Disclaimer: Inuyasha não me pertence. Esse fanfic tem o único objetivo de divertir.

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TUDO PELA HERANÇA

Por: Madam Spooky.

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Capítulo 9 – Incidentes

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Tenseiga era uma simpática propriedade rural nas imediações de Tokyo. Tão perfeitamente organizada se mostrava, que os que passassem pela a estrada e a viam ao longe, tinham a breve impressão de terem voltado no tempo, para a época onde aquelas terras eram povoadas por feudos e seus temíveis senhores brandiam seus chicotes contra um bom número de servos.

Havia um celeiro, como era de se esperar, e um enorme estábulo cheio de cavalos que eram o orgulho da região. Mais à frente, um casarão de bonita arquitetura antiga jazia imponente, com suas grandes janelas de madeira fechadas e os portões de ferro lacrados por correntes, não denunciando nem um movimento além do de dois cachorros gordos que andavam para um lado e para o outro sonolentamente, esperando que alguém despertasse e lhes enchesse as vasilhas.

Por último – e era isso que tornava o lugar mais parecido com um cenário de um feudo -, duas fileiras de casas menores formavam uma pequena rua onde, apesar dos relógios ainda não marcarem cinco da manhã, já havia crianças brincando e homens carregando carroças e arrumando ferramentas para logo tomarem o caminho das plantações e iniciarem mais um dia de trabalho.

A ruazinha quase cobria o casarão dos olhos dos viajantes. Não o bastante para que não se notasse nela a grandeza de outras épocas, mas o suficiente para que uma fraca luz de lanterna que brilhava contra o vidro da porta da frente fosse passado despercebido. Lá dentro, aproveitando o silêncio e o pouco movimento, uma menina começava a descer as escadas lentamente, com todo o cuidado para não deixar seus passos serem ouvidos. Ela vestia um casaco de frio que se tornaria quente demais dali a duas horas e levava uma mochila nas costas que fazia com que andasse curvada para frente. No braço esquerdo, estava pendurada uma sacola cheia de frutas, apenas algumas que conseguira juntar durante a semana sem que sua babá percebesse. A maioria estava madura demais, mas teria que servir. Seria um longo percurso até Tokyo e tinha que poupar o pouco dinheiro que tinha para pegar um trem quando chegasse lá.

As escadas dessa vez não foram um obstáculo. Em sua última tentativa tropeçara na metade e acabara por ser descoberta. Dessa vez, tudo estava saindo o mais perfeitamente possível. Seus pais não estavam em casa, sabia exatamente para onde ir e estava levando o suficiente para sobreviver por dias na cidade. Ninguém a impediria. Não demoraria e ela e seu ente mais querido estariam juntos de novo.

Com um sorriso no rosto, a menina atravessou os poucos metros que separavam a escada da porta. Estava tão perto... Ainda teve tempo de colocar a mão sobre a maçaneta antes das luzes se acenderem revelando a figura zangada da babá segurando o interruptor. A mulher estava vestida com uma camisola muito comprida, com estampas enormes de flores e pássaros. A cabeça estava cheia de prendedores que deixavam seu cabelo repuxado para cima e o rosto coberto por um creme verde e viscoso de pepino. Ela era a própria visão da noiva de Frankenstein e a menina gritou ao vê-la.

- Muito bem, senhorita Rin. Eu posso saber para onde pensa que está indo a essa hora da manhã?

A voz da babá era sonolenta e demonstrava o interesse de um adulto ao ver um bebê tentando alcançar a prateleira mais alta da estante. Rin suspirou derrotada e largou-se sobre uma cadeira encarando a mulher ridiculamente vestida com raiva.

- Da próxima vez você não precisa se fantasiar para me impedir de sair, Kagura. – ela disse debochadamente. – Um susto desses no meio da noite poderia prejudicar meu desenvolvimento psicológico.

Kagura olhou para cima revirando os olhos. Foi até a porta e, ao certificar-se de que ela estava bem fechada, se sentou em outra cadeira, de frente para a menina a quem tinha obrigação de vigiar.

- Ainda bem que senti sede durante a noite. Imagina se você foge daqui quando seus pais não estão. A culpa ia diretamente para cima da coitada da Kagura.

- Eles vão passar todo o mês em Kyoto! Era só inventar alguma coisa e nunca iam ficar sabendo.

A babá balançou a cabeça em negativa e levou a mão à camisola, a procura de um bolso. Ao perceber que não havia nenhum, deu um tapa no braço da cadeira e começou a resmungar sobre como nunca tinha um cigarro quando precisava de um.

- Você é louca, criança. Completamente louca!

- Eu não sou...

Rin começou a protestar, mas Kagura a interrompeu:

- Já sei, já sei, você não é mais criança. Já tem dezesseis anos, está um ano adiantada no colégio, blá, blá, blá. Mas quer saber? Nunca vai conseguir me fazer parar de chamá-la de criança se não deixar de agir como uma!

As duas se encararam com fúria. A menina olhou para as frutas e passou a mão pela mochila ainda presa a suas costas com desesperança. Kagura era osso duro de roer quando queria.

Por outro lado, era a primeira vez que era pega pela babá tentando fugir, não por um de seus pais. Os dois, como ela mesma já lembrara, iam passar um bom tempo em outra cidade. Tempo suficiente para que ela fizesse sua expedição a Tokyo. Quem sabe se explicasse seu objetivo ela se compadecesse? Em último caso poderia tentar suborná-la. Nada como uma mulher com mania de grandeza para ajudá-la no que fosse preciso.

- Kagura... – Rin disse em um tom de voz lamurioso. – Você não tem pena de mim? Eu só quero vê-lo outra vez...

- O seu irmão é um homem ocupado, cri-an-ça. Ele disse que viria vê-la de vez em quando, então você tem mais é que esperar que ele venha.

Rin respirou fundo.

- Para início de conversa, o fato da minha mãe ter se casado com o pai dele não faz de nós dois irmãos. Além disso, ele prometeu que voltaria e isso já faz quatro anos. Quatro anos! Ele deve estar com algum problema e por isso ainda não veio me ver. Vamos, Kagura... Se você tivesse um namorado te enrolando há tanto tempo, não ia querer ir atrás dele?

Agora Kagura não conteve uma gargalhada.

- De que namorado você pensa que está falando? – ela mal conseguiu perguntar.

- Eu fico contente que esteja tão feliz por mim. – disse Rin irritada.

- Sesshoumaru é seu namorado? – perguntou Kagura sem parar de rir. – Eu posso saber desde quando? Não, espera, é melhor você me dizer antes se ele está sabendo disso.

- Exatamente por isso eu preciso encontrá-lo com tanta urgência. Você não acha que é justo que ele fique sabendo?

A babá praticamente se contorcia de rir na cadeira. Rin fez uma careta. A noiva de Frankestein devia ter se contorcido da mesma maneira ao sofrer o choque que lhe trouxera à vida.

- Kagura...

- Você precisa de mais do que isso para me convencer a deixar uma menina de dezesseis anos ir sozinha para a capital.

A mulher finalmente conseguiu se controlar e encarou Rin com seu melhor sorriso de 'eu estou no controle agora'.

- E se eu te der todas as minhas economias? – a menina perguntou esperançosamente.

- Aquelas moedinhas de pouco valor? Sem chance.

- E que tal um dos perfumes franceses da mamãe?

- E onde eu vou usar um perfume francês? – Kagura levantou o tom de voz, aparentemente se dando conta de algo desagradável. – No estábulo?

- Vamos, Kagurazinha... – pediu Rin com as mãos entrelaçadas. – Você quer que eu me ajoelhe? Eu me ajoelho! Quer que eu implore e beije os seus pés e a chame de sua majestade, Kagura? Eu faço qualquer coisa. Só me deixe ir a Tokyo ver o Sesshoumaru.

Kagura pareceu pensar.

- Você diz que volta antes dos seus pais chegarem de Kyoto, não é?

- Sim!

- E vai me telefonar todos os dias para dizer se está bem?

- Sim! Sim!

- E vai convencer o Sesshoumaru a vir para casa quando o encontrar? Porque eu não acho uma boa idéia que você volte sozinha...

- Sim! Sim! Sim!

- E você vai pegar o ônibus para Tokyo, porque não dá para ir a pé, ainda mais assim, desacompanhada.

- Tudo o que quiser...!

- Pois muito bem. – Kagura sorriu. – Quero a caixa de música que o senhor Sesshoumaru mandou para você da Inglaterra.

- O que?

Os olhos de Rin que faiscavam de esperança enquanto respondia as perguntas da babá, se apagaram na mesma hora. Ela apertou a mochila em um gesto protetor. Sua caixa de música, a que Sesshoumaru lhe mandara para que ouvisse todas as noites e não esquecesse dele. Um pequeno baú com um par de bailarinos que dançavam ao som das Quatro Estações, de Vivaldi.

- Minha caixa de música? – ela perguntou desanimada.

- Sua caixa de música ou nada feito.

E agora? Aquela caixinha lhe dera todo o conforto que precisara nos últimos anos. Ela sentira tanta falta dele, mas era como se parte daquela pessoa tão querida estivesse lá com ela. Seria capaz de se separar de um objeto tão importante pela chance de vê-lo novamente?

- Estou perdendo a paciência... – Kagura estava sorrindo, parecendo certa de ter vencido a batalha.

- Para que você quer a minha caixa de música? O que vai fazer com ela, vendê-la?

- Isso não é da sua conta. Estou dizendo o meu preço e você me diz se aceita.

- Haverá alguma chance de eu recuperá-la mais tarde?

- Se trouxer dinheiro, quem sabe...

Rin abriu a mochila e tirou o bauzinho de lá. Passou a mão por cima dele em uma despedida silenciosa antes de se levantar e entregar para Kagura.

- Cuide bem dela até eu voltar. – disse triste. – Eu prometo trazer dinheiro suficiente para recuperá-la.

Kagura recebeu a preciosa caixinha com um enorme sorriso de satisfação e pôs-se a examiná-la como se nunca tivesse visto ou tocado nada igual antes.

- Posso ir agora? – perguntou Rin, tentando não olhar para o que acabara de fazer.

- Vai, vai... – a babá fez uma movimento impaciente com a mão. – E se lembre que tem que ligar todos os dias e voltar antes que seus pais apareçam.

- Sim, eu já sei...

Rin caminhou até a porta e a abriu devagar, saindo ao mesmo tempo em que os dois cachorros, atraídos pelo barulho de vozes, entravam alegremente na casa. Ela ainda ouviu o som da caixinha começando a tocar antes de fechar tudo e se afastar correndo pela direção contrária a que seguiam os homens para o campo. Pelo menos havia o consolo de que não demoraria muito para encontrar seu querido Sesshoumaru novamente.

~*~*~*~

As ruas de Tokyo estavam agitadas àquele final de manhã. Era quase meio dia e uma multidão de pessoas apressadas, ansiosas em aproveitar o máximo seu horário de almoço, já enchia a calçada causando um engarrafamento quase tão grande quanto o que começava a se formar entre os carros no meio da rua.

Um homem com um chapéu engraçado de caubói, responsável por ficar o dia inteiro na frente da maior loja de departamentos do centro, sorrindo e cantando enquanto convidava as pessoas para aproveitarem promoções tão reais quanto a sua falsa alegria, passou correndo, esbarrando em Miroku e resmungando de maneira mal-educada, como se as pessoas tivessem a obrigação de abrir espaço para que ele não tivesse que desviar de nada ao passar.

O rapaz que acabara de sair do escritório de Kouga atrás de uma transtornada Sango, caiu no chão e gritou de dor quando sua perna se chocou violentamente contra um hidrante. Ninguém moveu um dedo para ajudá-lo. Sua queda tinha sido apenas um complemento a sua aparência descuidada que o faria passar-se facilmente por um mendigo. Uma mulher vestida com um terno social diminuiu o passo parecendo compadecida, mas ao encontrar seus olhos vermelhos pela noite em claro que passara, acabou desistindo e seguindo em frente sem olhar para trás.

- Sango!

Ele gritou sem se importar com as pessoas a sua volta e na mesma hora se arrependeu disso. Ela já estava fora de vista e mesmo que continuasse perto o suficiente para ouvi-lo, certamente não responderia.

- Levanta daí, vagabundo!

Disse alguém, mas Miroku não conseguiu localizar o dono da voz. Se continuasse ali parado aguardando ajuda, esperaria pelo o resto da vida. Ele se apoiou no hidrante com as duas mãos e começou a se levantar, erguendo o corpo com a ajuda da perna ilesa. Quando estava quase de pé, viu um policial se aproximando depressa do outro lado da rua e este foi o estímulo necessário para que deixasse a dor de lado e começasse a avançar o mais depressa que conseguia seguindo na direção na qual vira Sango fugir.

"Eu devo mais essa ao Inuyasha", ele pensou irritado. Em seguida arrependeu-se por culpar o irmão por sua própria burrice. O que diabos ele estava pensando quando resolvera invadir o escritório de Kouga e soltar toda a história na frente de Sango sem se preocupar com o quanto aquilo a transtornaria?

Naquele momento ele não se sentia muito melhor que um delinqüente qualquer. Se não estivesse tão desesperado para se desculpar com Sango, provavelmente teria ficado parado perto do hidrante, esperando que o policial o levasse.

Não demorou muito para que o aglomerado de pessoas ficasse para trás e ele acabasse em uma encruzilhada. Havia uma avenida à direita, uma rua comercial à esquerda e uma praça a sua frente. Sango poderia ter seguido qualquer direção.

Amaldiçoando a própria sorte, Miroku atravessou a rua arrastando a perna esquerda, tentando não machucá-la ainda mais, e parou na calçada da praça. O lugar acima do joelho onde levara a pancada começava a latejar dolorosamente e andar se tornava um esforço cada vez maior. Ele precisava de um lugar para sentar antes que caísse no meio da rua outra vez e acabasse realmente sendo preso.

Foi quase se arrastando que ele chegou a um banco, bem no meio do lugar público onde havia um playground. Àquela hora não havia mais que dois garotos divertindo-se em uma gangorra enquanto um terceiro dava saltos de pé bem no meio do brinquedo em movimento. Ele se sentou praticamente se largando sobre o banquinho de cimento, sentindo uma onda de alívio quando a perna foi aliviada do peso do corpo. Olhou outra vez para a gangorra pronto a gritar para o garoto equilibrista que descesse dali antes que sofresse um acidente, mas os três já se afastavam correndo, provavelmente em busca de alguma outra coisa perigosa para fazer.

Miroku relaxou os ombros e olhou para o outro lado. Foi então que percebeu uma concentrada Sango de pé a encará-lo. Ela o havia encontrado primeiro.

- Posso me sentar?

Ele ouviu a voz dela soar calma e inspirou em alívio. Talvez ela não estivesse tão zangada quanto ele pensara. O fato de ela ter ouvido toda sua história e saído correndo podia querer dizer muitas coisas, não? Talvez ela tenha se lembrado de um compromisso urgente e não tivera tempo de se despedir...

- Miroku!

- Hã? Ah, claro! Você pode sentar onde quiser... Digo, esse é um país livre e democrático, não é?

Sango sentou ao lado dele e sorriu. Um sorriso cheio de alívio.

- Na verdade nós temos uma monarquia parlamentarista, mas eu não estou aqui para discutirmos nosso sistema de governo. Eu queria pedir desculpas por ter saído daquela maneira. Fiquei muito transtornada e só pensava em encontrar a Kagome e contar tudo a ela. Sinto muito.

- Não, eu sou quem tenho que me desculpar por aparecer no escritório do Kouga, parecendo um marginal, e contar tudo daquela maneira, como se estivesse repassando uma piada.

Miroku olhou para frente, na direção do começo da avenida que se estenderia até seu bairro e o apartamento onde morava. Naquele momento Inuyasha deveria estar lá, bebendo e assistindo televisão como todos os dias. Talvez àquela altura Kouga tivesse saído correndo do escritório e se juntado a ele. Houvera tempo suficiente para que os dois estivessem bebendo juntos, planejando alguma outra manobra que os levasse a herança.

- O que Kagome disse sobre tudo? – Miroku perguntou. – Imagino que tenha ficado bem irritada, quero dizer, eu ficaria.

- Eu não encontrei a Kagome. – respondeu Sango. – Telefonei, mas ela não estava em casa.

- É mesmo?

Uma leve inquietude atingiu Miroku. Ele se mexeu para trás melhorando a postura.

- E tem outra coisa... – acrescentou Sango. – Shippo disse que ela saiu bem cedo para falar com Inuyasha. O menino estava bem irritado, ele não gosta muito do seu irmão.

- Ele é um menino inteligente. – respondeu Miroku franzindo o cenho. Será que Inuyasha seria capaz de fazer alguma coisa para manter Kagome afastada deles agora que o plano fora descoberto?

- Você está bem, Miroku? Parece tenso.

- Tudo bem! – ele disfarçou com um sorriso. – Eu machuquei a perna lá atrás e ela está doendo um pouco, deve ser isso.

- Você quer que eu te ajude a ir ao hospital?

- Não, não é para tanto. – disse Miroku. – Você me ajudaria a chegar ao meu apartamento? – Sango o olhou com desconfiança e ele acrescentou: – Talvez Kagome ainda esteja lá.

- Tudo bem, mas olha lá... Se você tentar alguma coisa comigo, vai acabar machucando a outra perna.

Em outra ocasião, Miroku teria rido e respondido com alguma provocação, mas não daquela vez. Seu irmão beberrão, idiota, manipulador e aspirante a ladrão estava sozinho com a tranqüila e ingênua Kagome. E ele estava com um péssimo pressentimento.

~*~*~*~

- Droga, Inuyasha!

Kouga bateu o telefone com força contra a mesa. Já perdera a conta de quantas vezes ligara para Inuyasha desde que Miroku e Sango saíram do escritório e nada dele atender.

Provavelmente estava roncando ruidosamente em seu precioso sofá ou, na melhor das hipóteses, bebera demais e agora estava desmaiado no meio da sala. Pelo que podia perceber, a única solução era ir até aquele pardieiro que ele chamava de apartamento e colocá-lo a par dos últimos acontecimentos pessoalmente.

Sem mais demora, Kouga pegou as chaves do carro na gaveta da mesa e saiu como um foguete, parando apenas por um segundo para dizer à secretária que sairia para o almoço e voltaria tarde. Estava parado em frente ao elevador, com a mão sobre o botão de chamada, quando ouviu a voz fria e cortante pronunciar as palavras por trás dele.

- Senhor Kouga! Então o senhor finalmente resolveu nos dar a honra de sua presença vindo trabalhar hoje? Alguns dos funcionários assíduos já comentam que sua sala é ocupada por um fantasma.

O advogado se virou lentamente, com um sorriso sem graça no rosto. Aquele era o sócio mais importante do escritório e justo no momento mais inoportuno. Ele não podia se mostrar nervoso, não quando isso implicaria em ter que responder perguntas. Provavelmente todos já estavam cientes de suas faltas constantes e, mais cedo ou mais tarde, ele sabia que teria de encontrar uma boa desculpa.

Poderia tentar usar o talento para mentir que acumulara com tantos anos de experiência em casos complicados nos tribunais. O problema era que estava lidando com um advogado muito astuto, bem mais do que ele mesmo era, e não tinha certeza se seria capaz de enganá-lo por melhor que fosse sua atuação.

Um calafrio desceu por sua espinha até a última costela quando encarou o homem vestido em um terno preto, impecável, e que segurava uma bengala de madeira que o ajudava a andar desde que levara um tiro, anos antes, naquele mesmo corredor. Uma história que circulava entre os funcionários do edifício muito antes de sua chegada.

- Minha avó. – Kouga ouviu a própria voz com incredulidade. – Minha avó, aquela por parte de pai, o senhor não lembra? A pobrezinha tem problemas nos rins, no fígado, no coração... É praticamente um saco de batatas que sequer consegue ficar de pé. Ela reclama, reclama, reclama... Ah, o senhor sabe... – ele falava como uma velha bisbilhoteira contando a última que ouvira no mercado e não conseguia parar por mais que tentasse.

- Não, eu não faço a mínima idéia do que a sua avó tem a ver com o seu desleixo.

O homem levantou a cabeça com superioridade e esperou maiores explicações. Por sua vez, Kouga quase podia ouvir o barulho dos próprios dentes cerrados. Droga! Por que aquele homem lhe causava tanto alarme?

- Bom, é que... – ele disse, nervoso. – Minha avó, com todos esses problemas, eu tive que ir ajudar meu pai a cuidar dela. A velha reclama tanto que ninguém gosta de chegar perto, então sobrou para mim... Ah, o senhor sabe...

"Ah, o senhor sabe", ele tinha a mania de dizer aquilo sempre que tentava dar uma desculpa esfarrapada a alguém de quem tinha medo. Fora assim com seu pai e com a velha senhora Utada na escola. O problema ali era que, pela cara do outro, não estava se saindo nada convincente.

Quando os olhos do advogado de terno se estreitaram, ele teve a nítida impressão de que ele podia ler seus pensamentos. Que sabia de seus planos com Inuyasha e que pretendia largar tudo e sumir depois. Estava esperando ouvir que eles precisavam ter "uma conversa" e que o acompanhasse a sua sala. Aquele tipo de conversa da qual ele já vira muitos saírem como crianças amedrontadas sem que nunca mais ousassem pensar por si mesmo de novo.

Foi salvo pelo gongo.

- Senhor Naraku, precisa assinar tudo isso antes das três da tarde. – disse uma jovem secretária que estava parada a seu lado com uma pilha de documentos, mas que ele não viu chegar.

O sorriso de Kouga alargou.

- Não tem nenhum problema, senhor. Eu adoraria dar os detalhes da doença dos rins, fígado e coração da minha avó, mas se está ocupado, continuamos depois.

O elevador se abriu neste minuto e Kouga correu para dentro, apertando o botão para o térreo antes que Naraku resolvesse segui-lo.

- Estou de olho em você. – ele ainda ouviu o outro advogado dizer antes da porta se fechar.

~*~*~*~

Sesshoumaru mal pode acreditar em seus ouvidos quando Kikyou entrou de repente em seu quarto e anunciou que voltariam ao Japão.

- E... Eu posso saber o motivo dessa decisão tão repentina? – ele perguntou de sobrancelha erguida. Aquela mulher nunca deixava de surpreendê-lo.

- Saudades de casa. – respondeu Kikyou com um sorriso misterioso e se sentou na cama, mexendo os pés como se estivesse ensaiando passos de dança.

Ela parecia muito feliz. Seria mais preciso dizer que parecia tão excitada quanto uma criança que acabara de receber exatamente o que pedira de Natal.

- Saudades de casa. – ele repetiu sem acreditar em uma palavra. – Eu pensei que você não quisesse voltar lá até o término do verão.

- Pois é, mas as pessoas mudam de idéia, meu querido Sesshoumaru. Não acha que eu tenho o direito de sentir falta do lugar onde cresci?

A pergunta não obteve resposta. Sesshoumaru continuou desconfiado. Por sua mente, a possibilidade dela ter descoberto sobre a morte de Kaede caiu com o peso de uma bigorna, mas ele a afastou imediatamente. Kikyou não estaria assim tão radiante com a morte da avó, estaria? Que elas não tinham o melhor dos relacionamentos, isso ele não podia discordar, mas não a ponto da morte de uma, ser motivo de felicidade para a outra.

- E quando vamos? – ele perguntou, perturbado.

- Amanhã mesmo, o que acha?

- Perfeito...

Supondo que Kikyou não soubesse nada sobre a morte de Kaede, agora não haveria como esconder por mais tempo. Se ao menos pudessem ficar mais alguns dias para que ele fosse capaz de pensar em alguma coisa... Quando escondera o papel impresso com a notícia, tinha a única intenção de ganhar tempo. Fingir que não sabia de nada quando chegassem em casa seria terrível e ele não tinha certeza que conseguiria.

- Kikyou, você tem certeza que vai dar tempo prepararmos tudo para amanhã? Você decidiu tão em cima da hora... – ele tentou persuadi-la.

- Não tem problema, já ordenei aos criados que preparassem a nossa bagagem para hoje à noite. Teremos tempo de sobra.

- E você não vai avisar a ninguém sobre nossa volta?

- Não é necessário, nós podemos pegar um táxi do aeroporto.

- E quanto às passagens?

- Estão no meu quarto.

Seria possível que ela pensara em tudo? Se não soubesse, apostaria que tudo fora preparado muito antes, com a intenção de que estivessem de volta a Tokyo exatamente no dia seguinte.

- Ânimo, meu querido. – disse Kikyou, abraçando-se a Sesshoumaru. – Eu sei que estava apreciando a ilha e que ficamos por muito pouco tempo, mas teremos outras oportunidades. – ela sorriu. – Quando chegarmos ao Japão você poderá me levar até aquela propriedade que você me falou tanto, o que acha?

- Está falando sério? – Sesshoumaru perguntou, afastando-a com delicadeza, de modo a olhar dentro de seus olhos. – Pensei que não gostasse de fazendas.

- Não gosto. Mas adoraria conhecer seus pais e a sua irmãzinha.

Ela estava fazendo planos? Aquilo era bom demais. Talvez ele se precipitara em esconder a notícia dela. Talvez ela realmente o amasse e toda aquela insegurança existisse só dentro de sua cabeça.

- Claro, eu a levarei até lá.

Kikyou balançou a cabeça satisfeita.

- Então eu vou cuidar dos últimos preparativos para a viagem. Esteja pronto amanhã bem cedo.

Ela deu meia volta e já saia do quarto quando Sesshoumaru a chamou de volta.

- Kikyou, eu tenho uma coisa a dizer.

Era agora ou nunca. Ele tinha que ir até a gaveta, pegar a folha impressa e entregar a ela. Era melhor que ficasse sabendo por ele agora que descobrir mais tarde que ele sabia de tudo e não lhe dissera nada.

- Diga. – ela se apoiou na porta e ficou olhando para ele.

Sesshoumaru abriu a boca, mas as palavras não saíram. As pernas recusaram-se a moverem-se até o móvel. Por mais que tudo parecesse estar bem, o medo e a insegurança permaneciam lá e ele não se sentia pronto para assumir aquele erro. "Eu devia ter contado tudo desde o começo. Eu sinto tanto..."

- Amo você. – foi o que ele disse.

Ela sorriu ao ouvir as palavras, mas uma sombra de tristeza passou por seus olhos.

- Boa noite, Sesshoumaru.

Kikyou saiu e a porta foi fechada. Nada mais pode ser dito. Ele tinha perdido sua chance e não haveria outra como aquela, não antes de estarem no Japão.

O tempo acabara. Agora era por conta do destino.

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CONTINUA

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Inicialmente, vamos ao de sempre: MINHAS DESCULPAS PELA DEMORA! Eu fiz uma viagem por quase duas semanas, para completar, meu computador deu uma pane e lá se foram todos os meus rascunhos... Só quero ver como vou fazer com os outros fanfics, melhor nem pensar. u_u

Bom, eu sei que vocês estavam muito mais interessados em saber o que ia acontecer com Inuyasha e Kagome depois do capítulo oito. Minha intenção era terminar esse capítulo com uma cena entre eles, mas acabou não dando certo, uma vez que tudo o que houve aqui aconteceu no mesmo dia em que os dois estavam no Shikon No Tama. Acabei deixando tudo para o próximo: a conversa entre Inu e Kagome (se é que são capazes de um ato tão civilizado...) e o encontro deles com Kouga, Miroku e Sango.

Ainda sobre esse capítulo, as cenas foram dispostas por ordem cronológica, apesar de uma não ter nada a ver com a outra... E o aparecimento de Rin, Kagura e Naraku ainda vão fazer sentido. Está tudo dentro da minha cabeça ultradesordenada.

Muito obrigada a todos que continuam lendo essa história, em especial a essas pessoas por seus comentários com relação ao último capítulo:

Tomoyo-chan D. (sim, o último capítulo ficou confuso com o que houve com o Inu e a Kagome no Shikon No Tama, mas era exatamente essa a intenção. Tenho planos para eles, só espero não prolongar a história demais. Obrigada!!)

Kagome-chan: :K-chan (acho que o Inuayasha ainda demora a se decidir, não sei, ele não está me obedecendo mais. Obrigada pelo comentário!)

dani (fico muito feliz que continue gostando dessa historia. Ela parece estar ficando cada vez mais louca, mas parece que está sendo bom. Muito obrigada por continuar lendo!)

||:Kiki-chan:|| (ha, ha, ha, eu também estou doida para escrever o Kouga recebendo a notícia. Acho que no próximo essa cena sai. Obrigada.)

LP Vany-chan (verdade, as personagens sempre cometem loucuras quando estão bêbadas, eu me divirto muito com esse tipo de cena. Obrigada pelo comentário, gostei muito.)

Kisamadesu (ha, ha, ha, com direito a melhores momentos? Adorei! Mas... essa veia pulsante não foi para me assustar foi? *imaginando a dança da vitória da Kisamadesu ao estilo aborígine* Obrigada!)

chibi lua (Chibi, você ainda me mata de rir. "Oh, Filomena, eu te amarei pra sempre" foi a melhor. Sobre o que aconteceu no quarto... Eu não sei, deve ter sido na hora que fui buscar um cafezinho (he, he). Pode deixar, pensarei seriamente em mandar a Kagome para o México com a grana *e o Inu no porta-malas se ela ficar esperta de uma hora para outra* Obrigada pelo review!)

Sayo Amakusa (ha, ha, ha, essa bebedeira me veio bem a calhar, se eu tivesse que escrever um casamento romântico ia acabar desmaiando por incapacidade *não é fazendo doce, é a triste realidade* Sobre o quarto... vai vereles jogaram cartas... he, he. Obrigada pelo comentário.)

Dai (eu não tive coragem de deletar e escrever tudo de novo. Do jeito que sou lenta, ia sair lá pela páscoa do ano que vem. Então eu literalmente publiquei e fugi para o mato, ha, ha, ha. No próximo capítulo o Inuyasha e a Kagome reaparecem. Espero não demorar muito. Obrigada!)

Hell's Angel-Heaven's Demon (essa tortura nãaaaaaaaooo. O capítulo saiu rapidinho, não saiu? *riso nervoso* Por mim eu casava o Se-chan também... comigo. Mas eu acho que não ia ter o apoio da maioria então é melhor pensar em outro final para ele, he, he, he. Obrigada pelos comentários!)

Aline (eu espero que não tenha demorado muito dessa vez. Muito obrigada pelo comentário!)

Miki-chan (ha, ha, ha, tem razão! Há um episódio de Friends onde eles casam em um cassino! Não, eu não estava pensando nisso quando escrevi, só queria que eles casassem e que só se dessem conta disso depois. Obrigada!)

O próximo capítulo... Logo! Até já comecei a escrever.

Por favor, continuem me deixando saber o que pensam. Agradeço muito.

Até o próximo!! ^_^

spooky_rae@terra.com.br