse finalmente tocar fogo naquela merda toda e sair do círculo de dor no qual estava presa.

xx

O dia em que teria a oportunidade de berrar com Malfoy chegou como outro qualquer: Hermione desceu do seu quarto até a cozinha e passou manteiga num pedaço de pão que estava sobre a mesa, enquanto esperava que a água fervesse no fogão para que pudesse tomar o seu chá. Folheava o Profeta Diário sem nenhum interesse real no que quer que estivesse impresso naquelas páginas, já que Harry e Ron se julgavam senhores do seu destino e não a deixariam sair daquela casa independentemente do que estivesse acontecendo no mundo lá fora. Estava na oitava página quando seus olhos grudaram naquelas letras que formavam um nome que lhe era tão familiar. Malfoy, ela leu.

Largou o pedaço de pão no prato e ignorou a chaleira que apitava sobre o fogão, dobrando o jornal na metade e então novamente, enquadrando perfeitamente a nota em que se lia o nome de Malfoy.

Não era mais que uma nota, havia ao todo dois parágrafos e, a julgar pela frequência com que aquele tipo de notícia era dada ultimamente, era de se espantar que ele se quer tivesse ganhado uma nota de dois parágrafos na oitava página do jornal. Malfoy, Lucius Malfoy estava morto. Algo sobre sua posição no Ministério da Magia, outro pedaço sobre sua participação na batalha de Hogwarts e suas infinitas e esperadas alegações de trabalhar sob a influência de Imperius enquanto auxiliava Voldemort a retomar o poder. Havia também a menção sobre como ele havia sido encontrando num esconderijo do alto círculo de comensais que ainda estavam vivos e tentavam reerguer a revolução. Houve uma batalha. Houve um feitiço e fim. Aquele era o fim de Lucius Malfoy: a nota de dois parágrafos quase imperceptível entre os anúncios de vassouras usadas à venda. O fim do grandioso patriarca da família Malfoy.

Hermione encarou a folha de papel e piscou algumas vezes, os olhos escaneando novamente a página, completamente ignorante ao fato de a chaleira ter parado de apitar. Malfoy, Draco Malfoy estava parado ao lado do fogão, uma expressão irritada no rosto, os cabelos sempre hermeticamente ajeitados apontavam para todas as direções, os olhos pesados de sono.

Ela olhou a página do jornal e então para ele. Aquela deveria ser, no máximo, a décima vez que ambos dividiam o mesmo espaço na casa em pouco mais de dois meses de convivência, aquele semi-morto onipresente que provavelmente só havia se dignado a adentrar a cozinha porque o barulho da chaleira atrapalhava o seu sono de beleza. Olhar para ele, ali, a poucos metros de distância, despertava um sentimento incômodo na boca do estômago de Hermione, a mesma dor que sentia sempre que concluía que ele era um monstro por tabela, por ter permanecido impassivo a tudo o que acontecia sob o teto da casa dele.

O pai dele estava morto, o orgulho da vida dele, a pessoa a quem ele estava fadado a se tornar, seu exemplo. Estava tudo acabado agora, impresso em tantos e tantos jornais espalhados pela comunidade bruxa da Grã-Bretanha, enquanto ele permanecia completamente ignorante ao fato, irritado porque o barulho da chaleira o tinha acordado.

"Seu pai está morto.", uma fração de segundos, foi o tempo que durou a mudança no semblante de Malfoy, voltando a sua expressão neutra e levemente irritada logo em seguida, "Acho que você não me ouviu, Malfoy, Lucius, o seu pai, morreu ontem. Está no jornal."

Malfoy não respondeu, não esboçou qualquer reação. Continuou a encarando, os olhos claros cavando buracos no crânio de Hermione, como quem tenta entender as implicações por trás do que lhe é dito, como se a notícia por si só não fosse digna de nota.

"O seu pai -"

"Morreu, Granger. Ao contrário dos seus amigos, eu não tenho nenhum tipo de retardo. Compreendi a informação da primeira vez que você disse.", Hermione observou com a boca ligeiramente aberta enquanto Malfoy abria a porta da geladeira, como se esperasse que ele entrasse em combustão a qualquer segundo, torcendo para que ele entrasse em combustão a qualquer segundo, se fosse ser completamente honesta.

"Tenho lá minha dúvidas se a reprodução híbrida entre vocês pureblood não gera herdeiros com retardo, Malfoy."

"Você quer falar sobre deficiência genéticas, Granger?", ele fechou a porta da geladeira, uma lata de cerveja na mão e uma das sobrancelhas erguidas, "Você?"

O barulho do lacre da cerveja se abrindo foi o único som que preencheu o vazio da cozinha, não devia passar das nove da manhã enquanto Malfoy entornava a lata de cerveja como quem bebe água depois de correr por quilômetros embaixo de um Sol escaldante.

Hermione esperou que o pomo de Adão parasse de se mover para cima e para baixo enquanto ele dava goladas na bebida. Esperou que ele dissesse algo, que esboçasse alguma reação, qualquer reação quando ele colocou a lata vazia sobre a pia, a amassando sob os dedos cumpridos, mas ele permanecia em silêncio, a expressão do seu rosto completamente impassível.

"É isso, então?", Hermione se levantou. Ela sentia raiva da impassividade dele, da falta de combustível para o ódio que a mantinha, se não sã, ao menos longe de vivenciar aquelas cenas de novo e de novo na sua mente, "Você está morto. Você estava morto desde o dia em que entrou nessa casa, passando como um fantasma pelos cômodos, como se estivesse se arrastando. E agora o seu papai querido morre e você não esboça nenhuma reação. Eu queria que você caísse morto de verdade em vez de só se comportar como um."

E ela queria. Hermione se surpreendeu com a veemência com que desejava que ele caísse morto no chão naquele instante, que berrasse, que reagisse de qualquer forma a toda a merda que ela estava jogando nele, que o mundo jogava em todos eles diante daquela guerra horrorosa.

"Anda, Malfoy!", ela o empurrou contra a geladeira, suas mãos espalmadas contra o peito dele, a força que parecia vir do fundo de suas entranhas, a força que gostaria de ter tido contra Fenrir naquelas tantas e tantas vezes que ele a amarrava na parede de pedra, a força que cabia a ela agora usar contra Malfoy porque ele podia não ser o monstro que começara tudo aquilo, mas ele ainda era um monstro, "Cadê ele? Cadê o moleque detestável e cheio de ódio que vivia na sombra do papai? O seu pai está morto, morto! Como ele merecia estar porque ele é um monstro e você é igualzinho! Igualzinho!"

Ela o empurrou de novo. E de novo. E de novo. Até que parou de pegar impulso com o movimento dos ombros e se ateve a arremessar os seus punhos contra Malfoy. O peito, o rosto, os ombros ou onde quer que as mãos enfurecidas de Hermione alcançassem, até que ele segurasse seus pulsos entre as mãos dele.

"Você quer que eu faça o quê? Me diz, sua hipócrita, o que você quer que eu faça?", o rosto de Malfoy estava a centímetros de distância, uma veia especialmente grossa bombeando no seu pescoço, os olhos arregalados de um cinza mais escuro do que se lembrava.

"Reage, Malfoy, eu quero que você-"

"Reagir, é?", ele lambeu os lábios, um sorrisinho brotando logo em seguida, o rosto vermelho de raiva ainda a centímetros de Hermione, "Eu sei o que você está fazendo, Granger, eu sei o que você vem fazendo desde que eu vim para cá: me olhando feio, se colocando no meu caminho pra me fazer perder a cabeça com você, não é? Você quer que eu perca a cabeça. Você quer que eu seja exatamente igual ao meu pai, não quer, sua hipócrita de merda?", a voz dele era baixa, não mais que um sussurro.

"Não é hipocrisia se você está certo."

"E você tem tanta certeza que sabe tudo sobre mim, não é, Granger? Você não sabe porra nenhuma a meu respeito, sua vaca, vai se foder!", Malfoy estava a beira da histeria, apertando os pulsos de Hermione dolorosamente nos seus dedos.

"Eu sei sim, Malfoy. Eu sei coisa pra caralho a seu respeito! Eu sei -", Malfoy a girou, prensando o corpo de Hermione contra a geladeira com o seu tronco, fazendo com que qualquer frase que ela tenha pensado em dizer se perdesse em algum lugar na garganta que começava a fechar, o coração batendo com mais força que um martelo contra o peito.

"Não, você não sabe. Você -"

"Sai de perto de mim.", a voz era estrangulada, baixa, quase tentativa. Uma bola especialmente dolorida se formava na base do estômago e Hermione identificou aquele sentimento como pânico.

"- a primeira coisa a meu respeito, porque -"

"Sai da minha frente, Malfoy.", ela mal registrava o que ele dizia, o barulho da respiração, do coração batendo e do sangue queimando as veias era tudo o que retumbava no seu ouvido. Ele tinha que sair de perto, ele tinha que sair de perto, tinha que a soltar e afastar o seu corpo do dela. Hermione não conseguia mais sentir o ar dentro dos pulmões.

"- então você saberia o monte de merda -

"PARA, SAI DE PERTO, SAI, SAI, SAI!"

Ele a soltou no instante que o primeiro berro saiu da boca de Hermione, afastou seu corpo do dela e colocando um passo de distância entre eles. Malfoy respirava tão rápido quanto ela, havia algumas manchas vermelhas no seu pescoço, os olhos ligeiramente arregalados enquanto a olhava, "Você ficou quieto. Por três semanas você ficou quieto enquanto tudo aquilo acontecia embaixo do seu teto. Então não ouse dizer que eu não te conheço, Malfoy. Não ouse. Você se omitiu. Você é cúmplice. Você é um monstro assim como seu pai e... ele."

E silêncio, novamente o silêncio. Os olhos de Malfoy passando pelo rosto de Hermione a medida que a sua respiração se regularizava. Embora tremesse, ela não sentia frio, não ousou se afastar da geladeira caso as pernas não suportassem o seu peso. Era tudo familiar, tão familiar. O corpo firme prensado contra o dela, as mãos se fechando com força contra os seus pulsos magros e não havia nada que pudesse fazer que não gritar e gritar e gritar, embora o desfecho da situação geralmente não fosse o afastamento do corpo que pressionava o seu, ou os olhos acinzentados a observando como se buscassem alguma coisa no seu rosto.

"Me diz, Granger", sua voz era baixa e comedida, como a que estava acostumada a ouvir saindo dos lábios dele, nada de histeria ou desespero, "como você acha que Weasley e Potter encontraram você?", ele dobrou os braços contra o peito, a encarando com atenção.

Hermione piscou. Por que você não viera antes?, ela queria ter perguntado, era o que ela vinha se perguntando há meses. Talvez tudo pudesse ter sido evitado se eles a tivessem procurado antes, se tivessem conseguido chegar nela antes, mas aquela certamente não era uma pergunta que Hermione estava disposta a fazer apenas para o caso de a resposta não ser estávamos procurando incessantemente por você dia e noite.

Porque ela era grata por eles terem se dado ao trabalho, por terem a encontrado, por terem se exposto ao perigo de adentrar a Mansão Malfoy apenas parar a resgatar.

"Como você acha -"

"Invadindo a sua casa e me procurando.", porque qualquer versão da verdade que não envolvesse buscas extensivas de Harry e Ron por ela, não era algo que ela se sentia capaz de suportar.

"Tem um motivo porque chamam aquela casa de Mansão Malfoy, Granger. É uma casa grande pra caral-"

"Por isso eles demoraram tanto pra me encontrar, porque é uma casa enorme.", é uma casa gigantesca, deve haver dezenas de câmaras de tortura por aqui, é por isso que eles estão demorando tanto, é por isso. É por isso. Eles já vêm.

"E os dois sozinhos desarmaram todos os comensais que estavam na casa? Porque a Mansão era a base dos comensais, Granger, você sabe.", Hermione esperou ver uma expressão de escárnio no rosto de Malfoy, mas tudo o que havia ali era a indagação, era a esperança para que ela acompanhasse o raciocínio dele.

"Eles tiveram que esperar a casa estar relativamente menos vigiada para me procurar."

"Você pensa em tudo, não é mesmo?", ele deu um sorriso, o mais triste dos sorrisos que Hermione já vira na expressão de alguém, "Uma porra de uma menina prodígio que assume hipóteses como fatos consumados e não passa de uma imbecil hipócrita de merda."

Hermione pensou em xingar Malfoy, mas as palavras simplesmente não saiam pela sua boca. Fazia algum sentido o que ele estava dizendo, o que quer que ele estivesse dizendo. Qualquer que fosse a resposta para as perguntas que Hermione até então havia se recusado a fazer, mas que sentia formigando na garganta naquele momento. E de repente ela precisava saber, ela queria saber. Hermione sempre seria a menina curiosa que provavelmente armazenava mais informações do que seria saudável alguém armazenar e aquela informação em especial lhe concernia, aquela informação podia erradicar toda a raiva que sentia direcionada a todos e a ninguém em específico. Poderia ser a resposta que um dia a levaria a superação.

"Por que, você por acaso tem alguma outra versão, Malfoy?", ela só queria superar, só queria que aquilo tudo pertencesse ao passado e que fosse enterrado como tantas outras lembranças ruins.

O sorriso desprovido de alegria ainda estava nos lábios de Malfoy quando ele balançou a cabeça devagar, passando por ela logo em seguida, "Que Merlin livre a todos nós de uma versão disso tudo em que eu não seja o monstro que você tem certeza que eu sou, Granger.", e sumiu escada a cima novamente.

xx

"Por que você não tirou a cicatriz que eu fiz em você?", Ron tossiu, cuspindo o chá de volta dentro da xícara e espirrando o líquido nas mãos. Hermione ergueu uma das sobrancelhas, bebericando novamente o seu chá, "Então?"

Ron era uma pessoa transparente. Era possível se identificar exatamente quando ele estava prestes a contar uma mentira: ele mantinha a cabeça reta e seus olhos iam da direita para esquerda em rápidas sucessões, como quem procura algo para se distrair ou para distrair a pessoa com quem conversa.

"Eu sei quando você está prestes a mentir, Ron, não funcionou com a professora McGonagall por sete anos para explicar porque você não tinha feito o dever de casa e certamente não vai funcionar comigo agora, então nem tente.", ele colocou o chá na mesa de centro da sala de estar, as mãos trêmulas fazendo com que derrubasse um pouco do conteúdo da xícara.

"Mal dá para perceber, Hermione", ele começou, os olhos passando por todo o perímetro da sala, ignorando Hermione por completo, "não tem porquê eu me preocupar com essas coisas, ainda mais num momento como esses."

Ela ergueu uma das sobrancelhas novamente e bebericou um pouco mais do chá que já começava a gelar na xícara. Hermione decidiu que gostava de chá gelado, servia como alento quando a sua frustração palpável enquanto sentia vontade de arrancar a verdade de Ron com as próprias mãos.

"Bom, já que você não vai me dizer a verdade sobre isso", ela colocou a xícara na mesa, descansando uma das mãos sobre o colo, enquanto a outra tamborilava o apoio de braço da poltrona, "que tal me contar sobre Malfoy, então?"

Toda a cor sumiu do rosto de Ron. Hermione reprimiu o sorrisinho que ameaçava escapar ao perceber que, naquele momento, Ron estava absolutamente encurralado.

"O que tem Malfoy?"

"Não insulte a minha inteligência, Ronald."

"Hermione, eu não sei-", ela bateu com as mãos no braço da poltrona, os olhos arregalados e aquele sentimento familiar e quente tomando conta das suas veias.

Aquilo era reação, ela se deu conta. Mais assustador ainda, era se dar conta que aquela reação vinha da curiosidade sobre o que Malfoy havia dito. Era bom ter um propósito, um combustível. Mesmo que o seu combustível fosse a raiva.

"Eu estou perdendo a minha paciência."

"Do que você está-"

"Por que caralhos Malfoy está aqui, Ron?", fazia duas semanas que as palavras de Malfoy passavam de novo e de novo pelo cérebro de Hermione. Ela havia quebrado o seu quarto inteiro na tentativa de negar o que quer que Malfoy tenha sugerido sobre a sua participação no seu resgate, mas a verdade é que fazia sentido. Por mais absurdo que parecesse, alegar que Draco Malfoy fora o responsável por passar informações que levariam Ron e Harry a encontrá-la fazia perfeito sentido.

Harry e Ron nunca foram parte do fã clube de Malfoy, mas cá estava ele, no mesmo esconderijo de Hermione, cuidado com com o mesmo zelo que ela. Cá estava ele, não derramando uma lágrima por aquele monstro que ele chamava de pai. Cá estava ele, se mantendo fora do caminho de Hermione e a evitando ao máximo, mesmo que ele tivesse em suas mãos o conhecimento sobre coisas que não apenas a perturbariam, como a quebrariam por completo, caso ele resolvesse jogar na cara dela, como o antigo Malfoy faria.

Alguma coisa nele estava diferente e o fato de ele dividir uma casa com Hermione, sob a bênção dos melhores amigos dela que juraram o odiar até a morte, só podia sugerir que o quer que Malfoy tivesse alegado sobre a sua participação no resgate era verdade. Que o que quer que aquilo tenha representado para ele, o havia mudado a ponto que até Ron e Harry se viam obrigados a reconhecer.

"É como Harry disse, Hermione: Malfoy pediu exílio para a Ordem e o pedido foi concedido em troca de informações."

Hermione sentia o corpo inteiro ferver. Fechou suas mãos em punhos na tentativa de não atirar a xícara de chá do outro lado da sala.

"Você espera que eu acredite que vocês estão colocando o mesmo esforço para proteger a mim e a Draco Malfoy em troca de informações? Quais informações exatamente, Ron?"

"Nós não podemos jogar ele num calabouço, Hermione, ele tem que cooperar com a gente e essa foi a única alternati-

"Quais informações?", ela perguntou entre dentes e Ron olhava da direita para esquerda em rápidas sucessões, na busca por qualquer coisa que o tirasse da posição de ter aquela conversa com Hermione.

"O de sempre, Hermione; nomes, bases comensais, objetos-"

Passou pela cabeça de Hermione que Malfoy jamais a trataria como se ela fosse uma estúpida debilitada e incapaz de lidar com a verdade.

"E como é que ninguém nunca veio colher tais informações dele, Ron?", ele se calou, os olhos dele analisando o rosto de Hermione pela primeira vez desde que ele colocara a xícara na mesa, "Como é que a casa está sob o feitiço fidelius e você e Harry são as únicas pessoas que entram e saem uma vez por semana, sem nunca trocar uma palavra com Malfoy?"

Aquele olhar no semblante de Ron era o sinal que ele reconhecia a derrota.

"Nós falamos com-", ele tentou, embora a convicção tivesse abandonado a sua voz.

"Nem tente, Ronald.", ela o cortou, a raiva pela recusa dele em dizer a verdade a fazia ter vontade de o arranhar ao ponto que todo o corpo dele estivesse coberto pela mesma cicatriz que ela deixara no seu supercílio, "Eu sei que você não vêm falando com ele. Eu sei de tudo o que acontece nessa casa. Eu não estou mais trancada naquele quarto sem nem saber se é noite ou dia."

"Nós reparamos."

Não graças a vocês.

"Ele não está fornecendo informações, não é?", depois de meses de monotonia e de auto-piedade, Malfoy finalmente havia dado a ela algo que lhe aguçasse a curiosidade. Algo que a fazia se sentir como antes de tudo dar errado.

"Não.", era graças ao fato de ele a ter empurrado contra a gladeira e gritado na cara dela quando todo o resto do mundo a tratava como se ela estivesse a ponto de quebrar.

"Mas ele já forneceu.", era porque Malfoy havia dito a verdade quando insinuou que ela só estava naquela cozinha gritando coisas horrorosas sobre ele porque ele havia traído o lado das Trevas para que ela fosse resgatada, "Ele forneceu uma informação que te colocou em dívida com ele a ponto de vocês o esconderem com o mesmo cuidado que me escondem."

"Hermione-", Malfoy a salvou. Não Ron e nem Harry, mas Malfoy.

culpa o motivo porque você não remove a cicatriz que eu te fiz no rosto, Ron?", o tom de voz de Hermione era contido agora. Ela entendia, apesar do coração que ameaçava furar o peito, ela finalmente entendia o motivo porque estava trancafiada naquela casa.

"Lupin nos amarrou para que a gente não voltas-", e não era porque ela era instável, não. Ao olhar para o rosto vermelho de Ron e observar como seu peito subia e descia rapidamente, Hermione se perguntou se os relatórios de St. Mungus se quer eram verdadeiros.

"Você não remove essa cicatriz do rosto porque ela te faz lembrar que você tem uma dívida com Draco Malfoy, não é? Porque ela te faz lembrar que ele é o motivo porque você ainda tem a mim.", e não importava como Ron justificasse aquilo ou o quanto ele e Harry a tivessem tentado encontrar depois que ela fora capturada, a verdade continuava sendo que Draco Malfoy havia salvado a vida de Hermione Granger.

E ela não tinha ideia do que fazer com aquilo.

"Nós queríamos voltar! Eu JURO Hermione, nós tentamos escapar, mas Lupin-"

"E é por isso que vocês me mantém trancada aqui mesmo sabendo que eu estou melhor e sou capaz de lutar", Hermione acreditava nas palavras de Ron, sua raiva não vinha do fato que eles não haviam procurado por ela com o afinco o suficiente, mas que ao a tentar proteger, eles quase haviam arrancado dela o último fio de sanidade que possuía, "porque se vocês me perderem de novo, Draco Malfoy não vai estar lá para trair o lado das Trevas e te dizer como me encontrar. Não vai ter nenhuma Hermione Granger estirada no chão de uma cela para arranhar o seu rosto de novo, um lembrete constante de que eu estou viva."

E fora Malfoy, novamente, quem a havia salvado da insanidade, da inércia. Fora Malfoy a única pessoa que se atreveu a discutir, gritar e a frustrar.

"Não. Espera, Hermione. Espera, eu vou explicar. Eu vou-"

Fora Malfoy a única pessoa que a tratara como ela queria ser tratada. Como ela precisava ser tratada. Como uma pessoa normal.

"Eu já entendi tudo, Ron. Suas explicações não são mais necessárias.", Hermione se levantou, saindo da sala sem olhar para trás.

Não havia nada que Ron Weasley pudesse dizer que faria com que Hermione se sentisse melhor, com que se sentisse remotamente mais perto da garota que costumava ser antes de todo o horror pelo o qual passara em uma das celas da Mansão Malfoy.

Mas talvez, apenas talvez, Draco Malfoy pudesse.

xx

Demorou exatamente um quarto de garrafa de vodka quente para que Hermione atravessasse a cozinha a passos trôpegos e parasse diante do sofá verde da sala, as mãos na cintura e um calor que podia ser tanto da bebida quanto da raiva se aninhando no seu peito.

"Você não merece nada disso.", ela falou, a voz baixa e muito mais contida do que a quantidade que ingerira de álcool sugeria, "Você não merece a devoção do Snape ou a fé que Harry e até mesmo Ron depositaram em você. Você não é nada.", nada, absolutamente nada.

Fazia exatamente um mês que Malfoy não lhe dirigia uma palavra se quer.

Um mês que Malfoy a tinha tirado da inércia e a empurrado para a vida novamente. Um mês que ela questionava e sentia ódio do fato de não conseguir deixar o perímetro da casa por mais que tentasse, ódio da superproteção de Harry e de Ron e do fato que nenhum deles aparecera desde a última visita fatídica para que ela os pudesse confrontar.

Fazia exatamente um mês que ela sentia ódio por estar acordada e não ter absolutamente nada o que fazer com aquilo.

Malfoy, por outro lado, não esboçara nenhuma reação, os olhos ainda passavam da esquerda para a direita pela página do livro que lia.

"Você me ouviu? Você não merece nada do que fazem por você. Você não merece estar em segurança sentado nesse sofá.", então ela gritava. E talvez não fosse justo com Malfoy, mas Hermione estava pouco se fodendo para a justiça porque a justiça estava pouco se fodendo para ela. "Você. Não. Merece!", ela só queria gritar.

Hermione não achou que ele fosse olhar para ela. Não fosse o fato de estar gritando, ela poderia jurar que Malfoy não a tinha escutado, uma vez que ele ainda parecia compenetrado no livro. Ela continuou o encarando, se recusando veementemente a dar aquela discussão por encerrada, porque era importante que ele soubesse que ela conhecia a versão dele dos fatos, que até acreditava na participação dele no seu resgate, mas que aquilo não mudava o fato de ela não acreditava nele.

Justiça era um conceito muito superestimado quando se tinha raiva, ódio e preconceitos para se apoiar.

Ele era Malfoy. Mal-foy. Havia algo ruim até no modo como o seu sobrenome rolava pela língua. Talvez fosse possível que houvesse um mundo em que Malfoy arriscasse a vida para passar a informação do paradeiro de Hermione para Harry e Ron, mas era terminantemente impossível que houvesse um mundo em que ele o tenha feito por qualquer motivo que não egoísmo.

Hermione havia chegado àquela conclusão há uma semana, enquanto trabalhava para entender a complexidade do círculo anti-aparatação envolta da casa. Salvar a vida dela não necessariamente significava que ele era uma pessoa diferente ou que o quer que tenha acontecido sob o teto dele o tenha mudado de alguma forma, que ele não tenha sentido muito pela morte do pai e segurou as lágrimas até estar sozinho em seu quarto.

Ele provavelmente já queria se livrar de tudo aquilo e viu em Hermione a sua barganha para que a Ordem da Fênix aceitasse o proteger contra os Comensais.

Uma boa ação não redimia os motivos porque uma atitude era tomada. Os fins não justificam os meios. Malfoy ainda não merecia absolutamente nada.

Já era difícil o suficiente lidar com uma realidade em que Hermione devia sua vida e sua sanidade a Draco Malfoy, ela não conseguia lidar com a possibilidade de que, além disso tudo, ela o havia tratado com injustiça no momento em que ele estivera mais vulnerável, quando o seu pai morreu.

Hermione saiu dos seus devaneios quando Malfoy exalou pesadamente, baixou o livro logo em seguida e a olhou, seus olhos claros passando por toda a figura dela, medindo-a de um jeito que ela considerava invasivo e desconfortável e que, portanto, era típico dele.

Ele tirou os pés da mesa de centro e colocou o livro aberto de cabeça para baixo, marcando a página, levantando-se logo em seguida. Ele era alto. Aquela fora a primeira coisa que o cérebro anuviado de Hermione registrou quando ele se pôs a andar na direção dela. Aquela era uma conclusão um tanto quanto absurda a se chegar sobre alguém que dividia o teto consigo, mas Hermione se pegava frequentemente esquecendo pequenos detalhes sobre ele, como o fato de os olhos dele parecerem translúcidos quando a luz do Sol batia diretamente nos globos oculares.

Ele caminhou até ela, enfiou as mãos nos bolsos e Hermione adicionou o fato de Malfoy ser um invasor de espaço pessoal na lista sobre coisas que eram um tanto quanto absurdas de se esquecer sobre alguém que mora com você. Ela teve que levantar o queixo para encarar o rosto dele, rezando para que estivesse parada no mesmo lugar e não cambaleando para frente e para trás, como sentia estar. Hermione ergueu uma das sobrancelhas, tentando entender porque ele estava parado com as mãos nos bolsos tão perto dela.

Malfoy era a única pessoa que Hermione conhecia com aquela cor de olhos. Era como se alguém tivesse pegado tinta cinza claro e cinza escuro, mas não as espalhado até ficarem homogênea na paleta, salpicando um pouco de azul sobre a mistura. Os olhos dele estavam fixos nos dela e passou pela cabeça de Hermione que ele não estaria encontrando nada de interessante nos seus monótonos olhos castanhos, antes de se lembrar que não poderia se importar menos com o quão interessante seus olhos eram para ele.

Ela só queria estar certa, nem importava muito sobre o que Hermione estaria certa, mas ela estava cansada de julgar Draco Malfoy e receber a verdade como um tapa na cara. Ela estava cansada de não saber como agir diante dele. Diante de absolutamente nada.

Ele parecia estar registrando todos os traços do rosto de Hermione, a expressão impassível no seu semblante, como de costume, o que fazia com que Hermione se sentisse compelida a perguntar o que diabos ele queria, mas a proximidade e a curiosidade fizeram com que a pergunta morresse sem passar pelos seus lábios.

Malfoy tirou a mão esquerda do bolso e Hermione sabia daquilo porque ela sentiu os nós dos dedos roçando no seu antebraço, tamanha a proximidade que estavam.

Aquilo era completamente ridículo.

Hermione ia dizer isso a ele, ela honestamente ia, chegou a abrir a boca para falar, então viu com o canto do olho a mão dele se levantando, os olhos cinzentos ainda fixos nos seus. Os dedos dele roçaram contra a maçã do rosto dela, tão leve que, se ela não houvesse acompanhado com os olhos, teria duvidado da existência do toque. Ele o fez novamente, um pouco mais de força dessa vez, anelar, dedo médio e indicador escorregando pelo rosto.

Ela arregalou os olhos, tentando a todo custo recapitular algo que tenha lido sobre efeitos alucinógenos provocados por bebidas alcóolicas. Decidiu-se por dizer alguma coisa, qualquer coisa que o obrigasse a se explicar e a sair do seu espaço pessoal. Mas ela não o fez.

Hermione ficou ali, parada no meio da sala encarando com os olhos arregalados enquanto aquele homem passava a ponta dos seus dedos pelo rosto dela, como se a estivesse estudando. Malfoy tirou a outra mão do bolso e a aproximou devagar do rosto de Hermione, segurando de leve o seu maxilar, a outra mão se perdendo em seu cabelos.

O coração de Hermione batia num ritmo que não podia ser saudável. Ela tentou enumerar todas as maneiras que Malfoy poderia usar aquilo para a humilhar num futuro próximo, mas havia o fato de ele ter começado com o que quer que aquilo fosse e ser um bastardo invasor de espaço pessoal que desconcertava as pessoas com seus olhos translúcidos, o que, naquele momento, pareceu um excelente contra argumento para Hermione. Ela resolveu deixar de enumerar as intenções vis de Malfoy por trás daquilo e apenas aproveitar o fato de que alguém estava com as mãos em seu rosto, mas era tão leve, tão devagar, que o pânico na boca do estômago foi substituído por borboletas que pareciam estar fazendo uma festa por ali.

Os olhos dele iam dos dela para os lábios, a mão direita mantendo o maxilar de Hermione levantado, enquanto o polegar da mão esquerda fazia pequenos círculos no seu pescoço.

Ele respirou fundo, segurando o rosto de Hermione com as duas mãos agora, medindo a sucessão de expressões faciais que passavam pelo rosto dela até, aparentemente, encontrar o que queria, dando a ela um sorriso que ela não se lembrava de já ter visto alguma outra vez nos lábios dele.

Foi quando ele a beijou.

E mal era um beijo. Era tão delicado e devagar que Hermione achou que poderia sair flutuando pelo teto, o estômago parecia dar guinadas toda vez que os lábios dele se moviam contra os seus estáticos. Ela não conseguia acreditar no que estava acontecendo, tentou reprisar a cena toda na cabeça e encontrar o nexo naquilo tudo, intimamente culpando o álcool pela falta da memória que explicaria o porquê Draco Malfoy estava roçando seus lábios contra os dela.

Não havia nenhuma força ou ameaça no mundo capaz de a fazer admitir que ela o tenha beijado de volta por qualquer motivo que não a quantidade abismal de álcool que tinha tomado em menos de dez minutos, mas em seu íntimo, Hermione admitiria que o beijara de volta no instante em que ele mordiscou o seu lábio inferior, a língua passando por lá logo em seguida. No instante em que se sentira viva novamente.

Ela lançou os braços em torno do pescoço dele e no que parecia uma fração de segundos, a dinâmica do beijo mudara completamente: Malfoy apertava o corpo de Hermione contra si, enquanto ela abria a boca sob a dele e permitia que ele deslizasse a língua contra a dela, as mãos de Hermione subindo e descendo freneticamente pelo corpo dele.

Eles deram alguns passos para trás e de repente Hermione sentiu a parede da sala contra suas costas, as mãos de Malfoy passando tão forte pelo seu corpo que ele provavelmente a teria feito se desequilibrar se ela não estivesse apoiando o seu peso contra o tórax dele. Deslizou uma das mãos pela perna de Hermione e a agarrou embaixo do joelho, a colocando firmemente laçada contra a sua cintura.

E só o que ela conseguia pensar era que o queria mais perto. Tão, tão mais perto.

A mão direita dele segurava novamente o maxilar de Hermione, empurrando sua cabeça levemente para trás, beijando o lóbulo da sua orelha e o pescoço, arrancando um gemido dos lábios dela quando sugou a pele sob a veia que pulsava.

Talvez o culpado de tudo aquilo realmente fosse o álcool. Talvez fosse a depressão ou o jeito que Hermione havia encontrado para lidar com a traição de Harry e Ron, mas nenhum daqueles motivos explicava a perda que ela sentiu quando ele se afastou ligeiramente dela, apoiando a testa na sua, respirando rápido, quase no mesmo ritmo de Hermione.

"Talvez-", ele começou a dizer, a voz entrecortada pela respiração acelerada. Malfoy meneou a cabeça e sorriu, "Talvez você tenha razão, Granger.", ele passou o polegar pela maçã do rosto dela novamente, afastando o seu corpo do de Hermione logo em seguida, "Ou talvez esteja na hora de você se dar conta que não tem a resposta para tudo.", Malfoy olhou dentro dos olhos dela por alguns segundos e Hermione poderia jurar que ele via em seus olhos coisas que nem ela sabia que estavam ali.

E foi enquanto o assistia se afastar de perto dela e subir as escadas que dariam para os quartos que Hermione se viu obrigada a admitir que, independentemente da desculpa que atribuísse ao fato de o ter beijado de volta, ou das suas justificativas pelo seu resgate, Draco Malfoy era a única coisa que lhe prendia a vida.

xx

Era uma daquelas situações em que não se sabia se havia passado minutos, horas ou eras glaciais. Tudo o que interessava para Hermione era permanecer com o corpo praticamente submerso na parte mais rasa do lago, a um quilômetro da casa, olhando com interesse enquanto os desenhos formados pelas nuvens se faziam e desfaziam novamente em figuras abstratas.

Estava um calor anormal para o mês de abril, o que a fez questionar brevemente se a casa estava mesmo na Grã-Bretanha ou em outro país qualquer. Contemplou perguntar a Harry ou Ron da próxima vez que os visse, mas já fazia quase dois meses que vira Ron pela última vez, Harry há mais tempo ainda.

Havia também a questão de Hermione estar pouco de fodendo para aquilo.

Não era como se as coordenadas fossem mudar o fato de ela estar ilhada naquela propriedade, por mais que tentasse, ela não conseguia derrubar o cerco anti-aparatação. Ela nem sabia porque continuava tentando.

Hermione também não sabia porque insistia em marcar datas: tanto faria o mês que estivessem ou qual hora do dia era a apropriada para se cozinhar algo elaborado. Harry e Ron a haviam prendido lá e, por mais que ela não sentisse nenhuma inclinação de os perdoar na próxima década, chegara a hora em que tivera que admitir que não havia nada que pudesse fazer além de esperar a boa vontade deles em a libertar dali.

Talvez Hermione marcasse o tempo para ter a sensação de controle sobre alguma coisa. Fazia nove meses que estava presa naquele lugar. Quatro meses desde que Malfoy chegara. Trinta dias que ele a beijara e então passara a encarar onde quer que a encontrasse, como se estivesse avaliando alguma coisa ou tentando levar Hermione a loucura.

Ela supunha que, o que viesse primeiro estaria de bom tamanho para ele.

Fazia 720 horas que ele sugerira que ela não o conhecia. 43.200 minutos desde que ela não encontrara absolutamente nada para replicar a ele. 2.592.000 segundos em que ela se pegava frequentemente avaliando o papel de Malfoy no seu resgate, o modo como ele lidara com ela e o fato de ser exatamente aquilo o que ela precisava. Não eram palavras reconfortantes e votos para que superasse os traumas da sua vida. Foda-se isso.

Então ele a beijara. Há exatamente um mês, Draco Malfoy a beijara como se ela fosse a única coisa no mundo. Havia o modo como se aproximara dela, devagar e tentativo, a maciez dos seus lábios contra os dela. E quando ele a empurrou contra a parede e alisou seu corpo com as mãos, Hermione não pode deixar de pensar que era aquilo o que ela queria: não toques suaves, não frases comedidas, não trancada numa casa segura no meio de lugar nenhum, mas ser tratada como Hermione Granger sempre o fora.

Era irônico que, mais uma vez, Malfoy parecia ser o único capaz de entender como Hermione realmente funcionava, enquanto seus amigos de uma vida inteira tomavam todas as atitudes erradas em relação a ela.

Talvez esteja na hora de realizar que você não tem a resposta para tudo.

E ela não tinha. Por Deus, ela não tinha. Havia tanto sobre a crueldade intrínseca ao ser humano que ela vinha se questionando desde a cela da Mansão Malfoy. Tanto sobre o próprio Malfoy em si que ela gostaria de saber.

Mas tudo o que Hermione podia fazer era levantar conjecturas e, embora a envergonhasse admitir, a sua preferida era que talvez Malfoy estivesse tão perdido quanto ela, que talvez Malfoy também precisasse dela para o tirar do torpor, da inércia.

No meio de todo o turbilhão de perguntas sem repostas, o tempo era o único fator que ela podia, se não controlar, pelo menos ter alguma certeza acerca do assunto. Então ela o contava.

E foi no começo daquela tarde ensolarada de abril que Hermione viu em sua visão periférica que Malfoy se aproximava do lago, os cabelos loiros balançando enquanto ele andava, quase tão claros quanto a luz do Sol.

Hermione se perguntou, numa escala de um a dez, o quão patético seria se ela procurasse uma folha enorme para a esconder.

"Granger.", ele disse em sinal de reconhecimento. Hermione não o estava olhando, procurando freneticamente por uma superfície que a pudesse tampar da visão dele, mas ela conseguia ouvir aquele sorrisinho de escárnio nos seus lábios, "não sabia que teria companhia para nadar hoje."

"E você não vai ter, Malfoy. Pode ir marchando de volta para a casa.", ela encontrou um tronco de árvore próximo aonde nadava, colocou-o na sua frente como se ele fosse uma prancha, tentando cobrir a maior porção do seu corpo o possível.

Aquele era um dos momentos em que Hermione se arrependia amargamente por ter devolvido o seu vira-tempo. Ela teria aberto mão das suas notas perfeitas em Hogwarts para estar usando, naquele momento, outra peça de roupa que não um vestido branco e fino, flutuando em volta dela como se a estivesse zombando.

"Acho que não.", Malfoy cruzou os braços contra o peito e ergueu uma das sobrancelhas, encarando-a como se ela fosse a maior fonte de entretenimento que ele já encontrara na vida.

Hermione estava a exatos catorze segundo de arremessar o tronco na cabeça dele.

"Vá tomar banho na sua banheira."

"Você tem uma banheira? E depois chamam os Sonserinos de elitistas.", ele se sentou na margem oposta do pequeno lago, as pernas ligeiramente abertas contra o peito enquanto afrouxava o cadarço das botas.

"É, bem, pode ir e usar a minha banheira. Fique à vontade.", ela ofereceu no espírito da camaradagem. E no espírito de tirar Draco Malfoy de perto do seu corpo seminu também.

Se fosse completamente honesta consigo mesma, Hermione admitiria que já havia coisas demais rondando pela sua mente sem que ela tivesse que conceder que até as botas de Malfoy eram sexy.

"É muito... gentil da sua parte, Granger", ele alisou o queixo antes de completar a frase, como se estivesse contemplando a questão, apenas para sorrir daquele jeito irritante que apenas ele conseguia, "mas eu acho que vou ficar por aqui, obrigado."

Malfoy ficou em pé após tirar as botas e as meias, colocando os dedos na água e dando de ombros ao constatar que a temperatura estava do seu agrado. A barra das calças dele estavam molhadas e Hermione se viu prometendo qualquer coisa a Deus se ele magicamente conjurasse calças jeans nela também.

"Não ouse entrar nesse lago!", ela puxou a bainha do vestido para baixo novamente, o que era incomodo, já que ela continuava agarrando o tronco de árvore na tentativa de cobrir os seios. Malfoy ergueu uma das sobrancelhas, cruzando os braços contra o peito novamente.

"Eu sei que já estabelecemos que você não me conhece, mas mesmo assim você sabe que eu vou fazer exatamente o contrário do que quer que você esteja ordenando, não?"

"Por favor, Malfoy.", Hermione decidiu que dignidade era um conceito subjetivo e superestimado.

"E por que eu deveria voltar para aquela casa abafada nesse calor infernal, Granger?"

Ela decidiu também que, independentemente dos méritos que ele tivesse na melhora do seu quadro mental, Malfoy continuava sendo um grandíssimo filho de uma puta.

No entanto, algo que ocorreria a Hermione apenas muito mais tarde era que o motivo que estava aflita a cerca de ter um homem perto do seu corpo semi-nu não era medo. Era vergonha. E que aquele era Malfoy. E aquela era a segunda vez que o contato físico entre eles não a incomodava. E que ela não faria ideia do que fazer com aquilo.

"Porque eu estou te pedindo.", ela argumentou. Malfoy cometeu a baixeza de deixar um risinho escapar pelo nariz, "Com educação.", Hermione piscou languidamente na direção de Malfoy, abrindo seus enormes olhos castanhos e olhando para ele como quem clama por piedade, "E porque eu vou cozinhar purê de batatas hoje a noite e dar a panela toda para você.", Malfoy nunca parecera tão pouco impressionado na vida.

Para o mérito dele, o fato de Hermione estar segurando um tronco de árvore, se debatendo na água para ficar na superfície e com metade do cabelo cobrindo o rosto, provavelmente não ajudava na sua missão de o manipular com seus dotes femininos.

"Eu posso cozinhar minhas próprias batatas.", agora era a vez de Hermione rir.

"Certo.", a mancha preta no teto, logo acima do fogão, estava lá para testemunhar os esplendidos dons culinários de Malfoy.

"Você não está advogando pela sua causa aqui, Granger.", ele fechou a cara e deu um passo na direção do lago.

"Vai embora, Malfoy, por favor!", Hermione se viu torcendo para que ele de fato entrasse na água e resolvesse a afogar, apenas para que ela não tivesse que viver com a consciência de ter implorado para ele.

"Por quê?", era engraçado como às vezes ela via reflexos do antigo Malfoy, parecia ser em outra vida que ele empinara o nariz e demandava uma resposta em tons categóricos. Hermione cometeu a baixeza de corar, "E não tente me enrolar, Granger.", ele emendou, interpretando erroneamente o rosto corado dela.

Hermione bufou, pensando que ainda há pouco Malfoy fora a única pessoa que parecia ter a mínima noção sobre o que ela queria da vida, como se tratava alguém que passara como um trauma da magnitude do dela. Agora ela se via engolindo suas palavras e desejando avidamente que ele entrasse em combustão espontânea.

Ela tirou o cabelo do rosto e apoiou o segundo braço sobre o tronco também, respirou fundo e tentou a todo custo ignorar a saia do vestido que subia e a fazia parecer um balão.

"Eu não estou... hm...", Hermione empinou o nariz, como geralmente fazia quando se sentia coagida, "Vestida de acordo... para a situação, quero dizer."

O sorriso que Malfoy lhe lançou era brilhante como uma faca.

"Ótimo.", ele puxou a camiseta pela cabeça e a arremessou sobre as botas, seus olhos ainda pareciam cavar um buraco dentro do cérebro de Hermione quando ele se pôs a desafivelar o cinto, "Nem eu."

"Jesus Cristo", ela disse, o rosto ardendo em chamas enquanto tentava tomar novamente o controle sobre os seus movimentos oculares. Aqueles olhos ingratos e traidores que insistiam em escanear o corpo de Malfoy com precisão cirúrgica, "Vai embora, Malfoy! Não ouse entrar-", ele tirou as calças. O sorriso de Malfoy fazia parecer que o Natal chegaria duas vezes naquele ano, "Maravilha", ela murmurou no instante em que ele pulou no lago, espirrando água para todos os lados, "Muito maduro."

Dos sete anos que a conhecia, Malfoy resolvera tomar justamente aquele momento como trégua e não levar a sério as ofensas de Hermione. Ele deu seis largas braçadas e parou a menos de um metro dela. Malfoy visivelmente estava pisando no chão lamacento, enquanto Hermione contava com um tronco de madeira para boiar na superfície.

"Ah, refrescante, não?", não. Ela resolveu que já bastava de indignidade naquele momento e largou o tronco, se debatendo o mínimo o possível para continuar sobre a água, olhando Malfoy nos olhos.

"Não. Está terrível. Você deveria sair."

"Você parece estar com frio mesmo."

Indignidade, aparentemente, era a palavra chave daquela tarde, mas ela mal começava a descrever o sentimento que tomara conta de Hermione quando ela se deu conta que ele apontava para os mamilos eriçados dela. Malfoy sustentava uma expressão divertida no rosto, como se tivesse acabado de comentar sobre o clima.

"Seu filho de uma-"

"Relaxa, Granger.", ele esticou o braço e segurou o de Hermione, trazendo-a para mais perto de si, "Nada que eu não tenha apalpado."

"Você é um filho de uma puta babaca, um-", Hermione tentava se consolar na crença que, na tentativa de se desvencilhar de Malfoy, ele engolira bem mais água do que ela.

"Granger, relaxa. Eu estou brincando.", ele a segurou pelos dois braços agora, fazendo com que Hermione parasse de se desvencilhar dele, seus olhos cinzentos analisavam o rosto dela como se a visse pela primeira vez, "Além do quê, você não tem porquê se envergonhar."

Foi quando ela o olhou.

A luz refletida pela água do lago fazia com que os olhos de Malfoy adquirissem aquele brilho translúcidos que seria estranho em qualquer outra pessoa que não nele. O seu rosto estava molhado e Hermione se flagrou constando que ele era bonito, o que não era nenhuma novidade para quem passara os últimos sete anos na companhia de Malfoy, mas ele era especialmente bonito quando a olhava com os olhos brilhando e os cílios molhados, uma expressão relaxada na face, como se naquele momento, ele não tivesse absolutamente nada com o que se preocupar.

Hermione pigarreou e empinou o nariz, temendo que Malfoy, de alguma forma, descobrisse que a vermelhidão em suas bochechas nada tivesse a ver com o Sol, "Eu sei me virar sozinha, obrigada."

"Mulher impossível.", ele murmurou, passando uma das mãos pelas costas de Hermione na tentativa de a trazer para mais perto de si.

"Me solta agora ou eu juro-"

"Que vai jogar água em mim até me molhar? Não, Granger, por favor não!", ele riu. E era o riso límpido que ela raramente escutava saindo dos lábios dele. Certamente o primeiro que ele lançava para ela.

"Eu posso nadar sozinha.", e Hermione lutou. Proferiu as últimas palavras num tom não mais alto que um sussurro, mas ela lutou.

"Eu sei disso, só relaxa.", ele passou as duas mãos pela cintura dela, a trazendo para tão perto de si que Hermione conseguia sentir o calor emanando do corpo dele, "Eu não vou machucar você."

E de repente, Hermione não conseguia mais se lembrar do porquê estava lutando.

"Tudo bem."

Ela deixou os braços flutuarem sobre a água, o corpo colado no de Malfoy, as mãos firmes dele apertavam as costas de Hermione contra o seu peito e fazia calor. E podia até parecer absurdo, mas ela ainda se espantava com o fato de que contato humano produzia calor e não o frio que parecia congelar as veias. Hermione ainda se espantava com o fato de que Malfoy, justamente ele, era a pessoa que trazia pouco a pouco a sensação de algo que se aproximava a normalidade para ela.

Havia água no rosto dele, a pele perfeita como mármore esculpido. Não havia nenhuma mancha ou sarda na face de Malfoy e Hermione se pegou corando ao imaginar a visão que ele tinha dela: monótonos olhos castanhos e sardas pelo nariz. Mas ao olhar novamente para o rosto de Malfoy como um todo, Hermione se deu conta de que havia um pequeno sorrisinho nos lábios dele.

Talvez ele não se importasse com o quão comum era a aparência dela, afinal.

"Malfoy?", ela chamou, a voz soando distante em seus próprios ouvidos, como em um sonho.

"Hm?", ele piscou e focou sua atenção nos olhos de Hermione. O céu parecia refletido duas vezes nas íris dele.

E lá estava ele, abraçando-a e fazendo com que o coração de Hermione batesse rápido e assustadoramente devagar ao mesmo tempo. Malfoy a fizera pensar, reagir - e diante dos olhos deles, parecia completamente sem sentido negar -, sentir novamente. E a verdade permanecia que Hermione não sabia, de fato, nada a respeito do homem que ele havia se tornado, apenas um pouco sobre o menino que ele um dia fora.

"Quando a guerra acabar, o que você pretende fazer?", durou uma fração de segundos. Fora tão rápido, que se Hermione não estivesse o encarando com atenção, esperando por alguma reação que se manifestaria no rosto dele, ela teria perdido a dor que passara pelos seus olhos.

Ela não entendeu.

Hermione sabia que Malfoy era inteligente, ele sempre estivera logo atrás dela nas notas em Hogwarts e, já que ele resolvera se afiliar a Ordem da Fênix, o futuro tinha tudo para ser promissor para ele. Malfoy poderia ser o que ele quisesse ser, ele poderi-

"Eu vou ter algumas contas a prestar.", ele respondeu. E de alguma forma a expressão no rosto dele se fechara, os dedos nas costas de Hermione mais frouxos, embora ainda a segurasse.

"Mas você prestou serviços para a Ordem da Fênix, com certeza isso vai pesar mais do que qualquer coisa que tenha te acontecido naquele infern-"

"Eu matei uma pessoa, Granger."

Foi quando tudo parou.

Hermione sentiu a respiração embolando no peito enquanto aqueles olhos translúcidos mediam cada centímetro do seu rosto, as mãos frouxas em sua cintura e ele parecia derrotado. E ela só se deu conta de qual era a batalha que ele considerava perdida quando reconheceu aquela expressão no rosto dele.

A expressão que tantas e tantas vezes vira nos seus próprios olhos refletidos no espelho. A expressão de quem esperava que os outros reconhecessem em quantos pedaços estava divida a sua alma.

Ele perdera uma batalha consigo mesmo e esperava que ela visse nele o mesmo monstro que ele via. Assim como ela esperava que todos lhe lançassem sorrisos condolentes e a tratassem como a boneca de porcelana que ela se tornara.

Mas ela não era uma boneca de porcelana e não queria ser tratada como tal. E, seguindo aquele mesmo raciocínio, talvez Malfoy também não fosse um monstro. Talvez Malfoy, assim como ela, fosse vítima de uma circunstância. Talvez aquilo tudo tenha sido maior que ele.

E Malfoy parecia tão quebrado. Naquele momento passou pela cabeça de Hermione que talvez eles não fossem tão diferentes assim, porque era absolutamente impossível que a única pessoa que tivera o tato de lidar com alguém nas circunstâncias dela fosse um assassino apenas por sê-lo.

Era um tanto quanto perturbador ter aqueles olhos tão claros olhando com tanta atenção dentro dos seus. E Hermione sabia que no momento que fizesse qualquer menção de se desvencilhar estaria tudo perdido. Aquilo era uma chance. Muito mais para ele do que para Hermione em si.

Aquilo também era um teste. Parecia que Malfoy estava deixando o reflexo dos olhos castanhos de Hermione decidir se ele era de fato um monstro ou apenas uma vítima como ela.

E Hermione era boa em testes.

Ela podia ter sido injusta com ele. Podia ter feito julgamentos precipitados e dito coisas horríveis no dia que provavelmente fora um dos piores da vida dele. Mas ao perceber toda a vulnerabilidade dele, para Hermione, naquele momento, não havia uma dúvida se quer sobre o caráter de Malfoy.

Assim como não havia uma dúvida se quer de que ele esperava que ela se afastasse. Assim como não havia uma dúvida se quer de que ela não iria.

Hermione tinha a absoluta certeza que quaisquer que fossem as circunstâncias, mas de alguma forma, aquilo não definia a pessoa que ele era. Assim como as circunstâncias dela não a definiam.

"Mas mesmo assim, há fatores atenuantes, como o fato de você não ter me afogado no lago. Eu posso dizer dizer isso no Wizengamot se você quiser.", ele soltou um risinho pelo nariz e Hermione viu ali a abertura que precisava para correr seus dedos pelo rosto dele. Malfoy era frio como a tal estatua que ele tanto se assemelhava, mas ela estava quase apostando que ele era mais, muito mais que aquilo.

Ela estava quase lá.

"Matar alguém causa um cisma na alma, você sabe.", ele fechou os olhos quando os dedos de Hermione roçaram a sua sobrancelha, permaneceu com eles fechados enquanto ela mapeava seu nariz e as maçãs do seu rosto, "Mesmo que eu me arrependesse do meu crime, ele não passaria por julgamento sem nenhuma represália.", e não fugiu a Hermione que ele havia dito que não se arrependia de matar uma pessoa, mas ela continuou passando os dedos pelo rosto dele mesmo assim. Mesmo que seu coração começasse a bater desritimado no peito, ela se recusava a duvidar dele, "Eu sou um assassino agora."

Ele abriu os olhos e havia ali milhares de pequenos fragmentos de sentimentos passando pelas orbes cinzentas. Ele respirou fundo e subiu as mãos até os ombros de Hermione, os olhos fixos nos dela segundos antes de virar as costas e nadar até a borda oposta do lago.

"Quem...", e Hermione quis engolir aquela palavra de volta porque ela havia optado por não deixar as ações de Malfoy, por mais graves que fosse, definir quem ele era. Ela havia optado por dar a ele o mesmo benefício da dúvida que ele dera a ela e aquela merda de pergunta não importava porque perguntas não são necessárias quando se tem fé. Só lhe ocorreu por um breve e estúpido segundo que se falasse, talvez se sentisse mais liberto. Talvez conseguisse chegar um pouco mais perto da humanidade que aquela ação lhe tinha usurpado, "Esquece, desculpa.", humanidade esta que ele devolvera a Hermione.

Ele amarrotou as roupas e as jogou no chão, sem se dar o trabalho de as colocar novamente. Malfoy calçara apenas as botas. E teria sido engraçado olhar para o homem seminu usando botas pesadas, mas Hermione achou que nunca o vira tão frágil na vida. E doía. Por um motivo que ela mal conseguia começar a conceber, assistir Malfoy se quebrando diante dos seus olhos doía como se estivessem quebrando a ela mesma.

Hermione não achou que ele fosse responder e, honestamente, ela se amaldiçoou por ter feito aquela pergunta estúpida. Não havia nada que ela quisesse mais, naquele instante, do que tirar aquele peso das costas de Malfoy. Ela não se importava com a merda da resposta.

"Greyback.", ele já havia dado três passos em direção a casa quando falou, "Eu matei Fenrir Greyback."

E então alívio.

E era o mais estranhos dos sentimentos aquele que tomou conta de Hermione: por um lado, havia a gratidão por ele ter acabado com a existência daquele monstro, por ele ter negado a quem quer que fosse a próxima vítima, os horrores a qual Hermione fora submetida. Mas por outro lado havia a culpa, pois ela soube naquele momento que o único motivo porque ele havia corrompido a sua alma e sentenciado a si mesmo a consequências severas pelos seus atos era ela.

Demorou 98 dias. A soma exata que culminaria naquela tarde ensolarada no começo de abril, o dia em que ela se daria conta que ele havia dado a ela a sua alma e, embora não fosse a mesma coisa, embora não fosse se quer intencional, Hermione, no nonagésimo oitavo dia dês que Malfoy chegara, deu a ele seu coração.


Notas da autora: Eeee eu quase publiquei a história inteira de uma vez porque eu esqueci como mexia nisso aqui. Se você está lendo isso agora saiba que, no momento que digitei esta nota, sigo apanhando.

Muito bem, como dito, a segunda parte vem em 21 dias (três semanas) e eu vou atualizar o cronograma de atualizações. Quanto a Konstantine, eu sempre quis publicar Inércia e Konstantine juntas, por isso, estou mexendo - ativamente - nela também.

Espero que tenham gostado até agora.

Beijos! 3