N/A: Ani beta e Ani salva
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Obrigada todo mundo que deixou review. Elas salvam também, só não betam XD


III. Bares agitados guardam futuros tripulantes

Custou ao capitão um bom tempo até conseguir se livrar do alvoroço do porto. Ele, Locke, Sayid e Jin fizeram uma espécie de reunião – embora Jin não tivesse dito coisa alguma, tampouco entendido – para discutir o próximo passo. Como estavam sem dinheiro algum, as opções se tornaram escassas e todos concordaram que a única coisa a ser feita era agrupar, ali mesmo em Tortuga, uma nova tripulação e saquear um outro navio. Afinal, todos eles queriam riquezas, especialmente Sawyer, dada a delicadeza de sua situação com os proprietários das tabernas.

Decisões tomadas, e com a perspectiva de um embarque iminente, Sawyer ordenou que os três piratas fossem limpar o casco do navio – o que era uma das tarefas mais desagradáveis do mundo. Enquanto isso, ele foi analisar os possíveis candidatos a tripulantes. Isso não lhe tomou muito tempo. Apesar do ódio que despertava nos donos dos bares, da admiração que despertava nas crianças e dos suspiros que arrancava das donzelas, nenhum pirata queria realmente entrar no Black Rock.

Sentiu-se como uma daquelas atrações bizarras dos circos, que todos querem observar empolgados, mas ninguém realmente tem coragem de chegar perto. E como as filas esperadas jamais chegaram a existir e sua tarefa terminou muito mais cedo do que calculara, ele foi fazer a única coisa que lhe restava fazer. Procurou um bar para beber um pouco de rum.

Já era quase noite quando Sawyer encontrou um lugar. O bar escolhido era úmido, escuro, desagradável e mal-cheiroso. Lembrava um pouco o porão de seu navio, embora ali não tivesse pólvora, pistolas, celas, sacos empilhados com mantimentos, barris de rum e instrumentos de tortura. Apesar disso, e do cheiro que mesclava urina, álcool e madeira podre, o bar era um local fantástico porque tinha um rum fenomenal. E era um dos poucos lugares em que Sawyer não acumulara uma dívida e podia se sentar com a tranqüilidade de não esperar receber um tiro no meio da cara de um proprietário furioso e enlouquecido.

O balcão estava imundo e o assento rangeu quando Sawyer fez menção de se ajeitar. Ele esvaziou o conteúdo do copo num só gole e fez um aceno discreto com as mãos, pedindo outro. O barman entendeu e adentrou o cômodo sujo que se passaria por uma cozinha com boa vontade. Se ouviu o tilintar suave dos vidros esverdeados e translúcidos das garrafas de rum e o ruído seco da bebida dançando dentro delas.

"Sawyer." Alguém havia sorrateiramente se sentado ao lado dele, e ainda que usasse um enorme chapéu negro que sombreava seu rosto, e ainda que a taberna estivesse mal iluminada e a sua única luz viesse de uma pequena vela apoiada sobre o balcão, a chama prestes a morrer; ainda com tudo isso, ele soube imediatamente quem era, porque a melodia suave daquela voz ele seria capaz de reconhecer sempre.

"Você achou que com o chapéu eu não fosse te reconhecer, Freckles?"

O homem do bar voltou com a bebida e quando viu que Sawyer tinha companhia – uma esquisita companhia – ele perguntou se devia trazer mais um copo. Sawyer assentiu e, quando o barman estava longe o suficiente, mergulhado nos confins de sua quase cozinha, ele ouviu a voz soando de novo.

"Você sabe muito bem que o disfarce não é para você."

"Para quem é, então?"

"Para todas as outras pessoas."

"Que exclusividade a minha."

"Você sabe que eles colocaram uma recompensa para quem me entregar." Retrucou a moça.

"E é uma recompensa bastante tentadora, eu diria."

"Sawyer..." Havia uma pontinha quase imperceptível de desespero na voz dela.

"E o que faz você pensar que eu não te levaria até eles?"

"Porque você odeia a Marinha."

"Há," ponderou ele. "Não tanto quanto odeio corsários," Sawyer disse e ofereceu o copo com rum que o barman acabara de depositar sobre o balcão.

"E porque se você me entregasse, eles te prenderiam também."

"Bem observado, Freckles."

"O que foi que aconteceu com você para perder toda a sua tripulação?"

"Você tem três teorias para escolher. Algo como 30 por cento de chance de estar certa."

"Eu gosto da do monstro, mas nós dois sabemos que ela não é a certa."

"Restam duas, então."

Mas Kate não escolheu entre uma das duas teorias.

"O que é que você fará agora?" De súbito, o tom da voz dela se modificou, indicando que ela havia chegado aonde queria. "Já tem em mente algum navio ou cidade para saquear?"

Os olhos do pirata se estreitaram procurando perceber algo na expressão dela que indicasse o que ela realmente queria. Mas o rosto estava submerso na escuridão.

"Não faço idéia. Mas você provavelmente sabe, não é mesmo?"

"Eu posso saber de algo..."

Sawyer riu para ela. "Mas você quer algo em troca."

"Sim."

"Se você queria um beijo, Freckles, francamente, era só pedir direto. Não precisava de toda essa cena e..."

"Um lugar no seu navio," disse, sem hesitar. Ele sentiu os olhos azuis dela fitando-o no meio da sombra. "Quando você zarpar, eu quero um lugar no seu navio."

"Ah." Sawyer forçou um suspiro e retrucou. "O que é que as mulheres não fazem pela minha companhia... Você vai beber isso ou não?" perguntou ele, referindo-se ao copo com rum que permanecia intocado sobre o balcão de madeira. Ela meneou e Sawyer tomou o copo para si.

"E o que eu ganharia em troca?" Ele a viu tatear as vestes negras, em busca de algo nos bolsos, em seguida uma das mãos dela se apoiou na mesa. Os dedos magros envolviam um objeto que ele não reconheceu de imediato.

Sawyer recolheu-o, suas mãos tocando propositadamente as dela.

"Uma bússula?" Ele exclamou desapontado, a testa se franzindo. "Você espera que eu te enfie no meu maldito barco em troca de uma bússula?"

"Não, calma," ela disse e com um dos dedos indicou o ponteiro. "Ela não aponta para o norte."

"Ah, perdão," Sawyer retrucou sarcástico. "Você espera que eu te enfie no meu maldito barco em troca de uma bússula quebrada!"

"Ela aponta para um tesouro."

"Ah, sim. E em seguida se transforma num dançarino de flamenco."

"Eu não estou mentindo, Sawyer." Em seguida retirou o chapéu e Sawyer pôde ver a expressão resoluta que o rosto dela trazia. "Eu juro que não estou mentindo."

Os olhos do pirata se estreitaram buscando no rosto algum sinal de blefe que ele não conseguiu encontrar.

Sawyer era capaz de dizer quando alguém estava lhe enganando porque a enganação e a mentira eram campos que ele dominava com perfeição. Olhando, naquele instante, com a luminosidade fraca da lâmpada conferindo a ambos um aspecto fantasmagórico, naquele exato e preciso instante, ele teve certeza de que ela não estava mentindo. Assentiu com um movimento tão fraco que resultou quase imperceptível, mas que ela conseguiu captar.

"Quando você parte, então?"

"Levando em conta o seu desespero," ele sorriu pelo canto dos lábios um sorriso ligeiro, "eu diria que amanhã mesmo. Meio dia é provavelmente um bom horário, mas saiba que não estou feliz por ter que acordar cedo." Ele fez uma pausa rápida e perguntou, em seguida, no mesmo tom com o que se pergunta o que é que há para o café da manhã. "Onde foi que você arrumou isso?"

"Estava junto com a..." Ela falava pausadamente, como se estivesse escolhendo cada palavra com cuidado. "Com as coisas que eu roubei. Da última vez."

"Hum."

"Eu não sabia da existência dessa bússola até abrir a caixa e me deparar com ela. Dizia que levaria até um tesouro. Um fabuloso tesouro, para falar a verdade."

"Quem dizia?" Retrucou Sawyer uma das sobrancelhas arqueadas. "A bússola?"

"O pergaminho que estava com ela, Sawyer." Kate revirou os olhos.

"O que foi que você fez com o pergaminho?"

"Ainda não acredita em mim?"

"Ah!" Retrucou sarcástico. "Como é que não? Essa história parece tão real. Mas, não, não é isso. É só que um pergaminho desses valeria uma nota..."

"Aposto que não é nada comparado ao tesouro."

"Não espere ficar com alguma parte dele. Afinal de contas, você vendeu a bússola por sua entrada no meu navio. E ainda terá a minha incrível companhia," o sorriso que ele usava tinha um quê de malícia, "que é inúmeras vezes mais valiosa do que esse tesouro para você. Agora," pediu ele, "coloque logo esse maldito chapéu, Freckles, antes que alguém te reconheça."

E então esvazioucopo, mas, quando se virou, a moça já havia desaparecido com a mesma agilidade quase felina com que chegara.

Continuou bebendo rum porque, afinal, ele era um pirata, e como um pirata, sabia beber rum como ninguém. E passado algum tempo o bar desagradável se tornou um bar maravilhoso. O barman era uma simpatia, o rum mais saboroso do que o de costume – não que antes não fosse fenomenal – e ele podia jurar que o banquinho ao lado havia lhe oferecido uma dose em um determinado momento. Muito amável da parte dele. Quando estava sóbrio, os banquinhos não eram tão atenciosos assim.

De qualquer modo, por alguma razão desconhecida e misteriosa, ele foi parar em cima de uma das mesas do centro do lugar, cantando a plenos pulmões aquela antiga cantiga de piratas que dizia algo como "yo ho,yo ho, uma vida de pirata para mim." Um grupo com mais ou menos uns quinze homens fazia coro, erguendo suas taças de rum e cerveja bem alto ao final de cada estrofe, gritando e comemorando e dançando com o capitão, derrubando bebida no chão de madeira.

Sawyer ofereceu então uma rodada de rum para todos os presentes. Ele não possuía dinheiro para pagar tudo aquilo, mas quando o dono do bar perdesse a paciência e resolvesse cobrar a dívida, ele já estaria longe de Tortuga. Inalcançável, no meio do oceano. Em busca de um tesouro.

Quando os homens começaram a clamar seu nome, eufóricos - como um festejo pela bebida grátis que ganharam -, Sawyer voltou ao balcão e deixou que as outras pessoas continuassem a brincadeira, dançando ao redor da mesa onde ele estivera antes, batendo os pés ruidosamente contra o chão e trazendo ao círculo novas canções, com seus copos novamente cheios.

Sentado de volta ao balcão, sentiu-se sendo observado por alguém e olhou imediatamente para o banco, tentando se certificar de que não era ele lhe oferecendo um pouco de rum outra vez. Surpreendeu-se ao notar que havia alguém sentado sobre ele.

O desconhecido notou ter sido descoberto e arrumou-se no banco, desconfortável, tentando encontrar uma posição agradável, mas falhando miseravelmente no ato.

"Você é o Capitão do navio que aportou hoje, não é mesmo?" Perguntou, então, e a voz possuía algo de cordialidade inata.

Sawyer ergueu o copo para o estranho e assentiu.

"E quando é que você parte?"

"Mas não é possível uma coisa dessas. Eu mal chego e todos parecem curiosíssimos querendo saber quando diabos eu vou embora." Ele fez uma pausa e deu um grande gole, sem retirar os olhos do outro.

"Eu estava pensando..." O homem aproximou-se de Sawyer, inclinando as costas. "Você não estaria precisando de um médico em seu navio, estaria?"

Sawyer riu ruidosamente.

"É claro que não."

"Mas e se alguém for ferido em alguma batalha? Ou apresentar alguma enfermidade? Como é que você vai solucionar o problema?"

Sawyer deu nos ombros e repetiu. "Navios piratas raramente possuem médicos."

"Mas você deve precisar de um cirurgião em seu navio, e eu sou um cirurgião."

"Fascinante," falou ele, revirando os olhos. "Só que já temos um cirurgião. Ele é cozinheiro do navio e arranca pernas com a mesma faca com que prepara nossa ceia."

"Exatamente por isso eu seria útil."

"Por que você usaria outra faca?"

"Porque eu sou um médico formado."

Sawyer revirou os olhos de novo.

"Olha só," disse o homem, respirando profundamente, como se tentasse restabelecer a calma que ele ainda não havia perdido. "Eu só preciso sair dessa maldita ilha."

Sawyer ergueu uma das sobrancelhas, mas o médico não esperou que ele dissesse algo, prosseguindo com sua fala. "Eu só preciso sair dessa maldita ilha porque o meu pai acabou de morrer aqui e o corpo dele está enterrado junto com um monte de outros bêbados mortos naquela porcaria de cemitério."

Houve um silêncio. Porque uma declaração como essa precisa ser prosseguida por um momento de silêncio.

"Então você, tipo, veio para o enterro?"

"Eu vim tentar ajudá-lo," disse. "Mas cheguei tarde demais."

Outro silêncio desconfortável. Sawyer não desfrutava muito de silêncios desconfortáveis.

"O navio em que eu vim estava aqui só de passagem. Eu não tenho como voltar para casa, e, acredite, eu não estaria pedindo isso se não estivesse completamente desesperado." Continuou então, porque aquele papo não parecia estar abalando o capitão. "Eu não cobraria por meus serviços," reforçou em seguida. "Na verdade, eu posso te pagar para você me levar em seu barco. Para onde quer que você esteja indo. Só me deixe no porto para onde você está indo. Eu..." Ele hesitou por um momento e completou a sentença como se houvesse algo em sua garganta que tornasse a fala uma tarefa dolorosa. "Eu só preciso sair daqui o mais rápido possível."

Sawyer modificou radicalmente sua expressão. Não que estivesse sensibilizado com a situação do outro. De modo algum. O que aconteceu foi que o médico tocou num assunto que agradava profundamente o capitão. Pagamento. E Sawyer adorava quando as frases envolviam um pagamento para ele.

"De que quantia estamos falando?" Falou, subitamente interessado, os olhos azulados fitando o médico com esmero.

Então o homem meteu as mãos no bolso e as tirou de lá com um bocado de moedas de ouro. Mostrou-as para o capitão, que sorriu satisfeito.

"Qual é o seu nome?"

"Jack," disse ele. "Jack Shepard."

"Embarcamos amanhã ao meio-dia, Jack Shepard," disse então, recolhendo o ouro das mãos do médico. "Esteja no porto a essa hora, do contrário partimos sem você e eu fico com as suas moedas. E não aceito reclamações posteriores."

"Obrigado," agradeceu, por fim, o médico. E, quando o capitão partiu, cambaleando um pouquinho e deixando-o sozinho no balcão, ele ainda manteve os olhos fixos no copo vazio por um longo período de tempo.