Disclaimer: Inuyasha não me pertence. Esse fanfic tem o único objetivo de divertir.

-

TUDO PELA HERANÇA

Por: Madam Spooky.

-

Capítulo 7 - Diálogos

-

-

Kouga chegou ao escritório por volta das nove horas, atrasado como de costume. A secretária não estava em sua mesa na sala de espera; ótimo, assim ele não teria que fingir ignorar aquele olhar de censura com o qual ela acostumara-se a recebe-lo nos últimos tempos. Não podia deixar de se sentir pressionado por ele. Não quando sabia que os olhares de Reyko diziam exatamente "continua assim, seu egoísta irresponsável, você não se importa com o seu emprego, mas eu me importo com o meu". Ele esperava sinceramente que ela ficasse bem quando tudo acabasse, mas por enquanto só o que podia fazer era presenteá-la com seu melhor sorriso amarelo e sair de fininho.

Advogados - ele pensou, sentindo uma ponta de orgulho infundado - mais do que quaisquer profissionais pareciam criar uma barreira contra a culpa depois de algum tempo. Ele sentia como se sua consciência estivesse encerrada em uma sala estreita, com uma abertura pequena na porta para quando decidisse consulta-la de vez em quando. Uma abertura que pudesse ser bem fechada, claro, porque ele precisava ter como encerra-la assim que ela resolvesse falar demais.

E ultimamente, para seu enorme desgosto, ela vinha batendo naquela janelinha mais do que de costume.

Balançando a cabeça, ele espantou qualquer pensamento que pudesse perturba-lo e olhou para a porta de sua sala, onde uma pilha de processos acumulados o esperavam sobre a mesa, implorando por uma revisão. Só a lembrança já o deixava de mau humor. Apesar de saber que quanto mais cedo entrasse lá, mais cedo sairia, resolveu que preferia adiar o início daquele dia exaustivo e se sentou em uma das cadeiras da recepção como se fosse um cliente. Não satisfeito, apoiou as pernas na cadeira vizinha, ficando quase deitado, em uma posição aparentemente desconfortável.

- Inuyasha, Inuyasha... É bom você telefonar logo ou eu vou me cansar de esperar. - ele disse em voz alta, soando irritado. Depois do que acontecera no dia anterior, ficara ansioso para saber o que tinha acontecido entre ele e Kagome. Se a garota tivesse descoberto tudo e resolvesse denuncia-los, eles teriam um grande problema.

Mais nervoso que realmente irritado, começou a vasculhar os bolsos do paletó até encontrar uma carteira de cigarros quase cheia. Ela já estava ali há um bom tempo, duas semanas, aproximadamente, mas ele geralmente não precisava disso. Não era um fumante propriamente dito, só recorria ao cigarro quando se sentia pressionado demais para invocar qualquer pensamento reconfortante, e aquele era um desses momentos. Ele olhou brevemente para o pequeno cilindro de papel e fumo e sacou um isqueiro de prata, herança de família, e o acendeu. Aquele isqueiro fora de seu avô e sua mãe o guardava em um armário cheio de miniaturas, sendo ele de longe a peça mais chamativa. Ela teria um ataque se pudesse ver que ele não o considerava uma peça bonita para ser guardada, mas usava como todo mundo, para o que ela chamava daquele maldito vício.

Começou a tragar o cigarro lentamente, expelindo repetidas golfadas de fumaça e observando como ela se espalhava pela sala pouco ventilada, de vez em quando tendo um vislumbre da cara que faria Reyko quando entrasse ali e sentisse o aroma desagradável e intoxicante impregnando todo o ambiente. Se tivesse sorte ela iria embora zangada, deixando-o sozinho pelo resto do dia, sem ninguém para lembra-lo o que estava ou não deixando de fazer. Nesse caso poderia desviar sua atenção para assuntou mais importantes, como a ligação que Inuyasha não lhe fizera e quem sabe descobrir onde vivia aquela garota, Kagome. Se precisasse convence-la a não denuncia-los, ele faria isso. Do contrário poderia simplesmente ir visitá-la com uma desculpa qualquer. Quando tudo terminasse talvez ele até pudesse almejar mais que apenas sua parte do dinheiro. Por que não?

Quando o cigarro chegou ao fim, Kouga finalmente se levantou, lançando-o na lixeira. Deu outra olhada na direção de sua sala desviando os olhos imediatamente, como se eles tivessem sido atingidos por uma luz ofuscante. A vida dava mesmo muitas voltas; ele que já amara aquele lugar como sua segunda casa, agora só conseguia sentir repulsa por ele. Depois de quatro anos trabalhando ali, dia a pós dia cuidando de casos para homens ricos, amigos de seus chefes, que entravam em sua sala com sorrisos fáceis e explicavam a ele como contornar a lei para deserdar parentes que odiavam ou deixar sem nada sua mais recente ex-esposa, não podia ser diferente. Quando começara a estudar direito, a menos tempo do que parecia, pensara que a carreira que escolhera lhe daria o futuro digno e estável que seus pais desejaram para ele. Naquela época não tinha sonhos ambiciosos, só pensava que teria uma boa vida e estaria ajudando pessoas. Seria perfeito. Era um bom sonho, bonito e simples, mas que nunca se tornou realidade.

Com a formatura vieram as propostas e aquela firma acabou por seduzi-lo pelo dinheiro e possibilidade de tornar seu nome importante. Ele começara a exercer o direito civil, pensando que teria tempo para ajudar os outros no futuro, quando se estabelecesse. Foram quatro anos desde que entrara por aquela porta pela primeira vez e a única pessoa que ele ajudara fora a ele mesmo. Nenhum de seus clientes precisava realmente de ajuda. Eram todos desgraçados ricos que só pensavam em maneiras sujas de ficarem mais ricos e seu interesse pelo direito se esvaiu tão rápido quanto cresceu sua conta bancária. No final do dia, ele passava pelo bar da esquina onde se encontravam os funcionários do escritório e havia sempre alguém para cumprimenta-lo pelo seu último sucesso. Ele sorria. Tão agradecido pelo cumprimento quanto pelo engarrafamento lá fora, mas sorria.

Quando Inuyasha telefonou três dias atrás e falara de seus planos para com a herança deixada por sua tia Kaede, ele rira como não fizera naqueles quatro malditos anos. Por que não? Foi isso que ele pensou. Poderia argumentar a si mesmo que estaria vingando cada parente deserdado, cada esposa deixada na rua, mas acima de tudo, o jovem que ele um dia fora. Fugiria com sua parte do dinheiro e nunca mais pisaria naquele escritório. Os sócios que arcassem com as conseqüências. Todos o tratariam como um ladrão, mas ele não se sentiria mais criminoso que seus distintos clientes. A vida seria bela, finalmente, ele mesmo cuidaria para que fosse.

Passos no corredor interromperam seus pensamentos. Ele ficou parado, de pé, próximo a mesa, até que a figura de Reyko atravessou a porta segurando alguns papéis. Como ele imaginara, os olhos dela encheram-se de censura ao encara-lo, mas ele ignorou isso dando o manjado sorriso amarelo e entrando finalmente em sua sala. Estava na hora de começar mais um belo dia de trabalho.

Mal se acomodou em sua mesa, carranqueando para os papeis sobre a mesma, a voz da secretária soou alterada na recepção:

- Ele acabou de chegar e eu preciso perguntar se pode atende-la!

- De novo não... - Kouga largou os documentos que ia começar a examinar e balançou a cabeça nervosamente. Que raio de semana estava tendo... O que seria desta vez? A polícia?

No mesmo instante, a porta se abriu e uma jovem entrou na sala virando-se imediatamente para trás, na direção da secretária que a seguia, com um brilho de triunfo nos olhos.

- Eu já disse que não saio daqui sem falar com ele. - disse a desconhecida irredutível, batendo o pé e cruzando os braços.

A pobre secretária ficou na porta, olhando de um para o outro com os olhos muito abertos, parecendo tão alarmada que Kouga ficou em dúvida se ria ou sentia pena dela. Depois daquela semana, Reyko precisaria de umas férias.

- Está tudo bem, que vou atender esta mocinha. - ele disse tentando parecer desinteressado. Fosse lá o motivo de toda aquela insistência, pelo menos seria algo mais interessante em que se ocupar aquela manhã. - Deixe-nos a sós, por favor.

A secretária saiu com um suspiro de alívio e ele voltou o olhar para pasta do processo no qual estava trabalhando antes da interrupção, tentando manter aquela pose meio artificial de homem importante que encarnava sempre que vestia um terno, ao mesmo tempo em que apontava uma cadeira para que a jovem se sentasse. Ela obedeceu e ele a encarou com curiosidade, um brilho de reconhecimento no olhar ficando mais forte a cada minuto. Se sua mente não lhe estivesse pregando uma peça, era a mesma garota que chegara com o irmão de Inuyasha no dia anterior e que saiu com Kagome logo depois. Talvez a manhã estivesse preste a se tornar mais interessante do que ele imaginara.

- Eu a conheço? - perguntou fingindo-se de desentendido. O melhor era saber de uma vez o que ela pretendia para só então pensar no que dizer. Kagome certamente tinha falado de seus supostos problemas emocionais e ele não podia por tudo a perder deixando-a descobrir a armação.

- Meu nome é Sango, o senhor não me conhece. - ela respondeu educadamente. - Eu estive aqui ontem à tarde com um conhecido... Na verdade o senhor esteve com uma amiga minha... - ela pareceu pensar por um minuto se dizia ou não o nome da amiga, mas acabou optando por falar. - Kagome Higurashi.

Kouga sorriu e ergueu as sobrancelhas como se o nome não significasse nada para ele.

- Kagome Higurashi!? - ela repetiu. - Ontem no final da tarde, não está lembrado?

- Sinto muito, senhorita Sango, mas deve estar havendo algum engano. - ele disse com um sorriso tão forçado que os músculos da boca chegaram a doer. - Eu não conheço nenhuma Kagome Higurashi.

- Ela esteve aqui ontem. - insistiu Sango. - Esteve aqui com o seu suposto primo, Inuyasha.

Suposto? Que história era aquela de suposto? A mente de Kouga ficou mais alerta e ele se moveu na cadeira como se procurasse por uma posição mais confortável. Aquilo significava que Sango sabia que ele não era parente de Inuyasha ou Kagome desconfiara da farsa e mandara a amiga para interroga-lo na tentativa de se certificar? Talvez, ao contrário do que pensara no dia anterior, a jovem sósia de Kikyou não fosse assim tão tola. Na pior das hipóteses, Miroku tinha cumprido a promessa de impedi-los de continuarem com o plano e contara tudo a ela. Mas se fosse assim, por que Kagome tinha mandado uma mediadora e não vindo jogar a verdade na cara dele ela mesma, ou o mais lógico: por que não os denunciara?

Havia também a possibilidade da própria Sango ter desconfiado de tudo. Se Kagome era tão crédula quanto Inuyasha o fez achar que era, o mais provável é que tivesse acreditado na farsa do dia anterior, contado tudo a amiga, e esta, achando haver algo estranho, fora até ali averiguar. Ele tinha que manter o sangue frio e não se trair. Droga, por que mesmo acatara aquela idéia idiota de primo demente?

- Meu primo Inuyasha - pronunciou o "meu primo" com ênfase - esteve aqui ontem com a nossa prima Kikyou. Uma jovem linda e adorável, você precisa conhece-la... - seus olhos deram uma volta pela sala, sonhadoramente, como se estivesse perdido em uma lembrança agradável de algo que acontecera ali. - Kikyou. K-I-K-Y-O-U, entendeu? Nenhuma Kagome e com certeza nenhuma Higurashi. E eu não sei onde você quer chegar com essa história de suposto.

A voz dele soou séria, como se dando por encerrada a discussão. Ele ficou em silêncio, fingindo trabalhar, mas ansioso pela reação da garota. Ela precisava sair dali convencida de seus problemas de saúde. Grande, ele agora teria que fingir para os amigos de Kagome que era demente. Se fosse só pelo dinheiro e não houvesse tanta coisa em jogo...

- Sei... - disse Sango finalmente. - K-I-K-Y-O-U. Nenhuma Kagome, nenhuma Higurashi. - ela repetiu as palavras dele como se meditasse nelas. Em seguida o encarou luzindo a ele: - O senhor deve achar que eu sou idiota. Quer mesmo que eu acredite que é louco? Loucos não tentam convencer os outros, com tanto empenho, de que estão certos. Loucos... apenas acham que estão certos.

O advogado inclinou a cadeira para trás com os olhos abertos e os braços cruzados, gestos que executava automaticamente quando ficava na defensiva. Ele tinha quatro anos de experiência com homens de negócios que não se deixavam enganar facilmente, mas que confiavam cegamente no que ele dizia. Agora tinha que suportar uma menina que não devia ter mais de vinte anos, acusando-o de mentiroso. Pelo visto dar uma de homem de poucas palavras não funcionaria com ela. Se tivesse ido até ali disposta a descobrir a verdade, ele teria que ser muito convincente para faze-la ir embora.

- Com quem você pensa que está falando, sua garotinha arrogante? Com algum de seus amiguinhos de baderna? - perguntou nervoso. - Veio rir das minhas desgraças? Acha que eu tenho cara de palhaço, por acaso? Devia ter um pouco mais de respeito! - ele torceu a boca e descruzou os braços. Pegou um lápis em cima da mesa e começou a passa-lo de uma mão a outra. - Eu não sou louco, entendeu bem? As pessoas querem que você pense isso, mas não é verdade. Eu sou um homem saudável!

Ele vira um de seus clientes dizer isso uma vez, enquanto torcia uma folha de papel, depois de espancar um funcionário sem motivo algum. Naquela ocasião ele se convencera que o velho estava louco e só um psiquiatra seria capaz de persuadi-lo do contrário. Mas não houvera um psiquiatra lá, assim como não havia um no presente. Talvez se parecesse louco e negasse isso, a garota se convencesse e saísse de uma vez.

- Muito bem... - respondeu Sango muito séria. - Se quer saber, acho que estou falando com um vigarista quase tão esperto quanto Inuyasha. E para sua informação, eu não tenho seja lá o que você chama de "amiguinhos de baderna". Não posso rir das suas desgraças porque pelo visto a única que você tem é ter aceitado participar desse plano idiota para satisfazer os desejos secretos do seu amigo pela prima dele. E sobre a cara de palhaço, na verdade, a cara é a única coisa que falta. - ela se calou, mas logo voltou a acrescentar: - Ah, é, não se preocupe. Eu tenho certeza de que o senhor é um homem saudável.

Kouga ficou em um silêncio chocado, tentando assimilar o que acabara de ouvir com o rosto paralisado em uma expressão quase cômica. Desejos secretos? Mas do que diabos ela estava falando? E o que ela quis dizer com 'quase' tão esperto? Inuyasha bem queria ter um terço de sua inteligência!

- Você andou bebendo? - ele perguntou, agora realmente irritado. Podia facilmente perdoa-la por tê-lo chamado de palhaço, mas aquele "quase tão esperto" ainda o assombraria por algum tempo.

Sango ignorou a pergunta.

- Ora, por que não para de tentar me convencer de que é doente e me diz de uma vez por todas o que Inuyasha quer com a minha amiga Kagome? A única certeza que eu tenho em relação a você é que é mentalmente saudável. Pelo menos tanto quanto pode ser um homem que ajuda o amigo a enganar uma garota inocente para faze-la se passar pela Kikyou. Olha, vocês homens fazem de tudo para satisfazer suas fantasias secretas, mas isso também já é demais.

- Fan... Fantasias...?

Ótimo, agora sim não estava entendendo mais nada. Ela sabia que ele e Inuyasha tinham um plano envolvendo Kagome, mas o que os homens e suas fantasias tinham a ver com isso? Ela não dissera nada sobre a herança, mas ele não estava certo se por estar planejando algo ou por realmente não saber.

- Olha, menina, eu estou começando a achar que é você quem tem algum problema mental aqui! - ele disse e foi sincero.

- É, eu estou doida. - disse Sango debochada. - Doida para saber em que rolo vocês meteram a minha amiga e não vou sair daqui até que você me diga.

Kouga olhou para a jovem e teve certeza que ela estava falando sério. O telefone ao seu lado pareceu brilhar contra a luz da janela como se para lembra-lo que bastava apertar uma tecla para que uma dupla de seguranças que pareciam mais um par de gorilas entrasse ali e a levasse a força. Ele chegou a considerar seriamente a idéia e seus dedos já deslizavam por cima da mesa quando um contra o assaltou: se ela saísse daquela sala ainda convencida de que estava certa, nada a impediria de sair por aí espalhando suas suspeitas aos quatro ventos e o plano nunca teria sucesso se não fosse administrado no mais absoluto sigilo.

- E se eu dissesse que só queria ver a Kikyou? - ele perguntou em um último esforço de salvar a pele. Ele era advogado, não ator. Uma coisa era convencer um tribunal de que um cliente, sentado e imóvel, era louco. Outra muito diferente era passar-se por demente ele mesmo. Se um dia precisasse trabalhar no teatro para sobreviver, o mais provável era que acabasse morrendo de fome. A idéia seria até engraçada se a ocasião não fosse tão desesperadora. - Eu nunca mais fui o mesmo desde que ela partiu e Inuyasha a trouxe de volta para mim -continuou, dramaticamente -, isso é algum crime? Você diz que não era ela, mas para mim era! Era o rosto da minha querida Kikyou... Se estiver querendo alegar que fiz algo errado, tudo bem, talvez tenha feito mal a mim mesmo me permitindo enganar daquela maneira, mas a Kikyou ou essa sua amiga, seja lá qual das duas esteve aqui, veio por vontade própria, eu não obriguei ninguém a se passar por ninguém.

- Desista, não vai me convencer que não sabia de nada. Você e o Inuyasha estão juntos nisso.

Droga de garota irritante! Quando ele tinha a idade dela não era assim tão incrédulo. O que ela estava querendo? Que ele implorasse? Que se ajoelhasse na frente dela e jurasse pela santa avozinha que nunca teve? Pelo dinheiro que receberia e os planos que tinha para ele, seria bem capaz de fazer isso.

- Ontem eu vi a forma como você olhou para a Kagome. - disse Sango como se estivesse se explicando. - Eu diria que parecia um lobo espreitando sua presa. Você sabia exatamente que ela não era a prima do Inuyasha. O que eu não entendo é por que tenta me convencer com tanto empenho de que eu estou imaginando coisas... - ela lançou a ele um olhar cheio de reprovação. - Se você acha que ainda tem uma chance com a Kagome depois disso tudo, deve estar maluco. Ela nunca vai perdoar nem o Inuyasha nem você quando descobrir o que está acontecendo.

Quando ele viu as sobrancelhas de Sango se erguerem em uma expressão vitoriosa, teve certeza de que não pode disfarçar o quanto à idéia o perturbava. Ainda podia sentir aquela sensação familiar, de quando abraçara Kagome no dia anterior. Não fora algo planejado, apenas parecera certo no momento. Pensar que depois que tudo acabasse não teria chance de repetir aquele instante deixava-lhe em dúvida. Ele já tinha abandonado tantas coisas boas em troca de outras, puramente materiais... Sonhos tinham sido descartados, não só os dele. Ele tinha sido um vampiro sugando as esperanças dos que cruzaram seu caminho nos bancos opostos dos tribunais. A pergunta agora era se ele estaria disposto a continuar com esse tipo de sacrifício até o final. Depois de pesar fato por fato, era provável que não valesse a pena.

Ah, se ele ao menos tivesse feito alguma coisa quando Miroku ligara ao invés de continuar sentado, esperando que as coisas acontecessem... Ele não podia voltar atrás depois de chegar tão longe, mas tampouco queria ferir os sentimentos de Kagome. Ela era especial, ele soube desde o início. Mas quais as garantias que Sango entenderia o que ele estava passando? Que quando ela soubesse de tudo, não corresse a delegacia mais próxima para contar o que sabia? Eles não tinham feito nenhum avanço significativo no plano, mas ele teria que explicar o porquê de não ter avisado a Kikyou sobre a morte de Kaede.

- Senhor Kouga...

Um minuto apenas... Não mais do que isso para decidir o que poderia mudar uma vida inteira. Ele quase podia ver aquele quartinho dentro de sua mente cuja janelinha a essa altura estava escancarada, deixando-o completamente desprotegido da voz que ecoava de dentro. E por um instante, diante dos olhos daquela garota que viera ali impedi-lo de prejudicar alguém com quem ela se preocupava, ele quase jogou tudo para o alto e falou. Chegou a abrir a boca e ensaiar a palavra 'herança' com os lábios, mas ela acabou não saindo. Talvez fosse o hábito, depois de tanto tempo escondendo verdades, que o impedira de falar, talvez algo dentro dele tivesse fechado a janelinha e sufocado a voz de sua consciência no último instante. O dinheiro de Kaede significava a sua tábua de salvação. Era a última chance que ele tinha de mudar o destino, de abandonar o caminho que escolhera e começar do zero. A idéia de passar o resto da vida dentro daquele escritório impregnado de mentiras lhe revirava o estômago. Talvez tenha sido a simples visão das pastas de processos empilhadas em cima da mesa, afinal, mas a intenção de revelar todo o plano esvaiu-se tão rápido quanto apareceu.

- Você é terrível mesmo. - ele disse com um sorriso cansado. - Eu me pergunto o que estava fazendo ontem acompanhando o santo Miroku. Vejo que ele mudou radicalmente de gosto com relação a namoradas.

- Eu não sou namorada dele, só nos encontramos uma vez! - gritou Sango.

Kouga pensou em argumentar que uma vez era o bastante para o Miroku que ele conhecia, mas acabou prudentemente ficando quieto. Um escândalo por semana era mais do que suficiente. Disse apenas:

- Sinto muito não poder ajuda-la. Eu disse tudo o que tinha para dizer e se a senhorita não acredita, não há nada que eu possa fazer. Não entenderia meus sentimentos dentro disso tudo... Mas uma coisa eu garanto: Inuyasha não está usando a sua amiga para realizar nenhuma espécie de fantasia. Eu não sei de onde tirou essa idéia absurda.

Sango suspirou parecendo resignada.

- Uma última pergunta?

- Claro. - disse Kouga mal contendo um sorriso. Assim que a garota saísse dali, ele ligaria para Inuyasha e os dois tratariam de acelerar as coisas. Com Miroku, e agora Sango, contra eles, o mais sensato seria acabar com aquilo o mais rápido possível.

- Você pode olhar nos meus olhos e garantir que Inuyasha gosta mesmo da minha amiga Kagome?

Ele olhou nos olhos dela sem saber exatamente o que dizer. Estava claro para ele que todo o interesse que Inuyasha tinha em Kagome Higurashi se resumia a sua incrível semelhança com Kikyou e o lucro que poderia ser tirado disso. Ele não acreditava que ainda que aquela garota tivesse todas as qualidades do mundo, o amigo levasse adiante um relacionamento com ela. O rosto de Kagome devia trazer muitas lembranças de coisas que ele preferia esquecer.

- Não vai responder?

- Bem, eu...

A resposta foi interrompida pela porta se abrindo estrondosamente. Parte da mente de Kouga agradeceu por isso. De jeito nenhum ele poderia olhar nos olhos de Sango e responder afirmativamente sem mentir e, lá no fundo, apesar de confiar em suas técnicas de advogado, ele sabia que ela saberia se ele mentisse. Quanto à outra parte, a mais racional, que sabia perfeitamente que Reyko sempre batia e entrava silenciosamente como era da conduta de toda boa secretária, o fez alarmar-se. E foi confiando nesta parte que ele levantou-se em um salto e levou a mão para cima do telefone, direto para a tecla que faria aquele par de gorilas aparecerem correndo.

- Miroku...?

Ele ouviu Sango dizer antes mesmo que seus olhos captassem a imagem do rapaz pálido, com a barba por fazer e os olhos cercados por orelhas fundas que indicavam que ele tinha vivido um inferno desde o momento, no final da tarde do dia anterior, que saíra dali arrastado pelo irmão.

- Eu não vou convencer Inuyasha a desistir desse plano. - disse Miroku com a voz assustadoramente calma. - Aquele imbecil me venderia se pudesse obter dinheiro fácil... Mas, sabe, eu andei pensando... Ele não pode fazer nada sem a sua ajuda. Eu vim aqui convence-lo de que roubar é errado, Kouga, e vou fazer isso nem que tenha que atira-lo pela janela... literalmente.

Miroku sorriu e Kouga pode ver o quanto ele estava transtornado. Não sabia o que Inuyasha fizera para deixa-lo assim, mas precisava ter cuidado com ele.

- Ah, oi, Sango. - disse Miroku com um sorriso vago. - Eu tive uma noite tão ruim... você nem imagina. Mas é bom que você esteja aqui, talvez possa me ajudar a convencer esse lobo miserável à não dar corda ao cachorro do meu irmão. Você quer saber o que eles vão fazer com a sua amiga Kagome? Eu vou dizer o que eles vão fazer...

Kouga olhou para Sango que ouvia atentamente cada palavra que Miroku dizia e sentiu o suor brotar em sua testa. O telefone subitamente perdeu toda a importância. O irmão de Inuyasha estava transtornado, mas não o bastante para ser desacreditado. Parecia que dentro de alguns minutos, tudo estaria perdido. E ele só podia deixar as coisas acontecerem, inerte.

~*~*~*~

Muito depois de Sango ter ido embora na noite anterior, Kagome ainda estava acordada, pensando sobre as teorias malucas que ambas discutiram enquanto tentavam encontrar alguma lógica nos acontecimentos daquela tarde.

Miroku e Inuyasha... A única coisa que tinha certeza sobre aqueles dois homens era seu parentesco, ainda que eles parecessem tão opostos quanto água e vinho. Depois de pensar muito sobre o escândalo que Miroku fizera tentando impedir o irmão de fazer alguma coisa que não ficou muito clara, uma idéia começou a martelar em sua cabeça. Era algo tão tolo... Tão absurdo que ela preferia nem pensar na possibilidade de ser real. Agora, enquanto subia as escadas do prédio onde eles moravam, ela recitava mentalmente um discurso ensaiado que, para o bem ou para o mal, tiraria todas as suas dúvidas. Uma coisa era certa, decepcionar-se era melhor que não saber.

Ela parou na frente do apartamento com a mão fechada, pronta para bater na porta, mas hesitando em faze-lo. E se Inuyasha não quisesse vê-la? Ele não tinha telefonado desde o dia anterior, então talvez preferisse ficar sozinho... Não! Já tinha chegado até ali e voltar atrás agora não era uma opção. Seria melhor ser repreendida por um irritado Inuyasha que ficar a tarde inteira imaginando o que poderia ter descoberto. Bateu na porta.

O som de passos se arrastando pela sala soou do outro lado quase imediatamente. A maçaneta se moveu e o rosto cansado de Inuyasha apareceu olhando para ela interrogativamente, quase como se não a reconhecesse.

- O que você quer? - ele perguntou ao mesmo tempo em que abria a porta, convidando-a a entrar.

- Vim ver como você estava depois do que aconteceu ontem.

Ela respondeu de cabeça baixa, movendo nervosamente o polegar esquerdo pela palma da outra mão enquanto caminhava para perto do televisor, o lado do apartamento que mais se assemelhava a uma sala e, no momento, o único mais ou menos em ordem. Todo o resto lugar estava virado pelo avesso, como se tivesse havido uma festa ali no dia anterior. Peças de roupa estavam espalhadas por todo o chão. Perto da pia havia cacos de vidro do que deveria ter sido pratos ou copos, difícil saber. As almofadas do sofá estavam jogadas, meio rasgadas, perto da porta que estava suja de terra, vinda de um vaso de planta que parecia ter sido arremessado contra ela. Uma festa? Um furacão seria uma comparação bem melhor. Tudo ali, com exceção do sofá e da TV, parecia estar fora de lugar.

- Não fique olhando tudo com essa cara. - disse Inuyasha se largando no sofá. - Não está tão ruim assim...

Kagome ignorou o comentário.

- Eu vim porque estava preocupada com o que poderia ter acontecido entre você e o seu irmão depois de ontem. - ela disse. Não era toda a verdade, mas era a maior parte dela - Pelo visto eu tinha razão em pensar assim. Você não o machucou, não é? - ela o encarou fixamente, muito preocupada. Esperava que aquele cenário não significasse que a discussão entre os dois tinha evoluído para agressão física.

- Não fique me olhando como se eu tivesse matado o idiota do Miroku, Kagome! Ele saiu para trabalhar ontem e ainda não voltou.

Ele desviou o rosto fitando a janela, como se houvesse realmente algo interessante no muro da prisão do outro lado da rua. Inuyasha não admitiria que estava preocupado com Miroku, mas era isso o que parecia a Kagome. Ela podia ver a cena, depois de uma calorosa discussão, um muito irritado Inuyasha descontando toda sua raiva nos móveis e em tudo mais que estivesse ao seu alcance.

- Desculpe...

Ela abaixou a cabeça pensando em como deveria começar aquela conversa. Precisava acabar com suas dúvidas de uma vez, mas Inuyasha não parecia estar com humor para interrogatórios. Ela olhou a sua volta à procura de um lugar onde pudesse se sentar, mas as cadeiras da mesa da cozinha estavam todas viradas e cobertas com peças de roupas enquanto o sofá da sala estava ocupado pelo próprio Inuyasha. Teria que ficar de pé, mas não importava, o mais custoso seria encontrar coragem para começar a falar.

- Eu já disse que estou bem e que o Miroku está vivo, agora se era só isso que você queria saber, pode...

- Eu quero falar sobre a Kikyou! - Kagome o interrompeu. - Eu vim porque estou com uma dúvida martelando dentro da minha cabeça e eu precisava ter certeza ou ficaria maluca.

Pronto, ela disse. Agora que começara seria mais fácil.

- O que é que tem a Kikyou? - perguntou Inuyasha não parecendo nem um pouco interessado.

- Ontem Sango me sugeriu uma teoria que na hora eu achei que não fazia nenhum sentido, mas agora não tenho tanta certeza. - disse Kagome escolhendo as palavras. - Eu já tinha pensado antes sobre isso... Bem... Os seus motivos podem não ser os que ela pensa, mas me diga, Inuyasha... Você se aproximou de mim apenas pela minha aparência? Eu quero dizer, por eu ser parecida com a sua prima Kikyou?

Ela continuou com a cabeça abaixada, esperando uma resposta. Um silêncio incômodo se instalou na sala enquanto Inuyasha a encarava sério e pensativo. Talvez ela estivesse errada e como ela desejava estar... Talvez Inuyasha odiasse a prima secretamente, como ela sugerira para fazer Sango calar a boca na noite anterior. Apesar dele repetir mil vezes que amava Kikyou como a uma irmã, ela não acreditava. Havia algo mais. Algo que ela precisava saber antes de decidir se continuava com aquilo ou saia da vida dele para sempre.

- Eu acho que entendo o que você está querendo saber, Kagome. - disse Inuyasha convictamente. - Eu gosto da Kikyou como se fosse uma irmã e é só isso. O fato de você se parecer com ela é apenas uma grande coincidência. Por quê? Do que você tem medo?

Kagome finalmente levantou a cabeça, o rosto cheio de alívio. Por que ele diria aquilo tudo se não fosse verdade? Sango estava errada. Ela mesma estivera errada em duvidar. Inuyasha era uma boa pessoa e ele gostava dela realmente.

- Eu tive medo de que você não gostasse de mim de verdade. De que estivesse me usando... Eu não sei explicar. Usando-me de alguma maneira para substituir Kikyou na sua vida. - Ela sorriu. - Eu estou tão feliz que não é assim... Acho que nunca antes me senti tão aliviada.

Por um momento apenas ela achou ter visto uma sombra de tristeza nos olhos de Inuyasha, mas essa imagem desapareceu tão rápido quando um sorriso surgiu no rosto dele.

- Você está imaginando coisas, Kagome.

- Sim, acho que sim.

- Mas eu te devo desculpas por ontem. Não foi muito cavalheiro te deixar sozinha no escritório do Kouga.

- Tudo bem, eu entendo, você não precisa me dar explicações...

- É claro que preciso...! - ele a interrompeu. - Nós saímos juntos da sua casa e eu tinha obrigação de te levar de volta. Depois que o Miroku apareceu, eu fiquei preocupado que ele e o Kouga, com o estado de saúde em que se encontra, acabassem brigando e tirei o meu irmão de lá a força.

- O seu irmão é estranho, não? Apareceu lá gritando sobre você envolver pessoas inocentes em um plano...

- Eu acho que ele anda vendo televisão demais.

- Pobre Sango. Acho que ela gostou dele.

Inuyasha carranqueou, surpreso.

- Não diga...

Kagome balançou a cabeça afirmativamente.

- Pois é...

Inuyasha desmanchou o sorriso de repente e a expressão triste voltou para o rosto dele. Os olhos dos dois se encontraram, mas imediatamente ele levantou a cabeça olhando para a janela uma vez mais.

- Você gosta mesmo de mim, não é, Kagome? - ele perguntou.

- Eu... Claro que sim... Você...

Ele sorriu ao modo que ela friccionou as mãos nervosamente enquanto seu rosto adquiria um rubor violento.

- Sim, você gosta de mim e eu não entendo por quê.

- Por que você merece, Inuyasha! - ela apressou-se em responder. Não estava gostando daquela expressão desalentada que via no rosto dele, nem da maneira arrastada e triste que as palavras saiam de sua boca. - Você é uma boa pessoa. É educado, meigo, sincero e eu me sinto segura com você.

- Você diz tudo isso de mim quando na verdade nem me conhece. - ele continuou olhando para além da janela, como se pudesse ver através do muro da prisão em frente. Talvez olhando para algo dentro dele mesmo.

- Romeu e Julieta resolveram se casar depois de terem se visto não mais de duas vezes. - disse Kagome e ruborizou-se ainda mais ao perceber a implicância daquelas palavras.

Inuyasha, no entanto, não pareceu se importar.

- "Romeu e Julieta" é apenas uma história e eles morrem no final. Além disso, não têm nada a ver conosco.

- Sim...

- Sabe, Kagome... - Inuyasha deu um pulo. - Eu gostaria de esquecer Miroku, Kouga, Sango, o mundo inteiro pelas próximas horas. Eu queria tirar umas férias de mim mesmo.

Kagome sorriu surpresa com a mudança e ao mesmo tempo grata. Aquele Inuyasha abatido estava começando a preocupa-la e ela não sabia como anima-lo. Talvez ele tivesse razão, os dois não se conheciam tão bem quanto ela fazia parecer.

- E o que você quer fazer? - ela perguntou sorrindo, torcendo para ele sugerir que saíssem dali. Lá fora seria mais fácil distrai-lo e faze-lo esquecer todos os problemas.

- Eu não posso fazer com que os meus problemas desapareçam, mas eu posso fingir que eles não existem por algumas horas.

- Sim, eu estava pensando exatamente isso.

- Você está comigo?

Kagome sorriu.

- Estou!

Ela estendeu a mão e Inuyasha segurou-a sorrindo ternamente. Um sorriso que Kagome ainda não conhecia.

Ignorando a desordem no apartamento e tudo o que ela implicava, os dois saíram de mãos dadas, sem olhar uma única vez para trás.

-

-

CONTINUA

_______________________________________________________________________________________________

*Abrindo o champanhe* ATÉ QUE ENFIM!!! Hahahaha, eu sei que champanhe é exagero, mas eu pensei que nunca mais ia conseguir terminar esse capítulo. Bom, eu não vou dizer que morri de amores pelo resultado, é isso o que acontece quando penso demais na mesma coisa... Mas pelo menos ele saiu.
Foi um mês inteiro deletando rascunhos e eu nem vou reler isso para não ter uma recaída (isso é que dá faltar nas reuniões do DA *Deletadores Anônimos*... tsc...)
Bom, meu mantra nos últimos tempos: MIL DESCULPAS PELA DEMORA!! O próximo capítulo será um dos mais importantes, se não o mais, para a história, por isso pode ser que demore (espero que não tanto quanto esse), também porque espero escrever um capítulo dos gatos antes dele... Muito obrigada pela paciência. ^_^

Meu agradecimentos a:
Kagome-chan FOFA, Chibi lua, Kisamadesu, Dai (muito obrigada por ler, de novo!!), Sayo Amakusa, Diana Lua e Harumi pelos reviews. Também à Daiane pelo E-mail. E a todos que leram.

Por favor, façam esta criança feliz (¬_¬), continuem comentando!!! Obrigada!!! =^-^x=

spooky_rae@terra.com.br