Disclaimer: Inuyasha não me pertence. Esse fanfic tem o único objetivo de divertir.

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TUDO PELA HERANÇA

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Por: Madam Spooky

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Capítulo 16 - O Começo II

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- Deixa ver se eu entendi essa história. Kikyou resolveu aparecer de surpresa no seu apartamento, então você achou que seria uma boa idéia passar a noite na porta do meu...

Miroku cruzou os braços, irritado. Depois lançou um olhar duro que Kouga ignorou completamente. O advogado se levantou com certa pressa, arrumando as roupas amarrotadas da melhor maneira que podia e falando qualquer coisa em voz baixa sobre as costas o estarem matando.

- Como se você pudesse chamar isso de apartamento – respondeu tão irritado quanto o outro. – Se lá dentro fosse melhor que aqui fora eu com certeza teria batido, mas antes os bêbados e malucos que vocês têm como vizinhos a uma noite inteira agüentando o mal humor e o cheiro de bebida do seu irmão Inuyasha.

Kouga encarou Miroku em silêncio, esperando que ele dissesse alguma coisa sobre o motivo dele estar ali, mas o irmão mais jovem de Inuyasha limitou-se a dar uma boa olhada nas roupas dele e sorrir debochadamente. Pelo visto ele realmente tinha saído com pressa porque usava uma camisa escura, com o slogan de uma banda de rock americana da qual nunca ouvira falar, e calças que pareciam ter acabado de sair do varal. Nos pés, um par de sandálias velhas. Ele nunca tinha visto o advogado se vestir tão displicentemente.

- Eu tive que me vestir as pressas – disse Kouga, adivinhando o que o outro pensava. – Agora pare de ficar me olhando com essa cara de idiota e fale logo o que tem que falar. Aposto que vai me dar uma de suas famosas broncas. Não pense que esqueci daquele dia que invadiu meu escritório e quase coloca todo o plano a perder.

Miroku revirou os olhos.

- Eu adoraria te dar uns conselhos sobre boa conduta, mas sinto muito, Kouga, você é caso perdido. À noite, enquanto fazia as entregas, eu comecei a pensar, sabe? O estúpido plano de vocês não tem nenhuma chance de dar certo, então por que me preocupar? O máximo que pode acontecer é serem pegos e a polícia rir de vocês quando contarem a história. O que eu farei é estar o mais longe possível quando isso acontecer.

Dizendo isso, ele abriu a porta de casa e fez um gesto solene, convidando o outro a entrar. Apesar de a atitude irritá-lo, Kouga atravessou a porta sem responder. Ri melhor quem ri por último, pensou. Miroku ainda se arrependeria por não tê-los ajudado.

- Inuyasha? – Miroku chamou assim que entraram. Em resposta ouviram apenas um ronco alto vindo do sofá. Havia três latas de cerveja vazias espalhadas pelo chão e a TV estava ligada em um canal de compras. – Ele adormeceu vendo TV como sempre – disse a Kouga. – Quer mesmo que o acorde?

O advogado deu de ombros.

- Deixe-o dormir até Kagome chegar. Pelo menos eu não terei que ficar ouvindo as reclamações dele até a nossa reunião.

- Claro... A reunião – Miroku grunhiu contrariado. – Eu adoraria ter algumas horas de sono, mas eu não quero estar aqui e saber mais do que um homem inocente deve saber.

- Eu pensei que você tivesse dito que o plano não ia dar certo – disse Kouga.

- Não vai, mas isso não quer dizer que não acabe mal.

Miroku lançou um último olhar preocupado na direção de Inuyasha e saiu outra vez. Ao fechar a porta, praguejou intimidante. Se tivesse imaginado que Kouga apareceria tão cedo, sequer teria se dado ao trabalho de vir em casa. A presença do advogado o enervava. Tinha absoluta certeza de que nada daquilo estaria acontecendo se não fosse por ele. Se ao menos se tratasse de outro sonhador como Inuyasha, mas não... Kouga não era do tipo que perdia tempo fantasiando sobre o que poderia fazer da vida se tivesse coragem. Se ele estava insistindo tanto naquela história de roubar a herança de Kikyou, havia bem mais do que estava disposto a dizer.

- Que seja... – disse a si mesmo, enquanto começava a descer as escadas. Já os tinha aconselhado e se metido demais naquela história. Antes era porque considerava errada a idéia de enganar Kagome para fazê-la se passar por Kikyou, mas agora, se ela realmente estava disposta a participar do plano, não havia nada que pudesse fazer.

Mas e se eles estiverem mentindo...? A idéia surgiu de repente, fazendo-o estancar no meio do caminho. Talvez fosse mais um plano de Inuyasha para tirá-lo do caminho.

Pensou em voltar e esperar que Kagome aparecesse, assim poderia perguntar diretamente a ela, mas a idéia de ter que suportar a companhia de Kouga o fez mudar de idéia. Talvez se a esperasse na porta do edifício... Mas não estaria em companhia muito melhor tendo que suportar os diálogos ininteligíveis dos bêbados que voltavam para suas casas àquela hora da manhã.

Miroku suspirou. Precisava ter certeza sobre as intenções de Kagome antes de lavar as mãos sobre aquele assunto. Voltou a descer as escadas, dessa vez em um passo mais hesitante. Já estava atravessando a porta do prédio e se voltando na direção do centro quando se lembrou:

- Sango!

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Kagome saiu de casa sorrateiramente assim que os primeiros raios de sol caíram sobre a cidade. Olhou por um instante para as janelas do andar superior da casa onde os irmãos, a mãe e o avô ainda dormiam, se perguntando o que eles diriam se soubessem para onde estava indo e com que propósito. Fora principalmente por isso que acordara tão cedo, para que não a vissem sair e não tivesse que mentir a respeito. Suspirou pesadamente enquanto caminhava mais depressa na direção do centro. Inuyasha definitivamente não era boa companhia. Desde que o tinha conhecido passara pelas situações mais estranhas. Antes, porém, podia defender-se afirmando que estava inocente na história toda, mas agora isso tinha acabado, ela estava prestes a se tornar cúmplice de um roubo. E pensar que tinha um bom motivo para isso não ajudava a aliviar sua consciência.

O centro estava quieto àquela hora da manhã e Kagome torceu para que o bairro onde Inuyasha vivia também estivesse. O que estivera pensando quando pedira para que se encontrassem lá, ainda mais tão cedo? O lugar era uma das regiões mais perigosas da cidade e ela estava sozinha... Talvez devesse ter chamado Sango para acompanhá-la. Realmente teria, se não soubesse que precisaria explicar exatamente por que estavam indo ao apartamento de Inuyasha quando ela mesma dissera mais de uma vez que nunca mais queria vê-lo. E não havia nenhuma garantia de que conseguisse explicar isso satisfatoriamente, ou ainda pior, que Sango entendesse os motivos dela. A última coisa que precisava no momento era brigar com sua melhor amiga, então acabara decidindo que faria o que tivesse que fazer e depois, quando tudo fosse resolvido e ela tivesse devolvido centavo por centavo, esquecer que aquilo tinha acontecido.

A Rua de Inuyasha estava vazia como torcera que estivesse. Havia uma ou outra pessoa suspeitosamente cambaleante, mas nada que trouxesse motivos para preocupação. Kagome andou rapidamente até o prédio lançando um rápido olhar para o presídio silencioso do outro lado da rua. Que lugar... Pensando bem, não era à toa que ele estivesse desesperado.

Ela subiu as escadas no mesmo passo rápido, parando apenas ao chegar frente à porta de Inuyasha. Fez menção de bater, mas estancou antes de completar a ação. Será que Kouga já tinha aparecido? Se o pensamento de falar com o dono do apartamento sobre aquele plano já não a agradava, o de conversar com o advogado fazia seu estômago revirar. Lembrou-se sorrindo do soco bem merecido que tinha dado nele no dia anterior. Kouga tinha se mostrado interessado demais naquela história toda e, pensando em tudo que lhe dissera sem saber que já conhecia toda a história, não tinha muitos escrúpulos na hora de conseguir o que queria. Você ainda pode voltar daqui e fingir que nada disso aconteceu, pensou. Mas, ao invés de ouvir o conselho da própria consciência e dar meia volta, ergueu novamente o punho e bateu com vontade na superfície de madeira da entrada.

Foi Kouga quem abriu, quase no mesmo instante. Kagome carranqueou ao vê-lo, preparando-se para ouvir alguma observação desagradável, mas ao invés disso, ele afastou-se da porta em silêncio e fez um gesto convidando-a a entrar. Ela obedeceu, mal contendo um sorriso ao ver o rosto ainda vermelho do advogado e como ele parecia manter-se afastado a uma distância segura. No entanto a vontade de rir morreu no instante em que viu Inuyasha ainda sentado no sofá, as latas de cerveja a cercá-lo e os olhos vermelhos semi-serrados.

- Eu estou aqui – disse secamente, esperando que eles pudessem começar com aquilo o mais rápido possível. Já estivera mais de uma vez naquele apartamento, mas daquela vez em especial ele parecia terrivelmente pequeno e claustrofóbico. Ficaria mais que feliz em sair dali.

- Eu estou enxergando você perfeitamente bem – disse Inuyasha no mesmo tom. Então se levantou e entrou no banheiro resmungando sobre como eles tinham chegado estupidamente cedo apenas para perturbá-lo.

Kouga suspirou. Nenhuma surpresa se eles só conseguissem sair dali à tarde. Inuyasha era um estúpido que não levava nada a sério, mesmo quando se tratava de algo de seu próprio interesse. Por outro lado, Kagome, ela sim estava se mostrando um mistério. Só esperava que falasse sério sobre estar disposta a participar do plano e não tivesse nenhuma intenção de tirar o corpo fora no último momento. Não sabia o que dera nela para aceitar colaborar assim, de repente, mas não precisava saber desde que ela continuasse disposta.

Barulho de algo caindo e um xingamento vindo de Inuyasha pegou sua atenção. Ele provavelmente tinha bebido além da conta, mas naquela manhã, parecia mais mal-humorado que o normal. Talvez tivesse a ver com a maneira com a qual a garota o estava tratando... Ele gostava dela. Não importava que dissesse que não, isso estava começando a ficar obvio. Que seja, Kouga pensou. Desde que não atrapalhassem seus planos, Inuyasha e Kagome podiam fazer o que bem quisessem.

- Pronto, eu já estou aqui – Inuyasha apareceu nesse instante, o rosto molhado e os cabelos presos para trás em um rabo de cavalo. Os olhos dele continuavam vermelhos, mas tinha um ar mais esperto. Pelo menos parecia estar em condições de manter uma conversa sem desmaiar.

- Comecem logo – Kagome pediu, sem olhar para nenhum dos dois especialmente. – Quero saber o que faremos, quando faremos e qual o meu papel nessa história toda.

- Está mesmo disposta a fazer isso? Porque uma vez que nós começarmos, não terá mais volta – disse Kouga, cuidadosamente, estudando a expressão dela. Não queria incitá-la a desistir, mas se começassem e Kagome fizesse alguma bobagem que os traísse seria bem pior.

- Eu tenho certeza – a resposta dela soou quase sussurrada, mas os olhos estavam firmes.

Kouga deu-se por satisfeito.

- Pois muito bem. Inuyasha, você quer explicar o plano a ela ou eu devo fazer isso?

Inuyasha deu de ombros e voltou para o sofá, cruzando os braços e encarando o advogado seriamente. Com o canto do olho, observou Kagome que também esperava uma resposta, lembrando-se da conversa que tiveram no dia anterior. Então ela não desistira, continuava disposta a roubar a herança de Kikyou junto com eles. Roubar... Até pouco tempo ele não pensava naquilo tudo como tirar dinheiro de alguém, apenas como pegar o que lhe pertencia. Por causa de Kagome tanta coisa tinha mudado e quando ele estava finalmente disposto a admitir isso, ela decidia mudar radicalmente de atitude e fazer com que ele voltasse ao estado de confusão inicial. Mulheres...

- Acho que então eu devo explicar – Kouga sorriu. Aquele sorriso que Kagome odiava, mas parecendo ligeiramente nervoso. Ele friccionou as mãos em antecipação, como um detetive prestes a falar a solução correta de um mistério que até então parecia insolúvel. Finalmente falaria claramente sobre o plano. Tudo o que precisava para abandonar aquela detestável vida estava a ponto de cair em suas mãos. – Como vocês devem saber, eu, Kouga Abe, sou o advogado de Kikyou, a neta da falecida Kaede. Eu estou trabalhando para ela há quase quatro anos, desde que se tornou maior de idade e tomou posse do dinheiro deixado pelos falecidos pais.

- Isso tudo a gente já sabe – interrompeu Inuyasha. – E de qualquer maneira não é importante. O que temos que saber é que a velha morreu, deixou uma grana alta que Kikyou vai gastar em nada útil se cair nas mãos dela. Nós vamos aliviá-la desse trabalho tão desagradável, só precisamos que você nos diga como.

Kouga franziu o cenho, irritado pela interrupção. Gostava de explicar as coisas do princípio, para que não houvesse nenhum erro, mas Inuyasha parecia impaciente demais para ouvir uma ou duas frases a mais. Pensou por um momento. Ele era primo de Kikyou, conhecia toda a história da família dela, realmente o que pudesse dizer sobre isso não era importante. Quanto a Kagome, o papel dela seria breve e não teria que fazer mais que o trabalho de uma atriz. Ele talvez tivesse razão daquela vez, não havia razão para não pular para a parte que interessava aos três.

- Kaede era uma boa administradora, que certamente apreciava o status de milionária. Ela vivia procurando as melhores maneiras de investir seu precioso dinheiro – continuou, dessa vez falando mais rápido de maneira a não dar espaço a interrupções. – Nos últimos anos de sua vida, ela converteu a maior parte do dinheiro em barras de ouro, imaginando que daqui a alguns anos eles subiriam de valor e poderia lucrar com a venda das mesmas. Todo esse ouro está guardado no cofre particular do Banco Nacional de Tokyo, só esperando que alguém vá buscá-lo.

- Ouro... – Inuyasha sorriu e ergueu as sobrancelhas em uma expressão alegre. Nada mal para a velha Kaede. Tinha deixado um cofre cheinho de ouro apenas esperando por ele. O pensamento das barras amarelas espalhadas por aquela mesma sala arrancou-lhe um sorriso e mandou todos os seus recém-descobertos pudores para algum lugar no fundo de sua mente. – Então a velha tinha mesmo um verdadeiro tesouro. Mas se está no banco...

- Nós só precisamos ir lá pegar – disse Kouga.

- Ah, claro. Nós iremos ao banco e diremos: Com licença, seu guarda, somos o primo e o advogado da sobrinha da falecida Kaede e queremos levar o ouro dela para dar um passeio. Plano perfeito, Kouga, eu aposto que eles vão até nos ajudar a carregar.

- Não seja idiota, Inuyasha!

Inuyasha cruzou os braços com mais força. Se ganhasse uma moeda todas as vezes que alguém o chamasse de idiota não precisaria estar ali.

- Leia os meus lábios, estúpido: "Todo esse ouro está guardado no cofre particular do Banco Nacional de Tokyo, só esperando que alguém vá buscá-lo", foi você quem falou!

- Mas claro que nós não vamos até lá do jeito que você está declarando! – Kouga se aproximou um pouco, mas recuou no mesmo instante ao ver a expressão neutra de Kagome. Ela não parecia alguém que estivesse a ponto de socar alguém, mas era melhor não abusar da sorte. – Eu sou o advogado de Kikyou – Isso se ela ainda me considera assim, pensou –, mas é o advogado de Kaede quem está tomando conta do testamento dela. Ele é o dono da empresa onde eu trabalho, um homem chamado Naraku. Ele quem tem a chave do cofre e, logicamente, entregará apenas a verdadeira Kikyou.

O rosto de Kagome mudou. Por um instante um brilho de compreensão apareceu nos olhos dela e a boca se entreabriu em surpresa, mas na mesma hora, recuperou a compostura e voltou a ficar pensativa. Kouga sorriu intimamente ao perceber que ela tinha entendido exatamente o que ele quisera dizer. Ele olhou para o outro lado onde Inuyasha sorria com o mesmo brilho de compreensão no olhar. O plano tinha uma chance de dar certo. Se Kagome fizesse tudo exatamente como ele dissesse, Naraku não seria um grande obstáculo.

- Kikyou foi mandada para a Europa aos dezessete anos – disse Kouga. – Ela costumava vir de vez em quando, mas era eu quem cuidava de seus interesses enquanto estava fora. Que eu saiba ela sempre evitou ter muito contato com questões burocráticas. Deve fazer muito tempo que Naraku não a vê...

- E você quer que eu finja que sou ela e consiga essa chave – disse Kagome.

- E então nós iremos ao banco e pegaremos o ouro – completou Inuyasha.

- Isso mesmo – Kouga sorriu. – O que acham?

Kagome olhou do sorriso de Kouga para o rosto animado de Inuyasha sem saber se saia correndo ou batia neles. Jamais em toda sua vida ouvira coisa tão fantasiosa. Nem se nascesse de novo ela conseguiria ficar igual à Kikyou. A não ser que esse advogado tivesse dez graus de miopia e uma capacidade cerebral muito limitada, tudo aquilo jamais daria certo. Além disso, certamente havia a parte burocrática: coisas a assinar. E quanto a todas as pessoas que Kikyou devia conhecer intimamente?

- Impossível! – se ouviu dizendo em voz alta. – Eu nunca ouvi nada tão idiota. Como espera que esse advogado pense que eu sou a Kikyou? Ficou completamente maluco? Vocês podem se lembrar dela ao me verem, mas eu não sou igual a ela!

- Ela não é igual a Kikyou – Inuyasha repetiu desinteressadamente.

Kouga deu uma boa olhada nas roupas casuais de Kagome e balançou a cabeça.

- Nada que uma mudança de guarda-roupa não faça. Talvez um novo corte de cabelo...

- E quanto ao meu jeito de falar? – perguntou Kagome. – Minha postura, meus passos, minha assinatura... Principalmente minha assinatura!

- Eu não estou dizendo que você tem que ir até Naraku hoje, minha querida Kagome – respondeu Kouga. – Eu terei todo o prazer do mundo em treiná-la para que se torne Kikyou. Você vai acabar gostando da coisa. Não tem que mudar muito além da aparência, só praticar a assinatura e parar de franzir a testa desse jeito. Kikyou nunca demonstra quando está furiosa com alguém.

Kagome abriu a boca para dizer que não estava furiosa, mas acabou desistindo de se pronunciar. Ela estava furiosa. Em primeiro lugar, quem Kouga pensava que era para chamá-la de "minha querida Kagome"? Em segundo: ele tinha que ter pegado a mania de Inuyasha de passar a noite bebendo e vendo reprises de filmes classe B para achar que o tal Naraku acreditaria que ela era Kikyou.

- Isso não tem como dar certo – disse.

- Você não tem nenhuma fé em mim, não é mesmo? – Kouga cruzou os braços, emburrado.

- Eu tenho mesmo que responder isso?

O advogado ia responder, mas Inuyasha saltou do sofá e se colocou entre eles, revirando os olhos e esticando os braços com as palmas abertas na direção de cada um.

- Querem parar de discutir por bobagens? Kagome, você não pode dizer se vai ou não dar certo antes de pelo menos tentar ser a Kikyou – disse. – Você só precisa de uma roupa que pareça cara, mudar o cabelo para um corte mais curto e bancar a chata cheia de frescura. Olhe feio para tudo e torça a boca toda vez que alguém sorrir e tente te elogiar, ninguém vai duvidar que você seja a Kikyou.

- Inuyasha, não acha que está exagerando? Kikyou não é tão... – Kouga tentou intervir.

- Kikyou é exatamente como estou dizendo, droga – Inuyasha o interrompeu. – Ela é minha prima e eu conheço a raça dos Hayashibara melhor do que você!

Os dois se encararam e depois desviaram o olhar para Kagome. Ela estava fitando o teto pensativamente, a expressão mudando a cada instante como se estivesse travando uma batalha com a própria consciência.

Aceitar ou não aceitar? Se por um lado aquele era o caminho mais fácil para resolver todos os seus problemas, por outro o plano parecia mais um enredo de comédia policial no sense. Kouga dizia que havia anos Naraku não via Kikyou e, segundo Inuyasha, olhar o mundo de cima era a única coisa necessária para se parecer com ela. Talvez pudesse tentar. Se no final ainda achasse que não havia chance de alguém confundi-la com a prima de Inuyasha, desistiria e esqueceria tudo. Fora disposta até ali e não perderia nada tentando.

- Quanto tempo?

Os dois homens na sala a olharam interrogativamente.

- Quanto tempo até eu precisar ir até esse tal de Naraku e fingir ser a Kikyou? – ela repetiu a pergunta.

- Uma semana, duas no máximo – disse Kouga. – Eu estou fazendo pressão em cima desse testamento, mas já sabe... A justiça não anda no nosso tempo.

Kagome suspirou. Uma semana seria o suficiente para aprender tudo o que precisava saber sobre como ser Kikyou? Teria que bastar, ela mesma não tinha tempo.

- Muito bem. Acho que podemos começar pela aparência.

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- Eu fiquei bastante surpresa com o seu telefonema.

Sango se sentou no banco da praça, ao lado de Miroku, em silêncio. Ele sorriu para ela, mas pareceu que a olhou sem realmente vê-la. Sua mente estava vagando por algum lugar distante e ela não quis interrompê-lo até que decidisse falar por que a chamara até ali. Já fazia algum tempo que não se falavam, desde o dia no hospital. Durante os últimos dois dias, ela se pegara mais de uma vez olhando para o telefone e desejando que ele ligasse, mas isso não aconteceu. Estivera decidida a tomar a iniciativa naquele dia se ele não desse notícias, mas muito para seu agrado, cedo da manhã recebera o convite para se encontrarem naquela praça.

- Desculpe ter ligado tão cedo – ele falou finalmente. – Eu queria ter deixado para mais tarde, mas a dúvida estava me atormentando e sabia que não ia conseguir ficar em paz enquanto não perguntasse.

- Dúvida? – Sango corou. Do que ele estava falando? Será que finalmente ia convidá-la para sair? Estivera imaginando quando isso aconteceria desde que se conheceram, mas depois que Kagome tinha mandado Inuyasha embora daquela maneira dramática, quase perdera as esperanças de que pudessem continuar sendo amigos. Talvez Miroku quisesse distância de tudo o que o lembrasse o infeliz episódio da herança. – Você pode me perguntar o que quiser.

Miroku sorriu, brilhantemente, fazendo o rubor no rosto de Sango se espalhar quando ela pensou que ele ficava mais bonito quando não tinha a costumeira ruga de preocupação. Ele a olhou nos olhos, parecendo escolher as palavras e, quando finalmente falou, o tom de voz soou quase desinteressado.

- E então, como está a sua amiga Kagome?

Imediatamente Sango voltou ao normal, estreitando os olhos e se virando para frente, tentando assimilar se escutara realmente o que pensara ter escutado.

- Como está Kagome? Minha amiga Kagome?

Será que agora que Inuyasha estava fora do caminho, Miroku estava interessado em tentar algo com ela? Sango não conseguiu disfarçar a decepção, mas Miroku não pareceu notar.

- Há outra Kagome? – ele perguntou parecendo realmente confuso.

- Há milhares de Kagomes nesse país, eu imagino. Se está tão interessado em saber, porque não procura na lista telefônica? – Sango respondeu rispidamente.

- Mas eu estou perguntando da sua amiga Kagome...

- Minha amiga que sabe muito bem se cuidar sozinha sem que eu precise saber de cada passo que ela dá na vida!

- Sango...

Mas o que tinha dado nela? Um momento ela aparecia parecendo contente, o cumprimentava com um sorriso, até mesmo estivera se ruborizando quando ele sorrira de volta, mas de repente, por causa de uma perguntinha qualquer, tinha começado a tratá-lo como se a mão dele tivesse escorregado onde não devia ou algo assim. Talvez Inuyasha tivesse razão quando dizia que todas as mulheres eram loucas...

- Kagome está ótima. Obrigada por perguntar.

Sango se levantou e já ia sair quando Miroku a puxou pelo braço, fazendo-a se sentar novamente. Ela luziu a ele com seu olhar mais assustador, mas o rapaz apenas a encarou de volta parecendo ainda mais confuso que antes.

- Por que está zangada?

- Porque você é um homem!

- E você veio perceber isso agora?

Sango puxou o braço que Miroku ainda segurava violentamente e os cruzou, olhando para o outro lado.

- Você sabe exatamente o que estou querendo dizer. Você é homem! Aquele tipo de homem.

- Aquele tipo...

- Sim, o tipo aproveitador exatamente igual ao seu irmão! – ela olhou para ele, apontando diretamente para seu rosto. – Pelo menos Inuyasha estava interessado em dinheiro, já você...

- Está brigando comigo... – disse Miroku.

- Eu só estou dizendo a verdade – Sango resmungou. – Você tem um precedente familiar que o denuncia!

- Isso quer dizer que não vai sair comigo?

- Nunca, eu... - o fitou, em choque. - Você disse sair com você?

Miroku sorriu quando os braços dela relaxaram e caíram para os lados. Fosse lá o que tivesse dado em Sango para se irritar de repente, parece que ele tinha dito as palavras mágicas.

- Eu disse – ele alargou o sorriso. – Eu só estava esperando que Inuyasha esquecesse essa história de herança para convidá-la, entende? Mas se você acha que eu sou "aquele tipo de homem" então...

- É claro que é! – Sango quase gritou. – Há dois minutos estava perguntando por Kagome e agora está me chamando para sair!

- Mas eu só perguntei como é que ela estava... – ele disse abobalhadamente.

- E eu já disse que ela está ótima.

- E eu fico feliz. Acho então que Inuyasha e Kouga estavam mesmo me enganando quando disseram que ela tinha aceitado ser cúmplice deles no plano de roubar a herança. Acho que vou para casa daqui a pouco dizer umas boas verdades e...

- Kagome o que? – os olhos de Sango alargaram.

- Bom, foi o que eles disseram...

- Isso é ridículo.

- Claro que é ridículo.

- Eu falei com Kagome há menos de dois dias e ela estava muito zangada com o seu irmão. Não aceitaria participar do plano assim, de uma hora para outra – a irritação de Sango tinha desaparecido completamente diante daquela nova informação e agora ela torcia as mãos nervosamente, ao mesmo tempo em que negava veemente o que Miroku acabara de dizer.

- Você falou menos de dois dias? – ele perguntou.

- Eu disse...

- Eles só precisaram de algumas horas para se casar. Muita coisa acontece em menos de dois dias...

Os dois se olharam fixamente por um instante, cada um tentando convencer o outro com o olhar de que devia ser imaginação, que Kagome jamais se uniria a Inuyasha e Kouga para roubar dinheiro de alguém. Ambos levaram menos de um minuto para entender que não importava o que estivessem pensando, jamais ficariam tranqüilos se não tivessem certeza. Sem dizer nada, se levantaram rapidamente e seguiram na direção do apartamento onde os três deveriam estar o mais rápido que puderam.

Convites para sair, por hora, poderiam esperar.

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- Pode esquecer. Eu não vou cortar o cabelo!

Kagome cruzou os braços, irredutível. Kouga suspirou. Aquilo já estava ficando ridículo. Há quase meia hora eles estavam ali, dentro do carro dele e parados na frente do salão de beleza esperando pela boa vontade da garota que batia o pé se recusava a colaborar como se fosse uma criança.

- Mas não foi você quem disse que não ia ficar o dia inteiro treinando assinaturas e ao invés disso preferia começar pelo cabelo? – perguntou irritado.

- Eu disse – Kagome respondeu. – Mas isso foi antes dessa história de cortar. E daí se a Kikyou tem o cabelo mais curto que o meu? Ela não pode ter deixado crescer esses últimos tempos?

Kouga olhou para as mechas escuras que caiam até o meio das costas de Kagome.

- Ela voltou de viagem com o cabelo acima dos ombros pelo que vi nas colunas sociais. Não houve tempo para ele ter crescido tanto assim! – quase gritou.

- Ela é rica – Kagome gritou de volta. – Garotas ricas costumam fazer coisas no cabelo. Eles crescem e diminuem por força da vontade. Você nunca assistiu a um filme onde a protagonista está com o cabelo curto e aparece na noite do Oscar um mês depois com o mesmo cabelo na cintura?

- Oh, perdão, Kagome. Fui eu quem ficou louco ou a Kikyou não é a Julia Roberts?

- E quem foi que falou em Julia Roberts? Eu dizia...

- Ah, que seja! – o advogado socou o painel do carro, se controlando para não descontar a raiva na criatura viva mais próxima. Olhou para Inuyasha que observava o salão de beleza lá fora profundamente concentrado e perguntou: - Eu posso saber por que o folgado está ai encarando nada enquanto Kagome acha que pode fazer o que quer? Devia me ajudar!

O rapaz não lhe deu atenção. Continuou olhando para fora como um estudante encararia o colégio na segunda feira de uma prova importante, depois de ter passado o fim de semana fazendo tudo menos estudar.

- Responda!

O grito de Kouga fez com que Inuyasha desse um salto e olhasse finalmente para ele. O advogado franziu a testa, esperando por uma reclamação a sua explosão, mas tudo o que obteve foi um olhar confuso e um fraco "disse alguma coisa?".

- Em que planeta você estava, Inuyasha? Será que não ouviu toda essa discussão? Kagome está se recusando a cortar o cabelo e você tem que dizer a ela para fazer isso!

- Como se ele fosse mudar minha opinião em alguma coisa... – Kagome disse em voz baixa.

Kouga a ignorou.

- Diga logo a ela que nunca vai se parecer com a estonteante Kikyou se não parar com essa frescura toda!

- Estonteante Kikyou? – Inuyasha olhou para fora novamente, assumindo a mesma postura preocupada de antes. – Desde quando você tem outro adjetivo para ela além de chata, irritante e, de vez em quando, controladora?

- Isso não vem ao caso, você...

- Esqueça! – Inuyasha interrompeu. – Kagome tem razão, mulheres ricas controlam o tamanho do cabelo. Vamos logo embora daqui.

Kagome e Kouga o encararam, mudos.

- Você disse que eu tenho razão? – perguntou Kagome. – Acha mesmo que não devo cortar o cabelo?

- Você está ótima assim – o irmão de Miroku sorriu nervosamente.

- Mas o que está acontecendo aqui? – Kouga abriu a porta do carro. – Foi você quem disse que Kikyou tem o cabelo mais curto que o de Kagome, lembra? E também que essa tal de Yura faz um bom trabalho sem cobrar nenhuma exorbitância. Você até me ensinou o caminho! O que foi agora? Andou tomando umas pelo caminho sem que eu percebesse?

- Por que é que todos vocês tem a mania estúpida de perguntar se eu andei bebendo? Eu não posso mudar de idéia não? Eu sou humano, sabia? Seres humanos mudam de idéia o tempo todo!

Inuyasha agora olhava diretamente para Kouga, lançando um ou outro olhar de esgoela para a rua lá fora. Kagome pensou que ele parecia estar prestes a agarrar a direção e tirá-los dali a força. Era quase como se não quisesse entrar no cabeleireiro.

Aquilo seria divertido. O que eram algumas mechas de cabelo perto de um Inuyasha contrariado?

- Tudo bem, eu corto o cabelo.

- Que? – os dois homens perguntaram em coro.

- Mas você acabou de dizer que não ia! – disse Inuyasha. Gotas de suor desciam pelo pescoço dele enquanto seus olhos, muito abertos, imploravam para que Kagome se retificasse. – Eu te apoio! O Kouga não vai obrigá-la se eu não concordar com ele. Qual o problema agora?

- Problema? – Kagome sorriu. – Problema nenhum. Eu estava pensando aqui comigo mesma e achei que seria ótimo mudar esse meu penteado uma vez na vida, sabe como é... Se a Julia Roberts pode, então por que eu não? Eu sou bem mais bonita do que ela.

- Está fazendo isso para me contrariar!

- Por que eu ia querer te contrariar? – Kagome perguntou inocentemente e mordeu o lábio inferior para não rir da expressão chocada de Inuyasha. – Afinal, nós somos todos parceiros aqui. Trabalhando juntos e colaborando mutuamente...

- Já entendi! – Inuyasha cruzou os braços e se virou novamente para frente. – Mas eu espero no carro.

A essa altura Kouga já tinha saído pela porta do motorista e estava dando a volta até a porta de Kagome. Antes que ele pudesse abrir, porém, Kagome mesma fez isso e saltou para a calçada.

- Vamos logo, Inuyasha – ela o chamou, mantendo o sorriso. – Parceria e colaboração mútua. Não vou cortar o meu cabelo sem ter você me apoiando lá dentro!

- Ora, ele pode ficar aqui tomando conta do carro e...

Kouga começou a falar, mas Kagome o interrompeu:

- Eu já disse que ou Inuyasha vem com a gente ou pode esquecer!

- Que ótimo...

O advogado apertou os dentes, começando a se irritar novamente. Não sabia que tipo de joguinho Kagome estava querendo fazer, mas não tinha o dia todo e Inuyasha teria que entrar com eles. Abriu a porta de passageiros com força, quase derrubando o rapaz junto.

- Saia logo daí, Inuyasha!

- Nunca! – ele voltou a cruzar os braços e afastou-se até quase estar no banco do motorista.

- Kagome só quer contar o cabelo se você vier e eu não posso levá-la amarrada, daria muito na vista.

- Isso é problema dela.

- Você não quer ajudar com o plano?

- Desde que eu não precise entrar nesse salão de beleza ridículo, eu ajudo com o que for necessário.

Kouga cerrou os punhos e contou até dez mentalmente. Seria possível? Estava velho demais para lidar com aquele tipo de infantilidade, ainda mais vindo de um marmanjo que tinha quase a sua idade.

- Afinal, por que inferno você não quer entrar lá? – perguntou irritado. – Foi você quem indicou o lugar!

- Porque... Porque... – Inuyasha pareceu confuso por um instante, mas logo encarou o outro e respondeu com segurança: - Porque Yura é ex-namorada de Miroku e ela pode sofrer se me vir. Eu sou o irmão dele. Provavelmente trarei lembranças tristes, não é?

Kagome riu audivelmente de onde estava.

- Você se preocupando sobre o sofrimento de uma mulher?

- Claro que eu me preocupo! – ele gritou, irritado com o deboche nas palavras dela. – Yura certamente sofre até hoje quando pensa que escolheu o irmão feio e paspalho. Não quero ficar lembrando a ela tudo o que perdeu!

- Inuyasha... – Kouga o chamou. – Agora, se terminou de se gabar, poderia, por favor, dizer a verdade?

- Eu disse. Você acredita se quiser.

Ele relaxou no banco, olhando para o teto, completamente resolvido a permanecer ali. Kouga olhou dele para Kagome, cada um decidido a manter sua postura e suspirou. Estava na hora de tomar medidas drásticas.

- Se vai ficar ai não se importará em segurar meu telefone celular, não é mesmo? – perguntou.

- Acho que não – respondeu Inuyasha.

Kouga tirou o telefone que estava preso à cintura e estendeu para Inuyasha. Quando este esticou o braço para receber o objeto, o advogado o segurou pelo pulso e o puxou pela porta com toda sua força. O irmão de Miroku aterrissou com um baque na calçada assistindo incredulamente o outro trancar o carro e Kagome rir da situação.

- Inuyasha, eu vou colocar a coisa de uma maneira que você entenda – disse Kouga. – Você pode se levantar e nos acompanhar até lá dentro como um menino obediente. E quando eu digo obediente, estou falando sem carrancas, sem reclamações e, acima de tudo, sem tentativas de fuga. Caso contrário eu vou ter que cancelar sua participação nisso tudo. Ou melhor ainda: telefonar para a sua mãe e contar sobre a sua idéia. Imagina só como vai ser agradável tê-la na sua porta dando sermões pelos próximos vinte anos e...

- Eu já entendi! – Inuyasha se levantou, sacudindo a poeira das roupas e lançando olhares mortais para quem estivesse no caminho.

Sua irritação diminuiu apenas quando a lembrança desagradável de sua primeira e última visita aquele lugar lhe voltou à memória, dando lugar a preocupação. Tinha sido uma semana depois do último dia dos namorados. Miroku estivera saindo com Yura havia um mês inteiro, mas esquecera completamente a data, coisa que a deixou profundamente irritada. "Ela vai me matar", ele tinha dito. Então pedira para que fosse junto, para cobrir sua fuga se ela se tornasse violenta.

No final não fora exatamente Miroku quem tivera que fugir. A pessoa que ajudava Yura com os cabelos tinha se encantado por ele e tinha sido um tanto quanto difícil escapar da situação.

Ah, droga, por que ele tinha que tê-los trazido justamente até ali? Segundo Miroku, Yura estava trabalhando sozinha há meses, mas eles mal estacionaram, ele viu claramente aquela pessoa entrando no salão e ficara petrificado no mesmo lugar, incapaz de se abaixar ou abrir a porta e sair correndo. Eu devia ter fugido quando tive a oportunidade, pensou. Agora era um pouco tarde demais.

- Inuyasha, está no meu caminho! – Kagome gritou perto do ouvido dele.

O rapaz de cabelos compridos deu um salto para trás e teve que fazer um grande esforço para não gritar de volta quando respondeu:

- Você não pode simplesmente dar a volta ao meu lado?

- E correr o risco de deixar você fugir? Só vou te dar as costas quando estivermos lá dentro – ela sorriu.

E ele tinha pensado que estava apaixonado por aquela mulher... Pior ainda: ele tinha se casado com ela! Felizmente tinha a desculpa de que estava bêbado, caso contrário...

- Inuyasha, pare de enrolar e venha logo ou vou começar a pesquisar o número da sua mãe! – gritou Kouga, da porta do salão.

Inuyasha estremeceu e avançou alguns passos, parando apenas quando ouviu a risada de Kagome ao perguntar ao advogado:

- Afinal, por que é que ele tem tanto medo da mãe?

De repente o fato de que Kouga poderia responder com alguma afirmação idiota ganhou em importância a presença da pessoa que vira entrar no prédio comercial e ele avançou a passos rápidos, puxando Kagome para dentro. Talvez eles não se encontrassem afinal. O salão era bem grande e ele sempre poderia se sentar com uma revista de bom tamanho cobrindo seu rosto até que fosse seguro sair.

Lá dentro o lugar parecia bem maior do que se tinha a impressão ao vê-lo de fora. O grande salão estava rodeado por espelhos cuja superfície refletia as pessoas sentadas em duas fileiras de cadeiras confortáveis e também aquelas que já estavam sendo atendidas, acomodadas próximas a eles. Acima das superfícies espelhadas, estavam várias fotografias de belas mulheres usando penteados exóticos. Kagome olhou, encantada, para elas. Se não fosse pelo fato de que estava mudando para se passar por outra pessoa, poderia dizer que estava começando a se divertir com aquilo tudo.

Kouga olhou para tudo indiferentemente, então se virou para Inuyasha.

- Quem é Yura?

- Aquela a sua esquerda – respondeu Inuyasha, apontando com um aceno de cabeça na direção de uma mulher pequena, de cabelos curtos e vestindo um avental branco. O rosto completamente sem maquiagem e a expressão concentrada fazia com que ela parecesse mais uma estagiária de laboratório que uma cabeleireira. – Escolhendo um sabonete ou coisa parecida.

Kouga assentiu.

- Miroku a namorava? Eu pensei que ele preferisse as mais produzidas... Mas que seja, o que está esperando para falar com ela?

- Miroku pega qualquer coisa que use saias – Inuyasha revirou os olhos. – Kagome, vem comigo! – tateou as cegas até alcançar um braço e o puxou de encontro a onde Yura ainda procurava alguma coisa.

Ao vê-lo, a cabeleireira fez uma careta e soltou os frascos que examinava.

- Inuyasha... É bom que tenha vindo apenas cortar o cabelo!

- É bom vê-la também, Yura – pelo visto ela ainda tinha as más lembranças do período em que saia com Miroku bem claras na mente. – Eu trouxe essa garota – apontou para trás – para que você dê um jeito no cabelo dela. Curto, mas não demais. Acho que na altura dos ombros estará bom, mas dê um jeito dela parecer um pouco mais feminina, esse cabelo comprido e descuidado não combina com ela.

Ele esperou pelo grito de protesto de Kagome, mas não ouviu nada além do riso abafado de Yura. Nesse instante, ouviu uma voz chamando seu nome aproximar-se rapidamente. Kagome apareceu do lado oposto, segurando uma revista sobre cinema com um retrato de Julia Roberts estampado na capa.

- Ela está com o cabelo bem curto aqui... – começou a folhear as páginas. – Tenho certeza que havia outro onde ela estava com os cabelos longos e a legenda dizia que foi tirada uma semana depois. Eu preciso mesmo cortar o cabelo, Inuyasha? – ela o encarou implorantemente, mas o olhar mudou de repente para um interrogativo: - Por que é que você está segurando o braço desse rapaz?

Inuyasha estremeceu. Aquilo não podia estar acontecendo, podia? Ele soltou rapidamente o braço que estivera segurando e saltou para frente, parando apenas quando estava seguro atrás de Kagome. Yura deu risada.

- Eu estava mesmo me perguntando o porquê dele querer que o meu ajudante tenha um penteado mais feminino...

- Inuyasha! – Kagome saiu da frente dele, fazendo com que ele a soltasse e olhasse novamente para Yura e então para o ajudante.

O rapaz de cabelos escuros, penteados para o lado de uma maneira que já parecia feminino o bastante, o fitou de volta e sorriu.

- Você acha mesmo que eu preciso cortar o cabelo, Inuyasha? Se você acha, eu corto, querido. Tudo o que você quiser. Tudo mesmo.

As últimas duas palavras foram pronunciadas com um tom de voz ligeiramente rouco e Inuyasha estremeceu.

- O-Oi Jakotsu...

O rapaz sorriu amplamente e começou a dar pulinhos.

- Ele lembra do meu nome! – correu para Inuyasha e, antes que ele pudesse fugir para longe, segurou as mãos dele. – Eu sabia que não ia esquecer de mim, querido! Agora acredita que nosso encontro foi algo predestinado?

Inuyasha retirou rapidamente as mãos das de Jakotsu e correu para trás de Kagome outra vez. A garota assistiu a face apavorada de Inuyasha e a muito sorridente do ajudante de Yura sem saber se ficava chocada ou começava a gargalhar. Homem estranho aquele... Ele era certamente bonito, mas o tom violeta de sombra em torno dos olhos e as roupas justas e exageradamente estampadas o faziam se parecer mais com um designer de moda saído de um reality show do P&A que com um cabeleireiro.

- Diga, menina, Inuyasha não é certamente o homem mais bonito que você já viu? – ele perguntou e começou a dar risadinhas, voltando a pular. – E ele adora esse joguinho de gato e rato. Adora quando eu fico correndo atrás dele.

- Eu aposto que sim – Kagome respondeu, optando finalmente por entrar na brincadeira. Irritar Inuyasha era tudo o que ela podia tirar de bom daquela situação e, sendo assim, aproveitaria cada oportunidade. – Pensando bem, ele insistiu tanto para que nós viéssemos...

- Jura? – perguntou Jakotsu alegremente.

- Ele praticamente implorou. Sem falar que desde que saímos do carro que olha para fora, aparentemente procurando por alguém.

O sorriso do rapaz alargou.

- Inuyasha, não é verdade que...?

Kagome se virou para perguntar algo, mas, para sua surpresa, Inuyasha não estava mais ali. Tinha desaparecido em algum momento enquanto ela se distraia conversando com o outro.

- Ah, o bobinho já foi se esconder. Mas não tem problema nenhum, eu o encontrarei.

Jakotsu saiu saltitando pelo salão na direção dos fundos. Kagome olhou para Yura, que ainda sorria, e deu de ombros.

- Ah, que bom que vocês já estão conversando – disse Kouga se aproximando por trás. – Agora você já pode cortar o cabelo, Kagome.

- Cortar cabelo? Quem foi que falou em cortar cabelo?

- Mas você disse...

- Eu disse que cortaria se Inuyasha ficasse para a parte do apoio moral. Não estou vendo ele aqui e agora!

Kouga suspirou. Gritar com ela não ia adiantar como com Inuyasha. O máximo que conseguiria seria um novo soco na cara. Se continuassem nesse passo, Kikyou teria tempo de pegar a herança e fugir para Marte antes que eles conseguissem entrar em um consenso.

- Eu acho que vou me sentar ali e esperar – disse desanimadamente, indo na direção das cadeiras em fila.

-o-o-o-o-o-

No centro da cidade, no edifício comercial onde a firma de advogados de Naraku funcionava, o próprio sorriu ao manusear distraidamente um envelope de papel. Na parte do remetente havia um grande número rabiscado.

- Finalmente tudo em ordem com a herança de Kikyou – ele disse em voz alta.

Pegou a agenda telefônica em cima da mesa e a folheou lentamente até chegar à letra "K". Demorou alguns instantes no número de Kikyou, então voltou as páginas de volta para a letra "A".

- Abe Kouga...

Tirou o telefone celular do bolso e começou a discar.

-

-

CONTINUA


Ah!! Consegui terminar esse rapidinho!! Quanto mais próxima do final, mais me animo com ela!!

Sobre esse capítulo, algo que acho que devo citar, não sei se existe um banco com um nome nem remotamente parecido a esse que coloquei no capítulo. Não faço a menor idéia dos nomes de bancos do Japão, então inventei um... Bom, só para o caso de alguém estar se perguntando.

Sobre a penúltima cena... Eu sei que encontrarei uma utilidade para ela...

Respondendo aos reviews:

Bella Lamounier: Eu estou começando a desenrolar os nós (e não está sendo nada fácil. Da próxima vez tentarei pensar antes de colocar tanta gente, he he...), mas logo você saberá o que acontecerá com eles. Esse capítulo demorou menos, não?

LP Vany-chan: Também gosto da Rin no fic, apesar dela estar bem OOC. Obrigada pelo comentário, fico feliz que tenha gostado!

Kisamadesu: Sim, sim, o Naraku é minha peça chave. Mas deixarei ele quieto por enquanto. Quanto ao Inuyasha... Acho que ele ainda vai demorar um pouco para parar de pensar errado das coisas. Obrigada por ler!! (Você escapou de ser vítima dessa vez, mas outra hora ainda te pego).

Hell's Angel-Heaven's Demon: Obrigada!! Que bom que gostou do último capítulo!! Acho que o psicanalista tem razão, mas gostei mais da sua interpretação.

Rine: Muito obrigada pelos elogios. Que bom que está gostando, apesar de toda a confusão com o Inu e a Kagome. Ainda não foi dessa vez que eles se acertaram, mas eles devem falar sobre isso em breve. Obrigada outra vez.

Por enquanto é isso, gente. Vou tentar atualizar mais frequentemente agora que o final está tão próximo - bom, mais ou menos. Estou querendo terminar tudo até o capítulo 22 mais ou menos. Será que consigo? Não aposto, mas vou tentar.

Até a próxima e, por favor, comentem!!