-- CAPÍTULO 1 --
RATOS E BARATAS
A tarde de quinta-feira mais fria do ano acabara de começar, quando Elvys, um garoto de 17 anos se sentara ao leito do sofá de sua casa após o almoço. O dia tinha sido bastante estressante, mesmo com a chuva que parecia pedra no telhado, a sonolenta brisa do ar frio, vivia na sala congelando e lembrando de sua presença.
O sonho do garoto trouxe-o a um lugar, totalmente desconhecido, o formato de um pequeno jardim, escolhido a uma mini-praça de lazer.
Uma garota muito sorridente o olhava e ao mesmo tempo segurava uma flor murcha e desgasta.
Ele não conseguia se mover, e tampouco olhar seu redor. Estava paralisado ao olhar daquela garota tão bela e sorridente.
Suas vestes, amarelo e verde, com o nome "BRASIL" estampado, reluziam com o brilho do sol, num diferente clima do real ao seu sonho. A moça deixou cair a flor que tinha um tom rosa, fazendo suavemente sua mão deslizar do banco que estava sentada e no mesmo ritmo da mão aconteceu com a garota, chegando a debruçar-se no chão, o que aparentemente tenha sido um desmaio.
Elvys não sabia o que fazer sem poder se mexer, sem poder gritar e pedir ajuda; paralisado diante desta situação. Vendo a pobre moça no chão caída.
Muito tempo se passou, e nem mesmo ninguém vinha socorrer a pobre moça encolhida ao chão. Foi então que escutou vozes dizendo:
- Parece que ele está realmente doente, veja.
Acordou com sua mãe e sua prima o olhando tão firmemente que ele até achara que era um fantasma.
- Você está bem Elvys? - Perguntou a mãe preocupada com o garoto.
- Sim, só tive um pesadelo. - Elvys falou com sua cabeça ainda doendo com a paralisia que tinha sofrido no tal sonho.
- Você dormiu até as cinco horas, com certeza não vai conseguir dormir à noite, e ficar a madrugada acordado. Eu não sei o que deu em você, já estava preocupada iria chamar um médico, ou levá-lo ao pronto-socorro. - A mãe disse quase chorando.
- Esta tudo bem mãe, eu estou bem - disse o garoto tentando contornar a preocupação de sua mãe.
- Não quer me contar sobre este seu pesadelo?
- não mãe, é besteira, além do mais não é prudente ficar pensando nestes sonhos idiotas.
E bem como sua mãe disse aconteceu, na noite o garoto tentava dormir, mas não conseguia. Parecia preocupado de mais com o sonho, se perguntando por que aquele sonho tinha o deixado pensando tanto assim, quem era a garota do sonho que depois de tanto sorrir deixa uma flor cair no chão e depois cair junto a ela?
As questões não saíram de sua cabeça à noite inteira. Foi quando o dia seguinte chegou com uma chuva não tão forte agora. E logo este pensamento sobre o tal sonho tinha saído de sua cabeça.
Todos os dias pareciam iguais. Já se contava oito dias que o sol era coberto pelas nuvens e a lua obscurecida pela chuva. E quando a noite, mais tardia, chegava, a hora de dormir era prestigiada.
Como era tão bom dormir com o som da chuva batendo forte no telhado. Só assim o sono chegava com mais facilidade. Foi como aconteceu naquela noite.
Como era costume, Elvys, em seus sonhos, visitava lugares nunca visto por si próprio. E desta vez estava em um balanço de base madeira e sustentação à corda. Estava ventando bastante, e as folhas secas da árvore a qual era sustento ao balanço, caíam conforme a intensidade do vento.
A velocidade do balanço era um pouco rápida, de repente sentiu uma mão encostar-se à suas costas com um leve empurrão, ele olhou pra trás e viu aquela linda garota sorridente, era a mesma do sonho passado, mas ficou contente, pois desta vez conseguiu se mover, e não ficar paralisado como da outra vez.
Então quando ele correspondeu ao sorriso da garota, novamente ela caiu no chão. Ele, imediatamente, se levantou e foi em direção à garota. Mas quando conseguiu tocá-la da boca dela saíram várias baratas, em forma desordenada em cada direção de sua face.
Acordou de repente, ficou feliz de não estar rodeado de pessoas, inclusive sua mãe, mas em vez de pessoas um asqueroso rato estava pousado e dormindo em cima de sua barriga que estava coberta.
Percebeu que o rato não era comum, tinha orelhas vermelhas, e dentes tão brancos quanto seu pêlo. E assustando-se fez um movimento de impulso com o corpo que acordou o rato, e olhando para o animal, notou a semelhança que havia entre seus olhos e suas orelhas.
Em sua pata esquerda dianteira, estava um papel enrolado a um barbante em que se liam as palavras bem destacadas de uma tinta velha e preta.
"NÃO O DEIXE SÓ"
VOCÊ PRESCISARÁ DELE
"Arcano Arkeyro"
Elvys não sabia o que fazer, mas sem mais detalhes pegou o rato com a mão direita como se estivesse pegando um chaveiro e o colocou no bolso do pijama. Foi até o banheiro e releu o bilhete mais uma vez, o papel num preenchimento amassado, tinha um aspecto velho e uma cor laranjada.
Escutou o bater da porta do banheiro e o som que a acompanhou.
- Elvys, venha tomar café! - disse sua mãe um pouco nervosa.
- Ta bom mãe, já to indo. - Disse o garoto olhando o papel que estava em suas mãos.
- E, meu filho, depois de tomar o café você ira comprar um inseticida e um veneno para ratos. - disse Helena, sua mãe, com a voz de uma pessoa gripada.
- Mas o que está acontecendo mãe? - Elvys percebeu que sua mãe parecia estar chorando.
- Meu filho, há muitas baratas no armário e dentro do sofá, - a mãe do garoto pôs a língua pra fora da boca, e fez um gesto que parecia estar com nojo - e muito mais ratos de que eu já vi em todos os cantos da casa, principalmente em baixo de sua cama - olhou para o chão verificando se não havia ratos.
- Ta bom mãe - o menino disse, pegando o rato de seu bolso e olhado para o papel na outra mão.
A mãe do menino saiu da porta do banheiro, e gritou assim que chegou à porta da cozinha.
Elvys, por um minuto, não sabia o que fazer. Muitas perguntas vinham a sua cabeça repentinamente. Como poderia ter tantos ratos e tantas baratas em sua casa? O que teria haver o sonho com a garota, com o aparecimento das baratas? Que sentido fazia o rato que havia recebido com os demais da casa? Realmente estas coisas teriam algum significado?
Ele novamente colocou o rato no bolso e foi tomar café, mas foi muito estranho este café da manhã com sua mãe em vez de sentar na cadeira ficara de cócoras em cima dela. Ele continuava com as perguntas em sua cabeça. Sua mãe o achava estranho, pois ele não demonstrava qualquer preocupação com os acontecimentos.
"Quem será que me mandou este rato, com esta mensagem?" - essa era a pergunta que mais persuadia em sua mente.
Foi comprar o inseticida e o veneno e, a retornar, viu mais baratas em seu bairro, tanto no chão como nos latões de lixo.
Quando chegou a sua rua, estava se sentindo flutuar, parou de repente, e começou a pensar que estava maluco, as vozes das pessoas ficavam retorcidas, o vento que soprava em seu rosto o fazia delirar. Uma velha senhora se aproximou e olhou o garoto, abriu sua boca e fechou-a novamente, olhou para os lados e viu se tinha alguém olhando, então se curvou e disse:
- Não deixe o rato sumir, fique em sua casa e não durma, não durma - sussurrou a mulher idosa, que saiu sem ao menos escutar o que o garoto tinha para perguntar.
Mas quem era aquela senhora, que ele nunca tinha visto na vida, o que ela tinha haver com aqueles ratos e baratas, como ela sabia que ele tinha recebido?
Conseguiu voltar ao normal, e suspirou como se estivesse desabafando, olhou para trás para ver se conseguia acompanhar a mulher, mas foi inútil, a mulher tinha simplesmente desaparecido.
Quando voltou para casa e entregou os produtos a sua mãe, foi para seu quarto, quando entrou se deparou com um homem, nem tão baixo nem tão magro, um pouco barbudo e de vestes esquisitas, que o saudou.
- Bom dia, jovem Elvys - disse o homem que estava descalçando sua bota e sentado na cama do garoto.
- Er... B... Bom... Bom Dia... - o menino disse em palavras gaguejantes.
- Desculpe o senhor é algum tipo de exterminador de insetos? - o menino falou olhando para o chão que não havia nenhuma barata.
- Pessoalmente nunca tive tempo para exterminadores. - ele olhou o garoto num tom curioso. - e depois não posso fazer mal a essas pobres criaturas. Ainda precisarão delas em Volta Quadrada.
- Volta Quadrada? - o menino aparentou estar bastante curioso. - Onde fica Volta Quadrada? Que cidade e esta?
- Volta quadrada não é uma cidade. - corrigiu o homem.
- E então?
- Bem irei lhe contar uma longa história. - disse o homem sentindo-se, particularmente, em casa.
- Bom, antes de tudo, esta conversa precisa se secreta. - o homem falou puxando de suas ventes um cajado que mais parecia ser um cabo de uma vassoura, mais muito mais grossa.
- Secreta - o homem falou apontando o cajado para o chão.
De repente eles apareceram num lugar branco que não tinha fim, um lugar que parecia ser um mar branco e um céu branco, só que sem movimento.
- Bem esta é a sala secreta, aqui ninguém poderá nos ouvir. - o homem falou guardando o cajado em suas vestes. - Para começar meu nome é Fíghuo Ramos, ou só Ramos como sou conhecido em Volta Quadrada. Sou o secretário de Ações Sigilosas de Arcano Arkeyro. Você recebeu a mensagem dele não foi?
- Sim juntamente com um rato as... Deixa pra lá. - o menino falou com um tom sincero.
- Bem você deve ter tido sonhos esquisitos, eu imagino?
- Sim, totalmente incompreensíveis. - respondeu o garoto olhando curiosamente o ambiente totalmente branco.
- Bem, na verdade, estes sonhos, são apenas uns avisos de inserção de magia em seu corpo. - o homem falou tão sério quanto poderia estar.
- Inserção de o que? - o menino pareceu confuso.
- Magia, você está em uma fase de preparação, Elvys. E esta preparação já esta quase concluída. Você esta se tornado um bruxo, Elvys.
Elvys sentiu seu coração acelerar num ritmo absurdamente veloz, pensou que se tivesse problema cardíaco, teria tido um enfarte.
- Um bruxo? - perguntou o menino assustado
- Sim Elvys, um bruxo com poderes muito grandes.
- Mas... Como...
- Não... - o homem colocou o dedo indicador no meio da boca mostrando sinal de que ele devia silenciar-se. - este não é o exato momento de fazer perguntas, apenas me escute. Amanhã à noite você será levado a São Paulo para fazer a compra de seus apetrechos, então voltará para sua casa novamente e receberá em alguns dias outra mensagem informando o início de seus estudos, e lembre-se aconteça o que acontecer não diga nada a ninguém. Nem mesmo seus pais, eles com certeza o acharão maluco e o internarão em um manicômio. Mas pode ficar tranqüilo, na hora certa eles saberão.
- Mas... - o menino ia fazendo uma pergunta e foi interrompido pelo homem.
- Já disse, sem perguntas até Volta Quadrada.
O homem apanhou de suas vestes novamente o cajado e apontou para o chão e disse:
- Normaliuss.
Chegaram ao quarto do garoto, o homem se despediu e bateu palmas e simplesmente sumiu.
