Disclaimer: Harry Potter pertence unicamente a J.K.Rowling (pra mim, nem a Warner conta).
Notas: Joana Malfoy me perguntou se Draco já tinha um caso com Snape. Aqui você vai descobrir logo de cara!
Essa história se passa no sexto ano. Contém spoilers de Half Blood Prince. E yaoi também, estejam avisados!
Casais: Snape/Draco, Harry/Draco
Capítulo II
- O que veio fazer aqui, garoto?
- Já disse, eu queria conversar.
- Todos devem ter visto você me seguindo depois do jantar. Você não tem juízo?
- Eu disse que vinha tirar dúvidas com o senhor.
O sutil tom de insolência naquela voz o deixou sem reação por um segundo. Então, percebeu que não estava com a menor paciência para discussões e falou com rispidez.
- Escute aqui, Draco. Eu agora tenho deveres para corrigir, dentre eles o seu, que, a julgar pelos últimos, será mais uma decepção. Sugiro que, se realmente não tiver dúvidas, dê meia volta e enfie a cara nos livros, pra variar.
Ficou claro pela expressão do garoto que essa não era nem de longe a resposta que esperava. Recompondo-se, falou num tom que julgou seguro.
- Que pena. Eu não sabia que o senhor ainda tinha tanto medo dos nossos encontros. Ao menos eu sei que tenho experiência suficiente para não ser pego.
- Que bom que sorte mudou de nome. Agora – Snape apontou a porta com desdém – por favor.
Draco não se moveu. Snape fez menção de ir buscá-lo e o garoto se esquivou.
- Que droga! Você é teimoso, Severus, isso é ridículo! – Malfoy nem tinha terminado de falar e se viu agarrado pelo professor de poções, que tampara sua boca com a mão.
- Fala baixo, seu garoto doido!
Draco tentou falar ou sair daquela posição sem sucesso, pois ainda estava bem seguro por Snape. Sua cabeça estava encostada contra o peito do professor. Sentiu calafrios pelo corpo. Então, a voz rude que conhecia tão bem falou colada ao seu ouvido.
- Vou te soltar, e você tem cinco longos minutos para tagarelar. Se não cair fora depois disso, está encrencado.
Sem saída, Malfoy assentiu com a cabeça, e sentiu as mãos que o apertavam finalmente o deixarem. Voltou-se para o professor, que observava sem fazer questão de ocultar seu desinteresse. Contrariado, Draco começou a falar rápido.
- Acho que Potter pode estar desconfiado de que eu tenho uma missão.
A expressão de Snape não se alterou.
- E de onde você tirou essa idéia?
- É que ele, hum... Ele estava... – Draco evitava contato visual enquanto tentava se explicar, mas quando finalmente encarou Snape, a pressão só o fez se atrapalhar mais ainda. Jogando-se na cadeira de mogno que ficava atrás da carteira do professor, quase totalmente na sombra, ele apoiou o queixo nas mãos e tornou a desviar os olhos. O professor agora, ainda impaciente, ocultava certa preocupação.
- Aquele dia em que ele me atacou no banheiro, não sei há quanto tempo estava me observando...
- E o que você estava fazendo?
- Nada demais. Falei umas coisas para mim mesmo, mas nada demais...
- Então – Snape praticamente rosnou –como você acha que um cérebro pouco privilegiado como o de Potter descobriria um segredo desses só por ouvir meia dúzia de palavras sem sentido para ele?
- O problema não é o que eu falei! – o garoto cruzou os braços e ficou olhando para o nada, co.
Snape levou quase um minuto para acreditar no que ouvia.
- Acha que ele pode ter lido seus pensamentos?
- Acho – o garoto falou com nervosismo – e a cara que ele fez quando me apontou a varinha... ele sabia alguma coisa.
- Potter não é bom em legilimência como você. Eu o ensinei, e sei disso.
- Ele não precisaria ser muito bom naquela hora.
Diante das palavras de Draco, Snape sentiu a pontada aguda de uma consciência que não era nova, mas que se tornava mais clara agora. Impotência. Uma situação que não estava mais ao seu alcance. Ele próprio não passava de mais uma peça no tabuleiro. Sua autoridade como professor de Hogwarts pouco lhe serviria agora. Malfoy lhe falava de coisas perigosas, que ultrapassavam longe uma simples quebra de regras da escola. Coisas que não cabiam mesmo na máscara do garoto, a que ele usava todo dia quando desfilava pelos corredores, e que considerava imbatível.
Quantas lutas já devia ter travado contra si, tentando calar-se, sufocando vozes de pânico e terror? Então aquela mente já gritava seus demônios pelos cantos para depois tornar a encarcerá-los a custo?
Quão incontrolável deveria estar a situação dentro daquela criança?
Uma criança, pois não havia escolhido aquele caminho. Uma criança a quem ele fora imposto. Agora, Draco mostrava ser criança demais para segui-lo. Seria também muito criança para opor-se a ele?
- Então foi por isso que você o atacou?
O olhar perdido de Malfoy ainda demorou a fixar-se no professor.
- O que queria que eu fizesse?
Mas a resposta defensiva não afetou Snape. Ele sabia que não era isso que o aluno lhe tinha dito quando deixara a enfermaria, e agora reconhecia que jamais havia acreditado quando Draco lhe contara que havia sido uma simples briga.
Por causa daquele rosto abatido. Porque ele, Severus, sabia do fardo do menino. Porque ele apenas fingira não perceber as pálpebras vermelhas enquanto carregava às pressas para a enfermaria o corpo machucado.
Porque, independente de seu controle, tudo que vinha de Draco Malfoy parecia encontrar um caminho secreto para dentro dele.
Quando os dois olhares procuraram um ao outro, ébano e gelo, eles sabiam que tinham chegado ao ponto em que nada mais precisava ser dito. Nem poderia ser.
Draco ergueu-se da cadeira de mogno, onde as luzes bruxuleantes das tochas mal o alcançavam, e aproximou-se, deixando que a luz o revelasse. Por um instante, a postura ereta, os lábios finos fechados sem apertar, deram-lhe um ar resignado que o fez aparentar uma maturidade atípica dele.
Quando o garoto estendeu os braços para Snape, este lhe pegou as mãos enquanto assustava-se cada vez mais. Não encontrava desespero naqueles gestos, não parecia que Draco esperasse algo dele.
Com cuidado, como se qualquer movimento mais brusco pudesse estilhaçar o momento em mil pedaços, ele levou a mão até aquele rosto pálido, e o garoto a segurou contra a bochecha, inclinando o rosto, sentindo a pele áspera e familiar. A outra mão de Severus também o buscou e afagou, muito de leve, as bochechas frias. Draco inclinou para trás a cabeça, e enquanto as mãos lhe desciam até o pescoço, e pelos ombros, ele sentia um calor agradável envolvê-lo, forte e suave, levando embora um frio que não era corpóreo. Como se não pudesse suportar isso por mais tempo, puxou Severus e encostou-se a ele. Não houve resistência ao gesto, mas este também não foi retribuído. Ele olhou para cima. Snape tinha o olhar ausente, parecendo distante, e Draco reparou como suas feições duras suavizavam-se quando ele se perdia em pensamentos, fazendo-o parecer mais jovem.
- Draco. Falar sobre as coisas que você pensa pode ajudar.
O tom suave que ele não esperava, mais o assunto repentino, fez Draco afastar-se para encarar Snape, que nada fez para detê-lo.
- Sua cabeça ficaria menos cheia e diminuiria o perigo de deixar algo escapar.
Draco ainda estava sem reação quando Severus aproximou-se e abaixou a cabeça, ficando com o rosto na altura dele.
- Não se faça de desentendido.
- E o que quer que eu faça? Escreva um diário?! – gritou, cheio de indignação, e pela segunda vez nessa noite se viu apertado contra Snape, sua boca mais uma vez tampada. A voz que falou em seu ouvido não se alterara.
- Você só confiaria num diário?
Draco tentou ignorar o arrepio que se estendeu por todo o seu pescoço. A mão sobre sua boca saiu, mas ele não foi solto. A tensão não permitia que ele recostasse no corpo atrás do seu. Como se soubesse disso e quisesse respeitá-lo, este não se movia, e mesmo o braço que o retinha pela cintura ficou parado ali.
Uma idéia repugnante se formava em sua cabeça, alimentada pelo seu frágil estado de nervos. Tudo isso que era trazido à tona o fazia pensar em coisas desagradáveis, relativas principalmente a ele próprio.
Como se já não bastasse o ambiente imundo em que crescera, agora sua própria visão de mundo contaminava-se de pura malícia.
Não foi capaz de verbalizar o pensamento, e o que deixou sua boca foi um resmungo indistinguível. O professor de poções nada disse. Quando Draco voltou-se para ele, deparou-se com olhos que lhe cobravam uma postura. Sentiu-se menor ainda. Aquele olhar seguro diante dele, de suas perturbações, só fez intimidá-lo.
- Você quer me seduzir, para eu te contar tudo! – soltou, esquivando-se bruscamente. Antes que alcançasse a porta, Snape já havia destrancado-a com a varinha. Intrigado com a falta de uma resposta ao que fizera, Draco ainda voltou-se para encará-lo mais uma vez. Esperava fúria, raiva, ou mágoa. Não a rigidez que encontrou naquele rosto, já severo por natureza.
- Parece que Lucius fez um bom trabalho ao ensiná-lo a não confiar em ninguém. Não sei por que motivo você me procurou. Pode sair.
E ele saiu, antes que resolvesse voltar atrás. Não poderia; o que estava feito estava feito. E Snape já lhe virara as costas.
Draco deixou as masmorras e mal chegara ao corredor de cima quando tropeçou em algo invisível. Caiu de barriga no chão e conseguiu proteger o rosto com um braço, mas alguém (invisível) o arrastou rapidamente para trás de uma armadura. Assim que se viu livre, ele levantou do chão, olhando em todas as direções, sem achar nada. Já ia sair correndo, quando uma mão surgiu do nada na sua frente e jogou algo (invisível) para longe, revelando ninguém menos que Harry Potter.
Ele abriu a boca para manifestar sua revolta, mas o garoto adiantou-se e o calou com a mão. Draco se perguntou o que as pessoas tinham contra ele falar.
- Eu não falaria alto se fosse você, Malfoy. Estamos fora da hora permitida aos alunos. E Snape não vai poder te dar cobertura se outros professores estiverem envolvidos.
De repente, no quadro atrás deles, onde uma bruxa de aparência nobre lia tranqüilamente sob uma árvore, surgiu Sir Cardogan, montado em seu cavalo, clamando com vigor.
- Ele está mais do que certo, meu jovem! Não é prudente gritar a essas horas...
- Como você fez agora? – Harry resmungou, e o cavaleiro não ouviu, pois continuou sua jornada pelos quadros, exigindo, a plenos pulmões, respeito ao silêncio da escola. A bruxa, que levara um susto, olhava indignada para os lados.
- Por acaso você andou me seguindo, Potter?
Harry estudou seu arquiinimigo. O garoto tentava aparentar calma, mas a voz trêmula dissera o contrário. Fora surpreendido e estava furioso.
- Ora, Malfoy. Você dá todos os motivos para eu te seguir!
Apesar da resposta agressiva, Harry tentara usar um tom casual. Não estava procurando briga e precisava que o outro o escutasse. Contudo, ele só viu o rosto de Draco passar de tenso para debochado.
- Vai se dar mal. Vou reclamar com a Mc Gonagall que você tem me seguido em vez de cuidar da sua vida.
- Faça isso. Eu aproveito e vou como você, e conto a ela sobre as suas conversas escusas com Snape.
A cor sumiu do rosto do garoto como se um aspirador a tivesse drenado. Tentou manter a voz firme.
- Não seja maluco. Eu estava tirando dúvidas com o professor Snape.
Foi a vez de Harry achar graça.
- Professor? Você não chama ele assim, Malfoy. A não ser quando te convém...
Draco arregalou tanto os olhos que Harry conseguiu ver o contorno dos buracos cadavéricos do garoto. Este virou as costas com a óbvia intenção de fugir dali, mas Harry o agarrou pelo pulso, puxando-o de volta.
- Deixe de ser covarde uma vez na vida. Pra sua sorte, não estou nem um pouco interessado no seu caso com Snape.
Um minuto de silêncio. Ainda sem virar para ele, Draco falou.
- O que mais você ouviu?
- O suficiente para saber que você tem uma missão secreta. Nada que eu não soubesse antes.
- Nada que tenha a ver com você! É uma pena, mas dessa vez não dá pra você bancar o herói, Potter!
- Então é mesmo algo horrível, não é?
O deboche sumiu da cara de Malfoy tão rápido quanto havia surgido. Ele olhou para o garoto de olhos verdes como nunca havia feito na vida; sem julgamento. Harry percebeu e retribuiu o olhar. Sabia que Draco fazia isso inconscientemente e que em um segundo voltaria ao seu orgulho besta. Mesmo assim, perguntou-se se o outro o via agora de um outro modo, bem diferente do que sempre vira.
Como acontecera com ele...
Respirou fundo. Havia chegado à parte mais difícil.
- Eu te procurei para ajudar.
Malfoy deixou escapar um riso agudo e escandaloso. Como não via graça alguma, Harry apenas o encarou seriamente, até o garoto conseguir se conter.
- Você ficou louco, Potter.
- Eu sei que você não quer.
- Você não sabe de nada!
No instante seguinte, Draco se viu preso contra a parede.
- Você não pode esconder de mim o que eu vi, Draco.
Nunca antes haviam estado tão próximos. Nunca antes Malfoy pudera distinguir cada fio de cabelo arrepiado do outro, ou sentir o calor que vinha daquele rosto afogueado. E Harry, contemplando o rosto do inimigo, perguntava-se se este não seria realmente feito de mármore, branco como era, com frágeis veias azuladas correndo pelo pescoço. Não o ouvia respirar, e os pulsos que segurava eram frios.
Sem desviar dos olhos de gelo, Harry falou.
- Malfoy, se você falar com Snape, só vai atrapalhar. Ele vai querer tomar parte disso, também está do lado do... – calou-se abruptamente. Estava indo pelo caminho errado. Draco estava em estado de choque e olhava para ele como se não o conhecesse.
- Mas se você falar com Dumbledore, ele pode te livrar disso, e não vai te condenar, eu garanto!
- Cale a boca, Potter! Você está tentando ler minha mente! – Draco gritou de repente, soltando-se de Harry, que o deixou. Sabia que havia tocado em algum ponto fraco, pois o outro estava descontrolado e mesmo os olhos gélidos haviam escurecido. Então, quando ele parecia prestes a explodir de novo, ambos ouviram passos vindo na direção deles. Harry puxou o garoto para perto e jogou sobre eles a capa da invisibilidade.
Segundos depois, Filch passou com madame Norra. A gata parou na frente deles e fuçou. Draco prendeu a respiração. Ela ainda olhou desconfiada, mas saiu, com o zelador atrás, resmungando "Quase, quase!"
Quando ambos já estavam longe, Harry tirou a capa.
- Você gritou, Malfoy.
Draco o ignorou. Harry nunca o vira tão sério.
- Não volte a me seguir, Potter. Estou avisando.
E virou as costas. Antes de fazer o mesmo, Harry ainda ficou olhando ele se afastar, pensando que, apesar de tudo, aquela fora a conversa mais decente que haviam tido.
