Disclaimer: Inuyasha não me pertence. Esse fanfic tem o único objetivo de divertir.
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TUDO PELA HERANÇA
Por: Madam Spooky.
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Capítulo 6 - Discussões
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Sesshoumaru estava entediado.
Ele olhou para a maravilhosa vista com a qual era privilegiado de sua posição no alpendre sem muito interesse. O mar estava calmo e as árvores que cobriam parte das dunas balançavam contra a ventania de fim de tarde. Havia duas opções, levando em conta que esperar ali sentado até que Kikyou aparecesse com uma dúzia de sacolas de compras, falando sem parar sobre assuntos pouco interessantes para ele, estava fora de questão. Poderia se levantar e dar uma longa caminhada pela costa até os limites da praia, exatamente como fizera no dia anterior e no dia antes daquele, ou poderia, simplesmente, subir pra o quarto, ligar o computador e gastar o resto da tarde visitando alguns sites 'interessantes'.
Optou pela segunda opção sem mesmo pensar. Não era de seu feitio passar um dia inteiro dentro de casa, mas caminhar sozinho por um lugar paradisíaco como aquele também não lhe parecia muito atraente. Se ao menos Kikyou passasse mais tempo com ele ao invés de ocupar todas as tardes com compras e mais compras de coisas que ela jamais usaria e lembranças artesanais que pareciam não servir para coisa alguma... Mas do que ele estava reclamando? Estava em uma ilha, não era? Com muito sol, mar, lugares para ver e o melhor, sem precisar levantar um dedo para ter atendido todos os seus desejos. E tudo isso graças ao dinheiro de Kikyou. E daí se ela preferia estar na companhia de vendedores de shopping a dele? Ele podia sobreviver sem ela em um lugar como aquele. Não poderia...?
Com um suspiro entre o irritado e o resignado, ele ignorou um empregado que perguntava, sorridente, se ele precisava de alguma coisa e subiu para o quarto. A espaçosa acomodação que ocupava era iluminada por uma luz tênue àquela hora do dia. A grande janela que dava para a varanda - com saída no quarto vizinho, de Kikyou -, estava aberta permitindo o vento circular livremente pelo cômodo, tornando-o fresco e agradável. Sesshoumaru olhou para fora por um momento, mas logo se virou para a escrivaninha encostada a parede onde um computador empoeirado descansava desligado. Um lugar como aquele parecia não dar tempo a ninguém para pensar em coisas como televisão e computadores, pelo menos fora isso que ele pensara a princípio. Dois dias depois, quando percebera finalmente que o único motivo de estar ali era que sua exuberante anfitriã gostava de desfilar de vez em quando com um homem que chamasse atenção, ele começou a entediar-se e deu graças aos céus por eletricidade e aquele tipo de conforto mesmo em uma ilha aparentemente tão remota. Nunca fora um freqüentador assíduo da Internet, mas e daí? Por acaso havia alguma coisa melhor para se fazer enquanto esperava sua deixa para brincar de casal perfeito com a mulher que pensara estar realmente interessada nele?
A medida em que pensava em Kikyou e suas compras, Kikyou e suas amigas da sociedade, Kikyou e suas festas exibicionistas, e o modo como ela o fazia sentir-se usado e inferior quando estava por perto, sua irritação aumentava consideravelmente. Pior ainda era admitir que ela era mestra em faze-lo esquecer tudo aquilo e tornar-se imediatamente adorada a seus olhos com a mesma intensidade com que era desprezível instantes antes, isso em um piscar de olhos. Nos últimos dias estava cogitando seriamente tentar persuadi-la a voltarem para o Japão. Quem sabe assim as coisas melhorassem entre eles...? Mas, enquanto não refletia em um argumento realmente convincente, era melhor ocupar sua mente com outras coisas e tentar não pensar tanto nela.
Um pouco mais tranqüilo, ele limpou rapidamente a poeira do computador e ligou o aparelho que o saudou com o refrão de uma música antiga, que ele gostava quando era mais jovem, mas que agora nem mesmo conseguia lembrar como se chamava. Muitas coisas tinham mesmo mudado em sua vida.
As primeiras duas horas foram ocupadas com os costumeiros sites proibidos. Kikyou teria um ataque se soubesse que ele andava usando a Internet, as custas dela, para ver aquele tipo de coisa. A verdade era que esse era o único motivo pelo qual ele continuava fazendo isso. Um homem como ele, que podia ter a mulher que quisesse apenas estalando os dedos, não precisava de pornografia barata. Mas pensar que estava fazendo algo que era proibido na sua atual situação de homem comprometido e abandonado o deixava em um estado de excitação sem igual. Gostava de imaginar Kikyou pagando por aquele capricho. Era quase tão empolgante quanto se a estivesse traindo, uma vez que era o mais perto que chegaria disso, embora custasse a admitir a si mesmo ter esse tipo de valor moral.
Como das outras vezes, cento e vinte minutos saltando de site em site, mal vendo a grande parte do conteúdo, foi o bastante para entedia-lo ainda mais do que estava antes. Ele quase desejava ter ido dar aquele passeio.
Sem muita escolha, decidiu que antes de procurar outra coisa para fazer, veria algumas notícias de seu país. Talvez estivesse acontecendo alguma coisa interessante por lá, afinal. Quem sabe ele tivesse sorte e encontrasse algo que o ajudasse em seus argumentos de que já era tempo de voltar para casa?
Não foi preciso muito tempo para ver que não havia nada de novo acontecendo. Pelo visto o Japão ia bem, na medida do possível. As notícias do maior jornal de Tokyo eram em sua maioria trivialidades, como assassinatos entre membros de gangues, assaltos, acidentes de trânsito... O tipo de coisa lamentável que não se pode erradicar por completo por maior que seja o esforço das autoridades. Ele já estava quase desistindo quando resolveu dar uma olhada nos obituários. Provavelmente não encontraria nada interessante. A sociável era Kikyou e não ele. Nenhum se seus amigos estariam em um obituário de jornal se por acaso, desafortunadamente, morressem.
Engraçado como ele pensara nisso: "A sociável era Kikyou e não ele". Soava tão familiar... Quase como se estivessem casados. Há quanto tempo a conhecia? Um ano? Um pouco mais. E eles estavam juntos há menos de três meses. Ele sequer estivera interessado em levar sua amizade para um nível distinto até que ela dera mostras de pensar diferente. Mas bastou uma palavra dela para ele se ver completamente perdido. Seisshoumaru balançou a cabeça com o intuito de espantar esses pensamentos. Ele decidira que não pensaria nela e cumpriria enquanto fosse possível.
Como pensara antes, as fotografias do obituário eram todas de ilustres desconhecidos. Pessoas sorridentes, mostradas em vida com seus sorrisos mais deslumbrantes. Pura ilusão, ele sabia. Nenhuma daquelas pessoas mantinha aqueles sorrisos no seu dia a dia. Eram todas duras e mesquinhas. Desprezíveis, na opinião dele.
Aquelas fotografias o faziam lembrar da avó de Kikyou. Mulherzinha irritante. Lembrava-se do esforço que fizera para parecer à altura dos convidados dela naquela estúpida festa a qual fora antes da viajem. Ele tinha agido como um idiota, mas parecera estar valendo a pena, uma vez que Kikyou se mostrava animada coma idéia de ambos escaparem para longe. Kaede obviamente não apreciara sua presença. Eles tinham sido apresentados meses antes pela própria Kikyou e a velha senhora parecera muito aliviada quando ele dissera que estava de viagem marcada para a Europa, onde concluiria o mestrado em história. Mal sabia ela que ele encontraria sua neta novamente mais cedo do que ela imaginava. Para Kaede, Kikyou estava nos Estados Unidos estudando administração e se preparando para assumir os negócios da família quando herdasse tudo. Kikyou uma mulher de negócios... Soava como uma grande piada. Tudo o que ela fizera no último ano fora viajar e gastar o que podia. A única coisa que ele tinha certeza que ela entendia sobre negócios, era como usar um cartão de crédito. No dia da festa estivera tão feliz por ela ter concordado com seu convite para ir para longe com ele, que não percebera que o único motivo pelo qual ela aceitara fora não estar por perto quando Kaede descobrisse suas atividades nada produtivas dos últimos meses.
Naquela ocasião ele a tinha convidado para acompanha-lo até Kyoto, aproveitar o verão na casa de sua família. Ela recusara polidamente e o convencera de que quanto mais longe estivessem de sua avó melhor. Ele caíra como um pato. Queria tanto estar com ela que não percebera imediatamente o que aquilo significava. Agora estava do outro lado do mundo, em uma ilha onde ninguém falava seu idioma, com uma mulher que adorava e odiava ao mesmo tempo, totalmente dependente da mesma. E não havia absolutamente nada que pudesse - ou talvez quisesse - fazer a respeito.
Já estava na terceira página dos obituários... O que interessava quem havia morrido há mais de dois dias? Ele empurrou a barra de rolagem depressa até o final com a intenção de fechar o site logo em seguida quando viu um rosto que conhecia muito bem. Sesshoumaru sentiu o coração parar.
Era Kaede.
Kaede estava morta.
Ele se levantou quase derrubando a cadeira de palha onde estava sentado e ficou de pé, estático, olhando para o computador.
Com Kaede podia estar morta? Ela estava ótima quando eles saíram do Japão...
A curiosidade foi mais forte que a surpresa e ele voltou a sentar-se e começou a ler o breve artigo a respeito do óbito, que acompanhava a fotografia. Segundo estava escrito ali, a velha mulher tinha morrido durante uma festa. Aquela festa. Engasgada com um canapé.
Para Sesshoumaru, aquele era uma maneira extremamente estúpida de morrer. Mas era irônico, não? Ela tinha gastado tanto dinheiro com a comemoração da chegada de sua neta e o início de uma nova vida, mas acabara que uma das caríssimas iguarias especialmente escolhidas para os igualmente caríssimos convidados, tinha acabado por provocar-lhe a morte. Era quase engraçado. Quase? Vamos lá, era muito engraçado. Quem pensaria que Kaede terminaria daquela maneira? Ele ainda não tinha caído na risada por respeito a Kikyou e porque não fora criado com a moral tão baixa a ponto de se permitir rir de alguém cujo corpo esfriava debaixo da terra.
Mas e agora? Quando a surpresa passou, ele finalmente pode ver o que aquilo significava. Kaede morrera e agora sua fortuna pertencia a Kikyou. Isso era ótimo... Para ela. Ele já suportara o suficiente naqueles quatro dias com uma Kikyou financeiramente estável, o que teria que suportar com uma Kikyou milionária? Depois que ela recebesse o dinheiro, havia também a possibilidade de que a jovem decidisse que não precisava mais dele. Por que uma mulher bonita e rica iria querer ficar com um simples professor de história que no momento estava esperando por uma oportunidade não certa na Universidade de Tokyo? Ela certamente o deixaria, ele não precisava ter dúvidas sobre isso.
Kikyou e eu vamos voltar mesmo ao Japão, mas ela vai me deixar. Acabou, Sesshoumaru, o sonho acabou.
O pensamento soou terrivelmente claro. E agora? Se ele estava se sentindo sufocado, era a chance perfeita de livrar-se dela sem parecer canalha ou mal agradecido. Só tinha que contar sobre aquilo e esperar que ela mesma o dispensasse. Por outro lado, havia aquela parte dele que era louco por ela. Que não conseguia se ver um dia que fosse sem o sorriso dela, as palavras de carinho - falsas ou não -, o perfume que ela parecia usar propositadamente para enlouquece-lo... Droga, Sesshoumaru, o que está acontecendo com você?
E agora?
Ele olhou mais uma vez para o computador com desespero. Não havia como tomar uma decisão naquele momento, precisava pensar sobre o assunto. Confuso e suficientemente preocupado para sentir-se quase claustrofóbico por mais espaçoso que fosse o quarto, ele fez a primeira coisa que lhe veio em mente. Imprimiu a página e guardou-a cuidadosamente na gaveta, com o cuidado de esconde-la embaixo de vários outros papéis. Em seguida desligou tudo e saiu depressa, rumo a praia. O céu já estava escurecendo, mas quem se importava? Nada como um passeio ao ar livre para alguém que precisava urgentemente clarear os pensamentos.
~*~*~*~
Miroku deixou-se conduzir por Inuyasha para fora do escritório de Kouga em silêncio. Chegou a olhar de relance para Sango que observava toda a cena confusa, mas ela pareceu não notar, mais preocupada com Kagome que ficara para trás que com o destino do homem de quem travara conhecimento meia hora antes.
Droga. Talvez sua abordagem direta, entrando no meio da cena que seguia dentro da sala e armando aquele escândalo todo, não tivesse sido uma boa idéia. Ele estivera tão ansioso em evitar que o irmão envolvesse a garota do outro dia naquele plano maluco de roubar a herança de Kikyou que sequer planejara direito as coisas. E agora, o que aconteceria? Inuyasha estava furioso. O fato dele até então não ter pronunciado uma palavra sequer, deixando para descarregar sua raiva quando estivessem na segurança do quartinho que chamavam de apartamento, não era um bom sinal. Se ele tivesse explodido em insultos, arrancado os cabelos, quebrado tudo dentro do prédio ou atirado alguém pela janela do décimo segundo andar, provavelmente o clima entre os dois não estaria tão pesado.
A saída do prédio e as ruas percorridas até o bairro afastado onde viviam pareceram ter passado em câmera lenta. Miroku se sentia mais ou menos como alguém que observa a paisagem da janela de um ônibus em um estado semiconsciente. O tempo todo ele não parava de se perguntar o que aconteceria agora. Por tudo que pudera saber sobre Kagome - e que não fora muito - enquanto conversava com Sango dentro do elevador, entendera que ela era uma garota ingênua com relação a relacionamentos, ele diria que quase infantil, mas isso não queria dizer que ela fosse igual quando se tratava de outros assuntos. O problema em questão era o quanto do implícito no que ele dissera ela conseguira captar. Será que ele cortara pela raiz todas as chances de Inuyasha obriga-la a participar de seu plano ou apenas a deixara confusa? Ele quase podia ouvir as engrenagens do cérebro do irmão se movendo, tentando se convencer de que ainda havia esperança. Miroku sorriu intimamente. Mesmo que ela não tivesse entendido o espírito da coisa, certamente estaria furiosa no dia seguinte por ter sido largada naquele edifício, sozinha, assim, sem mais nem menos.
Ele mal notou quando começaram a subir as escadas para o apartamento. A essa altura há muito Inuyasha já tinha soltado seu braço, mas ainda que não tivesse feito, Miroku não estivera muito consciente do gesto. À medida que os degraus iam sendo deixados para trás, a expressão do jovem trapaceiro começou a mudar de uma neutra para uma levemente irritada. A sobrancelha direita estava erguida e a boca entreaberta, como um palestrante, pronto a começar a falar. Quando a porta foi aberta e Miroku sentiu o impacto da luz estupidamente amarela atingir-lhe os olhos, ele despertou finalmente para a realidade. Tinha estragado o plano de seu irmão e agora estava prestes a pagar por isso.
Miroku sorriu nervosamente e colocou as mãos nos bolsos em um gesto que lhe era automático desde a infância. De súbito lembrou-se de algo que acontecera quando ele tinha por volta de cinco anos. Inuyasha tinha um palhaço de pano, velho e remendado, que era seu brinquedo favorito desde que era um bebê. Apesar de estar velho demais para brincar com ele, o irmão tinha ciúme do brinquedo e não o deixava ninguém toca-lo. Um dia, quando ninguém estava olhando, ele entrou no quarto de Inuyasha e encontrou o palhaço velho largado no chão, ao pé da cama. Ele não pensou nas conseqüências antes de toma-lo nos braços e brincou com ele, sem nenhum zelo, durante toda à tarde, rasgando as costuras mal feitas até que o brinquedo não era mais que um trapo sujo e sem nenhuma utilidade. Quando o irmão descobriu o que acontecera, fora um escândalo. Ele não se importara nem um pouco em ser mais velho e estar espancando covardemente o irmãozinho muito menor em idade e tamanho. Tudo o que importava era que Miroku merecia uma boa lição.
Aquela devia ser sua lembrança mais antiga. Inuyasha nunca voltara a lhe bater - talvez pelo provável castigo que sofrera dos pais, talvez porque ele mesmo não dera motivo -, mas a lembrança ainda doía nos ossos causando-lhe calafrios. Depois do que acontecera, ele se sentia como se novamente tivesse estragado o brinquedo favorito do irmão e tinha noventa por cento de certeza de que sofreria uma reprise daquela vez, muito pior agora, levando em conta que Inuyasha não era mais um menino de nove anos de idade.
Ele chegou a virar de costas e fechar os olhos. Ficou assim por quase cinco minutos até ouvir um suspiro cansado vindo de Inuyasha e ouvir o barulho do mesmo afundando no sofá e ligando a TV. Uma música animada invadiu o ambiente. Era a abertura de uma novela que era transmitida diariamente por um dos dois canais que eles conseguiam sintonizar com a antena caindo aos pedaços que possuíam.
Miroku abriu os olhos e se virou, incrédulo. Devia agradecer aos céus e correr para o trabalho antes que a bendita novela acabasse e ele se tornasse melhor distração que o noticiário que seria transmitido em seguida? O relógio de parede marcava seis e meia. Ele já estava atrasado e este era mais um motivo para sair dali correndo. Mas por mais que fosse isso que intimamente quisesse fazer, ele era tudo, menos um covarde. E ter uma conversa com Inuyasha - civilizada, até onde ele pudesse manter - era algo que não podia adiar. Não depois que as coisas tinham chegado ao ponto em que chegaram.
Juntando a pouca coragem que tinha no momento - e mais um pouco tirada da lembrança de que uma vez que sustentava o irmão, ele não ousaria mata-lo -, se colocou na frente da TV, respirou fundo e começou, com a voz assustadoramente controlada a seus próprios ouvidos:
- Não adianta fingir que não aconteceu, Inuyasha. Nós teremos, cedo ou tarde, que falar sobre isso.
Inuyasha deixou escapar um suspiro contrariado e começou a contorcer-se de um lado para o outro, procurando alguma brecha por onde seus olhos pudessem alcançar a TV. Depois de muito tentar e ver que Miroku não lhe daria chance de continuar com o que estava fazendo, ele finalmente relaxou.
- O que você quer? - perguntou com a voz cansada. Qualquer um que o visse daquele jeito, sem ter consciência dos fatos que precediam cena, juraria que suas alegações de que o irmão era problemático e o fazia sofrer eram a pura verdade. - Eu pensei que quando eu me sentei aqui, sem dizer uma palavra, você tivesse entendido que não estava mais disposto a falar sobre o que você fez. O estrago já foi feito! Agora eu só tenho que pensar em uma forma de remediar o mal que sua visitinha surpresa ao escritório do Kouga, justo naquela hora, causou a mim e aos meus planos para Kagome.
Miroku ficou gelado, um pouco pela raiva, mas principalmente pela surpresa. Como Inuyasha conseguia ser tão cínico? Como ele conseguia falar daquilo como se estivesse coberto de razão?
- Inuyasha...
Ele não sabia o que dizer. Naquele instante compreendeu algo que talvez já soubesse, mas que tinha reservas em aceitar: Nunca poderia despertar decência e honestidade no irmão, porque ele não tinha nenhuma dessas qualidades. Não sabia como alguém conseguia desviar-se do bom caminho estando o dia inteiro sentado em casa, sozinho com sua consciência, mas o homem a sua frente era a prova viva de que podia acontecer. Neste mundo, esteja onde estiver, ninguém está completamente a salvo. Talvez houvesse alguma causa transcendental, tal como tinha aprendido quando seu pai o deixara dois meses em um mosteiro budista, dez anos antes, esperançoso que aquilo despertaria nele vocação religiosa. Talvez fosse culpa da televisão. Era sempre culpa dela. Inuyasha tinha se perdido vendo filmes demais sobre ladrões que acabam se dando bem.
- O que eu faço com você, Miroku...? - ele não percebeu quando aconteceu, mas o irmão estava de pé, por trás do sofá onde estava sentado instantes antes, com as mãos apoiadas no encosto. - Será que você não pode abrir essa sua mente terrivelmente honesta e imbecil por um instante e entender que o que eu estou fazendo é para o nosso bem?
Para o nosso bem...? Pois sim...! Mesmo que Inuyasha cogitasse inclui-lo na nova vida que provavelmente planejava depois que conseguisse aplicar o golpe, ele duvidava muito que o fato de trabalhar todas as noites como um burro de carga tivesse alguma influencia no que estava acontecendo.
Mais ou menos refeito do choque de descobrir sobre o vigarista cínico e frio com quem dividia o apartamento, ele conseguiu argumentar no ponto que lhe era mais preocupante:
- Inuyasha, você não pode continuar fazendo isso com aquela garota. Ela pensa que você está mesmo interessado nela e eu tenho medo que acabe se envolvendo nessa história sem perceber. Você já pensou depois? Quando ela descobrir? Não estou preocupado com você, mas com ela.
- Mas é exatamente isso que eu quero - respondeu Inuyasha com um sorriso tolo. Parecia que Miroku tinha acabado de dizer que a Terra era redonda - que ela entre no jogo sem perceber. E eu queria que ela saísse sem perceber também. - ele cerrou os punhos - Eu estava conseguindo... Ela não ia se machucar do jeito que as coisas andavam, mas agora que você resolveu se meter, eu não garanto mais nada. Eu só sei o que quero que aconteça e se quer saber, não me interessa o que você acha!
Ele passou as mãos pelos cabelos e lançou ao irmão um olhar desafiador, como se perguntasse "e então, o que você pensa que vai fazer a respeito?".
Miroku ainda tentou contar a até dez mentalmente, mas dessa vez não seria tão fácil manter a calma.
- Eu não ligo para o que você quer! - gritou ao perder as estribeiras de vez. Odiava ser desafiado, principalmente por aquele olhar de você-não-é-páreo-para-mim-seu-idiota que Inuyasha reservava especialmente para ele. - Eu não quero que você acabe na prisão ou coisa parecida! Eu sei que no final das contas ia sobrar para mim, pagar a sua fiança, arrumar advogado e nem sei mais o que com o dinheiro que eu NÃO tenho. Já pensou se a Kikyou volta e se dá conta do que você está tentando fazer? Acha que ela vai fazer o que? Dar-te os parabéns? - ele sorriu sarcasticamente.
- Isso não é da sua conta, Miroku. - Inuyasha estava vermelho. - Acha que não sei dos riscos? Você acha realmente que eu faria algo assim se houvesse outro jeito? Ou você gosta da vida miserável que levamos?
Miroku quase riu. A verdade era que se não estivesse tão zangado, provavelmente teria tido uma crise.
- Inuyasha, você é uma figura... Eu acho que você quis dizer a vida miserável que EU levo. Porque que eu saiba, você vive muito bem, sentado dia após dia na frente dessa maldita televisão com as suas malditas cervejas sem fazer nada na vida além de ocupar espaço no planeta. - ele passou a mão pelos cabelos e olhou para o relógio de parede, ciente de que se não terminasse logo com aquela discussão, acabaria colocando seu emprego em risco. - E como assim "se houvesse outro jeito"? Você já pensou em arrumar um trabalho? T-R-A-B-A-L-H-O?
Inuyasha se jogou no sofá e encarou o irmão.
- Você trabalha não é? E eu pensei ter acabado de ouvir que tem uma vida miserável...
O silêncio reinou pelos cinco minutos subseqüentes. Os dois continuaram na mesma posição. Inuyasha tinha um brilho de triunfo nos olhos, enquanto Miroku parecia não acreditar no que estava ouvindo. Quando este respondeu, a voz saiu fraca e cansada:
- Eu não teria se não fosse por você.
Lançando um último olhar para o relógio de parede, Miroku pegou as chaves em cima da mesa e saiu. Sabia que o que acabara de dizer não tinha como ser mudado, mas não estava arrependido. Pelo menos não ainda. Naquele momento tudo o que ele queria era sair de dentro daquelas quatro paredes e ir para bem longe, algum lugar onde Inuyasha não estivesse e que pudesse livrar-se de todos os seus problemas por pelo menos algumas horas. Talvez trabalhar àquela noite não fosse ser tão ruim quanto costumava ser sempre.
- Idiota. - disse Inuyasha para o apartamento vazio. Os olhos fixos no chão, as mãos passeando pelos cabelos compridos. - Um dia ainda vai me agradecer...
~*~*~*~
- Não, não, não! Absolutamente não! Eu me recuso a creditar nisso!
Kagome estava sentada na cama, em uma posição um pouco desconfortável. Tinha o corpo caído para trás, apoiado nas mãos abertas sobre o travesseiro, de uma maneira em que seus braços davam um giro de quase cento e oitenta graus. Na frente dela, sentada confortavelmente na cadeira de balanço, próxima a janela, desde que chegaram, estava Sango. Ambas discutiam o que teria acontecido no edifício comercial mais cedo naquele dia.
- Eu não vejo uma razão para você não creditar. - respondeu Sango balançando a cabeça. Mas pelo tom de voz que usou, Kagome teve certeza de que ela mesma estava tendo problemas em aceitar o que acabara de dizer.
- Inuyasha não está tentando me enganar para me fazer passar pela prima 'amada' dele! Ele a odeia, não tem razão para isso.
- Mas ele pode ser um desses homens que ficam obcecados por uma mulher. - disse Sango, subitamente inspirada. - Imagine que ele cresceu com a prima, a garota rica, bonita, em outras palavras, inalcançável. Inuyasha parece ser do tipo ambicioso, então ele pode ter cismado em conquista-la.
- Sango...!
Kagome tentou interromper, mas foi em vão. A amiga continuou falando, exatamente como um detetive apresentando a solução de um caso.
- Ela foi estudar nos Estados Unidos e eles passaram muito tempo sem se ver. Nesse período ele foi alimentando o antigo desejo até que se tornou uma obsessão. Depois ela volta e eles não se vêem. Ele deve ter ficado furioso, descontando tudo no pobre coitado do irmão. - ela balançou a cabeça desaprovadoramente - Quando você apareceu, Inuyasha ficou louco de vez e agora está tentando transformar você em Kikyou, convencendo todo mundo de que você é ela, para assim acabar com a própria frustração. Ele quer realizar um antigo sonho impossível através de você.
Quando acabou de falar, os olhos de Sango brilhavam, enquanto Kagome parecia em dúvida se a aconselhava a procurar um estúdio de televisão ou ligava para um sanatório.
- Ok, Sango. Digamos que você esteja certa. - disse decidindo entrar no jogo. - Onde entra o Kouga nisso tudo? Ele saberia que não sou a Kikyou se não estivesse demente.
- Para mim ele não parecia nada transtornado. Eu vi como ele deu em cima de você e...
- Sango! - Kagome gritou. Não queria ouvir sobre Kouga. Ela mesma achara muito atrevidas as atitudes dele e só não disse nada porque não fazia idéia do grau de intimidade que havia entre ele e a prima de Inuyasha. Depois de tudo, ela não ia colocar tudo a perder, não é mesmo? Estava feliz de ter conseguido agüentar calada até o fim, mas se pudesse evitar, nunca mais entraria na sala daquele advogado. Da próxima vez ele teria que se contentar com uma fotografia da garota ao invés de uma sósia.
- Você nega que a minha teoria tem lógica? - perguntou Sango.
- Nego! - respondeu Kagome enfática. Em seguida, sorriu maliciosamente. - Na minha opinião tem muito mais lógica dizer que você gostou do irmão do Inuyasha e está tentando arrumar uma boa desculpa para ele sair como a vítima nessa história toda.
Sango esbugalhou os olhos. O rosto dela avançou dois tons de vermelho e ela entreabriu a boca, mas não conseguiu emitir nenhum som. Tudo bem que ela achara Miroku bem interessante, ele fora muito gentil com ela e parecia muito mais inteligente que qualquer outro homem que ela conhecia, mas o que uma coisa tinha a ver com a outra?
- Viu? - disse Kagome triunfante. - Você gostou mesmo dele e não pode ser imparcial. Depois disso não me venha com mais nenhuma dessas teorias absurdas. Só falta você dizer que Inuyasha está me usando para roubar a herança da Kikyou.
- Nem ele seria tão idiota. - respondeu Sango. - E eu não gostei do irmão dele!
- Ah, gostou sim.
- Kagome!
- O que?
Kagome deixou-se cair deitada na cama e começou a rir. Sua amiga ficava mesmo muito engraçada quando se envergonhava.
- No final das contas não chegamos à conclusão alguma. - disse Sango em uma tentativa desesperada de mudar de assunto.
Kagome percebeu, mas não insistiu em contraria-la.
- Eu não entendi nada do que aconteceu. Primeiro o irmão do Inuyasha entra no escritório e faz aquele escândalo todo não se sabe por quê. Depois o Inu sai arrastando ele da sala e até me esquece lá. E você viu que o Kouga queria me levar para casa? Como deixam ele sair assim sozinho se está tão doente? Ainda bem que você apareceu lá ou eu teria me metido em uma enrascada daquelas.
- De nada. - Sango sorriu. Depois de tudo Kagome nem se lembrara de perguntar o porquê dela ter estado lá. Certamente tinha admitido que fora tudo uma grande coincidência, quando por obra do destino houve aquele acidente entre ela e Miroku. Melhor assim, tinha um problema a menos em que pensar. - Mas eu ainda acho que o Kouga não está doente.
- Acha que ele enganou o Inuyasha e eu?
Parecia que Kagome estava mesmo resolvida a acreditar que Inuyasha estava inocente no que acontecera e Sango não queria discutir aquilo com ela. Não de novo. Mesmo depois que as duas contaram suas versões do que tinha acontecido dentro do edifício aquela tarde, as coisas não pareceram mais claras. Ela sabia que havia um único fio a ser puxado para desatar o nó inteiro, mas estava difícil encontra-lo. Só havia duas certezas até agora para Sango: 1. Kouga não era doente coisa nenhuma. 2. Inuyasha estava metido naquilo até o pescoço.
- Talvez. - uma resposta vaga não a deixaria dizer a verdade, tampouco mentir.
- E o que você sugere? - perguntou Kagome sem muita esperança.
Sango sorriu de modo misterioso e disse:
- Talvez eu deva fazer uma visitinha ao senhor Kouga amanhã de manhã.
- Se você acha que vai ajudar... Depois da sua teoria digna de Hercule Poirot, eu aposto que vocês dois vão se dar muito bem.
Sango fingiu-se de ofendida, mas permaneceu com aquela expressão de quem sabia mais do que estava dizendo. Talvez na manhã seguinte ela conseguisse algumas respostas, mas Kouga não seria o único a ser visitado.
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CONTINUA
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Oi, gente!
Para quem ia atualizar no outro fim de semana eu fui "muito pontual".
Desculpem mais uma vez pela demora e pelos erros. Eu parei depois da cena do
Sesshoumaru e fiquei sem saber para onde ir. Terminei o capítulo hoje, quinta
feira, as três da manhã e, bem, devo ter deixado passar muita coisa,
hehe.
Bom, agora vocês terão "férias" de mim por uns tempos porque eu tenho
mesmo que atualizar o outro fanfic que está abandonado há mais de um mês e com
este sim, estou completamente bloqueada.
Sobre o Sesshoumaru e a Kikyou,
guardem as katanas, tenho grandes planos para eles. ^___^
Muito obrigada à Kagome-Chan, Chibi-lua, Sayo Amakuza (você acertou), Dai, Kisamadesu, Kiki-chan, Sato Harumi, Soi, Kagome-chan e Misao-dono por comentarem e a todos que continuam lendo esta história.
Até breve!
spooky_rae@terra.com.br
