-- CAPÍTULO 2 --

A MALDIÇÃO DE GROOLERS

O momento ficou bastante confuso em sua mente, que ainda não tinha descoberto os significados dos recentes acontecimentos.

O dia parecia estar com o tempo parado. Com a saída de Ramos, todas as baratas e os ratos desapareceram menos o de Elvys, que sempre estava em seu bolso, que agora fazia tanto barulho que o próprio Elvys estava com medo que os outros descobrissem.

Ele olhou o rato que parecia estar doente, e não sabia o que ele estava sentindo, pois parecia que estava com dor. "Está com fome" pensou em sua cabeça. Logo foi a cozinha de sua casa pegou um pires e colocou um pouco de arroz cozido e, na mesa da cozinha, colocou o rato com o pires, o rato parecia nunca ter comido antes, abocanhou o arroz desesperadamente.

A tarde após o almoço, deitou-se em sua cama e ficou refletindo, mergulhando em um mar de pensamentos e dúvidas, que, mais do que nunca, Elvys não tinha os desvendado.

A noite chegou como uma lesma tentando alcançar dez centímetros. Mais pelo menos o tempo estava aberto e podia se ver a lua, brilhante e clara.

O jantar terminou e seus pais foram para fora, conversar em frente de casa. Ele já ficou em seu quarto bem atento, preparado para qualquer situação. Estava imaginando se alguma coisa acontecesse, e ele saísse naquele momento, como seus pais ficariam? Com certeza chamariam a polícia e achariam que ele tinha fugido de casa ou tinha sido raptado.

Felizmente isto não aconteceu. Eles foram logo dormir, e quando chegou às dez horas da noite, ainda nenhum sinal de alguma coisa anormal. Então achou que tudo era mentira, mas não conseguia acreditar ainda que fosse um bruxo.

Resolveu dormir, e ainda nem tinha começado a sonhar quando chegou meia-noite, neste exato momento, o rato que dormia em cima da barriga de Elvys começou a esquentar e esquentar cada vez mais, Elvys acordou assustado e pegou o rato e falou.

- Está com febre! Meu Deus o que eu faço agora?

- Não liga pra isso, garoto. - falou uma voz feminina, um pouco rouca e meio distorcia.

- Mas... Quem... Quem é a senhora? - o menino falou olhando a mulher que, percebia-se que estava em sua frente, porém estava escuro e não dava pra definir seu rosto.

Neste instante a mulher acendeu a luz e só assim, Elvys, pode reconhecer a mulher. Era a mesma que passara na rua quando foi comprar os produtos para sua mãe, e a mulher tinha desaparecido aos seus olhos.

- Ah os esquisitos... Sempre inventando coisas para suas facilidades. - a mulher falou olhando para a luz que acabara de acender. - Bem, você me reconhece é claro? - a mulher falou tirando uma espécie de bolsa quadrada da cintura.

- Sim, a senhora é aquela mulher que tinha dito pra eu não deixar o rato sumir, e ficar em casa e... - ele olhou para ela e fez um gesto de vergonha e falou abaixando a cabeça - pra eu não dormir.

- Exatamente, mas como você é obediente ficou a noite inteira acordado. - a mulher agora se sentou no pé da cama do garoto.

- Mas... Eu estava dormindo - o menino disse espantado com a mulher.

- Nada disso menino, agora você já é um bruxo, e em nosso mundo os bruxos só dormem quando sonham. E você não sonhou. - a mulher falou ao mesmo tempo em que olhava o garoto abrindo a boca.

- É verdade eu não tinha ainda sonhado.

- Bem, já passou de meia-noite e já estamos atrasados. - a mulher falou rapidamente e tirou de seu casaco uma espécie de aparelho celular, daqueles que não abrem, e pegou uma fina varinha, de ponta arredondada e disse.

- Relóggius.

- São zero hora e seis minutos. - uma voz ecoou pelo quarto, que aparentemente tinha saído do aparelho que a mulher tinha tirado do bolso do casaco.

- O que é essa coisa? - O menino falou apontando para o aparelho da mulher

- Isso é meu transponder. É o que vai nos transportar a São Paulo.

- E desculpe se estou sendo grosso, mas, eu ainda não sei o seu nome.

- A sim, claro, Nan Digo.

- Mas por quê? - o garoto se sentiu envergonhado

- Por que o que? - a mulher olhou esquisita para o garoto.

- Por que não diz o seu nome?

- Eu já não disse meu nome?

- Não! A senhora disse que não dizia. - o garoto ficou confuso mais felizmente conseguiu falar.

- Ah, - a mulher deixou sair um pequeno sorriso e então continuou. Meu nome é Nan Digo Astence.

O garoto olhou a mulher em modo disfarçado e concordante.

- E quem a senhora se refere em dizer que os esquisitos estão sempre inventando coisas para sua facilidade?

- Esquisito é quem não é um bruxo. Tipo você vinte e quatro horas atrás. - A mulher falou levantando as sobrancelhas.

- Bem eu acho que agora já pode me explicar sobre os ratos e as baratas. - falou o menino num tom sério.

- Vou lhe contar, pode ter certeza, mas não agora que estamos atrasados.

- Vamos logo, você já esta pronto? - a mulher sussurrou bem baixo agora para que ninguém, além do menino ouvisse.

- Na verdade, - começou o garoto, - Eu não sei exatamente o que eu preciso para esta viagem. Eu nem tenho mesmo dinheiro!

- Não seja bobo, menino, todo bruxo tem dinheiro. E sua lista de materiais esta aqui comigo, Arcano fez questão que eu a trouxesse.

- Er... Eu tenho dinheiro?

- É só você querer sacar de sua conta transparente! Ponha a mão no bolso e pense no quanto você quer. Quantas moedas, e só então elas serão sacadas de uma cont5a que todo bruxo tem, iniciantes recebem dez mil cavalos.

O garoto pôs a mão no bolso e pensou, a retirou cheia de moedas pratas e douradas, em cada uma tinham uma gravura de um senhor idoso, sorrindo alegremente.

- Estas prateadas, são podas, e as douradas são cavalos. Bem, eu acho que agora você está preparado, podemos ir?

- E meus pais? - perguntou o menino.

- A fique tranqüilo, a sua viajem, não vai demorar tanto assim, apenas umas duas horas e estará aqui de volta, aí sim eles receberão a mensagem na manhã seguinte.

- Sendo assim, tudo bem.

A mulher fez um aceno de concordância e então tomou novamente as mãos o objeto "tansplonshi" - sabe-se lá qual era o nome daquilo na cabeça de Elvys - jogou-o pro ar e no mesmo passo falou apontando a varinha:

- Accio Transponder.

Uma luz saiu do aparelho projetando um mapa, onde se via gravura e, com clareza, o nome de cidades. A mulher foi movendo o mapa para cima, para baixo, pro lado, pro outro até que soltou um pequeno gritinho de alívio.

- Achei! - e tampou a boca no mesmo instante.

- Estamos prontos, Um... Dois... Tr...

Um clarão invadiu o quarto naquele momento e Elvys sentiu seus pés fora do chão, começarão a rodar de todas as formas possíveis num ambiente cinza negro. De repente pararam de rodar e voltaram à posição normal e sentiram um grande impulso nos joelhos que se dobraram no impacto com o solo.

Depararam-se a uma sala escura com uma luz apagada, porém uma vela acesa.

- Flash. - Falou a mulher apontando a varinha para a luz apagada que clareou todo o quarto, iluminando retratos e mensagens gravadas nas paredes.

A sala escura, de repente se transformou em um pequeno quarto com uma porta destacada, a mulher rodou a maçaneta da porta, e Elvys se deparou com, o que parecia ser uma velha cidade do faroeste, as esquinas bem estreitas e muitas pessoas de vestes estranhas, havia também uma estátua de um minotáuro estava bem na sua frente com os dizeres "Bem Vindo a Groolers".

- O que é Groolers? - o garoto perguntou a mulher, que estava muito entusiasmada guardando sua varinha, e Elvys até percebeu que ela já estava enjoando as suas perguntas, pela cara que fez antes de responder.

- Groolers, é este pequeno vilarejo, onde podemos encontrar seus apetrechos. - a mulher falou sorrindo para um velho que estava assentado a um bar.

- Como está senhora Digo? - perguntou um rapaz muito atraente que passava por perto.

- Ah, Bem, Rodrigo, e você?

- Estou levando, eu e minha mãe viemos comprar os apetrechos.

- Tenho que ir agora, o senhor Elvys precisa comprar os dele para o primeiro ano.

- Seja bem vindo senhor Elvys.

Tudo parecia a Elvys, muito esquisito e ao mesmo tempo muito comum, o porém era que já se passava várias horas e eles não tinham comprado ainda nada, e seu bolso ainda continuara cheio de moedas.

O tempo estava claro e nem parecia à noite gelada em que estava em sua casa. Ele achou que já eram umas oito horas da manhã, mas bem no fundo daquela cidadezinha havia um grande relógio no topo de uma torre que marcava doze horas e quarenta e três minutos.

Eles entraram numa loja antiga, e que fazia tempo que sua pintura não tinha sido retocada. "Encantos Mágicos da Srª. Bonner", estava escrito na placa acima.

- Bom dia? - Nan falou batendo palmas para ver se havia alguém naquela loja.

- Senhora Nan, a senhora disse bom dia, ainda estamos de noite. - Elvys falou para a mulher de um gesto duvidoso.

- Sim, Elvys, mas aqui não há noite, apenas dia e tarde, mas o relógio deles é igual aos dos esquisitos, assim como o nosso em Volta Quadrada também.

- O que desejam queridos. - uma mulher de cabelos longos, louros e caracolados, bem magra e bastante bonita aos olhos de Elvys, veio na direção oposta à senhora que estava virada conversando com Elvys, e ao mesmo tempo em que entrou, Nan virou para ver quem era.

- Bonner! - Nan falou alegremente ao ver a moça.

- Senhora Astence, quanto tempo. Ah não me diga que resolveu visitar os amigos?

- É uma ótima idéia Bonner, - Nan falou quando olhando para Elvys que franziu a testa. - Mas estou a serviço de Arcano, que me pediu pra vir pessoalmente ajudar ao senhor Elvys.

- É muita sorte sua garoto - a mulher virou para Elvys - A senhora Astence é uma ótima compradora, saberá escolher seus apetrechos.

- Obrigado - falou o garoto.

- Bem então vamos logo comprá-los, não é? - Nan perguntou ao garoto e o mesmo concordou rapidamente com a cabeça.

Ela pôs sobre a mesa de Bonner uma lista de produtos, ingredientes e outros apetrechos que Elvys nunca tinha visto antes, mas foi enchendo sua sacola, que recebeu da senhora Bonner.

Entraram em várias lojas, uma delas foi a "Raposas Queimadas", onde coletou fetos e pele de raposas para ingredientes. Entraram também em uma livraria para comprar os materiais didáticos, a livraria não tinha nenhuma placa, mas dentro dela bem acima de uma prateleira cheia de livros havia um tecido cinza com letras bem grandes, "Gota Sábia".

Lá, eles compraram vários livros, inclusive um rolo de vinte milhas de papel. Assim foi toda a manhã, já tinha se passado umas três horas, mas quando Elvys olhou para o relógio ainda eram uma hora e trinta e cinco minutos da madrugada.

- Você está faminto, Elvys, eu imagino, vamos ali à Buffets - Nan falou apontando para, o que parecia ser, uma lanchonete.

Eles sentaram numa mesa bem no fundo onde não havia ninguém, como o local era bastante movimentado, mas onde eles estavam não havia movimento Elvys achou o momento certo para perguntas.

- Senhora Nan.

- Sim, Elvys.

- Er... Eu não deixei de notar algumas coisas, sabe?

- Sim, pode falar, agora é o momento exato para suas questões.

- Por que estas pessoas daqui não podem ver a noite?

- Bem, na verdade podem só que este lugar é amaldiçoado, e ao mesmo tempo encantado.

- Como assim? - perguntou o garoto bem curiosamente.

- Havia um bruxo. - a mulher começou quando foi interrompida.

- Vai querer alguma coisa senhora? - Uma moça vestida de garçonete apareceu.

- Ah, sim, duas tortas de pernas de galinha, por favor.

A garçonete fez sinal de concordância com a cabeça e saiu.

- Bem, como eu dizia havia um bruxo, que morava nesta vila ele se candidatou a ser o Ministro da Magia, mas não conseguiu, não recebeu nenhum voto. Ele se revoltou, é claro, e jogou sobre esta vila uma maldição. - Nan foi interrompida novamente.

- Aqui está senhora, seu pedido. - Novamente a garçonete.

- Obrigado, - Nan falou recebendo os dois pratos de torta e empurrando um deles para Elvys. - Bem continuando, ele jogou sobre esta vila, uma maldição terrível.

- E qual maldição?

- Esta maldição faz com que todos que estejam nesta vila, ao ver a luz da lua, morram. - ela falou vendo a boca do garoto se abrindo. - Então Arcano fez um encantamento aqui, e fez com que a lua nunca fosse vista, e que nunca ficasse de noite neste local.

- Mas esta maldição, é só para o povo que mora aqui? - o menino perguntou olhando atenciosamente pela janela, as pessoas que passavam.

- Não, a maldição não está sobre as pessoas, está sobre a vila, qualquer pessoa que esteja aqui e veja a luz da lua morre, mas isso não acontece mais, depois do encantamento não, Arcano fez isso por causa da grande perca da década de cinqüenta, mais de mil bruxos morreram. E logo depois este bruxo foi preso na prisão dos bruxos, e morreu, ninguém sabe como.

- E como sabem que ele morreu?

- No dia havia muito sangue na cela que ele estava, e pedaços de sua pele estavam espalhados por toda prisão.

- E agora eu queria saber por que mandara para mim ratos e baratas? - O menino perguntou olhando, agora, atentamente para a mulher.

Ela fez um gesto de dúvida, para saber se contaria ou não e então falou.

- Pois bem, há anos é uma tradição de preparação de bruxos iniciais, o feitiço de ratos e baratas. Os ratos fazem à pessoa adormecer, e as baratas entram no corpo das pessoas e depositam um líquido especial dentro delas, um "adcervoly", o liquido que transforma as pessoas em bruxos.

- Mas, baratas entraram em mim? - O menino falou apalpando com as mãos a garganta.

- Sim quando você sonhou com a garota que estava caída ao chão, no momento em que começaram a sair baratas da boca dela, no seu sonho, começou a sair na sua boca. - A mulher falou olhando o garoto fazendo um gesto de nojo - E o rato que estava em cima de sua barriga, o adormecia, para que você não sentisse nada.

- Bem já é hora de irmos já está quase amanhecendo no mundo lá fora. Vamos?

- Eu só tenho mais uma pergunta, Aqui é São Paulo?

- Bem, exatamente, não é a cidade, mas estamos no território do estado de São Paulo, por isso que aqui também é São Paulo. Não podemos mais perder tempo, vamos logo.

Ele terminou de comer sua torta e eles desceram para o mesmo local de onde vieram. E quando chegaram, a mulher jogou pra cima seu aparelho e disse:

- Accio Transponder.

Uma luz projetou novamente um mapa e ela apontou para um local, o que parecia ser a sua cidade e então ela disse.

- Pronto? Um... Dois... Tre...

E depois do clarão estavam novamente em seu quarto e a luz do dia já começava a raiar.

- Bem Elvys é o seguinte, seus pais terão um sonho explicativo, todos dois do mesmo jeito, e quando eles disserem a você, diga a eles a verdade, e se não conseguir convencê-los, envie uma mensagem para mim em Volta Quadrada, que eu virei para ajudar-lhe.

- Mas como irei enviar esta mensagem?

- Seu rato.

O garoto olhou para a cama e viu o rato deitado no que parecia esta no quinto sono.

- E cinco dias antes de sua partida, você receberá uma mensagem minha informando o local de sua saída, mas lembre-se não conte a ninguém sobre o nosso mundo.

- Tudo bem. - respondeu o garoto e ao mesmo tempo acenando rapidamente com a cabaça.

- Bem então eu já vou indo. Accio Transponder. Tchau Elvys, Um... Dois... Tre...