IV. O último a embarcar

Locke, Sayid e Jin utilizaram trabalharam por várias horas retirando as algas presas no casco do navio, bem como todo o resto que pudesse atrapalhar o transcorrer da viagem. E foi somente por isso que, na manhã seguinte – não bem na manhã, porque já era muito próximo ao meio-dia –, o Capitão Sawyer encontrou o Black Rock preparado para o embarque, esperando apenas por ele.

Sawyer chamou os três para informar-lhes de que seu recrutamento fracassara, embora isso não significasse que iriam apenas os quatro. Ele havia, de fato, conseguido dois novos tripulantes, e foi então que o capitão informou sobre Kate. Os três não tiveram reações que devam ser escritas, apenas balançaram a cabeça, concordando. Isso porque, na verdade, Kate já havia navegado com eles. Mas, caso o leitor esteja interessado em saber quais foram as primeiras reações dos três piratas, aqui segue o relato: Sayid estranhou a princípio, porque nunca havia embarcado antes com uma moça e sempre haviam dito a ele que isso traria mal-agouro, fazendo o navio naufragar, seja por um ciclone, seja por um maremoto; Locke, que não acreditava em coisas como sorte e azar, somente em destino, inclinou a cabeça concordando e deu boas vindas a Kate, pois moça lhe era agradável e, além disso, possuía um conhecimento de artilharia que sempre seria útil; Jin não entendeu o que estava acontecendo até que Sawyer levantou a âncora com Kate dentro do Black Rock.

Depois de avisar sobre Kate, Sawyer falou sobre Jack, o que agradou imensamente a todos, porque ter um médico em um navio era um luxo com que poucas embarcações piratas podiam contar.

Os dois novatos, Jack e Kate, educados, aguardaram um pouco atrás do capitão. Quando a tripulação concordou – concordou não, foi informada, porque Sawyer era o capitão e tomava as decisões sozinho, apenas comunicando em seguida -, Sawyer pediu que os cinco embarcassem. Ele colocou seu chapéu e admirou o navio. O chapéu escorregou por sua testa. Ele o arrumou, mas o chapéu voltou a escorregar, como se soubesse que o ato desagrava a Sawyer e quisesse irritá-lo. Acontece que o capitão estava de bom humor e simplesmente retirou a peça, deixando os cabelos claros voarem devido à brisa marinha. Não se irritou nem um por um instante. Fazia um tempo estupendo e ele possuía uma bússola que apontava para um tesouro.

Seus sapatos fizeram a madeira do cais ranger quando ele fez menção de andar rumo ao navio, sua tripulação o esperava. Foi então que sentiu uma mão apoiando-se em seu ombro.

"Capitão." Sawyer virou-se para observar quem o chamava e encontrou um homem cujo olhar ele teve a imediata certeza de que jamais chegaria a compreender por completo. "Há algum lugar sobrando em seu navio?"

A principio, Sawyer achou que aquilo fosse uma brincadeira. Primeiro porque, a julgar pelos trajes que vestia, aquele estranho era um padre. E nada parecia mais deslocado do que um padre num lugar como o cais de Tortuga. Depois, porque Sawyer jamais recebera proposta semelhante – e nem ouvira seus conhecidos piratas comentando algo parecido. Por isso, exatamente por isso, Sawyer ficou boquiaberto quando aquele padre pediu a ele que o deixasse embarcar em seu navio.

E o interessante foi que o padre não modificou sua expressão séria sequer por um instante, e aquela resolução o levou a crer que não se tratava, como previamente havia pensado, de uma gozação de alguém ali da ilha.

Sawyer não era católico e nem era devoto à igreja. A última vez que fora a uma missa contava seis anos de idade. O padre da paróquia da vila onde crescera levava todos os meninos à igreja, na esperança de que despertasse em algum deles a fé cristã e que esses passassem a freqüentar a catequese. Foi por causa desse padre que Sawyer foi a uma missa de domingo. E a razão pela qual frequentou a igreja durante algumas das semanas posteriores não tinha relação alguma com a força da fé cristã ou algo parecido. Ele ia, na verdade, porque estava arquitetando um elaborado plano – considerando o padrão de planos que os meninos de seis anos são capazes de elaborar – para roubar a cestinha com o dinheiro do dízimo. E ele obteria sucesso completo se o coroinha magrelo e narigudo da paróquia não tivesse regressado à igreja, depois do final da missa, para buscar seu casaco esquecido. Maldito casaco. Maldito coroinha. Só não eram piores que os corsários. Especialmente os franceses. O plano fracassado resultou num monótono sermão do padre que, irado, balançava freneticamente os braços, cuspindo um pouquinho no rosto do menino todas as vezes que dizia "inferno", "blasfêmia" e essas palavras em que os padres colocam ênfase excessiva.

Apesar da falta de fé que acumulava desde sua infância, havia uma pontinha de superstição no capitão do Black Rock, e foi isso que não o permitiu negar o pedido esquisito do padre. Se o padre embarcar no navio, Sawyer o deixaria.

Ponderando, mais tarde, ele até achou que o pedido estranho fosse, no fundo, uma boa idéia. A boa sorte que o padre traria consigo equilibraria o azar que Kate, sendo uma mulher, proporcionaria à embarcação, e, assim, ele estaria navegando ao acaso. Como gostava.

Quando assentiu autorizando o padre a embarcar, o homem fez uma breve inclinação com a cabeça, abrindo um largo sorriso em seguida. Sawyer se sentiu um tanto quanto bizarro tendo um padre levemente inclinado bem na sua frente, no meio do cais de Tortuga.

"Muito obrigada, meu filho." E ofereceu uma das grandes mãos que possuía para que o capitão pudesse cumprimentá-lo. "Qual é o seu nome?"

"Capitão Sawyer. E vocês, padres, têm nomes ou eu devo continuar chamando-o de padre, apenas?"

"Você pode me chamar de Mister Eko."

Mister Eko era um nome que ele jamais pensaria para um padre. Mas ele também jamais pensaria que um padre fosse lhe pedir um lugar no seu navio. Pensou, depois, que até mesmo dera um pouco de sorte. Porque ele era um padre bem diferente do da paróquia de sua infância, e havia algo no sujeito que agradava a Sawyer. Talvez fosse a forma como ele falava, conferindo a todas as frases um quê de mistério e assombro.

"E eu posso saber o que um padre como o senhor, Mr Eko, estava fazendo em um lugar como Tortuga?"

"Não," disse, sério.

"Okay, eu gosto da franqueza. E o por quê da sua ida, isso você poderia fazer a gentileza de informar-me?" O tom de voz tinha um bocado de sarcasmo impregnado. Ele era o capitão, afinal, e tinha o direito de saber aquelas coisas.

"Assuntos sagrados, meu filho." E, sem cerimônias, começou a andar na direção do Black Rock, no intuito de embarcar."

"Uma última coisa, padre," disse ele, os olhos fixos nas costas dos homem. "Como é que você sabe para onde estamos indo?"

"Eu não sei."

"Então, por que acredita que o navio servirá para você?"

"Porque," Eko não se virou para encarar o capitão, mas podia sentir o olhar de Sawyer fuzilando-o pelas costas, "o lugar não me importa de modo algum. É o meu dever apenas estar nesse barco." E continuou a andar.

Quando Sawyer gritou, perguntando, entre risos, se fora Deus quem lhe dissera isso, o padre não respondeu.

"De qualquer modo," continuou o pirata, "se tiver que dizer algo aos meus homens, convença-os de que é uma idéia fantástica deixar todo o tesouro para o capitão."


N/A: Hoho, capítulo novo saindo pra aproveitar o entusiasmo de Stranger in a Strange Land (-). De novo, obrigada a Ani por ter betado esse quarto capítulo. E obrigada as meninas do Chemistry por estarem lendo a fic e floodando um bocado (XD) no tópico de lá.

N/A: E eu tentarei não demorar tanto para postar o quinto capítulo, mesmo porque agora eu estou com medo da Jamile e seus instintos de torturadora XD