Disclaimer: Inuyasha não me pertence. Esse fanfic tem o único objetivo de divertir.

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TUDO PELA HERANÇA

Por: Madam Spooky

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Capítulo 12 – Sem Lágrimas

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Vovô se aproximou, hesitante, da poltrona estampada de flores que ficava na sala, próxima à janela. Ela tinha sido um presente de seus netos um Natal antes de perderem o pai, mas, embora nunca tivesse tido coragem de admitir abertamente nem mesmo a filha, ele odiava aquela cadeira. Ela era dura onde suas costas se apoiavam e o estofado florido era tão ridículo que ele não conseguia deixar de rir ao lembrar que Kagome e Souta a tinham embrulhado em um lençol branco enquanto Shippo corria para avisá-lo que havia o presente mais lindo do mundo esperando-o na sala. De qualquer maneira – talvez muito por causa daquela lembrança –, ela continuava lá e ele precisava sentar-se em um lugar que lhe desse uma boa vista do jardim. Kagome telefonara um pouco antes avisando que a mãe a estava mandando de táxi para casa, juntamente com Souta e Sango, e ele queria ver com seus próprios olhos os três se aproximando por entre as roseiras, antes de fazer novamente a bobagem de abrir a porta.

O velho senhor fechou os olhos e levou o indicador à têmpora. Lembrou-se da época em que Higurashi Kenji ainda era vivo e do pensamento que tivera no dia em que ele morrera; pensamento este do qual se envergonhara todos os dias, durante os últimos dois anos, até exatamente aquela tarde. Lembrava-se de ter se aproximado da figura imóvel de seu genro e ter sentido um grande alívio pelo que achava ser o fim das visitas noturnas dos homens de terno.

Os homens do Shikon no Tama.

E, assim como tinha previsto que aconteceria, eles não apareceram durante algum tempo. Ele culpou-se cada dia pelo que sentiu, ao testemunhar o quanto sua família perdeu. Sua filha chorou por muito tempo, sua neta ainda mais, e quando finalmente ele achara que estavam conseguindo recolher os últimos cacos e seguir em frente, aquele homem apareceu, com seu terno escuro e olhar demente que o faziam parecer um chacal diante de um festim. Veio com uma pasta de documentos, dizendo que eles não seriam mais donos daquela propriedade a não ser que pagassem tudo o que deviam a seus patrões em um prazo máximo de trinta dias. Ao contrário do que parecia, a dívida de jogo de Higurashi tinha sobrevivido a ele e agora estava de volta para destruí-los.

O vento soprou mais forte da janela aberta e Vovô ergueu a cabeça para ela, os olhos muito abertos como se temesse o que ia ver. O jardim estava exatamente como antes, a exceção das folhas das árvores que eram balançadas com mais força. A poltrona estava começando a machucar suas costas, mas ele não se mexeu, tampouco desviou os olhos da direção do portão escondido pelos cedros. Ainda podia ver os olhos negros e o rosto pálido do homem que viera dar as notícias. E com a mesma clareza, sabia que poderia ver a culpa no de Higurashi, de pé no meio daquela mesma sala, pedindo desculpas como um menino travesso, se olhasse um pouco para o lado. Era sempre isso que ele fazia quando tinha que lidar com o seu maldito vício.

Um suspiro e um pequeno soco no braço da cadeira. O que fariam agora? A filha não ganhava muito, Kagome estava praticamente sem emprego e mesmo quando estava trabalhando, o dinheiro das duas mais sua aposentadoria era o suficiente apenas para eles todos viverem. O que o Shikon no Tama estava pedindo era o resgate de um rei. Só um milagre faria com que não tivessem que sair daquela casa e dar quase tudo o que ganhassem aos mafiosos pelo resto de suas vidas.

Naquele instante, algo se mexeu no jardim e Vovô se levantou para ver melhor. Logo a voz de Sango soou alta, gritando para que Kagome a esperasse. Sua jovem neta vinha quase correndo na direção de casa, arrastando um Souta mais adormecido que acordado pela mão, enquanto sua melhor amiga a perseguia com uma expressão de pura preocupação.

O velho senhor esqueceu de tudo quanto estivera pensando e correu para a porta o mais rápido que suas pernas permitiam. Chegou a tempo de abri-la e ver Kagome passar por ele como um raio, sem sequer ligar de cumprimentá-lo.

- Boa tarde, senhor Higurashi. – disse Sango olhando do avô de Kagome para as escadas por onde a mesma tinha se afastado, aparentemente em dúvida se continuava seguindo as normas da boa educação ou ia atrás da amiga.

- Boa noite, Sango. – respondeu Vovô. O sol já tinha se escondido àquela hora, mas nenhum dos dois se importou em discutir o cumprimento correto. Ele apontou para a escada com um aceno de cabeça e Sango correu dali, não sem antes agradecer com um sorriso.

Quando a jovem desapareceu de vista, Vovô notou Souta escorado no corrimão, com os olhos fechados, segurando um livro que estava com ele desde que saíra para a escola de manhã.

- Mamãe só volta amanhã e Kagome está estranha. – disse o menino sem abrir os olhos.

Vovô sorriu e começou a conduzi-lo pela escada acima.

- Não se preocupe com nada, Kagome só precisa de uma boa noite de sono, assim como você.

As palavras soaram falsas, mas Souta balançou a cabeça, satisfeito com elas. Do quarto de Kagome, podia-se ouvir a voz de Sango que falava qualquer coisa sobre o hospital. Ele esperava que não houvesse acontecido nada sério. Sua neta era jovem e muito sensível, talvez tivesse sido alguma bobagem com aquele novo namorado dela, cujo nome ele não sabia, mas recordava de Shippo se referir a ele como 'cara de cachorro'.

Sim, devia ser isso. Se fosse algo mais sério, em meio a tantos problemas... ele nem queria pensar.

- Vovô, me conta uma história? – pediu Souta, passando a mão pelos olhos.

- Qual você quer ouvir? – perguntou o avô, feliz por ter algo mais agradável em que se concentrar.

- Que tal aquela dos samurais?

- Tudo bem, será a que você preferir.

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Tudo que Kouga mais desejava naquele momento era uma taça de vinho, um banho e uma cama. Ele podia sentir a noite mal dormida e toda a correria daquele dia pesando sobre suas costas enquanto subia lentamente as escadas de seu prédio para o quinto andar. Malditos elevadores que nunca funcionavam. Enquanto avançava ia fantasiando sobre a maravilhosa noite de sono que teria em sua espaçosa cama de casal, isso depois de pelo menos uma hora relaxando na banheira e uma boa refeição congelada.

Aquelas tinham sido vinte e quatro horas realmente cansativas, mas ele esperava ter colocado um pouco de bom senso na cabeça oca de Inuyasha. Não teria se importado com o aparente envolvimento dele com Kagome se aquilo não o estivesse afetando tanto. Podia ver as expressões de culpa no rosto dele enquanto discutiam no hospital, apesar de sua voz continuar tão firme quanto sempre fora. Não podia culpá-lo, a sósia de Kikyou era realmente bonita. Havia algo de encantador sobre ela que faltava a própria Kikyou. Talvez tivesse algo a ver com aquele sorriso.

Quando finalmente chegou à porta do apartamento, o advogado olhou para cima e respirou fundo, a fim de recuperar o fôlego. Droga de subida para completar seu dia. Ele estava começando a achar que uma ducha fria seria bem mais aconselhável naquele momento, do contrário acabaria apagando antes mesmo de chegar na cama. Vasculhou os bolsos da calça com pressa até encontrar a chave, a colocou na fechadura e girou abrindo a porta silenciosamente. Mal entrou e acendeu a luz, um grito o recepcionou fazendo-o saltar de susto e derrubar as chaves no chão.

- Surpresa!

Por um instante, Kouga e Rin apenas se encararam em silêncio, cada um chocado em ver alguém que absolutamente esperavam. Passado o primeiro momento, ambos deram um passo para trás e ficaram encarando um ao outro ameaçadoramente.

- Quem é você? O que está fazendo aqui? - perguntou Rin rapidamente, olhando para um abajur como se estivesse calculando o tempo que levaria para agarrá-lo e lançá-lo contra o rapaz.

- Eu quem pergunto! - respondeu Kouga tirando o casaco e pendurando-o no cabide sem, no entanto, romper o contato visual com a menina. - Eu moro aqui. Você pode começar a explicar como entrou no meu apartamento sem permissão.

- Mora aqui? - Rin olhou para as paredes da sala, confusa. - Eu não sabia que o Sesshy dividia o apartamento com alguém.

- Sesshy? Posso saber do que você está falando? Quem diabos é...

Sesshy! Kouga lembrou-se do apelido com um estalo. Cinco anos antes, eles estavam na Universidade, a mãe de seu melhor amigo, Sesshoumaru, tinha falecido após lutar contra um câncer durante anos. Os dois estavam juntos em um bar depois do enterro e após muito ter bebido, o amigo disse que ela costumava chamá-lo assim quando criança, "Sesshy". Meses depois durante uma brincadeira ele chamara o amigo por aquele apelido e foi a única vez que vira Sesshoumaru perder a compostura e parecer realmente furioso. Desde então, tratou de esquecer tudo o que ele pudesse ter-lhe dito quando não estava completamente sóbrio.

- Sesshoumaru?

- Então esse é o apartamento dele. - concluiu e menina.

- É... Digo, não! Costumava ser... - Kouga passou a mão pelos olhos para clarear os pensamentos. Os cabelos mais compridos do que ele costumava usar estavam caídos, soltos sobre seus olhos, irritando-o. Devia estar com uma péssima aparência, não à toa àquela menina pensara em atacá-lo com um abajur.

- É ou não é?

- Sesshoumaru me deixou morar aqui quando partiu para a Inglaterra há dois anos. Você vai me dizer quem é ou vou ter que adivinhar?

A menina franziu a testa meio incrédula. Sesshoumaru se mudara em nem ao menos falara disso com ela? E se aquele estranho estivesse mentindo? E se ele fosse alguma espécie de marginal? Mas, nesse caso, por que tinha as chaves do apartamento?

- Você não me disse quem VOCÊ é.

- Eu perguntei primeiro.

- E eu perguntei depois, mas com mais razão. Eu sou a garota indefesa aqui.

- Que entrou sem permissão no meu apartamento - ele lançou uma olhada para os restos de batatas fritas sobre o centro e a TV desligada apenas no controle remoto - e pelo visto foi logo ficando à vontade.

Rin ponderou por um momento. Se ele estivesse falando a verdade, o melhor seria tornar-se cooperativa, caso contrário, o estranho não lhe diria onde estava Sesshoumaru. Ela saíra de casa para encontrá-lo e o encontraria de qualquer maneira.

- Rin Matsumoto. Eu sou...

- A irmãzinha do Sesshoumaru! - Kouga sorriu.

- Irmãzinha!? - repetiu Rin com uma ponta de indignação. - Foi isso que ele disse, irmãzinha?

- Bom, você não é filha da segunda esposa do pai do Sesshoumaru?

Aquela informação a impressionou. Então o rapaz a sua frente estava falando a verdade.

- Você é...?

- Meu nome é Kouga, estudei com seu irmão...

- Não é meu irmão!

- ...na faculdade de Tokyo durante algum tempo. Ele entrou bem antes de mim, mas nós fomos bons amigos naquela época.

- Sabe onde ele está?

- Seu irmão?

- Já disse que não é meu irmão! Mas sim, Sesshoumaru.

- Da última vez que tive notícias dele, continuava na Inglaterra...

Rin esqueceu completamente seus receios sobre Kouga e se largou na cadeira na qual estivera toda à tarde vendo televisão.

- Ele escreveu ao meu pai dizendo que estava voltando. A última vez que esteve em Tenseiga foi há quatro anos. - Eu o vi há dois aqui mesmo nessa cidade, mas isso faz tanto tempo... Desculpe, não devia estar na sua casa, já vou indo embora.

Ela se levantou e caminhou até o canto da parede onde largara a mochila assim que chegou. Kouga a observou em silêncio colocá-la nas costas e caminhar para a porta, mas quando estava prestes a sair, a deteve segurando-a delicadamente pelo ombro.

- Você vai ficar com alguma amiga?

Rin balançou a cabeça.

- Parente?

- Não conheço ninguém nessa cidade além do Sesshy.

- Como você veio?

- Sozinha.

- Seus pais?

- Em Kyoto.

- Tem como localizá-los?

- Não.

- Alguém tinha que estar tomando conta de você enquanto eles estão fora.

A imagem de Kagura com seus ridículos enfeites de cabelo e aquele creme nojento no rosto veio à mente da menina, mas ela tratou de afastá-la. Preferia ir para o juizado de menores que ligar para a babá.

- Eu menti para os meus pais. Disse que ficaria com uma amiga e vim procurar pelo Sesshoumaru.

- E eles engoliram?

- Sim...

- Pais modernos... - Kouga resmungou.

Ele olhou para a bagunça que Rin deixara na sala e depois novamente para ela. Não podia deixá-la na rua sem fazer a menor idéia de onde estava Sesshoumaru. Mas que dia, era mesmo o que faltava...

- Eu acho que tenho o telefone de Sesshoumaru em algum lugar. Se você esperar que eu tome um banho e me sinta um pouco mais... limpo, posso procurar para você.

Os olhos de Rin se alargaram, brilhantes.

- Faria isso?

Kouga pensou em Sesshoumaru novamente. Ele tinha sido um bom amigo, talvez o único naquele período de sua vida. Era o mínimo que podia fazer em agradecimento.

- Claro. Fique quietinha ai, eu volto logo.

Rin obedeceu, sorridente. Podia ter errado de apartamento, mas, pelo visto, não tinha sido total desperdício de tempo.

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Kagome olhou para o chão da sala a procura de poeira. A superfície de azulejos amarelos parecia impecável, mas assim mesmo ela abaixou-se novamente e começou a esfregar a esponja ensaboada com força, como se combatesse uma mancha invisível.

Do outro lado do cômodo, de pé perto da porta, Sango suspirou pelo que devia ser a milésima vez e encarou sua amiga com a face cheia de preocupação... e medo.

Ela tinha tentado descobrir o que houvera, ninguém poderia dizer que não. Durante todo o trajeto do hospital para casa ela perguntara, gritara, insistira em saber o que poderia ter transformado a Kagome tranqüila que entrara no hospital na frente dela naquela irreconhecível garota mal-humorada e hiperativa. Se já não fosse estranho ela andar em círculos pelo quarto, pisando duro, com o rosto lívido e inexpressível, sem querer dizer nada mais que uma ou duas respostas monossilábicas arrancadas à força, agora tinha decidido que a casa estava uma bagunça e que precisava arrumar tudo antes que o avô descesse para o jantar.

O velho senhor parecera preocupado quando as vira entrar, mas também dera a entender que compreendia que era um assunto no qual não devia se meter. Ela esperava que ele não precisasse mesmo. Se a família de Kagome descobrisse sobre toda aquela confusão...

- Então, Sango, acha que estou fazendo um bom trabalho? - Kagome sorriu para ela sem diminuir os esforços para com o chão. - Shippo chega amanhã e eu quero que tudo esteja perfeito.

- Kagome, você tem certeza de que está bem?

Ela fez menção de se aproximar, mas acabou parando um passo depois, relutante em pisar no chão molhado. Mentalmente, começou a enumerar tudo que acontecera aquele dia, a procura de qualquer coisa que pudesse ter feito Kagome agir tão estranhamente. Será que estava se sentindo culpada pelo acidente de Shippo? Ou terá sido conseqüência de alguma coisa que conversara com Inuyasha quando estavam sozinhos no carro? Droga! Ficar fazendo suposições não ajudaria em nada.

- Eu estou ótima, por que não estaria?

- É exatamente isso que eu gostaria de saber. Quer falar sobre o assunto?

Kagome parou os movimentos contínuos com a esponja e encarou o chão por um minuto. Em seguida olhou novamente para Sango e esta se sentiu confusa ao ver que a outra parecia alegre.

- Algo errado com eu estar tentando deixar essa casa mais apresentável para o meu irmão doente?

- Tem certeza que está fazendo por Shippo? Ele é só um menino, não vai se importar se a casa está ou não imaculada... Tenho certeza de que nem mesmo vai perceber...!

- Não importa! Isso precisa ser limpo e eu não tenho nada melhor para fazer. - Kagome apertou os lábios e olhou para as próprias roupas um pouco sujas de sabão. - E eu preciso de um banho antes do jantar.

Ela largou a esponja de qualquer maneira no chão, mas quando chegou à porta, arrependeu-se e voltou para pegá-la. Sango não disse nada, nem mesmo se moveu até ouvir seus passos subindo as escadas para o quarto com pressa. Pensou se deveria segui-la e continuar insistindo no mesmo assunto de antes, mas nesse mesmo instante o telefone tocou. A garota olhou para as portas da frente e a que levava aos fundos esperando que alguém da casa aparecesse, mas sua amiga parecia muito preocupada com micróbios para se lembrar do telefone e o avô dela continuava no andar de cima desde que levara Souta para a cama. Ela então pegou o aparelho e atendeu:

- Casa dos Higurashi, Sango falando.

- Eu não sabia que Kagome tinha resolvido contratar uma secretária. - a voz inconfundível de Inuyasha soou divertida no outro lado da linha.

- Estou fazendo um favor já que não tem ninguém por perto - disse Sango, ríspida. - O que você quer, convidar Kagome para roubar um banco?

- Você não gosta mesmo de mim, não é Sango? Mas isso não é da minha conta, tem o direito de gostar de quem bem quiser. Pode me chamar Kagome, por favor?

- Você disse "por favor"? Acho que vai chover...

- Não banque a engraçadinha. Acho que está passando tempo demais com o idiota do meu irmão. Vai chamar Kagome ou eu vou ter que ir até ai?

Sango revirou os olhos. Miroku podia ser um idiota, mas nesse caso, o defeito era de família.

- Ela está no banho - respondeu Sango, e franziu a testa antes de completar: - Está limpando a casa como louca desde que chegamos. Você não fez nada para transtorná-la não é?

- Não - Inuyasha soou entediado. – E nunca ouvi falar que limpeza fizesse mal a alguém. Esqueça o telefone, eu passo por ai mais tarde.

Ele desligou sem esperar resposta e Sango mostrou a língua antes de colocar o telefone no gancho.

- Babaca!

Pensara em ir para casa assim que falasse com Kagome, mas depois daquilo achava melhor não deixá-la sozinha. Não podia permitir que Inuyasha tentasse enganá-la com alguma outra farsa de primo maluco ou, na melhor das hipóteses, se ele resolvesse dizer toda a verdade, era melhor estar ali no caso dela precisar de uma amiga.

- Sango, ainda está ai? - era Kagome que aparecia nas escadas com os cabelos molhados, segurando uma toalha.

- Inuyasha telefonou. Ele disse que vai passar aqui mais tarde.

O rosto de Kagome se contorceu e ela deu um passo para trás balançando a cabeça negativamente. Antes que Sango pudesse perguntar, correu para o quarto e, instantes depois, o barulho da porta batendo ecoou por toda a casa. Um minuto de confusão e Sango voou pelas escadas, subitamente compreendendo muita coisa. Ela colocava a mão na maçaneta quando ouviu o barulho de vidro quebrando. Amedrontada, empurrou a porta quase com violência provocando um segundo estrondo. Só esperava que Vovô não se alarmasse e fosse até lá agora. Com um pouco de sorte, ele teria adormecido no quarto de Souta como acontecia de vez em quando.

- Kago...

Não pode completar a frase. As palavras entalaram na garganta com a cena dentro do quarto. Kagome estava sentada no chão, perto da penteadeira, os cabelos negros e molhados estavam caídos pelo rosto branco dando-lhe um aspecto quase sobrenatural. A toalha que ela segurava estava amparando a mão de onde escorria um filete de sangue. Sango tomou fôlego para perguntar o que tinha acontecido, mas não era necessário, o espelho quebrado e os cacos espalhados pelo chão diziam tudo.

- Você sabia, Sango? – a voz de Kagome era quase um sussurro. – Miroku te disse alguma coisa? Todo mundo sabia menos eu?

Sango não arriscou dizer nada. Em parte porque queria que ela continuasse falando, mas principalmente porque achava que se Kagome soubesse de tudo, que descobrira e não contara quando tivera a chance, se viraria contra ela sem sequer deixá-la explicar.

- Eu confiei nele, Sango. Eu deixei que ele me dissesse coisas, deixei que ele me enganasse o quanto quisesse. Diga a verdade, Sango... a culpa e toda minha, não é?

- Ka-Kagome...

Então era mesmo verdade, ela tinha descoberto tudo. Aquele parecia um momento difícil demais para que perguntas, mas Sango não pode deixar de se questionar sobre o quanto de tudo aquilo Kagome sabia. E como ficara sabendo. Ela, pelo pouco que o conhecia, tinha certeza que Miroku não seria capaz de falar a verdade de uma maneira tão dura. Quanto a Inuyasha e Kouga, eles eram os mais interessados. Quem poderia...

- Ele nunca ia me contar, Sango. Se eu não os tivesse ouvido... – Kagome apertou a mão ferida e lágrimas cascatearam de seus olhos. Ela afastou os cabelos do rosto e ergueu-se até sentar-se na cama. Sango quase esperou que fosse jogar-se para trás e chorar por toda a frustração que estava sentindo, mas tudo o que ela fez foi abaixar a cabeça e suspirar repetidamente.

- Não foi culpa sua, Kagome. – disse Sango, em um tom de voz maternal. – Inuyasha não é a pessoa que você pensou que fosse, isso é tudo... – ela cruzou os braços e ficou parada, fitando a outra garota que mais parecia um fantasma, sem fazer idéia de quais poderiam ser as palavras certas. – Eu vou buscar algo para cuidarmos dessa mão, tudo bem?

Kagome balançou a cabeça e Sango correu para a porta, ansiosa por ela mesma ficar um minuto que fosse sozinha, longe daquela personificação de dor e culpa que ela mesma ajudara a criar. Quando estava quase saindo, ouviu a voz da jovem soando ainda daquele modo sussurrado.

- Ele virá mais tarde?

- Eu posso telefonar e pedir que não venha. – disse Sango, sem se virar.

- De maneira alguma. – respondeu Kagome. – Está na hora de terminar com isso de uma vez por todas.

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Inuyasha desligou o telefone e um meio sorriso se desenhou lentamente em seu rosto. Caminhou até a janela e olhou para o presídio em frente, cujas luzes lançavam espectros pelo apartamento completamente às escuras. A rua lá embaixo estava quase deserta, com exceção de um grupo de mulheres de má reputação que sussurravam e riam de alguma coisa na esquina. Uma delas o viu na janela e fez um gesto obsceno, mas o rapaz a ignorou. O que estava pensando era importante demais para que sua atenção fosse desviada por qualquer bobagem. Ele estava analisando minuciosamente a vizinhança, o lugar onde passara os últimos seis anos de sua vida e que desde aquele primeiro dia odiara com todas as suas forças.

Lá estava o bar onde todos os alcoólatras do bairro se reuniam no final da tarde. De vez em quando dava uma passava para tomar uns drinques, quando a realidade de sua vida se tornava dura demais para ser ignorada. Nunca passava do segundo copo. Observar os homens a sua volta, se matando pouco a pouco enquanto cantavam e riam, sem realmente saber o que estavam fazendo, fazia com que não fosse adiante. Não tinha o direito de tornar sua vida mais desgraçada do que já sentia que ela era. Se ao menos pudesse sair dali...

Em dias como aquele, quando Miroku ia para o trabalho e ele ficava sozinho, a televisão perdia seu encanto e começava a pensar sobre o passado. Lembrava com ternura a época que seu pai estava vivo e com desprezo o alívio que vira nos olhos da mãe quando ele morrera pouco depois que ingressara na Universidade. Ele nunca a perdoara por isso. Menos ainda por ela ter decidido que não valia a pena manter luto por algo que não lhe trazia pesar e fazer o que na época chamara de "seguir com sua vida". Talvez, ele pensou, naquele mesmo instante, enquanto ele olhava para os muros da prisão, ela estivesse em algum lugar tropical, observando uma praia ou vista igualmente encantadora nos braços de seu maldito amante.

Os olhos de Inuyasha desviaram-se do bar onde apenas uma luz fraca dava a entender que estava funcionando. A rua como um todo era uma vista deprimente, mas, pela primeira vez desde que se lembrava, não desejou estar em outro lugar.

Ele tinha o que sempre desejara, a chance de sair dali e escrever seu destino da maneira que quisesse, mas quando tentava olhar para frente, não era o navio de luxo levando-o para terras distantes com o qual sempre sonhara que via, mas o sorriso radiante, com um quê de ingenuidade, de Kagome. E agora tinha que responder a pergunta que o estava atormentando desde que pisara fora do hospital aquela tarde...

Valia a pena desistir de todos os seus antigos sonhos por ela?

O plano não era perfeito, mas era sua melhor chance. Não só ele como Kouga estava contando com isso. Não sentia remorso ao pensar em Kaede que nunca vira sua família com bons olhos, menos ainda ao pensar em Kikyou, que se tornara da menina tímida que ele conhecera em criança em uma mulher fútil e egoísta. Mas para que a equação desse certo, Kagome teria que estar nela e não só ela como tudo o mais que estava em jogo: os sentimentos, dela, a amizade que eles desenvolveram naqueles dias... os sentimentos dele por ela.

O relógio de parede marcou sete horas com seu tic tac continuo e irritante, mas ele sabia que era mais tarde. A droga das pilhas estavam praticamente imprestáveis, mas eles não tinham tempo nem dinheiro para preocupar-se com aquele tipo de detalhe insignificante. Inuyasha deu uma última olhada na rua; o grupo de mulheres tinha desaparecido e o bar agora começava a ganhar mais movimento com o que parecia uma briga de bêbados. Fechando a janela sem pressa, o rapaz deixou tudo em ordem e pegou o casaco, sabendo que precisava sair já, se não quisesse chegar muito tarde à casa de Kagome, o que poderia não agradar o avô dela.

Só esperava estar fazendo a coisa certa... Seria simples: falaria com ela sobre alguma bobagem qualquer, talvez sobre como resolveriam o problema do casamento. Tudo o que queria era passar tempo suficiente ao lado dela para saber o que realmente andava sentindo e se ainda queria continuar os planos com Kouga antes que tivesse que dar uma resposta definitiva pela manhã. Apenas alguns minutos seriam o bastante. Se seu coração respondesse da forma como ele pensava que responderia quando olhasse no fundo dos olhos dela, seria o bastante para mandar toda aquela vigarice para o inferno e se permitir ser mais uma vez apenas ele, Inuyasha, vivendo naquela vizinhança miserável, sem dinheiro, sem nada a oferecer, mas tendo a seu lado a primeira pessoa que o aceitara como ele verdadeiramente era. A herança não importaria mais, em sua vida haveria espaço apenas para amar Kagome.

Antes de sair, Inuyasha deu uma última olhada no apartamento. Talvez quando voltasse, tivesse um sonho novo para perseguir.

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Sango andava de um lado para o outro na dependência da sala sentindo seu coração prestes a explodir de apreensão. De vez em quando olhava para a porta e encolhia-se como se esperasse que a campainha fosse ecoar com um enorme barulho de sinos, anunciando mudanças ruins. Não ousava sair dali, tinha que atender a porta quando Inuyasha aparecesse antes que a campainha acordasse o avô de Kagome que, por sua vez, permanecia na sala, vendo qualquer coisa na televisão enquanto esperava a hora da conversa que, segundo ela, encerraria toda aquela história de uma vez por todas.

Já passavam das sete horas e a única coisa que a garota ousava fazer era torcer para que não demorasse muito mais. De vez em quando ia até a janela para ver se havia algum movimento no jardim, mas nunca ficava observando por mais de alguns segundos, jamais fora boa em ficar quieta em momentos tensos como aquele.

Se ao menos não tivesse falado a Kagome sobre os sobrinhos de Kaede naquela conversa telefônica no primeiro dia... não havia um Inuyasha e um Miroku em suas vidas e tudo estaria bem, Sango pensou. Não que se arrependesse por ter encontrado Miroku. Até mesmo podia dizer que, apesar de tudo, gostava dele. Mas, diante da culpa que sentia naquele momento, se pudesse voltar no tempo e desviar os caminhos dela e de Kagome dos daqueles dois homens, sacrificaria aquela amizade sem pensar duas vezes.

O barulho de alguma coisa pesada caindo no chão interrompeu os pensamentos de Sango. Kagome praguejou alto na outra sala, aparentemente tinha quebrado alguma coisa. Correu para o outro cômodo, para ver se podia ajudar com algo e foi então que a campainha tocou. Não eram sinos estrondosos, mas o som geralmente suave soou terrível em sua imaginação. O que Kagome estaria pensando em fazer?

Virou-se para voltar a seu posto, mas Kagome adiantou-se e apressou-se na direção da porta. Sango a seguiu, mil perguntas a perturbando, mas não teve tempo de dizer nada, sua amiga destrancou a porta e, antes de abrir, pediu:

- Não quero que esteja presente quando eu estiver falando com ele, Sango. É um assunto entre Inuyasha e eu.

- Kagome...

- Por favor.

Por um instante ela ficou parada, sem fazer movimento algum. Não parecia certo deixar Kagome resolver aquilo sozinha nas condições em que estava. Ainda tentou protestar, mas a outra permaneceu impassível. A campainha soou outra vez, Kagome apertou ainda mais a maçaneta e lançou um olhar que não admitia recusa. A Sango não restou alternativa senão subir as escadas e conservar-se no último degrau, a postos caso algo de ruim acontecesse. No íntimo admirou sua amiga pela coragem que estava demonstrando pela primeira vez em tanto tempo... Ela sempre se escondera e fugira dos problemas, mas agora... Talvez aquela decepção tornasse Kagome mais forte quando tudo acabasse. Ou pelo menos ela esperava que sim.

Som de dobradiças rangendo. A porta foi aberta.

Silêncio.

Kagome olhou na direção das escadas, mas Sango estava fora de seu campo de visão. Convenceu-se de que ela certamente tinha decidido esperar no quarto e voltou sua atenção para o rapaz parado na porta, encarando o curativo na mão dela com uma expressão interrogativa.

- Desculpe ter vindo a essa hora – disse ele –, mas precisava falar com você. – sorriu e ficou sério em seguida, aparentando estar confuso e sem jeito. Passou a mão pelo cabelo, deu uma olhada dentro da casa e depois apontou para mão de Kagome e perguntou: - Você se machucou?

- Foi um acidente.

Ela respondeu e fez um gesto, convidando-o a entrar. Inuyasha estava estranho, sério, muito diferente da pessoa relaxada de sorriso debochado com a qual ela se acostumara. Levou um minuto se questionando sobre o porquê dele ter vindo até ali, mas logo deixou o pensamento de lado, isso não importava nem um pouco. A única coisa em que ela tinha que pensar era em acabar com a parte que cabia a ele em sua vida para então começar a tentar esquecer. Seria complicado no início com aquele casamento impensado, mas isso não era algo irremediável. Ela pediria o divórcio e depois não haveria mais nada que os ligasse. Poderia continuar sua vida de onde parara menos de uma semana atrás.

- Venha, precisamos ter uma conversa. – disse ela enquanto fechava a porta e o conduzia para a sala.

- Eu também tenho algo a dizer. – ele anunciou.

Por um pequeno instante Kagome olhou para ele, perguntando-se se decidira contar toda a verdade e um lampejo de esperança acendeu-se dentro dela. Mas então se demorou observando aquele rosto jovem que pensara conhecer, apesar do pouco tempo que tiveram juntos, e não foi Inuyasha, – o amigo, o homem em quem confiara o bastante para entrar no Shikon no Tama sem mais perguntas, com quem passara alguns dos momentos que nunca poderia esquecer – , que ela viu, mas um completo estranho. A esperança desapareceu. Havia apenas a certeza do que tinha que fazer.

- Kagome, eu precisava ver você hoje para entender certas coisas... – começou Inuyasha. – Eu ando confuso, sabe? Eu tinha total controle sobre a minha vida e o que estava fazendo até poucos dias atrás, mas depois que começamos a nos conhecer melhor... – ele respirou fundo. – Eu nunca conheci ninguém como você. Talvez não entenda o que estou tentando dizer...

- Eu entendo.

Kagome interrompeu. Se lembrou do choque da descoberta àquela tarde, do momento de descontrole no quarto, do olhar de Sango enquanto se desculpava... O corte na mão doía um pouco mesmo agora e isso foi como um lembrete, algo para mantê-la firme e incrédula diante das palavras dele. Ele diria o que achasse preciso para mantê-la acreditando nele, disposta a fazer o que ele pedisse. Nenhuma daquelas palavras era sincera e por mais difícil que fosse manter-se certa disso com os aqueles olhos ansiosos fixos em seu rosto, precisava manter-se firme se não quisesse ficar no papel da garotinha boba e enganada para sempre.

- Você entende? – Inuyasha perguntou. Estava nervoso, com uma sensação ruim de que alguma coisa em Kagome estava diferente e que não era nada bom. Ela não o olhava nos olhos como sempre fazia e tinha uma expressão de quem estava lutando com os próprios sentimentos.

Pensou em Kouga e no plano e no que o advogado faria com ele se resolvesse cair fora de uma vez por todas. Tinha parado para pensar muitas vezes naquilo e sempre se imaginava levando uma surra de um bando de capangas contratados ou sendo processado por qualquer coisa que não fizera. Kouga tinha poder para isso. A perspectiva era assustadora, sempre o fizera temer, mas não agora. Vendo Kagome ali sentada, pequena, parecendo tão indefesa diante dele, pela primeira vez ousava imaginar que talvez, fosse qual fosse o castigo imposto pela sua deserção, valeria à pena.

- Inuyasha, eu andei pensando... – disse Kagome. Tinha esperado que ele continuasse, mas o rapaz se limitara a ficar parado e pensativo, olhando para ela como se nunca a tivesse visto antes. – Sobre nós, sobre o casamento não-planejado...

- Sim?

- Eu quero que você peça aquele seu amigo... Kouga – foi quase um esforço para ela pronunciar o nome – que dê um jeito para desfazer aquele casamento. Eu não estou bem certa do quanto àqueles papéis estão valendo, digo, aconteceu em um cassino... Mas se estiverem mesmo valendo...

- O que?

Inuyasha balançou a cabeça e abriu mais os olhos como se não pudesse vê-la direito. Kagome não precisou que ele protestasse para saber que não era aquilo que estava esperando ouvir.

- Se estiverem mesmo valendo, quero o divórcio.

- Kagome...

Quando foi que ela começara a se preocupar com aquilo? Com o acidente de Shippo e tudo o que acontecera, eles tinham decidido deixar passar algum tempo antes de conversarem sobre o assunto e agora ela dizia que queria o divórcio, assim, sem mais nem menos? O simples fato dela está pedindo aquilo parecia quase impossível. Uma hora antes ele estava em casa, quase não lembrando o fato de que estava casado, pensando em tudo de ruim que já lhe acontecera e em Kagome como a sua tábua de salvação. Não pode evitar olhar em volta como um sonâmbulo acordando de repente no meio da sala. Sentia-se ferido por aquela palavra, divórcio. Por que ela não podia debochar dele ou falar algo irritante como sempre fazia?

- Por que está falando nisso, Kagome? Nós não tínhamos combinado que deixaríamos as coisas se acalmarem antes...

- Antes de conversarmos sobre nossa situação? – ela o interrompeu. – Sim, foi o que dissemos, mas eu pensei bem. Não me sinto bem em estar ligada a você por algo tão importante quanto casamento, Inuyasha. Eu tinha uma vida antes de conhecê-lo.

- Uma vida que você não suportava...

- Podia não ser uma vida perfeita, mas eu estava segura. Eu estava até mesmo feliz.

- Feliz? – Inuyasha ajoelhou-se de frente para ela e segurou-lhe o rosto com a mão. Prendeu a respiração ao perceber que a expressão dela era dura e não havia uma sombra sequer de hesitação em seus olhos. – Você está dizendo que era melhor nunca ter me conhecido? – seu rosto se tornou sério. – Por que isso agora? O que Sango disse a você? Porque não acredito que tenha mudado de opinião no pouco tempo que nos separamos depois do hospital.

- Pois acho melhor acreditar. – Kagome sentiu a mão ferida doer ainda mais quando cerrou o punho e apertou as pontas dos dedos contra a palma na tentativa de permanecer calma. Não queria começar a gritar ou agir como uma descontrolada. Sua intenção era terminar tudo de maneira tranqüila, sem que ninguém de sua família precisasse saber de nada. – Depois que nós conversamos no carro eu achei que poderíamos manter as coisas como estão e sermos amigos. Shippo estava no hospital, tínhamos acabado de fazer uma bobagem e eu não queria que minha mãe e Vovô descobrissem...

- Então foi só nisso que você pensou?

Inuyasha perguntou, decepcionado, mas Kagome continuou falando como se não tivesse ouvido nada.

- Mas eu pensei melhor e acho que não é justo. Você tem direito de seguir com a sua vida e eu sinto falta da minha. – fez uma pausa e respeitou fundo antes de acrescentar: - E na minha antiga vida não há lugar para você, Inuyasha.

O rapaz se contorceu na cadeira como se tivesse levado um soco no estômago. Sentia-se doente depois do que acabara de ouvir. Era isso que ela pensava? Ele tinha tanta certeza sobre os sentimentos que Kagome nutria por ele... Tanta certeza de que depois daquela noite teria as respostas para as suas dúvidas, mas agora...

- Vá embora. –Kagome pediu. – Isso era tudo e eu acho melhor nós não nos vermos mais a partir de agora. Tomei a minha decisão e eu espero...

- Espera o que? – Inuyasha gritou, fazendo com que a garota se sobressaltasse. Ele tinha mudado a face chocada para uma de total incredulidade. Parecia a ponto de explodir, olhando para ela como se fazendo força para ver algo que superficialmente não estava lá. – Você espera que depois do que aconteceu no Shikon no Tama, depois das conversas que tivemos, eu acredite que você quer que eu simplesmente saia por aquela porta e esqueça que a conheci? – se levantou, com as mãos na cabeça, e andou para trás do sofá antes de olhar novamente para ela – Você está dizendo que tudo o que aconteceu não significou coisa alguma?

Kagome virou o rosto e se recusou a responder. Não fazia diferença o que tinha acontecido entre eles, todos os pensamentos dela estavam voltados para a traição dele, as mentiras, a confiança perdida...

- Você quer que eu acredite que não sente nada sobre tudo isso, Kagome? Que você simplesmente teve uma epifania e decidiu que eu não tenho utilidade em sua vida? Você se cansou de mim tão rápido...?

Ele estava mentindo, cada palavra era apenas uma grande invenção para mantê-la presa às vontades dele, uma peça no meio daquele jogo que ele tinha criado... Kagome teve que repetir isso mentalmente todo o tempo para não responder. Inuyasha parecia estar realmente sofrendo, mas ele não passava de um bom ator, ela não precisava sentir-se mal por nada que dissesse, pelo contrário, tinha que esperar que ao menos o orgulho dele saísse ferido, era o mínimo que ele merecia.

- Não vai dizer nada? – Inuyasha encarou Kagome por longos minutos, esperando que ela lhe desse uma resposta, mas nem por um instante aquela expressão dura se desfez. A idéia de ela ter descoberto sobre o plano dele e de Kouga lhe passou pela cabeça, mas não ousou trazer o assunto à tona, temendo piorar as coisas. Surpreendeu-se descobrindo que, no fundo, esperara que acontecesse o que acontecesse, ela o perdoasse e colocasse seus sentimentos – românticos ou não – para com ele acima de qualquer outra coisa e nunca se sentiu mais perdido agora que via suas esperanças destruindo-se uma a uma.

Mesmo que ela soubesse, o que importava se conseguia pedir-lhe para ir embora para sempre de uma maneira tão fria?

Seu primeiro impulso foi atender Kagome sair dali como ela desejava. Chegou mesmo a dar um passo na direção da porta, mas, subitamente, a lembrança dos pensamentos que tivera antes de sair àquela noite assaltaram-no com força total. Poderia seguir em frente e desaparecer naquele momento, mas, uma vez que se encontrasse lá fora, teria desistido de tudo. A garota sentada no sofá tinha sido uma espécie de farol na escuridão em que se encontrava e se tinha vindo até ali naquele dia, era porque não se sentia disposto a perder isso por nada no mundo. Ele entendia agora.

Sem nada mais a perder, deu meia volta a ajoelhou-se de frente para Kagome, trazendo o rosto dela delicadamente com as mãos até que o olhasse nos olhos.

- Você quer que eu vá embora?

- Sim. – ela respondeu sem mudar de expressão.

- Você não sente absolutamente nada por mim?

- Nada.

Mas ele precisava saber.

Sem dar tempo a Kagome de perceber o que faria, pressionou os lábios contra os dela e segurou-lhe os braços para que não se afastasse. Esperou-a que ela se debatesse, saísse dali e gritasse com ele, mas o que ela fez deixou-o ainda mais desconcertado. Retesou-se por um instante, mas depois relaxou, permanecendo parada, os olhos tão frios quanto antes, esperando pacientemente que ele tomasse a iniciativa de se afastar.

Inuyasha ainda respirou o aroma dos cabelos dela, sentindo a suavidade dos lábios imóveis, imaginando o que podia ter dado tão terrivelmente errado antes de finalmente se levantar.

Não olhou para ela enquanto caminhava para fora da sala e quando Kagome pensou que ele tinha ido embora, ainda o ouviu falar com uma voz quase sussurrada:

- Esqueça se acha que vou desistir de você.

-

CONTINUA


Três meses depois... Spooky reaparece.

Desculpa, pessoal, esse capítulo estava difícil de terminar. Sempre que estava em boa disposição para escrever, acontecia algo que me fazia deixar para depois... Mas saiu. E agora eu coloquei uns mafiosos no meio que não tinham nada a ver com a história... Apesar de parecer o contrário, eles estão ai para me poupar longos capítulos enrolando... confiem em mim.

Esse capítulo é dedicado à Naru, (um dia ainda aprenderei a ser tão má com as inocentes personagens quanto você é), pelo seu recente aniversário e também por ter me suportado reclamando do capítulo até as quatro da manhã (haja paciência). Obrigada!!

E à Bella-chan, Kisamadesu, Kagome-chan: :K-chan, Kikyou Priestess, Anna, issa-chan, Hell's Angel-Heaven's Demon, dani, Juli-chan, lilaclynx, Paixao, ca-chan, Natsu, Dai, Megawinsone e By Mandora, muito obrigada pelos seus comentários. Desculpem-me se não respondo individualmente dessa vez, mas a hora me obriga a ser breve. --"

Até breve (espero --;;;) e, por favor, continuem me deixando saber o que estão achando!

Madam Spooky