VI. O naufrágio e as turbulentas horas que o sucedem
É importante informar que a viagem transcorreu por mais dois dias - que serão suprimidos por se passarem de modo normal e monótono, sem nenhum evento em especial que possa ser aqui descrito sem causar aborrecimento ao leitor por sua total irrelevância. Foram, sim, dois dias habituais antes do incidente extraordinário que selaria o destino do Black Rock e cujo relato segue abaixo.
Nos transportamos, então, para o meio de uma tarde de um dia vinte e dois de setembro particularmente ensolarado. Sawyer estava sentado sozinho na cômoda cadeira avermelhada de sua cabine. Suas costas estavam inclinadas e ele tinha a face muito próxima à sua mesa, absorto numa tarefa que exigia concentração em demasia.
Ele trabalhava em marcar em papel todo o caminho que o Black Rock traçava, desde sua partida em Tortuga, guiado por nada que não aquela bússola esquisita e o senso de navegação do capitão e seus marujos. Tal tarefa empregava uma série de instrumentos marítimos, que eram largados sobre a mesa pelo capitão, assim que este terminava de utilizá-los. A mesa estava tão desorganizada como jamais estivera. Além da citada bússola, havia quadrantes dos mais diversos apoiados sobre o mapa que ele desenhava com tanto esmero, um antigo astrolábio, uma grande ampulheta cuja areia esverdeada caía silenciosamente, um cronômetro marinho, e um velho compasso que ainda conservava a marcação de uma distância previamente medida.
Ele sorveu o cachimbo que tinha prendido entre os lábios energicamente, deixando a fumaça escapar em seguida e seus olhos pousaram sobre a bússola com um quê de curiosidade e assombro. Nunca vira um ponteiro se movimentar tão rápida e furiosamente como esse se movimentava agora. Tão veloz que o capitão achou que o instrumento fosse quebrar. Se assemelhava ao movimento de um ponteiro de um relógio sendo acelerado por mãos humanas aflitas que tentam, em vão, fazer o tempo passar mais depressa.
"Freckles," disse ele com um tom firme, erguendo a cabeça e desviando a visão do objeto apenas por um breve instante antes de voltar sua atenção para ele novamente. Tinha medo de que fosse perder alguma coisa se parasse de fitá-lo.
Mas Kate estava longe demais para ouvir seu chamado.
Ele caminhou até a porta, impaciente, levando a bússola consigo, os pés chocando-se ruidosamente contra a madeira do assoalho. "FRECKLES," gritou e alguém apareceu na porta.
John Locke.
Não exatamente quem ele queria.
"Algum problema?" John perguntou, observando o capitão intrigado.
"Chame a Kate," Ordenou num tom um pouco cortante.
Instantes depois, John e Kate entraram na cabine do capitão. John acendeu um charuto enquanto Sawyer indicava a bússola para Kate e seus olhos passearam pelo mapa sobre a mesa.
"Sou só eu, ou você também acha que o ponteiro está se portando como um lunático?" disse Sawyer.
"Acho que isso quer dizer que chegamos," comentou a moça receosa.
"Chegamos?"
"É."
Os dois caminharam para fora da cabine. Sentiram a brisa marinha contra seus rostos e seus olhos analisaram rapidamente o que rodeava o navio: um horizonte azulado. Azul demais, na verdade. Não havia terra alguma num raio de, pelo menos, dez quilômetros.
"Como assim chegamos? Não tem nada aqui, Freckles!" exclamou o capitão, e Kate pareceu desconcertada. Um horror mudo tomou conta de seu rosto enquanto Sawyer contorcia os lábios num sorriso malicioso, os olhos reluzindo algo que lembrava fúria.
"Algo que queira me contar, Freckles?" perguntou a ela, a voz arrastada morrendo lentamente, dando lugar ao barulho das ondas batendo-se contra o casco da embarcação. Nunca fora tão alto.
"Devia ter alguma coisa."
"Andou mentindo para mim?" rosnou Sawyer, aproximando seu corpo do dela. Kate recuou, os pés se arrastando no chão.
"Não, deve haver alguma ilha aqui, não é possível."
"Avast!" disse ele, sacudindo as mãos com firmeza. Em seguida um sorriso maroto foi desenhado no canto de seus lábios. "Algo a declarar antes que façamos você caminhar pela prancha?"
"O quê?" retrucou ela alarmada.
"Oras, a única razão pela qual você está no navio é o tesouro que você prometeu que encontraríamos. E como não há um tesouro..."
"Sawyer..." disse ela, num murmúrio horrorizado, mas jamais chegou a completar a frase porque, no instante seguinte, o barco inteiro vibrou.
E após a vibração tudo ficou num silêncio sepulcral. A madeira estalou ruidosa, a água roçou contra o casco do navio quase musicalmente e o vento agitou com violência exagerada a Jolly Roger do Black Rock.
"O que foi isso?"
Sawyer sentia o ponteiro correndo veloz, sentia a bússola tremendo por entre seus dedos, prestes a explodir.
"Um monstro marinho," retrucou Sawyer, sarcástico, mas havia algo na voz – algo bem sutil e quase imperceptível – que se assemelhava a apreensão. "Provavelmente batemos num coral."
"Um coral?"
Mas não se tratava de um coral, naturalmente.
Tudo o que aconteceu em seguida se deu de uma forma tão rápida e frenética que as personagens envolvidas no incidente nem mesmo se deram conta por completo. Em resumo, um bocado de água salgada – muita, muita água mesmo – invadiu o navio com uma violência desenfreada e uma força descomunal, tomando toda a sua parte inferior, e o Black Rock, sentindo seu próprio peso, foi sugado até o fundo do mar. O casco cedeu, partindo-se em incontáveis pedaços de madeira. Todos os poucos tripulantes, sem exceção, foram arremessados no oceano.
Enquanto via seu navio ser destroçado, Sawyer apertou firme um dos braços de Kate para não perdê-la. As pernas de ambos trabalharam num esforço indescritível, lutando contra a corrente de água que os sugava para o fundo, procurando desesperadamente alcançar a superfície.
O Black Rock foi afundando lentamente, até descansar, por fim, no fundo do oceano; sua maior parte visível parecia uma espécie de escultura esquisita, jazendo no meio da praia de uma ilha desconhecida e, ao que tudo indicava, deserta.
Quando Sawyer se deu conta, estava flutuando na antiga porta de sua cabine, Kate ao seu lado. Tossiu, tentando expelir a água marinha que havia engolido, mas tudo o que conseguiu foi engolir mais água. Frustrado, perguntou:
"Você está bem, Freckles?"
Kate fez um aceno débil com a cabeça e lhe perguntou o mesmo.
"Nós acabamos de naufragar, eu engoli pelo menos dois litros de água e há areia em cada centímetro do meu corpo. Nunca estive tão bem em toda a minha vida."
Alisou os cabelos molhados, tentando arrumá-los. Notou, então, que durante o processo de naufrágio havia perdido seu chapéu. Um capitão não é um capitão ao menos que tenha um navio e um chapéu.
Ele acabara de perder ambos.
Respirou fundo e tentou raciocinar. Tinha naufragado. Tinha naufragado, repetiu a frase inúmeras vezes para si, mal acreditando que aquilo fosse verdade. Tinha naufragado.
Merda.
Amaldiçoou os corsários. Especialmente os franceses. Eles não tinham nada a ver com o naufrágio, mas sentia que precisava amaldiçoar alguém, e nada o agradava mais do que amaldiçoar corsários franceses.
Tinha naufragado. O pensamento voltou a sua mente. Droga. Bateu as mãos com força contra a superfície do mar e um bocado de água se espalhou por todos os lados.
Kate protegeu o rosto com um movimento ligeiro.
"Obrigada," retrucou ela, flutuando, apoiada na ex-porta da ex-cabine do ex-navio do (ex-) capitão.
Sawyer girou a cabeça para todos os lados, quando finalmente avistou um pedaço de terra, muito próximo ao local onde estavam.
"Vamos," indicou a ilha para Kate. "Precisamos chegar até lá."
Kate pareceu perplexa e suas feições se enrijeceram num terror silencioso. Parecia ter visto um fantasma. Sawyer movimentou suas pernas com rapidez por um bom tempo, até que chegaram ao raso, onde as ondas morrem na praia, e puderam apoiar os pés no fundo do mar.
O capitão caminhou até a praia com um andar majestoso que não combinava com alguém que havia acabado de perder um navio e sobreviver a um naufrágio. Os grãos de areia começaram a grudavar em suas pernas molhadas, em seus sapatos de fivelas, em sua calça ensopada, em fim, em toda e qualquer parte de seu corpo. E foi a areia que o fez perder a paciência. Sacudiu-se, de súbito, numa tentativa desesperada de se livrar dos grãos indesejados.
"Capitão," Sayid o chamou. Os cabelos, normalmente cacheados, estavam lisos e molhados, grudados em seu rosto. "Capitão," insistiu ele, carregando uma caixa de tamanho mediano em uma das mãos, e, por isso, apresentando certa dificuldade para se locomover e nadar até o raso.
Viu Jack indo ao auxílio do árabe. A camisa sem mangas do médico estava encharcada. Ele ajudou Sayid a carregar a caixa e ambos, cambaleantes e desajeitados, conduziram-na até a areia da praia.
Desviou os olhos e notou Locke, ao fundo, próximo a um bocado de madeira que flutuava no oceano, junto a cadeiras, mesas, pratos, talheres e essas coisas que o navio levava.
Seus olhos, que passeavam sem rumo, pousaram sobre Eko indo e vindo à superfície. O padre aspirava uma exagerada quantidade de ar, mergulhava na água, permanecendo lá por algum tempo, até regressar de novo, quando o ar de seus pulmões tinha se esvaído.
Achou aquilo bastante estranho. Eko estava tentando salvar alguém?
Então pensou, faltava alguém?
Contou. Um, ele estava na praia. Dois e três, Sayid e Jack vinham andando para perto dele, trazendo a caixa. Quatro, a cabeça de Locke refletindo no oceano, nadando em sua direção. Cinco, Kate estava a seu lado, olhando tudo assombrada. Seis, Eko e seu comportamento bizarro.
Eram sete. Não era mesmo?
Foi então que lhe ocorreu. Jin.
E quando ia correr para a água e auxiliar Eko em seu salvamento, o padre voltou a surgiu na superfície, as mãos segurando com firmeza os ombros de Jin. Sawyer nunca o vira tão pálido em toda a sua vida.
Eko nadou até a borda, suportando seu próprio peso e o do corpo de Jin. Todos correram para acudi-lo, deitando o homem na areia, abanando-o, tirando-lhe os cabelos da testa.
Quando Jin acordou, estendido no chão, os olhos especialmente estreitos porque o sol intenso vinha direto em sua face, deparou-se com uma roda de rostos a espreitá-lo.
"Vamos dar algum espaço para que ele possa respirar," pediu Jack, que era médico e tomava a liderança em momentos como aquele.
Todos o obedeceram, e Sawyer, com sua calma restabelecida, analisou o ambiente que figurava à sua volta. Não demorou muito tempo para constatar que tinha naufragado numa maldita ilha deserta.
A areia era clara e a água, de um azul vívido, era tão cristalina que Sawyer podia enxergar seus próprios pés no fundo do oceano. Havia rochas em determinados trechos da praia, pedras de um tom pálido e cinza. No interior da ilha havia crescido uma mata intensamente verde, com inúmeras árvores tropicais que Sawyer já vira vez ou outra, mas desconhecia os nomes. Ela tomava a maior parte da ilha. Ao fundo, picos altos e afiados, e cadeias de montanhas.
Ele podia apostar que seu tesouro estava metido em algum lugar da mata densa. Ah, podia.
Foi então que notou algo. Lembrou-se de sua própria voz afirmando a Kate com rispidez e eloqüência: Não tem nada aqui, Freckles.
E não tinha mesmo, mas como diabos havia uma ilha agora?
Justificou para si mesmo que a razão por que demorara tanto para perceber aquilo não fora mera estupidez. Ele estava, e com razão, atordoado pela série de infortúnios que estava acontecendo sem interrupção, a começar por seu naufrágio, seguido pela perda de seu navio, pela perda de seu chapéu, pela areia irritante, pelo quase afogamento de Jin.
A perplexidade de Kate começou então a fazer algum sentido. Ela também havia percebido que não havia terra nenhuma ali antes. Do navio, eles haviam constatado isso. Ele mesmo observara, com seus próprios olhos, a imensidão azul que os rodeava, sem qualquer sinal de terra à vista.
E como é que, agora, havia uma ilha?
Jamais ouvira falar de ilhas que surgissem quando navios naufragam. Seus olhos se encontraram com os de Kate e ambos se encararam com um assombro mútuo.
"Você notou que..."
"Sim..."
"Não parece absurdo que..."
"Sim..."
"Você acha que foi o que fez o..."
"Sim."
E se entenderam.
N/A: Hááá. Finalmente o naufrágio. Eu devo confessar que parte de mim estava ansiosíssima para que eles finalmente chegassem à ilha, embora me deixe chateada o fato deles não estarem mais no Black Rock. Anyway, há, notaram? Mais interação Sawyer-Kate; porque eu sou skater after all. Espero que gostem desse capítulo, mon dears.
N/A2: Pra não perder o costume. Ani, obrigadão pela betagem.
