Disclaimer: Inuyasha não me pertence. Esse fanfic tem o único objetivo de divertir.

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TUDO PELA HERANÇA

Por: Madam Spooky.

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Capítulo 10 – Palco

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O pai dele sempre dizia que a vida era um imenso palco onde as tragédias se repetiam, uma após a outra, por toda a eternidade. Às vezes as mesmas personagens se apresentavam, mas as histórias nunca eram iguais.

Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira.

Tolstoi tinha dito aquilo, mas ele só soube disso quando já estava na Universidade de Tokyo muitos anos depois. Era uma frase que se aplicava tão perfeitamente a situação de todas as pequenas famílias nas quais a sua se dividia que, apesar de só ter ouvido isso uma vez da boca de Eiji Arada, a frase tinha se mantido presente em sua mente durante todos os anos que se seguiram. E foi pensando insistentemente nela que ele forçou-se a prometer a si mesmo que jamais se casaria, que jamais se daria à chance de ser infeliz e tornar uma mulher igualmente descontente, e agora...

Agora ele se via caminhando pela calçada ao lado de nada mais nada menos que sua ESPOSA. E não havia nenhuma possibilidade de tudo não passar de um pesadelo. Seus braços vermelhos estavam bem visíveis para comprovar isso.

- Falta muito até o seu apartamento?

A voz neutra de Kagome rompeu o acordo de silêncio que os dois fizeram tacitamente no momento em que saíram do hotel e interrompeu os pensamentos de Inuyasha. Ele olhou para ela pela primeira vez e se sentiu culpado. Fora tanto de sua força gasta nos últimos quarenta minutos, em remoer o passado e seus próprios erros, que ele nem prestara atenção na garota que o seguia.

Ela devia estar sofrendo tanto ou mais do que ele. Afinal, ela tinha muito mais a perder com o que acontecera.

- Eu pensei que antes eu ia levá-la até sua casa. – ele respondeu da mesma maneira, sem demonstrar nenhuma emoção.

- Mas eu não quero ir para a minha casa...

Dessa vez ele pode perceber as lágrimas na voz dela e não pode deixar de se preocupar. Talvez aquela irritação que ela demonstrara no Shikon No Tama, tão incomum a Kagome ingênua que ele conhecera primeiro, tivesse lhe feito dar a ela o mérito de uma força que na verdade não existia.

- Então você quer vir tomar conta do meu apartamento? Garota mercenária! Eu tinha certeza que a sua intenção desde o início era dar o golpe do baú.

Ele a viu sorrir e sentiu-se mais tranqüilo. Podia ser que ainda não fosse o momento certo de conversarem sobre uma solução para o problema em que se envolveram, mas enquanto isso ele a manteria o mais relaxada possível.

A culpa fora dele, não? Bem vindos senhoras e senhores. Inuyasha Arada pegou as garrafas no quarto e assim abriu as cortinas para mais um espetáculo desastroso.

– Preciso de um tempo para pensar no que vou dizer a minha família. – Kagome disse novamente séria, alheia aos pensamentos do companheiro. – Não posso simplesmente chegar lá e te apresentar como meu marido.

Ela tinha mãe, avô e dois irmãos, ele lembrou. Àquela altura a família dela devia estar louca com seu desaparecimento.

Talvez eles fossem felizes até então, tranqüilos, nos bastidores. Mas assim que a verdade fosse dita, uma bomba cairia sobre a boa família Higurashi e eles subiriam no palco da vida para encenar uma nova tragédia.

Mais uma culpa para sua lista já bem impressionante. E quando Kagome soubesse que ele vira nela apenas seu passaporte para a riqueza e, mesmo assim, tinha consentido em se casar com ela, jamais o perdoaria. Seu pai tinha razão, adversidade era uma linha sem fim. Algumas pessoas tinham nascido para o infortúnio e nada nem ninguém poderia mudar seu destino.

- Tudo bem, vamos para o meu apartamento. – ele disse tentando parecer feliz, jogando todas as preocupações que assolavam sua alma para o recanto mais profundo da mente.

- Miroku não vai se importar?

Era improvável até mesmo que ele ficasse sabendo, Inuyasha pensou. Ele conhecia o irmão suficientemente bem para saber o quão teimoso ele era quando colocava alguma idéia na cabeça. Se lhe perguntasse antes da discussão que tiveram, ele diria que ainda que roubasse a herança de Kikyou e fugisse para o México, Miroku estaria bem atrás dele, montado em uma burra, com um sombreiro e um manto sobre os ombros, recitando seu discurso do que é certo e do que é errado. No entanto, agora...

Você trabalha não é? E eu pensei ter acabado de ouvir que tem uma vida miserável...

Eu não teria se não fosse por você.

Não, o irmão não voltaria para casa nem tão cedo. Na melhor das hipóteses o faria pedir desculpas antes de resolver aparecer. E o pior de tudo é que ele acabaria pedindo, afinal, Miroku o sustentava.

- Não, o meu irmão não vai se importar. Eu não acho que aquele lugar seja o mais apropriado para você, mas pode ficar quanto tempo quiser.

Ele estava olhando para o nada, ainda pensando em Miroku e não viu os olhos de Kagome se contraírem de surpresa diante do comentário educado.

- Eu estarei bem em qualquer lugar desde que ganhe um pouco mais de tempo...

Kagome concentrou-se no caminho e não disse mais nada, retornando ao acordo inicial. Por sua vez, Inuyasha sabia que se não conversasse com ela, ia começar a pensar no passado outra vez e se moveu rapidamente, pensando no que dizer.

- Kagome, por favor, quer dizer alguma coisa e parar de agir como se fosse o fim do mundo? – ele pediu. – Eu sei que meu cabelo não está exatamente na moda, mas eu não sou tão feio a ponto de uma mulher preferir estar em coma a se casar comigo.

- Eu estou apenas calada... – Kagome respondeu com um ar extremamente inocente.

- Então admite que sou bonito? – insistiu Inuyasha.

A princípio ela pareceu ignorar a afirmação, mas logo levantou a cabeça novamente e sorriu.

- Bom... Você não é terrivelmente deformado, mas...

Ela riu ao ver a sobrancelha de Inuyasha se erguer em sinal de desagrado. Em seguida ele relaxou e deu um meio sorriso. Era bom vê-la sorrindo apesar da parte que lhe tocava.

- Saiba que eu fui eleito à criança mais linda da escola quando estava no pré-escolar? – ele disse levantando o queixo até quase cair para trás.

- As pessoas mudam.

Os dois mal perceberam, já estavam entrando no centro. A caminhada não foi muito agradável no início, mas os comentários presunçosos de Inuyasha estavam ajudando naquele momento. Kagome parecia bem menos tensa, talvez por ele esconder sua perturbação muito bem e dar a ela a impressão de que estava exagerando. E quem sabe estivesse...? Como ele dissera pouco tempo antes, não era o fim do mundo. Eles acabariam dando um jeito naquela situação.

A seu lado, Inuyasha olhava sério para a esquina a frente, tentando sem muito sucesso afastar um novo pensamento inquietante: O que faria quanto a seu trato com Kouga agora que a idéia de usar Kagome no plano parecia cada vez mais errada? Se ao menos ele não estivesse CASADO com ela... E tinha que admitir que a presença daquela garota fazia bem a sua alma. Ela o tratava como uma pessoa, um amigo, não como um fardo, e ele gostava cada vez mais de tê-la por perto.

Apesar de todos esses sentimentos novos, a idéia fixa de que não era algo durável persistiu. Não era egoísta a ponto de dar-se a chance de fazer Kagome infeliz. Seu destino era ficar sozinho e ele estava mais que conformado com isso.

- No que está pensando? – perguntou Kagome em certo ponto.

- Nada importante. Só contando todas as coisas que aconteceram desde que conheci você.

- Parece que nós dois juntos somos um desastre ambulante. – ela concordou. – Digo, eu nunca teria entrado em um cassino e bebido tanto se estivesse com outra pessoa.

- E por que aceitou fazer isso enquanto estava justamente comigo?

- Talvez tenha sido a sua beleza hipnótica.

Inuyasha riu.

- Confesse, você queria viver uma aventura, sair dessa rotina chata que a vida impõe e por uma vez que fosse, fazer o que você queria fazer e não o que tinha que fazer.

Kagome olhou para ele surpresa e Inuyasha achou que talvez tivesse falado demais. Ele era a última pessoa no mundo que podia falar de rotina. Não trabalhava, estudava ou fazia qualquer coisa que lhe exigisse horários. Os dias continuavam correndo e ele permanecia sentado naquela poltrona, sem fazer uma tentativa que fosse de nadar com a corrente.

- Você tem razão. – respondeu Kagome. – Eu tento fugir da rotina quando posso, mas aquela foi minha única oportunidade real. – ela sorriu desta vez parecendo realmente refeita de todas as preocupações. – Você tem razão também sobre não ser o fim do mundo. Pelo menos eu tenho uma loucura para contar quando me perguntarem.

- Ah, então você pretende contar por ai que se casou com um bonitão em um cassino enquanto ele não estava em condições de repensar todo esse negócio de se amarrar. Você sabe, somos nós homens que temos mais a perder.

Kagome deu um tapa de leve no braço do rapaz.

- Não seja machista, Inuyasha! Foi você quem me fez ver o lado bom da coisa, por que não fica calado e me deixa aproveitar?

- Eu não nasci para ficar calado.

- Eu pude perceber...

Os dois andaram mais um pouco em silêncio até Kagome perguntar, desta vez muito séria:

- Você lembra quando falava do seu irmão? De ele ser problemático e viver largado no sofá bebendo cerveja?

- Eu... disse isso? – Inuyasha franziu o cenho e olhou para o outro lado. E agora, o que seria?

- Miroku não é realmente assim, é? Você falava aquelas coisas dele porque tinha vergonha de admitir que na verdade estava falando de você mesmo?

A pergunta fez Inuyasha quase parar, mas ele se obrigou a continuar andando. O coração dele disparou ao constatar o quão perto isso a colocava da verdade e, pior ainda, do conhecimento a respeito de seus planos. Apenas de tudo, ele não conseguiu mentir ao responder que sim.

- Por que está me perguntando isso? – questionou. A pergunta certa seria quando ela soubera daquilo, mas no momento não parecia tão importante. Ele dera muito a imaginar com as atitudes da noite anterior e quem sabe o que ela teria conversado com aquela amiga dela, Sango, as duas trocando suposições.

Kagome deu de ombros.

- Porque você sempre me pareceu uma pessoa cheia de segredos. Os seus olhos não falam de acordo com a sua boca.

- Meus olhos o que? – ele achou graça.

- Você não olhava para mim diretamente até ontem à noite. Parecia estar sempre escondendo alguma coisa. Eu não sei... Eu achei que tivesse vergonha de dizer que não tinha um trabalho nem nada. Você parecia estar sempre zangado, como se tivesse desistido de tudo...

Ela olhou para o rosto impassível dele e baixou os olhos, embaraçada.

- Me desculpe, eu...

- Tudo bem! – ele a interrompeu.

Inuyasha olhou para frente, onde a avenida que levava a seu bairro acabava e uma série de ruas menores, mais feias e desertas, começariam a aparecer. Kagome só o conhecia há poucos dias, mas era muito perspicaz ou ele muito transparente, porque com aquela última suposição, ela tinha resumido toda a sua vida.

- Eu não sou um partido lá muito bom, Kagome. – disse, mas sem nenhuma mostra de estar arreliando. – Eu sinto muito dizer, mas você fez um péssimo casamento.

- Você é uma boa pessoa.

Uma ótima pessoa, que a quis apenas para fazer-se passar por sua prima e apossar-se uma herança milionária que não lhe pertencia, ele pensou.

- Ser bonito não quer dizer ser bom. Você deve assistir a muitos filmes da Disney para achar que os feios são sempre os bandidos. – foi a resposta de Inuyasha.

- Você tem uma verdadeira fixação por beleza. – Kagome disse. – Sabia que aparência não é tudo? O interior conta muito.

- Ah, é? Então você se casou comigo porque estava apaixonada pelo meu pâncreas?

- Você tem sempre que dar uma resposta para tudo o que eu digo?

- E você tem sempre que ter a última palavra quando discutimos?

- Não, eu me contento se você tiver a última palavra: Sim, Kagome.

Ela exibiu um sorrisinho de triunfo e passou na frente, ignorando o olhar de descrença de Inuyasha.

- Ah. – disse ele. – Isso não teve graça.

* * *

Já era quase meio dia, mas finalmente Kagome e Inuyasha conseguiram chegar ao prédio onde ele vivia. O lugar naquela manhã parecia mais deserto que de costume. Nem mesmo o costumeiro barulho da prisão do outro lado da rua estava sendo ouvido e, por alguma razão, os bêbados que sempre povoavam a calçada com a aparência de cadáveres jogados sem nenhum cuidado, desta vez tinham resolvido ir para outro lugar. Por um lado, Inuyasha sentiu-se grato por poder trazer Kagome a um ambiente mais ou menos apresentável, por outro, toda aquela quietude dava a sensação de que havia algo errado.

- Parece que o pessoal da faxina veio mais cedo hoje. – disse Inuyasha abrindo caminho para que Kagome fosse na frente.

Ela pareceu não entender o comentário, mas aceitou o convite. Os dois subiram as escadas rapidamente até chegarem ao andar procurado. A caminhada do corredor até a porta também foi feita em silêncio. Quando Kagome se aproximou e estava quase encostando a mão na maçaneta, Inuyasha a puxou pelo braço quase rudemente.

- O que...?

- Psiu! – ele colocou o indicador sobre a boca dela de maneira a fazê-la se calar. – Tem alguma coisa errada.

Só então ela viu que a porta não estava completamente fechada, mas entreaberta. Lá dentro, um barulho suave de vozes atravessou a superfície de madeira e ela deu um salto para trás.

- Tem alguém lá dentro. – declarou o óbvio.

Ao contrário do que pensou, atrás dela Inuyasha não parecia nem um pouco alarmado, apenas intrigado. Ele ainda a segurava com uma das mãos enquanto a outra pendia no ar, como se decidindo entre abrir a porta ou permanecer parada no mesmo lugar.

Intrigado era exatamente o que resumia o estado de espírito do jovem Arada. Ele não conseguia entender o que Miroku poderia estar fazendo dentro do apartamento, ainda mais conversando com alguém. Depois da briga que tiveram, ele tinha certeza que o irmão desapareceria por algum tempo, mas aparentemente se enganara. E se Miroku tivesse voltado com a polícia? Ele estava tão decidido a fazê-lo desistir daquela idéia da herança que a possibilidade parecia bem provável.

- Ora, vamos, eles podem demorar e eu não vou ficar aqui parado enquanto espero. Não agüento mais ver televisão. – disse Miroku nitidamente lá dentro.

- E eu posso saber o que você tem em mente? – perguntou uma mulher.

- Sango!? – Kagome levou as mãos aos lábios. Sua família ficaria chocada quando soubesse do casamento, mas Sango... Sango a mataria.

- Sango? – Inuyasha repetiu e afrouxou o aperto no braço dela.

- Você sabe muito bem o que eu tenho em mente. – disse Miroku com uma voz estranha, quase melosa.

- Ah, não. Nós já fizemos isso umas cem vezes desde que chegamos aqui. – disse Sango. – Eu não quero mais, estou cansada.

Inuyasha e Kagome se entreolharam cercando a porta sem ousar dar mais um passo.

- Eu sei, mas isso foi durante a noite, quando estávamos sozinhos. Agora o Kouga pode participar.

- Inuyasha! – Kagome olhou suplicante para ele.

- Não! – respondeu Inuyasha olhando feio para ela. – Kagome, o que é que você está pensando? Miroku pode ser qualquer coisa, mas não é nenhum depravado. – ele disse isso e imediatamente se lembrou da última dúzia de namoradas de Miroku, o pouco que duraram e os muitos flagras que ele mesmo dera, especialmente naquele corredor. – Olha, eu acho melhor a gente não entrar ai.

- Inuyasha, é a Sango! Ele pode tê-la drogado.

- O Miroku não drogou a sua amiga!

- Está defendendo ele porque é seu irmão.

- E se ela drogou o Miroku?

- A Sango não drogou ninguém!

- Está defendendo ela porque é sua amiga.

- Vamos, Miroku, você é péssimo nisso, eu não sei porque insiste tanto em continuar tentando.

- Mas ontem você estava doida por isso.

- Então. – Inuyasha deu um sorrisinho nervoso. – Quem está parecendo que drogou quem?

- Não seja idiota. Eu precisava de alguma coisa com que me distrair e não há muito que fazer nesse lugar.

- Pelo menos eu sou melhor nisso que o Inuyasha, pode perguntar para o Kouga.

Kagome esbugalhou os olhos, mas Inuyasha não esperou que ela o atingisse com nenhum comentário sarcástico, abriu a porta de uma vez e gritou:

- Mas o que diabos está acontecendo aqui?

Sentado no sofá, Miroku, Sango e Kouga olharam para os recém-chegados com espanto.

- Vocês querem jogar? – perguntou Miroku. E levantou a mão que segurava um jogo completo de cartas.

* * *

Kikyou saiu do aeroporto de Tokyo em silêncio, apertando os dedos contra as palmas das mãos com força, em claro sinal de preocupação. Sesshoumaru vinha logo atrás acompanhando os dois carregadores que traziam as malas, parecendo descontente. Os dois não tinham trocado uma palavra sequer desde que saíram da ilha e ela tinha certeza que se não iniciasse uma conversa, da parte dele não haveria nenhuma tentativa nessa direção.

Seu companheiro de viagem era um homem orgulhoso. Na noite anterior ele tivera um de seus raros momentos de fraqueza quando declarara seu amor por ela em voz alta, mas a jovem seria capaz de apostar toda sua fortuna como naquele instante mesmo ele se perguntava o que teria passado por sua cabeça para ter agido de uma maneira tão pouco comum a sua natureza.

Kikyou se lembrou daquela última noite da viagem, da maneira cuidadosa com a qual o abraçara, das palavras gentis que ele dissera e um arrepio percorreu sua espinha. Se tudo aquilo pudesse ser real... Se ela pudesse corresponder todo aquele amor que Sesshoumaru dizia sentir por ela...

O telefone celular tocou trazendo-a de volta a realidade. Sua mão estremeceu enquanto abria a bolsa e levava o aparelho ao ouvido. Ela sabia qual voz escutaria antes mesmo que ela surgisse do outro lado da linha.

- Até que enfim você atendeu, eu já estava ficando preocupada que tivesse fugido com ele de verdade. – disse uma mulher com uma voz alta e cheia de deboche.

- Eu estava no avião até agora há pouco. – respondeu Kikyou se afastando para que ninguém ouvisse aquela conversa. – Não havia porque pensar isso de mim, não foi esse o trato que fizemos.

- Fico feliz de saber que você tem palavra, Hayashibara. Encontrar pessoas em que se possa confiar está ficando cada vez mais difícil.

- Você pode parar com essa conversa e dizer logo o que quer? Eu estou no aeroporto e ele está esperando por mim para irmos juntos para a minha casa.

Ela tentou não parecer cruel dizendo isso, mas falhou miseravelmente.

- Não brinque com a sorte. – a voz no telefone não pareceu ter apreciado nem um pouco o comentário. – Lembre-se do que pode acontecer se você me deixar irritada. Você tem muito a perder, Hayashibara, é bom que não esqueça disso.

A ameaça não obteve resposta. Kikyou sabia muito bem o que podia ou não se dar ao luxo de esquecer e não estava disposta a abalar-se facilmente.

- Eu já fiz o que você me pediu. – ela disse energicamente. – Eu o afastei daqui quando você disse que eu fizesse e o trouxe de volta de acordo com suas instruções também. O que mais você quer de mim?

- Ele não pode ir para casa agora, não seria conveniente. Eu quero que o mantenha mais uns dois dias com você, volto a ligar.

- Dois dias...? – Kikyou começou a protestar, mas a mulher já tinha desligado.

Ótimo, não poderia ser mais perfeito. Ela teria que ficar mais dois dias perto dele, lutando cada segundo para não correr e contar tudo o que estava acontecendo. Teria que enganá-lo enquanto o ouvia dizer que a amava e ser fria enquanto ele era gentil.

Não, aquela mulher estava muito enganada sobre ela ter muito a perder. Aquilo tudo era castigo suficiente, o resto seria apenas como uma espetada de agulha.

- Kikyou, tudo bem com você?

Ela se virou e lá estava o rosto preocupado dele ao observá-la apertar o celular entre as mãos como se fosse capaz de esmagá-lo a qualquer momento. Seria possível alguém se odiar mais do que ela estava se odiando?

- Eu estou bem. – ela disse, soando pouco convincente. – Vamos para casa.

* * *

- Vocês fazem mesmo uma bela dupla. – disse Sango com uma ponta de irritação.

Escorados à parede, parecendo genuinamente envergonhados, Inuyasha e Kagome sorriam sem graça para os três outros ocupantes da sala que esperavam por uma explicação.

- Não culpe a mim. – disse Inuyasha. – Kagome é quem fica pensando no que não deve. – e antes que Kagome pudesse protestar, mudou de assunto: – E eu posso perguntar o que vocês três fazem aqui? Eu não me lembro de ter programado nenhuma reunião na minha agenda para hoje à tarde.

Sango e Miroku trocaram um olhar cúmplice e Kouga, que estava apoiado por trás do sofá, estreitou os olhos ainda mais do que já vinha fazendo desde que os dois jovens entraram juntos.

- Eu espero que você, Inuyasha, tenha uma ótima explicação para o desaparecimento repentino de ontem, bem como para o porquê de ter aparecido acompanhado da minha mulher.

Quatro pares de olhos se dirigiram imediatamente para ele. Todos se perguntando desde quando Kouga se referia a Kagome como mulher dele.

- Ha, ha, sua mulher? Não me diga... – disse Inuyasha. Depois, se virou para a garota a seu lado, fazendo-se de ofendido. – Então é assim? Nós acabamos de chegar no apartamento e você já está pulando a cerca?

Kagome empalideceu e o fitou com uma expressão tão suplicante que Inuyasha acabou se calando. Era melhor ele controlar seus comentários enquanto não encontrassem uma maneira segura de contar a todos o pequeno deslize da noite anterior.

- Inuyasha, é melhor você deixar de gracinhas e dizer logo onde os dois estavam nessas últimas vinte e quatro horas. – disse Miroku. – Teve alguma coisa a ver com a discussão que tivemos? Eu cheguei a pensar que você tivesse seqüestrado a Kagome para que eu não falasse nada sobre o seu plano.

- Você por acaso ia fugir com ela e depois se arrependeu? – perguntou Sango.

- Ou estava pensando em levar a garota e ficar com todo o dinheiro sozinho? – Kouga supôs em tom de desafio.

Inuyasha olhou para os rostos que o observavam com expectativa sem entender. Desde quando Miroku e Kouga falavam abertamente do plano na frente de Sango? Aparentemente muita coisa tinha mudado nas últimas vinte e quatro horas e seu inesperado casamento tinha sido só o começo.

- Inuyasha, do que eles estão falando? – perguntou Kagome, chamando-lhe a atenção.

Ele encontrou os olhos confusos dela e prendeu a respiração. Independente de seguir ou não com o plano de fazer Kagome passar-se por Kikyou, contar para ela daquela maneira nunca tinha sido uma opção. Ele imaginara que teria muitos argumentos, que seria capaz de sair como inocente. Mas assim, diante de três testemunhas sentia-se como um rato encurralado contra a parede.

- Por que você não fala tudo para ela? - indagou Sango, balançando a cabeça de um lado a outro reprovadoramente. – Você foi homem para ter toda essa idéia maluca, agora eu quero ver se é homem para confessar.

Ela e Miroku relaxaram no sofá como expectadores ao verem as luzes do cinema se apagarem. Por sua vez, Kouga movia as mãos nervosamente, sem gostar nada do rumo no qual as coisas estavam seguindo, mas vendo-se incapaz de interferir.

Talvez, somente talvez, Kagome não ficasse assim tão zangada. E talvez também ainda houvesse uma chance deles ficarem com aquele dinheiro apesar de tudo. A vida não seria tão injusta a ponto de tomar-lhe sua última oportunidade de começar de novo, seria? Ele podia ver o fio da adversidade se desenrolando e era melhor assistir o espetáculo quieto, procurando uma chance para entrar em cena e tirar aqueles dois de fosse lá que enrascada se envolveram.

- Inuyasha, o que você tem para me contar? – Kagome insistiu.

Mas Inuyasha não fazia idéia de como confessar tudo. Ele não contara com ter que fazer aquilo assim tão de repente. Pretendia repensar as coisas, tratar aquilo como uma idéia recém-surgida e sugeri-la do nada, como uma brincadeira. Testaria as reações de Kagome e assim teria uma idéia de como explicar o que fizera sem deixá-la furiosa. Tinha certeza que dessa maneira seria capaz de fazê-la entender, mas com aqueles três assistindo e tendo a chance de meter o nariz na hora em que quisessem, as coisas ficavam cem por cento mais difíceis.

Droga, e agora?

- Sabe... – ele começou – Há uma coisa que você ainda não sabe...

- Claro que não, se eu soubesse não estaria perguntando, não é?

Ela riu e ele percebeu que Kagome não tinha idéia da gravidade do que ele estava preste a falar. Ela se decepcionaria com ele e certamente nunca mais ia querer vê-lo. Teria que dar adeus a sua única amiga porque ela saberia, assim como os outros, a espécie de pessoa que ele costumava ser.

- Inuyasha, estamos esperando. – disse Miroku.

Inuyasha olhou para o irmão esperando ver diversão na expressão dele, mas só encontrou receio e expectativa. Ele era nem de longe o único a estar nervoso naquela sala.

- Kagome, você se lembra que nós dissemos que você se parecia muito com a Kikyou?

- Sim, apesar de eu discordar completamente disso.

Ela riu outra vez e Inuyasha sentiu-se ainda mais incapaz de falar. Procurou desesperadamente por uma saída a sua volta, mas aparentemente não havia nenhuma.

Sango, Kouga e Miroku continuavam esperando o desenrolar dos fatos e Kagome não desviava a expressão interrogativa do rosto dele.

- Pois é, mas independente do que você diga, se parece fisicamente com ela, sem dúvida alguma. – ele deixou escapar um riso nervoso. – Não é uma grande coincidência?

- Inuyasha... Você ia dizer que eu me pareço com a Kikyou? Porque isso eu já estou sabendo...

- Não! O que eu ia dizer... Você lembra da minha tia Kaede?

- A senhora que morreu na festa?

- Essa mesma, grande mulher. Eu ainda me lembro da última vez que a vi com um de seus preciosos vestidos Chanel, a caminho de uma festa na embaixada da China...

- Inuyasha! – Miroku e Sango gretaram.

Kagome afastou-se da parede e olhou para todos entendendo cada vez menos e se preocupando cada vez mais.

- O que está acontecendo? Por que um de vocês não me diz logo isso que eu preciso saber? – ela tentou sorrir, mas só conseguiu esticar os lábios sem nenhuma animação.

- Eu falo! – gritou Inuyasha antes que algum dos outro resolvesse aceitar a idéia.

- Então você sabe que a querida tia Kaede deixou uma herança milionária e sabe que você se parece muito com a Kikyou, não é?

- E...

Os dois se encararam em silêncio. Inuyasha torcia para que Kagome entendesse sozinha o sentido daquilo e o poupasse de ter que dizer com todas as letras. Ele estudava cuidadosamente as mudanças no rosto dela, por um lado torcendo para que tudo acabasse logo e por outro esperando que as dicas que dera não revelassem coisa alguma.

- Você poderia ser um pouco mais claro?

Kagome deu de ombros e Miroku saltou do sofá com a paciência no limite. Inuyasha viu tudo acontecer em uma fração de segundo e esse pequeno momento o fez entender o que tinha que fazer para que todos esquecessem por hora de seu plano para com a herança e se concentrarem em outra coisa.

Mais que depressa, sem dar chance para que o irmão falasse o quer que fosse, ele passou a mão envolvendo a cintura de Kagome e sorriu o mais atrevidamente que pode.

- Eu sei que vocês estão muito ansiosos para que eu fale com a Kagome sobre o meu pequeno deslize, mas antes é melhor que saibam de uma coisinha...

Ele respirou fundo, tomando coragem. Ouviu a voz tensa de Kagome perguntar o que ele pensava que estava fazendo, mas a ignorou. Era para o bem dela, um dia a faria entender.

- Minha esposa e eu não temos segredos. Nós contamos tudo um ao outro, não é querida? Hum? Por que a surpresa? – ele bateu na própria testa como se tivesse acabado de lembrar-se de algo muito obvio. – Ah é, eu esqueci de contar a vocês. Eu e Kagome nos casamos ontem à noite. Não vão nos dar os parabéns?

Pelas expressões chocadas a sua frente, eles iam dizer tudo, menos parabéns. Os olhos de Kouga pareciam que iam saltar das órbitas a qualquer momento, enquanto Sango e Miroku apenas olhavam dele para Kagome com um ar de puro desconsolo, como se tivessem acabado de ouvir que o mundo realmente tinha acabado.

- Por que tanto atordoamento? Pensei que ficariam felizes por nós. – Inuyasha disse debochadamente.

Abriu a boca para continuar falando – quanto mais chocasse a todos, menos eles pensariam na herança e suas implicações –, mas foi calado com uma bofetada na face esquerda. Seu rosto foi lançado para o lado e ele levou a mão ao lugar machucado, gemendo diante da força com que o golpe tinha sido desferido.

- Você não tinha esse direito, Inuyasha! – gritou Kagome, ainda com a mão levantada. – Eu pedi para que me desse um tempo, eu não queria que ninguém soubesse assim!

- Então é verdade? – perguntou Sango.

Kagome a ignorou e continuou gritando:

- Se eu quisesse que você contasse não teria vindo para cá! Eu teria ido para a minha casa e falado com a minha família!

- Você quer parar de gritar e me ouvir? – Inuyasha gritou ainda mais alto. Ainda não podia acreditar que ela tinha batido nele.

Isso somado ao pânico de sua reação ter tido o efeito contrário ao que esperava o fez ficar ainda mais nervoso do que já estava.

- Você não tem nada a dizer que não já tenha dito! Não ficou satisfeito em falar do casamento agora quer o que, contar os detalhes?

- Vocês casaram mesmo? – Miroku perguntou, tentando se fazer ouvido no meio de toda a gritaria.

- Claro que casaram. – foi Kouga quem respondeu. – Não está vendo como eles brigam?

- Eu não vou falar nada sobre o que aconteceu no Shikon No Tama! E você pode me dizer por que me bateu? – alheio ao resto do mundo, Inuyasha continuava discutindo.

- Você ainda pergunta? – Kagome baixou a mão e bateu o pé no chão, descontando parte da raiva. – Eu acho melhor nem saber o que você ia me dizer antes, eu posso imaginar que espécie de atrocidade ia ser.

- Ah, não me venha com essa. Você disse ainda no caminho pra cá que confiava em mim.

- Eu devia estar com um começo de insolação!

- Agora sou eu quem morre se não tiver uma resposta mordaz na ponta da língua?

- Por que você não cala a boca antes que eu pare de fantasiar maneiras de te matar e partir para a ação?

Os dois se encararam furiosamente. Kouga se aproximou com cautela, com a intenção de separar os dois antes que Kagome resolvesse fazer o que acabara de dizer. Mas, antes que chegasse muito perto, uma irritante musiquinha eletrônica invadiu o ambiente desviando a atenção de todos para a bolsa de Sango que estava jogada no pé do sofá.

- Acho que é o meu telefone...

Ela pegou a bolsa e buscou pelo aparelho lá dentro com o cuidado de quem estava segurando uma bomba. Temia que se o clima se desfizesse e o fato se tornasse sem importância, os gritos começariam outra vez e aquela reunião não acabasse nada bem.

- Alô...?

Um minuto de silêncio e Sango olhou para Kagome com alarme.

- Sim, senhora Higurashi, eu direi a ela... Sim, ela está comigo desde ontem como eu avisei... Tudo bem, farei com que ela não demore...

- O que foi, Sango? – perguntou Kagome, esquecendo-se momentaneamente de Inuyasha.

Sango guardou novamente o telefone na bolsa e se levantou, um pouco aliviada por fazer isso.

- Era a sua mãe, Kagome. Vamos para o hospital, Shippo sofreu um acidente.

* * *

- Você está perdida?

A menina aproximou-se de Rin sorrateiramente, fazendo-a pular de susto quando falou.

- Não... Eu... Estou bem! Só confundi algumas ruas...

Confundir algumas ruas era a forma otimista de ver a situação na qual se encontrava. Desde que saíra da estação andava em círculos pelo centro sem fazer a menor idéia de onde estava.

Da outra vez o apartamento pareceu tão próximo... Ai, como foi que eu fui me perder...? Se fico aqui enrolando e não telefono, a Kagura vai contar aos meus pais...

- Na verdade... Você sabe onde fica a nona avenida?

Rin sentou-se na sarjeta largando a mochila que carregava a seu lado. Era muito bom ver-se livre daquele peso depois de arrastá-lo nas costas durante tanto tempo e a garota respirou aliviada. O vento de início de tarde soprou por entre seus cabelos deixando-a confortável. Estava descansando pela primeira vez desde que descera do trem bem mais cedo.

- Então você está perdida?

A menina não saiu do lugar. Repetiu a pergunta com uma voz tão neutra quanto a que usara para falar antes. Rin se virou para estudá-la mais atentamente e o que viu foi uma jovenzinha mais ou menos da sua idade, vestindo um uniforme de colégio. Os cabelos dela eram tão claros que a luz do sol refletiam-se neles tornando-os quase brancos, as mechas caindo displicentemente sobre um rosto sem expressão.

A irmã de Sesshoumaru ficou em silêncio, sem saber se saía dali ou esperava alguma informação por parte da estranha. Alguma coisa naquela garota a deixava com um pé atrás.

- Eu estou pedindo informação, justamente para não me perder. – respondeu Rin tentando parecer confiante.

A menina se aproximou ainda mais e apontou para frente.

- Está vendo a avenida?

- Sim... – Rin encolheu-se involuntariamente.

- Siga em frente e dobre a direita na primeira esquina. Siga novamente e três quarteirões depois, acabará saindo na nona avenida.

- Obrigada...

A estranha se afastou da mesma maneira automática com a qual se aproximara. Rin imaginou o que a teria levado a ajudá-la, mas não perdeu tempo pensando no assunto. Levantou-se, pegou a mochila e correu pelo caminho indicado.

Assim que se viu novamente sozinha, a menina na calçada se virou e olhou pesarosamente para a outra que se afastava. Ficou no mesmo lugar, na mesma posição, por um longo tempo até que um homem, com um uniforme azul de motorista, apareceu acenando para ela.

- Senhorita Kanna, seu tio não vai gostar se nos atrasarmos. – ele a chamou humildemente.

- Ainda são doze horas...

- Sim, mas o senhor Naraku tem uma reunião para o almoço e m deu ordens para levá-la antes disso.

- Tudo bem, já estou indo.

Ela deu uma última olhada para trás e o acompanhou lenta e inexpresivamente, como se não quisesse sair dali. Os dois seguiram direto pela calçada até desaparecerem na esquina de um prédio residencial.

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CONTINUA

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Oi, gente! Minha desculpa dessa vez? O de sempre: bloqueio, personagens temperamentais que não colaboram, etc... ^_^ Minhas desculpas pela demora.

Sobre o capítulo, ele saiu meio à força, eu esperava que tivesse ficado bem melhor, por isso não inclui as conseqüências da feliz notícia. Foi o último que enrolei nos dramas pessoais das personagens, deixando a herança - que devia ser a estrela do show ^_^;;; - de lado. Agradeço a paciência de vocês com isso.

A Kanna é a última personagem nova a aparecer. Ela ficou muito esquisita - eu achei quando estava relendo -, mas isso encaixa bem nos meus planos para o fic. Mais um pouco e ele acaba, assim que eu colocar tudo em seu devido lugar.

Muito obrigada a Tomoyo Tatsuhiko D, dani, Bruna, Kisamadesu, Chibi-lua, Hell's Angel-Heaven's Demon e Dai pelos comentários. Eles me deixaram muito feliz.

Eu peço muitas desculpas por não atender aos reviews individualmente desta vez, mas tenho pouco tempo aqui nesse momento a hora (3:32 am) não está ajudando. Prometo responder no próximo!!!

Por favor, por favor, continuem enviando comentários, eles dão muito ânimo para continuar. ^_^

Até o próximo!

spooky_rae@terra.com.br