V. Dentro do navio

Em pouco tempo, todos estavam dentro do navio. Sawyer viu, com uma pontinha de orgulho crescendo no peito, a enorme ancora surgindo no oceano, pingando e oscilando, sendo erguida por uma grossa corda. O vento agitou as velas do navio suavemente e, quando o Black Rock zarpou, deixando para trás a ilha de Tortuga e toda a sua agitação costumeira, o mar brilhava como ouro.

O capitão admirou o porto por breves instantes. Kate apoiou-se ao seu lado para fitar o que ele observava, mas ninguém disse nada por um longo tempo. Somente depois, sem retirar os olhos da ilha, ele falou:

"É bom que você esteja dizendo a verdade, Freckles," a voz calma e firme, "ou terei grandes problemas em explicar para todo mundo por que é que não encontramos nenhum tesouro." E quando deu meia volta, rumando para a direção oposta, a fina linha de terra já havia desaparecido do horizonte

Em geral, o primeiro dia de viagem é um dos mais agradáveis de todos. Nessa altura ainda há fartura de comida e de bebida, a tripulação se apresenta em um ótimo estado de humor, muitas vezes eufóricos e esperançosos, ansiosos por um bom saque.

Sawyer estava, de fato, muito bem humorado quando se trancou em sua cabine e abriu extensos pergaminhos com mapas gravados que tinham um quê de antigos. Cartas geográficas riquíssimas em detalhes, que tomavam notas de ilhas, de continentes, de cadeias de montanhas e montes, de acidentes geográficos, de baías e de mares espalharam-se pela mesa do capitão. Ele tirou o chapéu, apoiou a bússola sobre o móvel e observou, com os olhos brilhando em evidente excitação, o ponteiro oscilar até permanecer fixo em uma só direção.

O sorriso que esboçou em seguida possuía algo de malígno.

Ele notou alguém entreabrindo a porta e instantes depois o rosto de John Locke apareceu na entrada.

"Importa-se se eu entrar por um instante, Capitão?"

Sawyer fez um breve aceno e John adentrou no cômodo.

"Já temos uma direção," anunciou o capitão com um tom de voz vitorioso.

"Ótimo, já estava me perguntando quando é que teríamos as coordenadas."

Mas Sawyer não forneceu coordenada alguma. Ele simplesmente indicou a direção que a bússola apontava, com um movimento enérgico.

"Não tem coordenadas?" Você nos disse que sabe o que iremos saquear, hoje, mas não nos deu nenhum outro detalhe. Eu preciso saber o que estaremos enfrentando. Você sabe, para arrumar as armas, as velas e tudo. Além disso, precisamos de uma direção mais específica do que um 'siga por ali'.. capitão"

"Hm," Sawyer avaliou, pensativo, e estalou os dedos. "Pequeno problema, Locke."

"O quê?"

"A bússola não dá coordenadas."

"O quê?"

"Digamos que eu não saiba exatamente o que estamos indo saquear."

"O quê?"

"Ou para onde estamos indo."

"O quê?"

"Estamos sendo guiados por uma bússola, John," e pegou o objeto em cima da mesa, entregando-o para Locke.

"Uma bússola," Jonh a abriu e analisou-a intrigado e curioso, coçando o queixo.

"Está apontando para o tesouro. Ela não funciona como as outras bússolas."

"Sua cabeça já foi um pouquinho mais no lugar." O pirata estudou o objeto por um instante antes de dizer: "Ela certamente não aponta para o Norte..."

"Minha cabeça?"

"A bússola. Há duas possibilidades, então. Ou está quebrada, ou você está dizendo a verdade."

"Vai apostar em alguma delas, Locke?"

"Onde você arrumou isso?" perguntou, os olhos fixos no objeto sobre a mesa.

"Ah, você sabe, uns amigos de uns conhecidos de uns comerciantes de Tortuga que disseram algo sobre uns ingleses que conheciam uns holandeses – fantástico ventríloquos - que..."

"Foi Kate quem te deu isso?"

"Em troca de um pequeno passeio no navio. Todos sabemos que, na verdade, o que ela queria mesmo era a minha companhia." A modéstia não era uma das qualidades do capitão do Black Rock.

John sabia que qualquer outra pessoa que abordasse Sawyer em um bar e lhe dissesse que tinha uma bússola mágica, arrancaria do capitão um comentário sarcástico e somente isso. Com Kate, porém, a coisa mudava de figura. E como se soubesse que Locke estava pensando exatamente isso, Sawyer amarrou a cara.

"Alguma garantia de que a história seja verdade, capitão?"

"Ora, alguém acordou bastante desconfiado hoje."

"Já havia ouvido uma história a respeito..." confessou o pirata, os olhos espreitavam incessantemente o objeto. Continuou depois de uma breve pausa. "Na hora de dormir, junto com fábulas sobre animais falantes e tesouros assombrados. Acho que você já foi um pouco mais prudente na sua escolha de saques."

E levantou-se, depois, deixando o quarto e o capitão para trás, sabendo que Sawyer sorria nas suas costas, pensando no quão instigante as histórias fantasiosas de sua infância pareciam ser.


"Olá." Quando Jack entrou, o convés estava vazio, com exceção de Jin que, em pé, estava entretido cortando pedaços de bife que provavelmente serviriam para o jantar. A saudação que o médico deu foi direcionada a ele.

Jin ergueu os olhos e cumprimentou-o com um aceno suave de cabeça. Em seguida voltou-se para a carne.

"Tudo bem?" a fala de Jack atraiu de novo o olhar de Jin,

"Sim," meneou o oriental, sorrindo simpático.

"Você me entende?"

"Sim," o mesmo movimento, o mesmo tom de voz.

"Ah, então você fala inglês. De onde você é? Da China?"

"Sim," inalterável.

"Eu trouxe," Jack apoiou um saco de pano pardo e encardido, cuja sujeira ali entranhada parecia ter sido acumulada desde muito, "alguns limões. Talvez seja uma boa idéia adicioná-los à água e à comida, para prevenir o escorbuto." Ele fez uma pausa. "Você sabe o que é o escorbuto?"

"Sim," Jin relaxara a face quando Jack começou seu discurso de médico, mas o sorriso retornou quando o sim foi dito.

"Ótimo," Jack deu um tapinha de leve no ombro do cozinheiro, satisfeito. "Acrescente-os na água hoje de noite." E então, escolhendo mudar de assunto, perguntou:

"Aliás, o que teremos para o jantar?"

"Sim."

Jack ouviu alguém rindo baixinho nas suas costas, em seguida uma voz feminina falou.

"Ele não entende inglês."

"É, eu percebi. Agora." Jack virou-se, procurando o rosto a que a voz pertencia.

"Mas ele compreende algumas palavras soltas. Isso se você falar alto e bem lentamente."

"Que palavras?"

"Ah," Kate disse, posicionando-se ao lado do médico. "O usual. Inimigo, terra, água, comida, e, é claro..." ela fez uma pausa e sorriu para Jack. "Rum."

"Ah, fundamentalmente rum."

"Eu sou Kate." Estendeu a mão e Jack a cumprimentou, dizendo:

"Jack."

"Você é médico, não é mesmo?"

"Sim."

"Mas não um médico de piratas, certo?"

"Certo," disse, simplesmente.

"Vai se meter em um monte de problemas quando descobrirem que você anda viajando com o segundo pirata mais procurado da Marinha."

"Segundo, é?" os olhos azulados de Kate se estreitaram quando ela sorriu.

"Segundo."

"E quem é o primeiro?" ela continuou sorrindo e Jack reparou nas incontáveis sardas que tomavam conta do rosto dela. "Não me diga que..."

"Desmond," retrucou então, mas havia algo em seus olhos que Jack pensou deixar escapar.

"Francamente, Freckles," a voz de Sawyer percorreu todo o convés rapidamente, "desconhecia o seu lado modesto. Não sou eu quem tem setenta por cento da Marinha Real correndo atrás de mim..."

"Quase isso, eu diria."

"Enquanto isso, a única coisa que tem realmente corrido atrás de mim," um sorriso de desdenho se desenhou nos lábios dele, covinhas aparecendo em cada uma de suas bochechas, "são as mulheres."

Kate revirou os olhos e então Sawyer voltou-se para Jack, comentando: "Você sabe como é. Um rapaz bonito e sedutor como eu não tem descanso jamais."

E Jack deu um sorriso ligeiro. A arrogância do capitão lhe proporcionava algo que alternava entre a raiva e o divertimento.

"Mas," Sawyer estalou os dedos e seus olhos pousaram sobre Kate, "não se preocupe, Freckles. Você sempre terá um lugar especial no meu coração." Os lábios dele espremeram um sorriso que possuía um quê de malícia. "Além do mais, o Desmond não conta porque ele já está morto."

"Ainda não encontraram o corpo..." ponderou Kate.

"Ah, por favor. Ninguém tem sinal do navio dele há mais de três anos. Provavelmente sofreu um naufrágio e morreu afogado." Então ele ergueu o chapéu por um breve instante, como num gesto de despedida, em seguida girou nos calcanhares, dando as costas para ambos e caminhando para longe de modo teatral.

Quando estava prestes a regressar à sua cabine, alguém o chamou.

"Sawyer..."

"Capitão Sawyer, padre." retrucou ele. "Capitão Sawyer."

"Eu gostaria de te pedir uma coisa."

"Diga-me, padre."

"Amanhã é domingo e eu estava pensando em realizar uma missa pela manhã." O capitão ergueu uma das sobrancelhas, em sinal indiscutível de curiosidade. Não podia pensar em ninguém presente no navio que fizesse questão de uma missa. Sequer que fosse assisti-la. "Eu soube que muitos dos seus homens foram mortos recentemente."

"Sim, sim. Um imprevisto infeliz." E amaldiçoou todos os corsários mentalmente. Os franceses em especial.

"E o que foi feito dos corpos?"

"Foram lançados ao mar." O capitão deu de ombros. "Naturalmente."

"Talvez fosse importante realizar uma missa em homenagem a eles."

Sawyer riu ruidosamente.

"Estão muito melhores que todos nós, padre."

"Ainda assim..."

"Faça a sua missa se assim desejar. Só não espere muito público. Jesus Cristo não é muito popular em nosso navio."

"Não se preocupe," Eko retrucou com um sorriso educado. "Certamente ele não possui muita simpatia por piratas também. Você poderia me arrumar um pouco de vinho?"

"Planejando alguma festinha que não estou sabendo, padre?"

"Para a santa comunhão."

"Ah," Sawyer mostrou-se levemente desapontado. "Não temos vinho algum em nosso navio. Aqui só possuímos rum. E água, mas a água é bem mais escassa que o rum. E muito menos saborosa. O rum é de boa qualidade, claro."

"Não me diga."

"Sim," e enquanto abria a bússola com a mão ossuda para verificar a direção em que estavam indo, falou: "mas você pode tentar realizar sua comunhão com rum, eu te cederia um pouco da bebida."

Eko julgou perceber um pouco de chacota na expressão do capitão.

"Você quer que eu realize uma missa com rum?"

"Oras, padre. Estando num navio pirata é mais do que natural tentar se enquadrar em nossos costumes." E então fechou a bússola com um movimento brusco.


A lua cheia figurava no céu sem estrelas, lançando uma luminosidade fantasmagórica sobre a proa do navio e os cinco tripulantes do Black Rock que estavam do lado de fora. O capitão, confinado em sua cabine, estava eufórico demais para comer.

Jin fez um aceno anunciando que a ceia estava pronta e com isso começou a distribuir, em pratos fundos e canecas de latão, a comida e a bebida.

"Obrigada," agradeceu Jack, sentado sobre o chão úmido do convés, quando Jin lhe entregou seu prato. Recolheu a caneca que estava apoiada próxima a uma de suas botas, cheirando-a. A forte fragrância de rum adentrou de súbito em suas narinas e ele afastou o rosto rapidamente.

"Há água também, se você preferir," comentou Sayid ao lado de Jack. "Mas nós a guardamos somente para ocasiões especiais. Em geral, todos preferem o rum."

Jack murmurou algo incompreensível e depois arrematou. "É que não estou acostumado com a vida em alto mar."

"Você vai se acostumar," disse, a voz clara e calma.

"Qual é o seu nome?"

"Sayid," retrucou o outro enquanto dava uma garfada. "E você?"

"Jack."

"Jamais tivemos um médico no nosso navio."

"Sawyer mencionou algo a respeito."

"Me surpreende que o capitão tenha te deixado embarcar."

"Ele relutou, a princípio," revelou o médico.

"Previsível, você é mais um com quem dividir o tesouro."

Jack riu divertido.

"Mas eu não quero um tesouro."

Sayid mudou a posição, lançando ao outro um olhar intrigado e desconcertado.

"Não?"

"Não," confirmou.

"Está fugindo da Marinha, então?"

"Não," ele deu um sorriso triste.

"Então por que é que você embarcou?" Perguntou atordoado. Mas não obteve resposta alguma, fato que o fez prosseguir. "Estamos indo para o mesmo lugar que você quer ir?"

"Eu nem ao menos sei para onde estamos indo."

"Não é o único," retorquiu com a voz calma. "Na verdade, eu creio que nem mesmo o capitão saiba."

Então um silêncio percorreu o lugar. Jack inquiriu, quando esse silêncio estava beirando o limiar da suportabilidade:

"E qual é a sua função aqui no navio?"

Os olhos de Sayid reluziram algo que Jack não entendeu.

"Além de realizar as funções padrões de todos os piratas, eu sou um torturador."

"Ah," o médico disse sem jeito. Em seguida abriu a boca para dizer algo, mas não sabia exatamente o que dizer, então se calou. Pensou em outra coisa para falar, mas mudou de idéia de novo. Por fim, ficou com uma expressão meio perplexa, meio abismada, a boca entreaberta em surpresa.

Sayid enfiou o garfo na boca e mastigou calado.

"Está uma noite bastante agradável, não?" Comentou Jack, sem-graça, com um sorriso ligeiro.


N/A: Pois aí está o capítulo V e eu espero que vocês gostem, dears. De novo, obrigada, Ani, por ter betado esse capítulo depois do seu bolo de laranja (que não é melhor que o de cenoura ')

N/A: Eu estarei viajando amanhã pra fazer um curso que durará duas semanas. Ao que parece, eu terei acesso a Internet lá, mas não posso garantir se a fic será ou não atualizada. Eu tentarei, mas, well...

N/A: Qualquer alma caridosa que queira me contar em detalhes como foi a cena do ping pong, a partir de quarta-feira que vem, terá os meus eternos e sinceros agradecimentos.