N/A: De novo, obrigada a /hmoon pela betagem, e a todo mundo que deixou review


II. Sobre como as notícias se espalham rapidamente

Tortuga, o destino do Black Rock é uma ilha no mar das Caraíbas em cujo formato, semelhante a uma tartaruga, jaz a explicação para o seu nome. Seu tamanho, pequeno, não reflete a importância dada a essa ilha, que servia de refúgio e esconderijo para fugitivos, desertores, rebeldes e escravos e era cobiçada por espanhóis, ingleses e franceses, que se desentenderam por anos procurando dominá-la. No fundo mesmo, todos sabiam que eram os piratas que a governavam e eles pouco se importavam com tais coisas como nacionalidade e leis, porque, afinal de contas, eram piratas de verdade e não malditos corsários que dividem o ouro com seus reis e suas rainhas.

Sawyer estremeceu de raiva só de pensar em seu tesouro que, roubado por aqueles estúpidos corsários franceses, devia ter sido entregue à Vossa Majestade. Amaldiçoou os corsários, como normalmente fazia. Especialmente os franceses.

A chegada em Tortuga, no entanto, melhorou um pouco seu estado de humor. Gostava de Tortuga, não porque a ilha era um destino quase obrigatório de todo o pirata que realmente se considerava um pirata, – piratas, não malditos corsários – ou porquê o lugar possuía uma área com matas repletas de frutas, javalis selvagens e caranguejos marinos, matas essas que poderiam muito bem servir de ótimos esconderijos. Ele gostava da ilha pois ali estavam os melhores bares, com o melhor rum que já tomara em todo o mundo. E olha que ele conhecia bastante do mundo – para os padrões da época, é claro.

A notícia de que o Black Rock e o Capitão Sawyer haviam aportado em Tortuga percorreu rapidamente todos os ouvidos de todos os habitantes da ilha, como geralmente ocorria com todos os acontecimentos minimamente relevantes. Até mesmo os doentes, que entre seus momentos despertos e suas alucinações febris entreouviam algo sobre a chegada do capitão. E os mortos, os mortos que descansavam silenciosos no cemitério da ilha... ah, não, os mortos não ouviram nada a respeito porque bem, estavam mortos

Enquanto percorria toda a cidade, a notícia causava certo alvoroço. Algumas moças partilharam conversas baixinhas e empolgadas, e deram risadinhas agudas e estridentes, rumando, em seguida, para o porto a fim de observar o capitão que, ademais da fama de intragável, era conhecido por ser um sujeito muito bonito. Algumas das crianças também foram até o porto, na esperança de conseguirem colocar os olhos no famoso capitão pirata que era procurado com afinco desde muito pela Marinha. Os donos dos bares se dividiram. Havia aqueles que, adotando uma postura otimista, esperaram que, em seu barco, o capitão trouxesse o dinheiro que devia – das extravagâncias noturnas tipicamente piratas. Os outros, os mais pessimistas, irados e revoltados, pensavam simplesmente em como matar o caloteiro da forma mais dolorosa possível.

Aqui deve-se fazer uma breve pausa na narrativa para explicar as coisas de modo que o leitor não se sinta ludibriado pelos fatos até agora relatados. Pois, sendo o capitão um célebre, próspero e afortunado saqueador, como poderia ele ter dívidas com uma grande parcela dos donos de bares e tavernas da ilha de Tortuga? Eis a resposta: O capitão, como qualquer outro pirata daquela época, das épocas anteriores, e das posteriores também, tinha uma capacidade quase que sobrenatural de gastar o dinheiro que conseguia. Não importava o quão grande fosse o tesouro arrecadado ou quão lucrativo fosse o seu motim, ele o gastava todo e ainda mais um pouco do que não tinha em comemorações caras, fartas em rum e todo o resto. No final, a divida o obrigava a embarcar em uma nova jornada, buscando um novo navio para saquear.

Há quem diga que, na verdade, essas dívidas eram apenas um pretexto para ele jamais poder parar de navegar Mas isso é apenas mais uma daquelas justificativas bonitinhas para as extravagâncias sem precedentes do capitão.

Então, assim, bem rápido, metade da população se deslocou até o porto. E quando toda aquela gente viu que o capitão voltara num navio quase vazio – tanto de homens quanto de riquezas – os rumores e as hipóteses começaram a pipocar e passear pela multidão. Se falava de um monstro marítimo que havia cruzado o caminho de Sawyer, e de como ele miraculosamente havia escapado com vida, lutando com toda a sua bravura e derrotando a criatura. Se falava também que fora uma onda gigantesca, maior do que qualquer outra onda já vista, e que o Black Rock não naufragara por um triz. E se falava, naturalmente, da verdadeira versão, da real, de que Sawyer e seus piratas foram saqueados por alguma outra embarcação.

Mas ninguém nunca chegou a saber, com total e absoluta certeza, que essa última era a hipótese correta, e não as outras. Sawyer tampouco fez questão de solucionar o mistério. Para ser honesto, ele gostava muito mais da primeira versão.